A Revista do Centro de Ciências, Letras e Artes

The Journal of the Sciences, Letters and Arts Center (Campinas, SP, Brazil).

Luiz Carlos Ribeiro Borges – magistrado, escritor. Titular da Cadeira 3 do IHGG Campinas.

A Revista do CCLA constitui um significativo repositório das ideias que animaram os fundadores, dirigentes e colaboradores. Cobre, com algumas interrupções, o período de 1902 a 1959, com mais um número isolado em 1972 e outro em 1976, comemorativo dos 75 anos de fundação.

Abriu-se o primeiro número da Revista com a mensagem dirigida a Santos Dumont, redigida por Coelho Netto, nela também se incluindo as teses elaboradas por Souza Brito, A devastação das matas e por Campos Novaes, Viação férrea geral e navegação fluvial no Brasil.

A predominância das teses científicas seria a tônica das primeiras edições, em diapasão com o ideário original que havia inspirado a criação do Centro. Mesmo quando, no segundo número, Campos Novaes submete Os sertões a uma extensa análise, é sobretudo sob uma ótica de cientista que o faz. No número 11 há a reprodução do libreto da ópera de Sant’Anna Gomes, Alda, cuja montagem o compositor jamais conseguiria concretizar.

Presença das mais assíduas, ao longo de vários anos, é a de Benedito Otávio, membro de sucessivas diretorias e que comparece nas páginas da Revista, da qual foi um dos diretores, através de poesias, traduções e, sobretudo, de estudos de caráter historiográfico, compondo um inestimável inventário histórico em torno da cidade e de seus personagens. Extraídas de um de seus livros, Campinas antiga, de 1905, são dele estas sensíveis palavras, a respeito de dois dos maiores vultos da cidade, os quais, ainda meninos, integraram a banda regida pelo pai, quando da visita do imperador a Campinas, em 1846:

Um daqueles meninos, o mais velho, por aí anda, encanecido e modesto, podendo ter sido um grande na história da arte; e outro cresceu, partiu, atravessou os mares, penetrou nos áditos da glória, encheu de renome o seu pequeno berço, tornou-se maior do que todos os que assistiram às festas de 1846, mas foi um desventurado, por isso que era um gênio. Chamavam-se eles – José Pedro de Sant’Anna Gomes e Antônio Carlos Gomes.

Dentre as edições da Revista que, após uma breve interrupção, vieram a lume entre 1912 e 1914, devem ser lembradas algumas particularidades, como a primeira colaboração feminina, publicada no número 28, assinada pela gentil e talentosa senhorinha campineira Henriqueta de Souza Ramos. Tratava-se da narrativa de uma lenda local em torno da capelinha da Santa Cruz do Fundão, situada nas imediações da estrada de rodagem, que desta cidade vai à morada dos mortos.

A edição de número 31, de junho de 1913, daria destaque à Exposição Segall realizada no Centro. O acontecimento é significativo, porque o lituano Lasar Segall, recém-chegado ao Brasil, trazia da Europa as novidades na área das artes plásticas, representadas pelos movimentos de inspiração expressionista. A exposição assinala que:

é de justiça destacarmos uma obra das de maior sucesso da nova escola que se concertou em denominar cubismo, O Violonista, trabalho magistral, de forte inspiração que nos leva a preferi-lo ao impressionismo, não obstante a má vontade dos detratores desta nova expressão de arte na pintura.

Nos demais números, nota-se a crescente presença de textos voltados para as letras e as artes, junto aos que continuam abordando assuntos de caráter científico: entre um ou outro estudo sobre botânica, sobre o evolucionismo de Darwin (Transformismo e evolução, número 33) , ganham espaço poesias, traduções de poetas clássicos, considerações sobre o próprio ofício de traduzir (Traduttore traditore, de Alberto de Faria, número 35) e até um trabalho sobre a literatura eslava – além da transcrição de um discurso de Júlia Lopes de Almeida (escritora que em Campinas havia iniciado a sua atividade literária) e da reprodução de uma peça teatral de Rafael Duarte, A preceptora (número 37).

A assembleia geral realizada em janeiro de 1916, que Carlos de Paula definiu como agitadíssima, marcou, pela vez primeira, um confronto entre inovadores e conservadores, com a consequente exoneração de grande parte destes. Dessa disputa, ascendeu à presidência o jornalista Alberto Faria, passando a acumular esse cargo com o de diretor da Revista. Esta, sob a sua condução, inclina-se decisivamente no sentido de priorizar textos literários, com a presença marcante de autores de São Paulo e do Rio de Janeiro, dentre eles muitos ligados às Academias Paulista e Brasileira.

Assim, nos exemplares de números 38 a 46, que cobrem os anos de 1915 a 1920, são constantes as colaborações de João Ribeiro e Alberto de Oliveira, inéditos de José de Alencar e de Taunay, fac símiles de manuscritos de Olavo Bilac e Raimundo Correia. O próprio Alberto Faria viria a ocupar, a partir de 1919, uma cadeira na Academia Brasileira de Letras. Dele, o número 44 traz um precioso estudo sobre a Imprensa em Campinas, desde os seus primórdios.

