Nós, o ensino, o amor e a história

Por Maria Eugênia Montes Castanho – professora doutora em Educação. Titular da Cadeira 36 do IHGGCampinas.

Resumo:

As relações interpessoais constituem tema pouco tratado na Sociologia, na Psicologia e na Filosofia da Educação, embora algumas dessas relações – como o amor, o ódio, a amizade – sejam aspectos fundamentais da vida humana e pontos importantes com relação à maneira de conduzirmos nosso contato com os outros. Em cada pessoa há uma unidade em que os aspectos intelectuais, afetivos, físicos estão juntos todo o tempo. O desenvolvimento cognitivo, físico e emocional ocorre junto: aprende-se desde o nascimento, aprendizado que dura a vida inteira envolvendo múltiplas habilidades, múltiplas experiências e múltiplos conhecimentos, abarcando os mais diversos sentimentos.

Us, the teaching, the love, and the history

Abstract:

Interpersonal relationships are a little-discussed topic in Sociology, Psychology, and Philosophy of Education, although some of these relationships – such as love, hate, and friendship – are fundamental aspects of human life and important points regarding the way we conduct our contact with others. In each person, there is a unity in which the intellectual, affective, and physical aspects are together all the time. Cognitive, physical, and emotional development occur simultaneously: one learns from birth, lifelong learning that involves multiple skills, multiple experiences, and multiple knowledge, encompassing the most diverse feelings.

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Introdução

O tema das relações interpessoais é pouco tratado na Sociologia, na Psicologia e na Filosofia da Educação, embora algumas dessas relações – como o amor, o ódio, a amizade – sejam aspectos fundamentais da vida humana e pontos importantes com relação à maneira de conduzirmos nosso contato com os outros.

Pensar sobre isso nos leva bastante longe. Em cada um de nós há uma unidade em que os aspectos intelectuais, afetivos e físicos estão juntos todo o tempo. Desde que nascemos nosso desenvolvimento cognitivo, físico e emocional ocorre junto: aprendemos desde que nascemos, aprendizado que dura a vida inteira, envolvendo múltiplas habilidades, múltiplas experiências, múltiplos conhecimentos, abarcando os mais diversos sentimentos.

Desenvolver o domínio afetivo daqueles que estão circunstancialmente sob nossa influência tem uma importância muito superior ao que normalmente se pensa. Liga-se à formação profunda da personalidade, visando ao desenvolvimento de pessoas independentes, autônomas, solidárias, seguras e consequentemente felizes.

O tema

As relações interpessoais estão sempre imbricadas na nossa história. Sendo assim, revivi os tempos quando comecei a trabalhar com ensino. Dei minha primeira aula, aos 15 anos, para crianças de 10 anos de idade. Se o desafio já era grande, a ele somou-se o fato de o tema ser da área (arte e educação) em que eu não tinha familiaridade. Além da ajuda da equipe, esforcei-me muito na preparação, tendo conseguido realizar, com entusiasmo, tudo o que planejara sem aparentar a enorme tensão em que me encontrava. Voltando para nossa sala de aula, fiz minha autoavaliação, uma colega fez a avaliação e finalmente ouvimos a professora.

Analisando todos os itens requeridos para a aula, a professora fez os maiores elogios, afirmando como uma aluna, aparentemente tímida, pode surpreender positivamente o professor. Entregou o plano (que fazíamos em fichas) com as observações, colocando valor total em cada parte. Fiquei em estado de estupefação.

Muitos já escreveram sobre a força da palavra do professor. Nesse dia, a palavra dessa professora calou profundamente no mais íntimo de minha personalidade, levando-me a desenvolver um processo de amor à profissão e a decidir-me pela docência como o lugar de viver pessoal e profissionalmente. Fiz muitos cursos, fiz pós-graduação stricto sensu (mestrado e doutorado), tive muitas experiências que foram me ajudando a desenvolver visão estrutural dos problemas da educação, mas a raiz de tudo está nesse dia do qual me lembro até hoje: do conteúdo, da estorinha que contei às crianças, das atividades, do conjunto todo.

 A história

Por que digo tudo isso? Porque ao longo dessas décadas todas, em que tenho vivido como professora no ensino superior, sempre estive procurando ser alguém que capta sensivelmente as dificuldades e dá a palavra necessária para pessoas que, apenas circunstancialmente, estão sob nossa influência. E recebo até hoje depoimentos de ter marcado existências.

Sempre busquei despertar a alegria em relação ao saber elaborado como caminho para a inserção social de qualidade e com responsabilidade. Trabalho numa prática progressista contrária a qualquer discriminação e defendo o diálogo das várias opiniões. Penso que toda pessoa deve se inserir na realidade criativa e criticamente, numa prática fundada na liberdade e dignidade.

