Chacaltaya, César Lattes e as mudanças climáticas

Marcel Trombeta Pazinatto – engenheiro, presidente da Associação de Preservação da História de Valinhos. Sócio correspondente do IHGG Campinas em Valinhos, SP.

Resumo:

Este artigo tem por objetivo ressaltar o experimento realizado por César Lattes na antiga estação meteorológica localizada no pico Chacaltaya, na Bolívia. Passados mais de 40 anos das descobertas realizadas pelo cientista brasileiro, o pico esteve novamente nos noticiários devido a sua sensibilidade em relação às mudanças climáticas.

Chacaltaya, Bolívia, César Lattes and climate change.

Abstract:

This article aims to elucidate the experiment accomplished by César Lattes at the old weather station located on the Chacaltaya peak, in Bolivia. More than 40 years after the discoveries made by the Brazilian scientist, the peak has been in the news again due to its sensitivity to climate change.

* * *

No final da década de 1940 ocorreu uma descoberta que foi um passo importante para a compreensão do mundo subatômico das partículas. Foi um experimento que contava com a coordenação de um jovem cientista brasileiro, que carregou em sua bagagem placas de emulsão nuclear e as instalou numa antiga estação meteorológica boliviana para serem expostas a raios cósmicos. O momento era o de pós-guerra e as consequências deste fato não apenas abrilhantaram a carreira do jovem cientista, mas trouxe muitos desdobramentos e prestígio para o desenvolvimento da ciência no Brasil e no mundo. Esta descoberta também escreveu o nome dele em um dos picos nevados mais importante da Bolívia – o pico Chacaltaya.

O Chacaltaya, com sua altitude elevada, a partir da década de 1990, é considerado um dos primeiros locais no mundo a sentir efeitos das mudanças climáticas e, desde então, vem despertando a atenção de climatologistas e cientistas.

A Bolívia é uma república democrática com particularidades únicas em sua cultura e geografia. Com uma população em torno de 11 milhões de habitantes, este país andino possui muitas montanhas acima dos 5.000 metros de altitude, o lago navegável mais alto do mundo e o maior deserto de sal. Em seus sítios arqueológicos, encontramos mistérios indecifráveis para o homem moderno e um fato interessante é que ainda se fala, além do espanhol, duas línguas nativas – o Aimará e o Quíchua, e não é muito difícil andar pelas ruas e ouvir pessoas conversando nestes antigos idiomas.

César Mansueto Giulio Lattes nasceu em Curitiba, em 1924, e foi um cientista brasileiro. Na Universidade de São Paulo, USP, Lattes foi aluno de Abrahão de Moraes em física-matemática e de Gleb Wataghin e Giuseppe Occhialini em disciplinas do curso de física. Depois de formado, ele começou a trabalhar em pesquisas e escreveu alguns artigos com outros colegas e em 1944 consertou uma câmara de identificação de partículas subatômicas de Occhialini. No final da década de 1940, junto de outros jovens cientistas brasileiros, foi trabalhar com professores da Europa.

Este fato despertou em César Lattes o interesse por física experimental e acabou levando-o para o que veio a se formar, o famoso grupo de cientistas da Universidade de Bristol, responsável por descobertas de algumas partículas. Ali, nos laboratórios de física da Universidade de Bristol, com os físicos Ochialini e Powel começou a estudar afincadamente as Radiações Cósmicas pelo processo das chapas fotográficas (Correio PaulistanoSão Paulo, 11/3/1948).

Neste período também existiram vários grupos de pesquisa na Europa realizando trabalhos nesta área, e o grupo de Bristol precisava de mais eventos para poder comprovar a existência de uma nova partícula que, até aquele momento, nunca tinha sido comprovada, mas já tinha sido proposta sua existência em 1935, pelo físico Hideki Yukawa.

Foi neste momento que Lattes descobriu que havia uma antiga estação meteorológica aos pés do pico Chacaltaya, na Bolívia. O que havia em Chacaltaya era uma estação meteorológica muito simples, iniciada em 1942 pelo meteorologista espanhol Ismael Vallejos Escobar (1919-2009), refugiado da guerra Civil Espanhola (1936-1939), na qual lutou junto às forças republicanas (VIEIRA & VIDEIRA, 2019, p.135). Com seus 5.421 metros de altitude, o Chacaltaya está localizado a 30 quilômetros da capital La Paz e, por décadas, possuía a estação de esqui mais alta do mundo. É curioso saber que em suas pistas brancas já se realizaram muitos concursos nacionais e internacionais de esqui.