Aquela vocação do Centro para a abertura de veredas voltaria a se manifestar em 1920, quando abre as páginas de sua Revista para um trabalho de Jackson de Figueiredo em torno de um obscuro poeta baiano, Pedro Kilkerry, falecido poucos anos antes (1917) e cultor de uma vertente simbolista ainda mais à margem do próprio simbolismo, o qual só muitas décadas depois seria revisto e doidamente valorizado, por versos como estes:

Agora sabes que sou verme.
Agora, sei da tua luz.
Se não notei minha epiderme…
E, nunca estrela eu te supus.
Mas, se cantar pudesse um verme,
Eu cantaria a tua luz!

Foi já em 1926, na gestão da diretoria presidida por Carlos Francisco de Paula, que, por sugestão do orador, Abilio Álvaro Miller, empreendeu o Centro uma campanha visando a vinda para Campinas, do piano que fora de Carlos Gomes, e que permanecia em Belém do Pará, onde o maestro falecera. A revista de número 53 contém um farto dossiê sobre a documentação a respeito dessa reivindicação, que só foi alcançada mediante árduos esforços, que o piano era reivindicado pelo Museu Histórico Nacional, sediado no Rio de Janeiro, o qual contou com o apoio da revista Fon-Fon, que não hesitou em rotular o Centro como uma associação particular confinada em uma cidade do interior – no fim, prevaleceram o trabalho e a tenacidade enaltecidas na Sessão Comemorativa do Aniversário do Centro, em 1927: dias depois, em 28 de novembro, o piano ingressava em triunfo no salão da entidade, e em sua sede até hoje permanece, constituindo uma das peças mais vistosas do Museu Carlos Gomes.

Sem sonoridade, no início da década de 1950, e tendo sofrido a ação do tempo, o piano seria restaurado logo depois, na gestão de Roberto Pinto de Moura; muitos anos depois, em 1996, na administração de Dayz Peixoto Fonseca, outro processo de restauração permitiria a sua utilização pelo pianista uruguaio, Julio Cesar Huertas, em concerto comemorativo do centenário do falecimento de Carlos Gomes.

A década de 1950 também assinala o ingresso no Centro de associados imbuídos de ideias de modernização, o que não tarda a se refletir na própria Revista, que passa a ser dirigida pelo jornalista Francisco Isolino de Siqueira; o próprio Isolino escreve, no número 62/63, sobre como repercutiram em Campinas, ainda na década de 1920, as ideias em torno do futurismo e do movimento modernista, as quais tiveram seu próprio pai, Hildebrando Siqueira, como um dos seus divulgadores mais atuantes, na cidade e na região (Apontamentos para um capítulo da história do modernismo).

Mas seria o número 65, correspondente aos anos de 1958-1959, a marcar drástico rompimento com o perfil tradicional da Revista, através das ilustrações de Raul Porto e dos poemas de Alberto Amêndola Heinzl, artistas comprometidos com novíssimos ideais estéticos, circunstância que ocasionaria forte reação por parte dos sócios mais conservadores.

Eventual refluxo depois dessa atitude de ousadia ou mera contingência financeira, a realidade é que depois disso sobreviria um silêncio de dez anos. A Revista só voltaria em 1972, sob a direção de Alcy Gigliotti e com material menos controvertido: educação cinematográfica, um perfil histórico do Centro, por José Alexandre dos Santos Ribeiro e Francelino Piauí, um estudo sobre o Aleijadinho, pelo próprio Alcy.

Mais alguns anos decorrem até o advento da última Revista, dirigida por Sérgio Castanho, comemorativa dos 75 anos do Centro. A edição Jubilar de 1976. Além de outros diversos textos e de mais uma sinopse histórica elaborada por José Alexandre e Piauí, esse derradeiro número contém uma verdadeira reflexão da Revista sobre si mesma, de autoria do admirável historiador Odilon Nogueira de Matos, sob o título O espelho de uma instituição: a Revista do Centro de Ciências, Letras e Artes. Nesse texto, seu autor ressalta a multiplicidade dos temas e áreas de conhecimento abordados pela Revista ao longo dos mais de 70 anos em que ela foi publicada. E alerta para a imperiosa necessidade de ser empreendido um estudo mais amplo e profundo acerca de seu conteúdo, naquilo que ele revela do que foram as mais marcantes preocupações intelectuais que, não só em Campinas mas no país, dominaram os primeiros três quartos do século.

A essa edição acoplou-se, em dezembro de 1977, um suplemento, divulgando o discurso que Nelson Omegna. Jornalista, professor, escritor, deputado federal, ministro, presidente do CCLA nas gestões de 1937 a 1944, Omegna desenvolveu um original estudo sobre a Origem e evolução do Centro de Ciências, Letras e Artes. Ele percebe que a presença dessas antinomias históricas constituiu fator determinante da própria sobrevivência da entidade, aí já entrevendo a peculiar identidade do CCLA, pois:

Ai das sociedades unânimes no mesmo parecer, uniformes na conduta, homogéneas na igualdade das opiniões. Perecem fatalmente, na mesmice monótona da sua paz improdutiva e silenciosa.

Referência bibliográfica:

MAZZOLA, Gustavo Osmar e BORGES, Luiz Carlos Ribeiro. Centro de Ciências, Letra e Artes – CCLA – Ano 101. Campinas: Komedi, 2002. 104p.

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