Revelando a doença e a morte em Campinas no final do século XIX

Revealing diseases and death in Campinas at the end of the 19th century.

Matheus Alves Albino – demógrafo. Doutorando em demografia na Universidade Estadual de Campinas, Unicamp.

As doenças ocupam importante espaço entre as preocupações da população e do poder público, ou pelo menos deveriam. Enquanto hoje temos à disposição uma grande variedade de estatísticas epidemiológicas, o comportamento da mortalidade das populações no passado ainda é repleto de imprecisões e incertezas. Em minha pesquisa de mestrado, defendida recentemente no Instituto de Filosofia e Ciência Humanas da Unicamp, sob o título Revelando a doença e a morte: morbidade e mortalidade em Campinas, 1875–1900, investiguei a mortalidade e a morbidade nesse município durante o último quarto do século XIX. Esse trabalho foi realizado com apoio da Coordenação de Aperfeiçoamento de Pessoal de Ensino Superior, CAPES.

Até o final do século XIX, Campinas foi conhecida como a capital agrícola da província, por rivalizar com São Paulo em termos de crescimento econômico e populacional graças à sua pujante economia cafeeira. Às vésperas da abolição, a cidade possuía a maior população escravizada da província, além de um grande número de imigrantes e de brasileiros livres vindos de outras províncias, atraídos pelas oportunidades de trabalho. Porém, apesar da posição econômica privilegiada, o município não escapou de intensas crises de doenças infecciosas, desde os surtos de varíola até as conhecidas crises de febre amarela.

Nesse cenário de enfrentamento das epidemias, a cidade contou com pelo menos seis hospitais e ambientes de isolamento dedicados a atender a população: o Asilo dos Morféticos (1863), o Hospital de Variolosos (1874), a Santa Casa de Misericórdia (1876), a Sociedade Portuguesa de Beneficência (1879), o Circolo Italiani Uniti (1881) e o Hospital de Isolamento do Fundão (1890). Com a fama de antecâmaras da morte – como eram conhecidos os lugares onde se aguardava a morte causada por doenças – uma parcela considerável da população não foi atendida nos hospitais ou mesmo recusou a assistência da ciência médica, preferindo a outros profissionais das artes de curar, como curandeiros, práticos, parteiras e homeopáticos, talvez mais próximos de suas crenças religiosas e de suas concepções culturais de doença.

A Santa Casa de Misericórdia de Campinas, fundada em 1876 pelo Cônego Joaquim José Vieira, foi o primeiro e, por longo tempo, o mais importante hospital filantrópico da cidade e da região, chegando até os dias recentes com grande respeitabilidade. Reuni durante minha pesquisa as informações relativas a 24 anos de matrículas, altas e óbitos dos enfermos desse hospital, de outubro de 1876 a dezembro de 1900. Somei a isso dois anos de registros do Lazareto do Fundão (1890 e 1892) e do Registro Civil de Óbitos dos cartórios de Conceição e Santa Cruz de Campinas (1889–1900).

Trata-se de levantamento inédito da documentação que está sob a guarda do Centro de Memória – Unicamp e do Arquivo Municipal de Campinas, que contou com informações populacionais dos primeiros censos brasileiros, das estatísticas demógrafo-sanitárias e de uma série de relatórios administrativos, receituários e dicionários de medicina.

A partir dos óbitos do município entre 1889 e 1900, identifiquei cinco períodos nos quais a mortalidade ultrapassou os níveis considerados normais: 1889, 1890, 1892, 1896 e 1897. Esses anos coincidem com os surtos epidêmicos de febre amarela. Outro período de mortalidade extraordinária ocorreu em 1891, causado pelas mortes de pneumonia e broncopneumonia. Homens morreram mais do que mulheres, principalmente em idades adultas, e a mortalidade infantil foi extremamente elevada, da ordem de 200 óbitos a cada mil crianças nascidas vivas.

A população estrangeira foi a mais vulnerável à febre amarela por não terem contato anterior com o agente causador. No entanto, é notável que os brasileiros foram atingidos em grande quantidade por todos os tipos de doenças infecciosas, transmitidas por água e alimentos (diarreia e disenteria, cólera infantil), pelo ar (tuberculose, bronquite, pneumonias) e por vetores (malária, febre amarela, ancilostomíase).

Diante das mortes dos estrangeiros, as melhorias em infraestrutura urbana nas cidades atingidas pela febre amarela ganharam urgência, sob o temor de comprometer a imigração no momento decisivo para a economia. Campinas tornou-se, nos anos finais do XIX, um laboratório das políticas de combate aos mosquitos, com a vedação de poços, drenagem de áreas alagadas e demolições de casas consideradas insalubres. Outras medidas da Intendência Municipal para suprir a salubridade urbana, se deram com a implantação do sistema de águas e esgotos, calçamento das ruas e melhoria da coleta de lixo, atividades que tiveram papel importante no controle das enfermidades.

