A literatura árabe: alguns exemplos

Duílio Battistoni Filho – historiador, escritor. Titular da Cadeira 6 do IHGG Campinas.

Resumo:

Neste artigo, o autor nos apresenta um texto objetivo e esclarecedor sobre o desenvolvimento da literatura árabe e a sua importância para as letras de vários países do ocidente, especialmente os ibéricos e, indiretamente, as suas colônias na América.

The arab literature: some examples.

Abstract:

The author presents an objective and enlightening article on the development of Arab literature and its importance for the letters of several countries in the West, especially the Iberians and, indirectly, their colonies in America.

* * *

Os árabes desempenharam a partir do século VII da era cristã um papel de grande importância na história econômica e social da humanidade. Tendo a Arábia como berço, estenderam-se como conquistadores da fé de Maomé da Mesopotâmia ao Marrocos. A palavra árabe significa “nômade que vive sob sua tenda no deserto”. Os árabes seguiam as leis do Corão. Islã e muçulmano significam respectivamente “resignação à vontade de Deus” e “adepto de Maomé e seus ensinamentos corânicos”. A própria religião é oficialmente conhecida como islâmica.

Na cultura árabe a literatura ocupa um lugar especial acerca dos usos e costumes de um povo. Segundo a tradição, Maomé, diferente dos reformadores religiosos, admirou e aconselhou a necessidade do saber. Quando os árabes conquistaram Samarkand (711) aprenderam dos chineses a técnica de bater o linho e outras plantas fibrosas para transformá-las em polpa e secando essa em forma de folhas finas. Introduzido como substituto do pergaminho e couro numa época em que o papiro ainda não tinha sido esquecido, o produto recebeu o nome de papel. A primeira fábrica de papel do Islã foi montada em Bagdá, em 794, e levada à Sicília e Espanha e daí para a Itália e França. Consta que, em 891, Bagdá tinha mais de cem livreiros. Suas lojas eram ao mesmo tempo centros de cópia, caligrafia e reuniões literárias. A maioria das mesquitas possuía bibliotecas. Por volta de 950, Mossul  tinha uma instalada à custa da filantropia particular. Nela os estudantes recebiam papel e livros. Assim, os doutos do Islã fortaleceram os alicerces de uma literatura e de uma gramática que pudessem dar consistência aos padrões da língua.

Os povos do Oriente Próximo, como todos os homens antes da imprensa, eram de inteligência auditiva. Para a maioria dos muçulmanos, literatura significava um poema recitado ou narrado. Poemas eram escritos para serem lidos em voz alta ou cantados, e todos eles, do camponês ao califa, ouviam-nos com prazer. Além do mais, os poetas serviam como propagandistas e eram temidos como implacáveis satiristas. Portanto, a literatura do Islã era a poesia, em virtude do temperamento árabe inclinado a sentimentos fortes. Os costumes persas constituíam a base da oratória florida, e a língua convidava à rima pela similaridade de suas terminações sem flexão. Pregadores, oradores e contadores de história usavam a prosa rimada. Os temas poéticos eram o amor, a guerra, a devoção, o misticismo  que influenciaram autores como Rousseau e Santo Agostinho.

A literatura árabe, dividida em épocas, segue o rumo dos inúmeros fatos que marcaram sua história política e social. Após a morte do profeta Maomé (632), um dos seus escribas, Zaid Ibn Tahit, em 650, foi encarregado de organizar a cópia do Alcorão, considerado o primeiro texto em prosa com linguagem poética, ritma, rimas e vocabulário seleto. A partir da dinastia Omíada (660 a 750), com capital em Damasco, a antiga organização tribal passa para a monarquia centralizada e o império islâmico se estende pelo norte da África, Península Ibérica e Sicília. Nos primeiros séculos medievais, a literatura árabe foi identificada como “nacional” cujos autores se inspiram no deserto, no beduíno, na sensibilidade e na ética de seus habitantes. Obras como as “Fábulas” de Bidpai, “Prados de Ouro” de al-Masudi e o “Livro dos Reis” de Fidausi são exemplos de histórias populares.

