Prefácio de: O meu Taquaral

Ana Maria Melo Negrão – professora, escritora. Graduada em Letras Anglo-Germânicas e Direito e Doutora em Educação pela UNICAMP. Titular da Cadeira 30 do IHGG Campinas.

Com imenso júbilo, aceitei o mister de prefaciar a obra O Meu Taquaral, da lavra de José Maria Franco Bueno, bacharel em Matemática com pós-graduação em Filosofia, músico, escritor e pesquisador. O livro, editado e recém lançado pela Pontes Editores é fruto da incursão nos meandros de sua memória e de uma pesquisa hercúlea para tecer a trajetória do bairro de Campinas em que, desde os tenros anos, viveu juntamente com seus familiares.

Em exercício de memória, JM Bueno (como ele prefere ser chamado) mescla as histórias da sua infância e pré-adolescência com o bairro do Taquaral, nas décadas de 1940 a 1960, fazendo emergir, nessa interação, profundos sentimentos de pertencimento àquele espaço de sua cidade, comprovados na escolha do título O Meu Taquaral.

Impende asseverar que a presente obra, para tecer a trajetória do bairro Taquaral, está alicerçada. em uma robusta esteira de respeitadas referências bibliográficas, com o escopo de fornecer subsídios para instruir a substancial pesquisa sobre a desenvoltura desse espaço urbano, relevante para a sua própria história e para a história de Campinas.

Com incomensurável capacidade de contar os fatos, o autor descortina, com detalhamento e sensibilidade, as lembranças de sua infância e pré-adolescência, emolduradas com as características do bairro, a despertar sensações visuais, auditivas e táteis, a nos fazer caminhar pelas ruas, juntamente, com a sua mãe e a sua irmã até à casa nova, na Rua Dona Ana Gonzaga, que marcou a sua vida, onde já os esperavam o pai e os irmãos ao lado do caminhão de mudança.

A imagem do menino pequeno nos remete às representações que o pai, sempre calmo, a ouvir seu rádio Philco valvulado exerceu em sua formação, em sua vida, com um magnetismo que o encantava com a idealização do pai-herói. Em cada alusão a seu pai, agora com o olhar do menino crescido na escrituração deste livro, o passado se presentifica, com detalhes minuciosos, desde os dias em que o acompanhou na visita às lojas para compras de móveis, eletrodomésticos, geladeira, do fogão elétrico Giardini, do Ford pouco usado de duas portas… para compor a vida nova na Rua Dona Ana Gonzaga, até mesmo quando seu pai ia buscá-lo em suas andanças e travessuras pela lagoa do Taquaral, excursão de bicicleta ao Aeroporto de Viracopos… seu coração deixa extravasar o vínculo paterno inquebrantável.

Assim nos brinda o insigne escritor e pesquisador JM Bueno com seu livro O (meu)Taquaral em estilo ímpar e escorreito, alinhavado a uma linguagem exponencial com efeitos simbólicos, recordações adentrando as profundezas dos pensamentos, emoções e sentimentos de personagens advindos da trajetória de sua infância conectados com a evolução do bairro. Não poucas vezes, os leitores hão de se identificar com os fatos narrados… hão de reconhecer os locais mencionados e descritos… hão de se lembrar do Juca e Chico… da revista Tico-Tico… das peladas de rua… dos amigos de infância… das primeiras professoras…

Enfileiram-se as lembranças da sua primeira infância, quando ainda não estava na escola… a extração das amígdalas pelo médico Dr. Fortuna a cuidar da recuperação com cuidados extras, em razão de JM ter sofrido acidente no Studebaker que o pai havia trocado pelo Fordão nos dias subsequentes à cirurgia…as frequentes travessuras… o primeiro livro carinhosamente ofertado por sua irmã, Juca e Chico, um clássico da literatura infantil europeia que lhe propiciou a incursão na leitura com indescritível encantamento pelos personagens que o inspiravam… as brincadeiras com o cachorro Titico a motivar um presente surpresa de aniversário, o cãozinho Fido, que se tornou seu inseparável companheiro…

A folhear o livro o interior dos meandros de suas memórias, estampa-se o tempo de ser matriculado no curso primário e, por decurso de prazo, sua inscrição somente pôde ser feita no Grupo Escolar Dona Castorina Cavalheiro, cuja frequência foi curta, pois em menos de uma semana, mediante a interferência de uma vizinha, a inesquecível professora Ângela, JM Bueno foi transferido para o memorável Grupo Escolar Adalberto Nascimento, onde ela lecionava. Acrescenta-se que, em um escorço histórico, o pesquisador tece a origem dos grupos escolares de Campinas a enriquecer a dimensão da educação e ensino na cidade, com relevantes abordagens.

Paralelamente, eclodem as novas experiências, novos amigos, novas brincadeiras no recreio, mas faltava a merenda para alguns, suprida pela iniciativa dos colegas em ofertar-lhes um pedaço de fruta, um quitute, situação percebida por professoras e pelo diretor sr. Júlio, que providenciou um espaço no pátio para lanches aos alunos, com subsídios de mantimentos pelos comerciantes e frutas pelos verdureiros, resultando em reconhecimento por especializado em Educação, galgando o Adalberto Nascimento a um patamar mais alto, a transcender o ensino para a dimensão de solidariedade.