Entre 1947 e 1948, junto de Giuseppe Occhialini e de colegas bolivianos, Lattes monta um laboratório neste local para estudos dos raios cósmicos e, utilizando chapas fotográficas para registrar estes eventos cósmicos, estabeleceu a existência da partícula até então inédita na física, chamada de méson-pi.

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Foto 1: Observatório de Física Cósmica, Chacaltaya, Bolívia. 1947. Acervo César Lattes, Arquivos Históricos CLE Unicamp. BR SPCLEARQ CCL-I-73.

A altitude de Chacaltaya permitiu a identificação, em uma única placa revelada, de dois completos duplos mésons. Nem mesmo as manchas da água suja com que Lattes revelou a placa, atrapalharam a observação da desintegração pi-mi. De volta a Bristol, cerca de 30 duplos mésons foram identificados. Encontraram até os mésons negativos, cujo fim da trajetória se assemelha ao desenho de uma estrela. O processo da descoberta encontra-se publicado em oito artigos. O trabalho de mais impacto foi publicado na Revista Nature (outubro de 1947) e é assinado, em ordem alfabética como era usual, por C. Lattes, G. Occhialini e C. Powell. (ANDRADE, 2005, p. 4).

Esta descoberta fez com que o laboratório nesta antiga estação se tornasse um laboratório de física cósmica, transformando-o em um centro científico de padrão internacional, abrigando cientistas e equipamentos para estudar a radiação cósmica. Logo no final da década de 1950, Lattes e Yukawa deram início a uma parceria que durou 30 anos entre Brasil e Japão na pesquisa dos raios cósmicos.

César Lattes também foi um dos fundadores do Centro Brasileiro de Pesquisas Físicas no Rio de Janeiro (CBPF), participou da origem do atual Departamento de Raios Cósmicos (DRCC) do Instituto de Física da Unicamp e, em 1999, foi homenageado pelo CNPq com a criação do Sistema de Currículo Lattes, uma plataforma que padroniza os currículos dos pesquisadores brasileiros em um grande banco de dados.

Nas últimas décadas, o Chacaltaya virou manchete novamente, mas não pelo motivo de alguma descoberta na física das radiações, mas por ter sido um dos primeiros locais a sentir as mudanças climáticas. Na década de 1990 a neve encolheu vários metros. Como o El Niño ficou mais frequente desde 1976, o déficit médio anual da Chacaltaya dobrou de 1983 até 2003, chegando a 1,2 metro. Neste ritmo, os cientistas advertem que poderia desaparecer antes de 2015 (ANDES perdem geleiras. Pesquisas apontam para o desaparecimento. Jornal do Brasil, Rio de Janeiro, 23/9/2004). No ano de 2009, pudemos observar a ausência de neve em grande parte do pico, conforme representado na Fotografia 2.

Vista parcial Chacaltaya (1)_Fotor

Fotografia 2: Vista parcial do pico Chacaltaya, 20 de maio de 2009. Imagem do autor.

Esta extinção não afetou só os esquiadores, mas a população local em geral, pois este glaciar formava uma importante bacia de água para as cidades de La Paz e El Alto. Em 2011 foram instalados equipamentos na estação para medir as concentrações de gases e propriedades físicas  e químicas dos aerosóis, chamada de Estação Chacaltaya GAW (CHC).

Um estudo sugere que a geleira Chacaltaya reflete diretamente as mudanças climáticas no domínio tropical Pacífico-América do Sul (…) a frequência mais alta e a evolução espaço-temporal alterada do El Niño desde meados da década de 1970, junto com uma troposfera geralmente aquecida sobre os Andes tropicais, explica o recente encolhimento dramático das geleiras nesta parte do mundo. (FRANCOU, Bernard et al., 2003, p. 11).

