O assassinato da Rua Conceição

Nota do editor: Nas próximas segundas-feiras de junho publicaremos uma série de artigos baseados em crimes ocorridos na Campinas histórica, e cujas motivações foram o ciúme, a paixão doentia, que se transformam em crimes de ódio.

The murder of Conceição street.

Fernando Antonio Abrahão – historiador, pesquisador. Titular da Cadeira 11 e presidente do IHGG Campinas.

Apesar da epidemia de febre amarela que se abatera sobre a população no início daquele ano, o fim de 1889 ainda foi festivo em Campinas. No Diário de Campinas de 19 de dezembro de 1889, o carnavalesco Clube dos Democráticos conclamava aos cidadãos morigerados que assistiram a estupenda transformação política que derrubou o pedestal da monarquia, para o grande baile festivo do dia 21, sábado, na Rua Barão de Jaguara, 76, em comemoração ao regime republicano recentemente instaurado.

Na volta daquele baile, na madrugada de 22 de dezembro, Marianna Vaz de Lima seria mortalmente ferida por Joaquim de Souza Guimarães.

O alvorecer da república veio acompanhado das festividades do natal cristão e da esperança de um ano novo mais alegre. Há décadas vivendo na opulência econômica gerada pela cultura cafeeira, a cidade modernizava-se rapidamente. Os espetáculos no Teatro São Carlos, os bailes e saraus no Clube Cultura Artística, as agitadas estações ferroviárias movimentando pessoas e produtos, os majestosos solares dos barões do café. Os coupês, caleças, tílbores e victórias, carruagens de luxo, transitavam de ponto a ponto da cidade, alguns desses veículos movidos até por motores a vapor, como os produzidos na própria cidade, pela empresa Camps & Irmão. A discrepância entre a opulência econômica e a crise de saúde publica daquele ano, com muitas mortes causadas pela epidemia, se apresentava em cenário de transformação de antigas vias empoeiradas ou lamacentas por ruas e avenidas alinhadas e calcadas com paralelepípedos, com a escuridão das noites agora acompanhada de iluminação a gás, em postes simetricamente instalados nas vias centrais da cidade, e com os telefones residenciais instalados desde 1886.

Joaquim Guimarães era imigrante português de 31 anos, solteiro, comerciante bem-sucedido e estabelecido na esquina das ruas General Osório e José de Alencar. Vivera até os 28 anos de idade no Rio de Janeiro, cidade onde aportou vindo de Lisboa. Em Campinas há quase três anos, ele dirigia o seu próprio armazém de secos e molhados.

Marianna Vaz de Lima era a mulher por quem Joaquim nutria um profundo amor, bela, solteira, com pouco mais de 20 anos. Nada sabemos dela além das declarações de seu irmão e das vizinhas e conhecidas, que a descrevem como uma mulher diferente e muito independente.

Segundo a denúncia do promotor Antonio da Costa Carvalho, Joaquim apaixonara-se por Marianna e esta, por motivos não revelados, passou a não querer mais se relacionar com o seu futuro assassino. Com cerca de um mês de separação, Joaquim concebeu o crime de vingar-se de Marianna, matando-a.

No sábado, 21 de dezembro de 1889, à noite, Joaquim foi até a casa da amada, na Rua Conceição, 77, e lá encontrou Francisco Emílio, que não soube dizer onde estava sua irmã. Joaquim procurou pelas redondezas, foi ao teatro pensando encontrá-la com alguém, mas sua diligência foi infrutífera. Voltou para a Rua Conceição e resolveu esperá-la. Por volta das 4 horas da manhã de 22 de dezembro chegou à porta do número 77 uma carruagem trazendo Marianna e José Marcellino de Campos, jornalista do Diário de Campinas, vindos do baile do Clube dos Democráticos.

Enquanto Marcellino, procedendo do carro ajudava Marianna a descer, foi surpreendido com a presença brutal de Joaquim que o atirou ao chão e passou a estapear e a sufocar Marianna. Logo obstado desse intuito, Joaquim sacou de um revólver e descarregou dois tiros na indefesa mulher, atingindo-a, causando-lhe angustiosa e dolorosa morte na madrugada de 24 de dezembro. Joaquim ainda descarregou sua arma em Marcellino, produzindo-lhe um ferimento grave.

