Arquitetura islâmica

Duílio Battistoni Filho – historiador, professor. Titular da Cadeira 6 do IHGG Campinas.

Islamic architecture

A arquitetura árabe, em grande parte, era quase inteiramente religiosa. A moradia do homem era destinada a durar pouco, mas a Casa de Deus devia ser, pelo menos inteiramente, eterna. Os cruzados, nas suas andanças pelo Oriente muçulmano, encontraram uma excelente arquitetura militar em Alepo e Baalbert a ponto de aprenderem a técnica construtiva de muros ameados e ideias usadas na construção de castelos e fortes. No mundo islâmico destacam-se o Alcazer de Sevilha e o Alhambra de Granada como exemplos típicos de fortalezas combinadas com palácios.

No Califado Omíada (660-750) nasce a arte muçulmana que tem a sua fase clássica com os Abássidas (750-1258). Nesses dois momentos ideias urbanas e imperiais foram cristalizadas com a edificação de mesquitas, palácios, residências de prazer e cidades. As características arquitetônicas estavam vinculadas às tradições síria e palestina – ressaltando as origens helênicas, romana, paleocristã e bizantina – e as tradições persas, identificando valores sassânidas. As técnicas utilizadas foram o afresco, o mosaico de pedra e cristal, a escultura em pedra, o adobe, o ladrilho, o pilar, o arco de ferradura, os capitéis rendilhados. O jardim islâmico, simbolizando o Paraíso Corâmico, caracterizou-se pelo seu rigor geométrico, sendo frequentes os canais de água dispostos nos eixos do pátio retangular e uma fonte no centro. Na Península Ibérica há uma evolução estética quanto à pureza de linhas, rigor geométrico e uma organização arquitetônica que congregavam força, majestade dos recintos e a sensualidade dos interiores palacianos como atesta o Alhambra de Granada, cuja arquitetura resume todas as experiências da arte hispano-muçulmana. Localizado sobre um rochedo que domina o vale, esta fortificação tem torres quadradas, armazéns e cisternas.

Dos palácios omíadas pouco restou, exceto uma casa de campo em Quasayar Amra, no deserto, a leste do Mar Morto. Suas ruínas mostram casas de banho abobadadas e muros com afrescos. Não há referências sobre estas construções. As descrições de Sherezade das Mil e Uma Noites sobre as mansões de Bagdá são ficções, mas sugerem uma magnífica decoração interna. Os ricos possuíam vilas no campo e casas na cidade. Os pobres moravam em casas rústicas, construídas de tijolos secos ao sol, ligadas com barro cobertas de lodo ou folhas de palmeira e palha. As casas mais ricas tinham caprichosos jardins com uma variedade de flores com pátio interno, tanque de água e muito arvoredo. A mobília era simples e não havia quartos próprios para dormir. O leito consistia de uma esteira que durante o dia era enrolada e colocada num aposento retirado e oculto. Havia alojamentos separados para as mulheres. Essas casas possuíam uma janela gradeada para entrar a luz e permitir que os ocupantes vissem o exterior sem seres vistos, como também havia no Brasil colonial chamada aqui de muxarabi. É preciso acrescentar que essas janelas serviram de modelo para as cortinas de pedra que adornavam o palácio.

O ponto culminante da arquitetura árabe é a mesquita. Construída graças ao trabalho de todas as classes sociais, está situada junto ao mercado, de fácil acesso e voltada na direção de Meca.  Elas não impressionam por fora e sim pelo seu interior decorado, como por exemplo, a Mesquita de Santa Sofia de Istambul, tipo bizantino com janelas furadas nos tímpanos dos arcos e o gosto pela claridade. No seu interior há uma espécie de altar na parede (mirab) para as cerimônias, uma imitação da abside cristã. O púlpito (nimbar) é de madeira cuidadosamente entalhada com incrustações de ébano e mármore. Perto dele fica o “digga”, uma mesa de leitura apoiada por colunas sustentando o Alcorão. As mesquitas apresentam um pátio retangular para reunir a congregação, uma bacia central e fontes para as abluções, um pórtico arqueado para abrigo, sombra e escola. O edifício pode ser coroado com uma abóbada, quase sempre construída de tijolos, apresentando, às vezes, azulejos como na Espanha e Portugal e paredes ornadas com caligrafias geométricas. Muitas dessas abóbadas tinham a forma cilíndrica de origem indu, como a de Istaham no Irã ou a forma quadrangular africana tipo farol de Alexandria, como se observa na Mesquita de Damasco. A maior característica da arquitetura era o minarete de origem síria lembrando os ziggurats babilônicos e campanários das igrejas cristãs.

É muito importante lembrar que a arquitetura árabe inspirou os tapetes de oração feitos com fios de lã e também o popular quilim. Todos os ritos religiosos são feitos no chão; os muçulmanos em geral não usam cadeiras, sentam-se e vivem no chão, como os japoneses. O tapete representa uma decoração num mundo hostil do deserto e da areia. Significa que nascemos no chão, oramos nele e também o lugar onde depositamos nosso corpo. Por isto, o piso é o ponto mais importante do contato com o espaço e é nele que são realizadas as atividades da vida, e todos os esforços são realizados para embelezar esse espaço.

Imagem de destaque:

Mesquita Catedral de Moscou. Khusen Rustamov, por pixabay.

Referências:

CROUZET, Maurice. História Geral da Civilização. São Paulo: Difusão Europeia do Livro, tomo III, 1956.
DURANT, Will. História Geral da Civilização. São Paulo: Companhia Editora Nacional, 1957, vol 8.
HANANIA, Ainda Rameza. “O Verbo Visível”. Folha de São Paulo, 13/3/1996.
SAID, Edward. Orientalismo. São Paulo: Companhia das Letras, 1988.

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