As “belas letras” ou literatura de Adab (educação ou amplo conhecimento) se manifestaram no princípio do século VIII e atingiram o apogeu nos séculos IX e X. Os temas se referiam aos escritos epistolares, às máximas, aos sermões, aos sucessos históricos, às explicações gramaticais e poéticas. Um grande escritor dessa época é Abud al Hamid, exímio epistolário. A verdade é uma só: os literatos se inspiram na cultura persa. Inegavelmente os mais importantes do período são Omar Khayann (1048-1124) com sua obra “Rubayat”. Persa de nascimento, embora não escrevesse epopeias, mas uma série de pequenos poemas epigramáticos de quatro versos tornou-se o mais célebre poeta islâmico. Sua obra muito semelhante ao Livro do Eclesiastes, do Velho Testamento enaltece a filosofia mecanicista, seu ceticismo e seu hedonismo. O mais famoso exemplo da literatura árabe em prosa é a coleção denominada Mil e Uma Noites que reúne histórias escritas durante os séculos VIII e IX. São fábulas, anedotas, contos familiares e aventuras eróticas derivadas das literaturas de muitos países, desde a China até o Egito. A importância principal dessa coleção reside no quadro que apresenta a vida requintada dos muçulmanos durante os melhores dias do califado de Bagdá. O livro foi traduzido para o francês por Antoine Galland em 1704, obtendo invulgar sucesso espalhando-se para outras línguas. O geógrafo e explorador inglês Richard Burton (1821-1890), que chegou a ser cônsul no Brasil, falava o árabe e traduziu essa obra para o inglês. Até hoje ela é editada fazendo a alegria de adultos e crianças quando lembram de Simbad, o marinheiro, Sherezade, a lâmpada de Aladim e Ali Babá e os quarenta ladrões.

Durante o longo período da influência árabe na Andaluzia (sul da Espanha), floresceu importante centro de cultura islâmica ocidental. Os períodos da literatura andaluza (710 a 1492) são marcados como uma literatura mesclada de inspiração persa e hispano-árabe. Os poetas se deparam com um novo ambiente, embora o deserto fosse a matriz cultural. No contexto andaluz, a temática desliza-se para o verde e para os jardins, predominando o canto da natureza e a vastidão bucólica. Na poesia aparece um novo modelo de composição no século XIII, que é a muakhacha em que as dinastias procuram glorificar seus reinos e as lutas dos califas em defesa de suas terras. Essa composição influenciou os trovadores franceses da Idade Média e Voltaire em seus contos populares. Sevilha e Córdoba vão ser grandes centros dessa cultura. Não nos esqueçamos que o grande pensador Averroes (1126-1198) era de Córdoba e muito influenciou a filosofia ocidental, chamado por Santo Tomás de Aquino como o comentador de Aristóteles. Na cultura espanhola são lendárias as figuras de El Cid, o guerreiro cristão, e do rei Afonso, o sábio, que no século XIII fez traduzir para a língua castelhana o Alcorão, além dos relatos da ascensão celeste de Maomé. Vertidos para o dialeto toscano, podem ter chegado às mãos de Dante Alighieri, influenciando-o na composição da “Divina Comédia”. Mais tarde, com a decadência do Islã no período de 1258 a 1798, as capitais imperiais como Bagdá no Oriente, Córdoba e Sevilha no Ocidente vão ser destruídas. Somente com a chegada de Napoleão ao Egito é que se dará o renascimento cultural árabe.

No século XIX, a literatura árabe é revigorada com o aparecimento da imprensa escrita. O ensaio assumiu papel importante, estendendo-se a vários campos: costumes, crítica social e análise psicológica. Os literatos que mais se destacaram  foram os egípcios, inspirando-se no classicismo árabe tradicional. O pioneiro foi Al Manfalutti (1876-1924) que criou o estilo ensaísta, assimilando muito da civilização ocidental. Já no século XX, a grande expressão foi o romancista Magib Mahfuz, Prêmio Nobel de 1988, com sua famosa “Trilogia do Cairo”, uma das marcas da moderna literatura árabe, que começa com “Entre dois palácios”. Muito importante na literatura árabe contemporânea é o grupo de escritores do Marrocos, possuidor não apenas de vitalidade, mas também de uma narrativa nova e amalgamada com a cultura europeia. Como prova destaca-se a obra “O rei dos Djins” de Mohamed Zafzâf publicada em 1988, numa paisagem drasticamente simbólica e metalógica. Outro nome importante do século XXI é Fatema Mernisse, socióloga e feminista com seu  livro  “O véu e a elite”, sobre o papel das esposas de Maomé e que teve tanta repercussão a ponto de ganhar o Prêmio Príncipe das Astúrias.