Joaquim fugiu pelas ruas da cidade e desapareceu.

No exame de corpo de delito feito em Marianna, os Drs. Euphrasio José da Cunha e Germano Melchert informam que na casa da vítima a encontraram moribunda: pálida, com as vistas ensangüentadas… apresentava um ferimento de bordos irregulares de um centímetro de diâmetro no lado anterior do músculo sterno, formando a entrada de um canal causado por um projétil de revólver que atravessou a cartilagem e os músculos adjacentes, indo se alojar do lado oposto. E concluíram: A doente apresenta dificuldade na fala e, sem pulso, é miserável.

No exame de corpo de delito feito em Marcellino, os mesmos médicos encontraram: na região axiliar, na altura da mama, um ferimento causado por um projétil de revólver do lado direito do tórax, formando um canal que se dirige para o lado posterior de modo a achar-se a entrada entre a 6ª e 7ª costelas e a localização da bala na parte posterior entre a 10ª e a 11ª costelas, onde é palpável o projétil. O canal não interessa apenas ao tórax, mas também à pleura e a base do pulmão direito. Consideramos o ferimento grave.

Marcellino declarou ao delegado que voltava com Marianna do baile no Clube dos Democráticos; que a levou até a casa onde ela mora com seu irmão, Francisco Emílio; que viu Joaquim Guimarães vindo da Rua General Osório, esquina com José de Alencar, que se opôs a ele, mas que foi derrubado ao chão; que Joaquim entrou no carro e agarrou Marianna com o fim de ofendê-la; que a mesma gritou e então Joaquim sacou de um revólver e, após dizer algumas rápidas palavras, desfechou dois tiros na mesma e, voltando-se em seguida para ele Marcellino, desfechou mais quatro tiros, descarregando a arma; que após os fatos o acusado saiu pela Rua Conceição até tomar a 7 de Setembro, onde foi perseguido pelo depoente. Disse ainda que Marianna lhe confidenciara, antes de seguirem para aquele Clube, que Joaquim tinha-lhe prometido matá-la, havendo mandado recado para ela ir ao teatro, onde ele a esperava. Mais tarde, estando ele Marcellino com Marianna no Clube, soube que Joaquim estava a espera para ofendê-la.

As testemunhas

José Rodrigues Ribeiro, 29 anos, solteiro, português, negociante, disse que se achava em sua casa, à Rua Regente Feijó, quando atendeu a Joaquim Guimarães, que lhe disse ter cometido um crime, que havia atirado mas não sabia se tinha acertado, não disse em quem atirou. Joaquim pediu-lhe que entregasse a chave de seu armazém a Joaquim Barbosa, e disse que fugiria.

Joaquim Martins Barboza, 26 anos, solteiro, negociante, residente em Campinas. Disse que na véspera esteve com Joaquim Guimarães no teatro e que se tinham retirado antes do fim do espetáculo, que percebeu a agitação de amigo, mas só soube do crime pelos jornais, que Joaquim era homem bem comportado e excelente pessoa, que o conheceu no comércio.

Benedicto da Silva Cantagallo, 32 anos, casado, natural de Atibaia, residente em Campinas. Disse que em uma tarde de dezembro Marianna pediu-lhe que alugasse seu carro para leva-la ao baile no Clube dos Democráticos, que na mesma ocasião Marianna lhe contou que Joaquim prometera ofende-la, que indo ele levar Marianna ao baile e depois de haver deixado-a lá encontrou Joaquim, que lhe perguntou se sabia onde ela estava, dizendo que a mataria quando a encontrasse, que em vista disso disse não saber onde ela estava, acrescentando que mudasse de juízo para não fazer loucuras. Que reconduzindo Marianna pela madrugada até sua casa e estando a madrugada escura e os bicos de gás já apagados, viu surgir Joaquim não se sabe de onde, que penetrando no carro deu uma bofetada em Marianna, sendo então agarrado por ele depoente, que o subjugou com alguma dificuldade, que enquanto mantinha Joaquim seguro deu tempo a que Marianna entrasse em casa, mas esta, tomada de medo, não saiu do carro, que Joaquim puxou um revólver e deu dois tiros em Marianna e logo em seguida atirou em Marcellino. Depois fugiu.