E as folhas do seu livro íntimo desvendam episódios guardados em suas lembranças, entrelaçados com amigos das eternas brincadeiras, a aflorarem impressões sensoriais que se mantêm vivas em sua mente, nas peladas de rua e campinhos improvisados… no tombo da perigosa rabeira do caminhão e consequente internação no hospital Irmãos Penteado… na aventura do trenzinho feito pelo Pardal com oito caixotes interligados com eixos e rolimãs, a descer desembestado pelas ruas até perder-se numa curva e destroçar-se na ladeira… na dor física das escoriações medicadas caseiramente com vinagre, sal, limão…. nos cascudos e reprimendas das mães… no sabão derretido do trilho do bonde 04, para derrapagem na subida da rua Paula Bueno… enfim, traquinagens de um tempo em que as crianças aprontavam na rua, com fértil imaginação e a cada dia uma nova invenção.

Povoam a mente do autor, com intensa nitidez, as indeléveis vozes dos amigos, cujos nomes de batismo escondiam-se por trás dos apelidos: Alicate, Bertinho japonês, Bico, Bida, Canarinho Cati-Côco, Cata-Tôco, Quinho, Vitão jura por Deus, Zuza, Zé Lôco, Pardal, Sujeira, Carlão rabo de arraia, Ximbica… e tantos outros…

Em consequência de suas atuações futebolísticas, nos variados campinhos, no time do Taquaral Futebol Clube Infantil, tanta dedicação à bola resultou em ter que refazer o terceiro ano primário, sofrendo a dor psicológica da repreensão advinda da fala dos adultos, mas as lições da vida fizeram-no superar, em curso de admissão intensivo, no Colégio Ateneu, para seguir seus estudos ao lado de alguns colegas de infância.

O (meu) Taquaral incita-nos a caminhar com o pesquisador pelo território do bairro para conhecermos o seu tecido urbano magistralmente investigado, relatado e entrelaçado com os colegas de escola… os moradores… os proprietários de lojas… os bares… o armazém do senhor Furian… a Igreja Nossa Senhora de Fátima e o carismático Padre Milton Santana… os postos de gasolina… as Oficinas de costuras com serviços de dominatrix das senhoras Irma, Alia, Lourdes, Rutona, Maria Lúcia, Paraguaia… o Liceu Nossa Senhora Auxiliadora com as quadras esportivas e sessões de cinema … as festas de fim de ano do Oratório… a Escola Agrícola São José… o Circo Teatro Irmãos Almeida… a Sociedade dos Criadores de Galos Combatentes e as rinhas de galos… os corguinhos de águas límpidas a desembocar na Lagoa do Taquaral… as jangadas de aguapés flutuantes para travessia da Lagoa e chegada dos bombeiros… tudo em cotejo com os comportamentos guiados pelos códigos de educação cultural e social vinculados à temporalidade.

Ao adentrarmos nesse universo de recordações, podemos participar dessa realidade histórica como se fosse um caleidoscópio de paisagens. JM Bueno mapeia, com riqueza de minúcias, fruto de seus cuidadosos estudos e pesquisa, incluindo o apito do guarda noturno e a carrocinha de cachorros, as ruas do seu Taquaral com as inerentes características , muitas de terra batida, por onde se embrenhava com os colegas e amigos, Rua Professor João Brenn, Rua Azarias de Melo, Rua Dr. Carlos Mendes de Paula, Rua Lotário Novaes, Rua Baronesa Geraldo de Resende, Rua Amélia Bueno, Rua Castro Alves, Rua Firmino Costa, Rua Bartolomeu Bueno da Silva, Rua Elídia Ana de Campos, Rua Orestes Moraes Alves… e tantas outras, embora a Rua Dona Ana Gonzaga tenha sido a que o marcou, significativamente.

Com fulcro em sua vivência e nos seus conhecimentos pesquisados e amplificados, JM Bueno coletou dados para desenvolver a evolução da urbanização do Taquaral, com a troca de postes de aroeira pelos de concreto por meio da Companhia Paulista de Força e Luz para iluminação Pública… o asfaltamento da região, na gestão do Prefeito Ruy Hellmeister Novaes… a chegada da TV… a inauguração do Cine São José… os novos empreendimentos comerciais e industriais…

E a vida pessoal seguiu com as vivências no Colégio Ateneu Paulista, depois no Ginásio Lencastre, novos professores, nova casa… e o Taquaral de sua infância e pré-adolescência já não era mais o mesmo.

JM Bueno ocupa dois papéis, o de pesquisador e o de protagonista de uma história, vivenciada e sentida, por um lado, a enxergar as alegrias, simplicidade e dores da prazerosa infância e, por outro lado, a vislumbrar a magia e a expansão de seu bairro, com olhar amadurecido, que desperta com mais clareza as belezas do ontem e as reminiscências dos agradáveis convívios que poderiam ficar desapercebidas no passado, a merecerem ser registradas para que a história não se apague e não fique enclausurada na memória.

E assim nasceu o livro O (meu) Taquaral como um refúgio onde foram depositadas as duas histórias entrelaçadas, às quais sempre esteve vinculado e ao esculpir a obra, nunca mais poderá considerar-se sozinho, saudoso e nem afastado da evocação da infância revivida e do bairro amado, muito mais humano que material.

O livro torna a sua infância e pré-adolescência vivas e o seu Taquaral revisitado.

Impende augurar à obra O (meu) Taquaral o merecido êxito que, incontestemente, antevejo, a fim de que contribua para o património cultural de Campinas e configure-se como bálsamo aos que anseiam, saudosamente, rever o espaço em que viveram suas dúvidas, suas descobertas, esperanças e sonhos.

Régio presente à História de Campinas, que rende um tributo ao escritor e pesquisador JM Bueno!

Referência:

BUENO, José Maria Franco. O meu Taquaral. Campinas: Pontes Editores, 2020.

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