Também vejo que questões do desenvolvimento da afetividade mostram a contribuição da arte na vida de todos nós, sendo espaço privilegiado para o domínio afetivo, inclusive em qualquer nível educacional, do ensino fundamental, passando pelo ensino médio, chegando à educação superior. O desenvolvimento da pesquisa e da reflexão enriquecem as provas de que na arte estão presentes todas as operações cognoscitivas.

 Filosofia: o pensar e o existir

O grego pré-socrático Parmênides, em seu poema Sobre a Natureza, celebra o pensamento como via para a busca da verdade, antecipando Descartes em séculos ao vincular o pensar e o existir. Nesse poema, une filosofia (termos racionais) e poesia (linguagem simbólica e metafórica) na busca da verdade. A mais alta poesia mantém essa ligação com a filosofia em especular sobre a condição humana.

O que se faz nos mais variados âmbitos da educação, quer de ampla alçada, quer microestruturais, desemboca no que vai ser trabalhado na sala de aula. É ali que se dão as relações interpessoais entre o professor e os alunos e dos alunos entre si. Georges Gusdorf (1970) escreve que no encontro entre professor e aluno cada um está exposto ao outro e ninguém pode dizer como terminará a aventura. Cada sala de alunos é única e, assim sendo, a presença de cada um deles é circunstancial e histórica. Terminado o curso, cada um segue seu caminho. Nosso momento com aqueles alunos passou. O que terá ficado em cada um, em cada uma e em nós é irreversível.

Para trabalhar nessa linha, há que desenvolver o pensamento em suas variadas formas, já que ali está também a dimensão afetiva. Francastel (2011) fala da existência de um pensamento plástico, discurso como os demais, pois envolve raciocínio, memória, imaginação, abstração, comparação, generalização, dedução, indução, esquematização.

Desenvolvê-lo é fundamental. As operações mentais implicadas na recepção, no armazenamento e no processamento da informação incluem percepção sensorial, memória, pensamento, aprendizagem. Assim, o mundo não é imediatamente dado: seus aspectos estão submetidos a constante confirmação, reapreciação, mudança, acabamento, correção e aprofundamento de compreensão.

Percepção e operação têm como base as atividades sensório-motoras. A inteligência procede da ação pois transforma os objetos, a realidade e o conhecimento fundamentalmente com assimilação ativa e operatória. A aprendizagem passa a ser considerada como algo pessoal, decorrente da ação do sujeito sobre os conteúdos.

Pensamento abstrato

O pensamento abstrato e a especulação podem e devem ser desenvolvidos nos vários campos, incluindo-se o da arte na medida em que os estudantes forem aproximados da reflexão plástica contemporânea. Saunders (1977) aconselha aulas que apresentem problemas de pessoas e coisas, emoções e situações, representações espaciais, soluções que conduzam os alunos a passar de um estágio para outro.

A análise do comportamento criativo ainda se encontra em trabalhosa pesquisa. Os fatores referentes a este tipo de comportamento não constituem uma mesma atividade intelectual; procura-se correlação entre os fatores, que se constituem como uma realidade que ainda escapa, em muitos aspectos, à evidência experimental, mas reforça o ponto de vista de que a educação pode ser uma atividade que envolve a inteligência aliada às emoções e aos sentimentos.

 Bourdieu e os produtos culturais

Quando Bourdieu (1991) aborda a historicização dos produtos culturais, mostrando que todos pretendem a universalidade, alerta para o fato de que historicizá-los não é, como se crê, relativizá-los. É também relacioná-los às condições sociais de sua gênese, verdadeira definição geradora.

O ensino pode mostrar o permanente papel transformador que as criações desempenham na história humana. É preciso saber ver, como alertou Snyders (1995),  que as pessoas que determinaram mudanças radicais são as que assimilaram mais profundamente a cultura existente, penetrando até aos elementos revolucionários inclusos nas obras.

Geralmente são escamoteados os elementos revolucionários contidos nas obras para apresentá-las como ilustração dos períodos históricos, desprovida de sua força transformadora e fundamente arraigada na vida social. Isto se deve, entre outras causas, ao fato de que a formação da sensibilidade, a experiência de formas novas, a confrontação e a crítica de conteúdos diversos contribuem para o desenvolvimento da personalidade, tendo efeitos políticos. Apontar a história humana como um constante movimento de transformação do “aqui e agora” (Snyders).

 Educação e sociedade

Compreender a educação em ligação estreita com o que acontece na sociedade, aproximá-la do que se faz fora da escola e considerá-la uma forma de estudo e de entendimento da história humana pode levar a eliminar o fosso existente entre o conservadorismo da instituição escolar e a mudança necessária.