Alonso Barbosa, 18 anos, solteiro, natural de Campinas, carpinteiro. No dia do crime estava na boléia do carro de Cantagallo e confirma o depoimento do parceiro.

O assassino

Joaquim de Souza Guimarães apresentou-se ao delegado de polícia em 1 de dezembro de 1891. Foram dois anos aguardando a apresentação ou a prisão do assassino. Nos autos, Joaquim alegou que ficou cego de ciúmes ao ver que estava sendo traído. Declarou que mesmo não sendo casado com a vítima, vivia em estado praticamente marital com ela, a quem sustentava dando casa e todas as demais condições para que tivesse ótimo padrão de vida, que viera do Rio de Janeiro e que se estabeleceu na Rua General Osório e de longa data tinha relação com Marianna, por quem havia sido tomado por extraordinária paixão, ao ponto de pretender tomá-la como esposa, que a mulher vivia em casa cujo aluguel ele pagava e a ela também fornecia tudo quanto era preciso para sustentá-la e que por um tempo ele até comia na casa dela, que na constância de tais relações um dia ele a surpreendeu na companhia de um homem, que tomado pelo ciúme tratou de exigir explicações de sua amante, que na noite do ocorrido ele a encontrou com um homem em frente a casa de sua residência, que nessa ocasião foi ele agredido a faca pelo indivíduo sem que houvesse precedido qualquer contato violento contra Marianna, que assim agredido e sobre-excitado pela paixão de se ver traído, atirou contra o seu agressor com um revólver e que não lembra quantos tiros desferiu a um ou outro, isto é, somente ao indivíduo que acompanhava Marianna ou se também a esta. Que mais tarde teve notícias pelos jornais que ambos tinham sido feridos.

O julgamento

No julgamento presidido pelo Juiz Souza Lima, a 30 de dezembro de 1891, o réu Joaquim Guimarães foi absolvido pelos crimes de homicídio de Marianna e de tentativa de homicídio de Marcellino. Não houve sequer a apelação da sentença pelo promotor Costa Carvalho, fato que nos leva a concluir que os crimes para os quais se alegava a legítima defesa da honra, como fez a defesa do réu, recebiam bem mais absolvições em relação a qualquer crime contra a propriedade, por exemplo, cujas sentenças e as penas eram muito mais rígidas. Este fenômeno social e jurídico se deu em grande proporção não apenas em Campinas como em todo o Brasil, devido, talvez, pelas circunstâncias emocionais ou morais que decorrem de um julgamento e de uma decisão de Júri popular. Dessa maneira, a lei e os costumes daquela época contribuíram para as absolvições de assassinos violentos, especialmente quando as vítimas eram mulheres.

Referências bibliográficas e documental:

ABRAHÃO, Fernando Antonio. Crimes e criminosos da Campinas cafeeira: 1880 – 1930. Campinas: Ed. Pontes, 2018.
CAMILLO, Ema Elisabete Rodrigues. Guia Histórico da Indústria Nascente em Campinas. Mercado de Letras, 1998, p.80-2.
DIÁRIO DE CAMPINAS, edições de 21, 24 e 25 de dezembro de 1889.
HOMICÍDIO: AESP, TJC, Cx.73, 1442. Ano 1889. Vítima: Marianna Vaz de Lima. Réu: Joaquim de Souza Guimarães. Arquivo do Estado de São Paulo – microfilme 13.03.121.

3 comentários

  1. Interessante essa absolvição, resultante da “DEFESA DA HONRA”, por acaso, os homens são proprietários de suas companheiras? Compraram-nas na feira de vendas de mulheres? Que honra ele tinha, somente por estar pagando as despesas da casa, se é que pagava mesmo?

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