Vikings no Brasil: mito ou realidade?

Agostinho Toffoli Tavolaro – advogado, escritor. Titular da Cadeira 39 do IHGG Campinas

Resumo:

Este artigo trata de um tema curioso: a presença dos Vikings nas Américas e os indícios dessa presença também no Brasil. Debate-se a literatura disponível e os trabalhos desenvolvidos por pesquisadores brasileiros.

Vikings in Brazil: myth or reality?

Abstract:

This article presents a curious topic: the presence of Vikings in the Americas and the signs of that presence also in Brazil. Literature, articles and essays written by Brazilian researchers are discussed.

* * *

Logo depois do passamento do querido amigo Hernani Donato, em 2012, aos 90 anos de idade, um dos maiores historiadores contemporâneos, eu e colegas da Academia Paulista de História revisitamos e debatemos as suas principais obras. Meu interesse recaiu sobre Sumé e Peabiru: mistérios maiores do século da descoberta. Na época fiz um pequeno artigo que hoje reviso, atualizo e ofereço aos colegas do Instituto Histórico, Geográfico e Genealógico de Campinas e aos nossos leitores.

A obra despertou a minha curiosidade pelas referências que faz a um homem que teria vivido na América Latina antes de Colombo, inclusive entre os nossos índios, descrito pelos Botocudos da bacia do Rio Doce como um homem de cabeleira ruiva, estatura maior do que a de outros homens… , relatando ainda inúmeras outras referências a este homem, sempre branco, alto, ruivo ou louro, no continente e nas Antilhas.

As histórias ou lendas entre os nossos índios tinham como personagem Tumé, ou Sumé, ou Pai-Sumé, nomes idênticos ou semelhantes foneticamente ou em grafias diversas, sendo encontrados no Paraguai e nos países andinos.

À curiosidade assim despertada somou-se a pesquisa em obras de outros autores, revelando que suscitou a matéria e ainda suscitará, por longo tempo, a atenção dos estudiosos.

Vikings: quem eram?

A descrição das características físicas desse homem branco remete à imaginação desde logo aos Vikings, o povo nórdico da Escandinávia, navegadores, que nos seus barcos movidos à vela e a remo levaram o terror à Europa na Idade Média. Oriundos da Dinamarca, da Suécia e da Noruega parece que povoaram a Islândia e a Groenlândia, havendo mesmo chegado à América do Norte, cuja hipótese dessa presença é firmemente evidenciada pelas escavações em L’Anse on Meadows, Terra Nova, no Canadá (ROESDAHL, p. 274). Com efeito, eles eram eles famosos por sua compleição física e de altura superior a outros povos, como escreve Gwyn Jones (2001, p. 26).

Geralmente aceita é a premissa de que as grandes viagens dos Vikings no Atlântico ocorreram nos séculos nono e décimo, sem bússola nem mapas. A explicação que para isso dá Jones é a de que se utilizavam eles de um cristal de calcita (Iceland spar), conhecido como pedra do sol (sun stone), mineral que lhes permitiria, por suas propriedades de polarização da luz, localizar a posição do sol e assim determinar a latitude, mesmo em dias nublados ou mesmo à noite (JONES, p. 192), observando, porém que até a data de lançamento de seu livro (a primeira edição é de 1968), somente em 1948 fora encontrada metade de um disco de madeira com marcas equidistantes. No entanto, no ano de 2013 foi noticiado que uma pedra dessas teria sido encontrada em um navio de guerra do século XVI, naufragado em Alderney, ilha do Canal da Mancha.

Sumé ou Tomé?

Hernani Donato, reportando-se à crença da Idade Média de que no Brasil estaria o paraíso terrestre, cita cronistas e testemunhos da época, lembrando inclusive que Sérgio Buarque de Holanda, no livro Visão do Paraíso, historia o mais forte e dramático testemunho sobre a radicação desse acreditar, qual seja a obstinação de Pedro de Rates Hanequim, enforcado e queimado em Lisboa, em 1744, por insistir que o Brasil fora a pátria de Adão (DONATO, p. 19).