Capítulo especial ocupa a caligrafia na literatura islâmica. No primeiro século do Islã, havia muitos tradutores gregos que trabalhavam para os árabes. Eles introduziram nos países do Islã numerosos conhecimentos referentes à escrita grega. Mais tarde, a caligrafia tornou-se a primeira arte do poder islâmico, ao conceder muitos recursos aos calígrafos para fazerem pesquisas. Esses utilizavam um caniço talhado (cálamo) para escrever. Conta-se que alguns ganhavam uma quantidade de ouro equivalente ao peso dos livros que caligrafavam. No século IX, o Islã era um cruzamento dinâmico de encontros culturais. A forma “naskhi”, com caracteres arredondados e o fluxo horizontal sinuoso, constituía por si só uma decoração. Na maioria dos livros muçulmanos da Idade Média, foi usada essa escrita. O mais antigo pergaminho do Alcorão datado de 784 está na biblioteca do Cairo.  Os calígrafos intercambiavam suas experiências. Códigos foram estabelecidos para cada estilo: proporções ideais entre a largura e a altura, a forma interna das letras. Igual pesquisa foi feita em face da construção dos versos, da métrica poética e dos ritmos musicais. As letras têm ritmos visuais de grande beleza. Cada letra, palavra ou frases têm a sua geometria latente; cada estilo caracteriza-se por um aspecto que é reconhecido por todos: a sensualidade das curvas para a escrita (estilo Diwani); traços curtos e aproximados para o estilo da administração local (estilo Ro’a). Numerosas outras regras passaram a reger essa arte, desde o século X até hoje, seguidas e valorizadas pelos estilos farsi, thulhy, kufi.

A imigração árabe para a América, a partir do final do século XIX, deu ensejo à formação de grupos literários de grande importância, cuja produção é reconhecida no mundo árabe. Identificado como Adab al Mahjay (literatura de imigração), esse movimento se estendeu pelo continente americano, destacando-se os grupos de Nova York, São Paulo e Buenos Aires. Deve-se destacar que os primeiros imigrantes que chegaram a São Paulo, nessa ocasião, foram os sírios e os libaneses que se estabeleceram na região do Mercado e nos bairros Ipiranga e Vila Mariana. No sentido de preservar a língua e a cultura árabe, foi fundada, em 1897, a Escola Sírio-francesa. Começa a surgir, então, uma imprensa com a publicação de jornais, tanto em São Paulo como em Campinas. O poeta paulistano Michel Maluf foi o primeiro presidente da Liga Andaluza de Letras Árabes que esteve ativa entre 1933 a 1953.

Segundo o sociólogo Claude Levy Strauss, cada etnia ou povo, cultura ou tradição, língua ou literatura têm certas singularidades que os tornam, em última instância, impenetráveis e incompreensíveis para quem venha de fora. Contudo, as continuidades, os contágios e as contaminações identificáveis, desmentem categoricamente esse dogma. No caso específico do Islã, o escritor Jorge Luís Borges cita uma conversa com um viajante japonês que ficara fascinado pelos países árabes: “É porque lá começa o Oriente, não?”, pergunta-lhe o argentino, só para ouvir como resposta: ”Não, é porque lá começa o Ocidente”.

Uma cultura tão rica, certos termos árabes tiveram influência na língua portuguesa. Um dos termos mais característicos é “oxalá”, cada vez menos usado no Brasil, mas muito comum em espanhol (“ojalá”). Ainda que pareça estranho, seu uso vem de uma expressão árabe que significa “Que Deus o queira”. Quem quer que tenha folheado uma gramática padrão de português ou um dicionário terá constatado que centenas de palavras em nossa língua provêm do árabe, particularmente as que começam com “al”: alfaiate, alface, algibeira, alfarrábio assim por diante. Os intercâmbios são às vezes curiosos e mereceram estudos. Laranja, a fruta, ao que parece veio da Índia, onde seu nome era algo como “nacaranja”, chegou a nossa forma.

Referências:

DURAND, Will. História da Civilização. São Paulo: Cia. Editora Nacional, 1957, vol 8.
LINHARES, Maria Yedda. O Oriente Médio e o Mundo Árabe. São Paulo: Brasiliense, 1989, 2ª edição.
NABHAN, Neusa Neif. “Os caminhos da palavra escrita”. Folha de São Paulo, 10/3/1996.
SAID, Edward. Orientalismo. São Paulo: Companhia das Letras, 1988.

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