O Painel Intergovernamental sobre Mudanças Climáticas (IPCC) é a principal referência nas discussões sobre mudanças climáticas no nosso planeta. Foi criado em 1988 com o objetivo de avaliar as pesquisas, interpretá-las e divulgá-las. Em um relatório publicado no ano de 2001, cientistas consideram que: Os seres humanos, assim como outros organismos vivos, sempre influenciaram seu ambiente. É apenas desde o início do Revolução Industrial, em meados do século 18, que o impacto das atividades humanas começaram a se estender a uma escala muito maior, continental ou mesmo global (HOUGHTON et al., 2001, p. 92).

As questões climáticas estão gerando os debates mais polarizados da atualidade. Há quem defenda que as mudanças climáticas são decorrentes das ações humanas e, do outro lado, aqueles que consideram que são fenômenos naturais que ocorrem periodicamente ao longo de milhares ou centenas de anos.

Podemos afirmar que no pico Chacaltaya teremos muitas histórias, estudos, fatos e registros fotográficos, e não só de turistas e esquiadores, mas sim, de um importante marco na evolução da física subatômica.

Referências:

ANDES perdem geleiras. Pesquisas apontam para desaparecimento. Jornal do Brasil, Rio de Janeiro, 23 de set. de 2004. Disponível em: <http://memoria.bn.br/DocReader/docreader.aspx?bib=030015_12&pasta=ano%20200&pesq=andes%20perdem&pagfis=117129>. Acesso em: 08 de jul. de 2020
ANDRADE, A. M. R. A cabeça no cosmo e o coração no Brasil. Jornal da Unicamp, Campinas, 30 de mar. de 2005. n° 281. Disponível em:<https://issuu.com/ascom.unicamp/docs/jornal_unicamp_especial_cesar_latte>. Acesso em: 23 de jun. de 2020.
CÉSAR Lattes e os 50 anos do Méson Pi. Instituto de Física de São Carlos-USP, Grupo de História, Teoria e Ensino de Ciências, 03 de abr. de 1998. Disponível em: <http://www.ghtc.usp.br/meson.htm>. Acesso em: 05 de jul. de 2020.
CHACALTAYA gaw station, About the station. Disponível em: <http://www.chacaltaya.edu.bo/about-us.html&gt; . Acesso em: 20 de jun. de 2020.
FRANCOU, Bernard et al. Tropical climate change recorded by a glacier in the central Andes during the last decades of the twentieth century: Chacaltaya, Bolivia, 16°S. Journal of Geophysical Research, 2003. Disponível em:<https://agupubs.onlinelibrary.wiley.com/doi/10.1029/2002JD002959&gt;. Acesso em: 01 de out. De 2020
HOUGHTON, J. T. et al. Climate Change 2001: The Scientific Basis. United Kingdom: The Press Syndicate of the University of Cambridge, 2001. Disponível em:< https://www.ipcc.ch/report/ar3/wg1/>. Acesso em: 09 de set. de 2020.
MARQUES, Alfredo. Em memória de César Lattes. Centro Brasileiro de Pesquisas Físicas no Rio de Janeiro (CBPF), 2005. Disponível em: <http://cbpfindex.cbpf.br/publication_pdfs/cs00405.2010_08_11_13_04_39.pdf>. Acesso em: 05 de ago. de 2020.
QUEM é o jovem cientista. Correio Paulistano, São Paulo, 11 de mar. de 1948. Disponível em: <http://memoria.bn.br/DocReader/docreader.aspx?bib=090972_09&pasta=ano%20194&pesq=&pagfis=36692>. Acesso em: 10 de jun. de 2020
VIEIRA, C. L.; VIDEIRA, A. A. P. História da Física – Artigos, ensaios e resenhas. Centro Brasileiro de Pesquisas Físicas no Rio de Janeiro (CBPF), 2019. Disponível em: <https://portal.cbpf.br/downloads/divulgacao-cientifica/livros/Historia-da-fisica.pdf>. Acesso em: 14 de ago. de 2020.

Um comentário

  1. Parabéns ao Historiador Marcel Trombeta Pazinatto. Artigo apresentado de maneira didática. Além de narrado com a devida precisão histórica, procura valorizar a ciência e o cientista brasileiro.

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