O desenvolvimento da pesquisa e da reflexão enriquece as provas, por exemplo, de que na arte estão presentes todas as operações cognoscitivas, mudando, a longo prazo, sua posição na educação. Do ponto de vista psicológico, os fundamentos para uma prática escolar adequada a tais diretrizes teóricas podem ser encontrados no estudo das estruturas genéticas da inteligência; do ponto de vista estético, nos desenvolvimentos da arte plástica. Aproximando o que se faz na escola e fora dela e incluindo-se a decodificação das mensagens dos variados meios de comunicação, proporcionam-se condições de o estudante compreender os caminhos e descaminhos da história de seu país. Desse modo, as aulas contribuirão para uma educação de qualidade para cada ser humano e de alguma forma para a construção de uma genuína cultura brasileira – o que não significa repudiar outras culturas, mas ter clareza de sua influência.

Jorge Coli (2019), professor de história da arte, afirma:

Tenho para mim que são essenciais duas coisas. A primeira é permitir o máximo possível e ao maior número de pessoas o acesso às obras culturais. Esse é um direito que deveria ser garantido a todos e uma obrigação do poder público. A segunda é tratá-las com afeto verdadeiro e com respeito. Só assim se cria o contágio que se ramifica e se amplia. Acesso e contágio; não creio que haja outras saídas.

Georges Snyders, dentre os muitos livros que escreveu, publicou três sobre a alegria que pode existir numa escola onde alegria e prazer estejam presentes, procurando esclarecer de que alegria e de que prazer estava falando.  Numa entrevista, fez a seguinte afirmação, preocupando-se com crianças das classes populares:

A alegria e o prazer na Escola parecem ser, também, uma questão de elite, porque são as crianças das classes mais favorecidas que são bem-sucedidas na Escola. As crianças burguesas, sintam ou não alegria na Escola, continuam a estudar, porque os pais acompanham-nas, ajudam-nas a formar hábitos de estudo e reforçam a ideia de que o futuro delas depende da Escola. A maior parte das crianças em situação de fracasso são as de classe popular e elas precisam ter prazer em estudar; do contrário, desistirão, abandonarão a Escola, se puderem. Se não puderem, continuarão, mas não aprenderão muito.

Snyders aponta que “A universidade não é nem o único lugar de cultura, nem, para os que a frequentam, o terminus do impulso vital: espero que ela dê um impulso, um movimento que não se amortecerá – muito pelo contrário (1995, p. 177).

Leandro Konder (2007) parte da abordagem de 23 autores famosos entre filósofos, poetas, ensaístas e ficcionistas, analisando o uso das palavras amar e amor. Sua intenção foi a de que a pesquisa contribua com estudantes de educação (que pensem nas diferenças entre os ideais dos teóricos que influenciavam os educadores), de letras (que apreciem mais os “clássicos”), de história (que reflitam sobre o enraizamento de construções culturais), de filosofia (que se animem a ler Platão ou a dialogar com Marx ou Freud sobre o amor), de jornalismo (que se perguntem por que as correntes de vanguarda façam previsões sobre correntes que consideram precursoras), entre outros. Ele considera que o amor é o sentimento mais forte de que é capaz a psiquê, arrastando outros sentimentos junto com ele, provocando sensações que podem ser deliciosas ou também dolorosas e assustadoras, envolvendo medos e esperanças. Afirma que

podemos reconhecer que o amor desempenha um papel sutil ao incitar os seres humanos à busca de um mundo melhor e mais justo. (….) Num plano mais abrangente (histórico-social), segundo o jurista Fábio Konder Comparato, o amor desempenha um papel crucial: cabe a ele atuar como fator permanente de aperfeiçoamento das leis, dos princípios, dos valores universais. Como fator de permanente aperfeiçoamento da justiça.

Encerramos reafirmando que continua atual e urgente constituir um saber enraizado na realidade social brasileira e comprometido com a construção de uma comunidade humana capaz de conviver, tolerar e aprender com a diferença.

Referências:

BOURDIEU, Pierre. Estruturas sociais e estruturas mentais. Teoria e Educação n. 3. Porto Alegre: Pannonica, 1991.
CASTANHO, M.E. A sala de aula contemporânea: desafios. Revista Evidência. Araxá, MG: Centro Universitário do Planalto de Araxá, v. 14, n.15, set. 2018.
FRANCASTEL, Pierre. A realidade figurativa. São Paulo: Editora Perspectiva, série Estudos, 2011.
GUSDORF, Georges. Professores para quê? Lisboa: Moraes editores, 1970.
KONDER, Leandro. Sobre o amor. São Paulo: Boitempo, 2007.
SAUNDERS, Robert J. Relating Art and Humanities to the Classroom. Dubuque, Iowa:  Mcb, Wm. C. Brown Conpany Publishers, 1977.
SNYDERS, G. Feliz na Universidade: estudo a partir de algumas biografias. Rio de Janeiro: Paz e Terra, 1995.
__________. A alegria na escola. São Paulo: Manole, 1988

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