Sumé ou Tomé ou ainda inúmeras outras variantes desse nome, quais Grande Sacerdote Tulá ou Quetzalcoatl na América do Norte, segundo Humboldt; Sommay ou Sumi pelos Caraíbas, segundo André Tevet; Mara pelos Botocudos no Brasil, segundo André Ramos; Cariba ainda no Brasil, segundo Varhangen; no Haiti Zemi; no coração da América Central Zamna ou
Zamima; Kukulcan em áreas do México; Bochica pelos Chibchas; Viracocha em cercanias do Titicaca; Sumé na Guanabara, segundo Jean de Léry; Man Zumane, conforme Hans Staden; Pay-Zumé ou Pay-Sumé no Paraguai, teria sido o homem branco que por toda a América semeara conhecimentos e fé junto aos nativos, identificado como São Tomé, conforme relata o historiador (DONATO, p. 27).

Relatos de pegadas de um santo homem impressas na rocha existem em várias partes do nosso território, sendo do padre Manoel da Nóbrega a afirmativa na sua Carta das Terras do Brasil relativa a 1549, que os índios diziam que São Tomé, a quem eles chamam Zamé, passou por aqui e isto lhes foi dito por seus antepassados, e que suas pegadas estão sinaladas junto de um rio: as quais eu fui ver por mais certeza da verdade e vi com meus próprios olhos, quatro pisadas mui sinaladas com seus dedos… (DONATO, p. 33).

O padre Simão de Vasconcellos, que em 1663 escreveu a Chronica da Companhia de Jesus do Estado do Brasil e do que obraram seus filhos nesta parte do novo mundo, relata também a passagem de São Tomé pelas terras brasileiras e as pegadas que por uma tradição antiquíssima dos índios derivadas de pais a filhos… são pegadas de um homem branco, com barba e vestido… (VASCONCELLOS, p. 75).

Não se olvide também que o padre Antônio Vieira, em seu Sermão do Espírito Santo, pregado em 1657 em São Luis do Maranhão, repisa a certeza da passagem de São Tomé (DONATO, p. 21).

Veja-se, aqui, que já Hernani Donato aborda a Teoria Viking como identidade de Sumé, referindo ainda que por esta teoria teriam sido vários Sumés, enviados pelo bispo normando Erik, que, por volta do ano de 1112, deixara a sede episcopal na Groenlândia para dirigir-se com vinte evangelizadores às terras hoje ditas americanas. Cita ainda a pesquisa de Barreto Mascarenhas, que assegura que por volta de 1250 os normandos trouxeram para o seu meio o padre Thul Gnupa, matéria que indica para pesquisas posteriores (DONATO, p. 54-55).

O caminho do Peabiru

Sempre com Hernani Donato, cabe indicar que Peabiru ou Peabiyru teria o significado, em guarani, de caminho ou, com maior precisão, de caminho que leva ao céu (pia, bia, PE, ybabia), ou ainda o caminho para o Biru (Peru) ou, também, o caminho grande (real) (DONATO, p. 79). O caminho que ligava ao Paraguai e desde aí ao Andes, às minas do Peru, foi descrito com início em São Vicente, tendo oito palmos de largura, hoje 176 centímetros, ou seja, quase um metro e oitenta centímetros, levando até Iguaçu e assim chegando ao Paraguai. Seria o caminho que levaria do Atlântico ao Pacífico, principalmente após chegado ao território Inca, dotado de estradas em um sistema viário que excederia, inclusive, o construído por Roma.

Os Vikings estiveram no Brasil?

Referida por Hernani Donato a Teoria Viking, vemos que em nosso país a obsessão viking, como a denomina pejorativamente Antonio Luiz Monteiro Coelho da Costa, começou em 1839 quando o Instituto Histórico e Geográfico Brasileiro, no Rio de Janeiro, teve sua atenção despertada para as inscrições na Pedra da Gávea. Refutada foi a teoria, mas ainda é objeto de debates que dividem os estudiosos.

Jacques de Mahieu, pesquisador francês naturalizado argentino, se dedicou ao estudo da presença Viking na América, havendo, no que diz respeito ao Brasil, escrito obra que foi traduzida para o português e aqui publicada. Nesta obra, perlustrando vários indícios que ele afirma serem da presença de Vikings no Brasil, inclusive citando a existência de tribos de
índios louros e de olhos azuis na Amazônia, runas nas ruínas das sete cidades do Piauí, índias brancas, a Pedra da Gávea, conclui afirmativamente por essa presença, mencionando ainda, a presença do padre Gnupa (MAHIEU, p. 151). … em quem os missionários portugueses e espanhóis quiseram reconhecer o apóstolo Santo Tomás. (MAHIEU, p. 132). Aliás, cabe lembrar aqui, como já feito acima, que na América do Norte houve a variante de nome Grande Sacerdote Tulá (Thul?). Seu trabalho teve continuidade por seu amigo Vicente Pistilli e por José Riquelme Escudero, arqueólogos paraguaios.