Apesar da grande carga de doenças infecciosas que grassaram na população campineira , identificamos uma convergência entre o peso das doenças infecciosas e das não infecciosas ao longo do tempo. Essa característica indica que uma mudança lenta no perfil epidemiológico da cidade estava para acontecer. Com a eliminação dos focos dos vetores da febre amarela, em 1897, ela desapareceu por completo em Campinas nos anos seguintes, esvaziando o hospital de isolamento do Fundão e  marcando profundamente a memória dos moradores da cidade.

A população hospitalizada de Campinas foi em grande parcela composta por homens em idade ativa. No hospital do Fundão encontramos um dos raros registros individuais de casos de cura por febre amarela, correspondentes aos anos de 1890 e 1892. Nota-se a forte presença de estrangeiros, sobretudo italianos e portugueses. Com o uso de receituários médicos, foi possível identificar que o tipo de tratamento experimental baseado no tratamento da malária (com o uso da quinina), pouco alterou as chances de vida e morte dos pacientes já bastante graves.

Na Santa Casa predominaram as doenças transmitidas pelo ar, como a tuberculose e as pneumonias. Enquanto o tratamento da malária foi bastante efetivo, no caso da tuberculose ele foi absolutamente ineficaz, demonstrando que a descoberta dos agentes causadores das doenças não necessariamente resultou em um avanço na cura. O número de acidentes, lesões cardíacas e reumatismos revela uma face da morbidade que não é visível pelos óbitos do município: tratavam-se de doenças ligadas às condições de vida e de trabalho, na maioria das vezes não fatais.

As pessoas que mais enviaram escravos para as enfermarias da Santa Casa foram membros da elite campineira, como a Baronesa de Limeira, o Barão Geraldo de Rezende e o Conselheiro Albino J. B. de Oliveira, que participaram como doadores de fundos ou como membros da administração da Irmandade. A partir da abolição da escravidão, a maior parte dos trabalhadores enviados para a Santa Casa passou a ser das Companhias de transportes ferroviários, a Paulista e a Mogiana, assim como dos antigos proprietários de escravos, revelando os benefícios econômicos, de prestígio e status envolvidos no tratamento dos trabalhadores por meio da filantropia.

Essa população escravizada experimentou mortalidade mais elevada do que a de pessoas livres. A maior parte desse diferencial deveu-se às condições de vida, alimentação e trabalho impostas pelo cativeiro. Por mais que em alguns casos os trabalhadores livres tivessem jornadas de trabalho mais intensas do que os escravizados, a escravidão foi brutal e a liberdade mostrou-se como um recurso decisivo para aumentar as probabilidades de sobrevivência nessa sociedade.

Os registros mostram que os brasileiros morreram no hospital mais do que os estrangeiros. Atribuímos esse resultado ao fato de que a população estrangeira que experimentou maiores probabilidades de morte não chegou a acessar a Santa Casa: morreram sem assistência médica, na rua, nos lazaretos, em outros hospitais como o Circolo Italiani e a Beneficência Portuguesa, ou abandonados nas linhas do trem. As redes de solidariedade, instituições filantrópicas e as sociedades de beneficência dedicadas à saúde dessa população fizeram com que parte dos estrangeiros evitasse a exposição ao risco de morte em algumas circunstâncias. Todavia, certamente, esse não foi o destino de muitos outros cidadãos que, juntos aos brasileiros pobres, tiveram suas vidas encerradas sem qualquer auxílio nos tempos das epidemias.

Essa pesquisa teve o grande infortúnio de ser encerrada em um momento singular. Uma nova doença infecciosa, a Covid-19, causada pelo vírus SARS-CoV-2 desafia os sistemas de saúde e a assistência médica em todo o mundo. Como a febre amarela ou a gripe espanhola nas populações do passado, as novas doenças trazem a necessidade de repensar a vida em sociedade e as políticas públicas na contemporaneidade.

A emergência do estudo de novas e velhas epidemias, o surgimento e ressurgimento de várias doenças, o desaparecimento de outras e a persistência de desigualdades profundas no acesso a recursos entre diferentes populações e regiões do mundo nos relembram que a batalha contra as doenças infecciosas não está vencida.

Foto do destaque: Santa Casa de Misericórdia de Campinas e Asilo de Órfãs. Coleção de Cartões Postais de Antônio Miranda, Centro de Memória – Unicamp.

Referências bibliográficas:

ALBINO, Matheus Alves. Revelando a doença e a morte: morbidade e mortalidade em Campinas, 1875-1900. 167 p.  Dissertação (Mestrado em Demografia) – Instituto de Filosofia e Ciências Humanas, Universidade Estadual de Campinas, 2020.
RIBEIRO, Maria Alice Rosa. História sem fim… Inventário da saúde pública: São Paulo, 1880–1930. São Paulo: Editora da Unesp, 1993.
SANTOS FILHO, Lycurgo; NOVAES, José Nogueira. A febre amarela em Campinas, 1889-1900. Campinas: Centro de Memória – Unicamp, 1996.
TELAROLLI JÚNIOR, Rodolpho. Assistência sanitária e condições de saúde na zona rural paulista na Primeira República. Revista Brasileira de Estudos de População, Brasília, DF, v. 14, n. 1/2, p. 3–17, 1997.

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