Para o arqueólogo brasileiro Johnni Langer, coordenador do NEVE – Núcleo de Estudos Vikings e Escandinavos e professor na Universidade Federal da Paraíba, laborou o pesquisador francês em erro, tentando descobrir vestígios de antigas povoações brancas e louras no interior do Brasil pois os próprios portugueses foram responsáveis diretos por este tipo de herança étnica. (LANGER, 2009).

Criticando agora o livro de Orlando Paes Filho, Sangue de gelo, escreveu ainda Johnni Langer que também a bússola magnética primitiva entre os escandinavos, a que nos referimos também acima – a pedra do sol – jamais teve confirmada pela arqueologia suas propriedades, pois se trataria de uma bússola solar (gnômon), que seria um disco de madeira cujo ângulo da sombra determinaria a latitude e o norte geográfico, e que vestígios desse equipamento foram descobertos nos anos 1960 e mais recentemente no báltico (LANGER, 2006, p. 125-128).

Seria interessante conhecer o ponto de vista do eminente professor quanto à descoberta de 2013 em Alderney, que relatamos acima, vez que o comentário de Langer foi publicado em 2006. Decerto, muito já foi produzido desde então por alguns pesquisadores, especialmente na Universidade Federal da Paraíba, onde atua Langer. Sobre isso ele escreve, em 2016:

Os estudos brasileiros sobre religiosidade nórdica já produziram uma razoável quantidade de publicações e eventos, mas ainda são muito pequenos se comparados com outros temas da Medievalística e da História das Religiões instaurada no Brasil. A área tem ainda muito a crescer e já vem demonstrando interesse em discutir as suas próprias maneiras de pesquisar, as suas bibliografias e metodologias. Com a eminente titulação dos pesquisadores, a tendência é aumentar a quantidade de orientadores em programas de pós-graduação e, como consequência, a possibilidade de novos projetos de pesquisas. Também ocorre a necessidade de maior quantidade de publicação de fontes primárias e bibliografias internacionais, bem como uma maior especialização dos pesquisadores brasileiros nos estudos linguísticos medievais (LANGER, 2016, p. 932-933).

Mito ou realidade: o mistério continua

Não nos parece que esteja definitivamente encerrado o debate sobre a presença ou não dos Vikings entre nós. O que cabe dizer, apenas, é que a única certeza que temos é que existe a incerteza, especialmente com essa onda governamental de desmonte do conhecimento científico no Brasil atual.

Imagem de Lothar Dieterich por Pixabay

Referências:

COSTA, Antonio Luiz Monteiro Coelho da. Os verdadeiros mistérios do Brasil. http://noticias.terra.com.br – acesso 17/1/2013.
DONATO, Hernani; Sumé e Peabiru: mistérios maiores do século da descoberta. São Paulo: Ed. GRD, 1977.
LANGER, Johnni. Deuses, monstros, heróis: ensaios de mitologia e religião viking. Brasília: Editora da UNB, 2009.
LANGER, Johnni. A volta do romance viking à brasileira. Brathair 6 (2) 2006: 125-128. http://www.bratair.com – acesso 01/11/2013.
LANGER, Johnni. Uma breve historiografia dos estudos brasileiros de religião nórdica medieval. HorizonteBelo Horizonte, v. 14, n. 43, p. 909-936.
MAHIEU, Jacques de. Os Vikings no Brasil. Trad. Wilma Freitas Ronald de Carvalho. Rio de Janeiro: Livraria Francisco Alves, 1976.
PAES FILHO, Orlando. Sangue de gelo. Rio de Janeiro: Ediouro, 2006.
ROESDAHL, Else. The Vikings. London: Penguin Books, 1998, Revised Edition.
JONES, Gwyn. A History of the Vikings. Oxford: Oxford University Press, 2001, 2a. Ed. Reimpressão.
VASCONCELLOS, Simão de. Chronica da Companhia de Jesus do Estado do Estado do Brasil e do que obraram seus filhos nesta parte do novo mundo. Rio de Janeiro: Typographia de João Ignácio da Silva, 2ª. Ed., 1864, acrescentada com uma introdução e notas históricas e geográficas pelo Cônego Dr. Joaquim Caetano Fernandes Pinheiro.

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