A Pesquisa de Sonoridade na Ópera de Carlos Gomes

The Research of Sonority in Carlos Gomes`s Opera.

Maria Luiza Silveira Pinto de Moura* – escritora, bibliotecária do CCLA, Patronesse da Cadeira Nº 37 do IHGG Campinas e Décio Silveira Pinto de Moura* – escritor, psiquiatra. 

A observação da música de Carlos Gomes escritas para os ballets permite-nos ver seu toque personal mesmo quando compõe danças não nacionais, tais como, a tarantela, sarabanda e outras.

Esse toque personal a que nos referimos está aqui registrado para afirmar que a musicalidade do nosso Maestro está arraigada no esquema mental formado na infância, adolescência e juventude, quando viveu em Campinas, de certa forma despreocupado, isento das grandes responsabilidades que enfrentaria mais tarde e sentido mais próximo do apoio dos familiares. Por isso marcou-o o que poderemos chamar de brasilidade.

Suas melodias ganhariam então parentesco na doçura da linha melódica com as modinhas que se cantavam nas salas de visitas ou nas reuniões de amigos, essa música que veio de Portugal e naturalizou-se brasileira assim como o fado nasceu aqui e naturalizou-se português.

Nos dias de hoje, difícil é esperarem-se gênios que a ele possam equiparar-se, não por falta de potencial intelectual mas, pela destruição da cultura brasileira progressivamente trabalhada pela multimídia. Como fruto de um colonialismo cultural, assistimos à poluição sonora que influi irreversivelmente na formação da nossa juventude.

Carlos Gomes, ao tempo de formação, do aprendizado, não sofreu o ataque do capital predador, do capitalismo selvagem. Nada era na época imposto culturalmente que viesse cercear a manifestação da genialidade criadora dos futuros intelectuais. Assim também se revelaram em outros campos da cultura nomes hoje sacrossantos. Carlos Gomes também eternizou-se. Se lhe fizessem oposições, censuras, injúrias, seu nome é ainda idolatrado.

Quando compõe músicas ligadas a costumes estrangeiros, cria algo original que não assemelha a outros compositores. Nos ballets, a arte que harmonizou lindas linhas melódicas, e manifesta também nos contrastes, no choque de intensidade sonoras, do fortíssimo logo abafado para o piano ou pianíssimo c ainda nas surpresas do ritmo, em que se alternam sons e pausas, contratempos, crescendos, ralentandos e outros recursos. Nas linhas melódicas ainda encontramos vários tipos de ornamentos, desde apogiaturas, cromatismos, até nos recursos de modulação.

Esses contrastes que libertam as composições de escravagismo a estereótipos soube colocá-los sempre nos momentos adequados a até desejados, Permitem ao ouvinte percepção guestáltica dado que a configuração prezada ganha realce. Com isso quebrou Carlos Gomes a espécie de automação em que os compositores se conduzem. Cada música procedente do folclore regional era composta mais ou menos nos mesmos padrões anteriores, em estereótipo, como se os compositores meramente se desincumbissem das tarefas. Carlos Gomes não se desincumbiu simplesmente. Realizava-as dentro de todos os princípios da estética musical.

Veja-se, por exemplo, sua sarabanda ou sua tarantela e outras do gênero regional, em que se parecem com as anteriormente concebidas?

Com referência à prisão às coisas nacionais ainda nos vemos emocionados por ter ele obstinação em levar para a Europa notícia sobre nossos índios e africanos escravizados, mostrando por lá as qualidades artísticas já demonstradas em cultura tão estranha de iletrados. E de fato o pendor para as artes nos indígenas sul-americanos tem sido até surpreendentes. Se fazem instrumentos para soar alguma música, pintam esses lavrando-os, recamando-os, adornando-os como se isso não fosse supérfluo para a finalidade buscada. Na cerâmica, a cada dia arqueólogos encontram novidades das peças  Marajoara. Na literatura não temos registros, mas há referência em Silvio Romero sobre a descoberta, em uma gruta, do poema de uma silvícola de antes da descoberta do Brasil, cuja tradução para o português contém esse verso: Lua branca, Lua branca. Desperta no meu amado uma lembrança de mim. Como vemos qualquer poeta dos civilizados gostaria de assinar este verso. Os indígenas manifestaram-se também nas artes plásticas, em pinturas que se encontram nas grutas, na indumentária diferenciada para os dias de festas e nos adereços. Já sentiam secularmente a fome do belo.

Ao pensarmos no assunto sentimos no fundo da alma o genocídio que reduziu os indígenas a pouco mais de trezentas mil pessoas, lesando a comunidade brasileira do precioso patrimônio genético.

Carlos Gomes, movido por grande sentimento patriótico, soube orgulhar-se desse povo levando notícia dele para seus ballets. Entretanto, ao pensarmos sobre o assunto parece-nos que a essa intenção se soma outra, que se provada mostra mais uma faceta inovadora do nosso Maestro.

Sabemos que Carlos Gomes fez experimentos com timbres ao compor os ballets. A primeira foi feita com instrumentos indígenas em O Guarani, repetida em O Escravo como também no Colombo.

Ora, se tivesse por interesse apenas exibi-los ao público seria suficiente levar cilindros de madeira pintados como as flautas ou outros, sem necessidade de perfurá-los e de exigir que soassem.

Mas, o maestro não quis apenas exibi-los como um espetáculo coreográfico; fez música com eles. Como possuía apenas um ou outro exemplar de cada tipo, percorreu a Itália em busca de fabricante que os reproduzisse em número suficiente e a reprodução foi baseada nos exemplares que possuía.

Todavia, raciocinemos. Os instrumentos de madeira, que os indígenas fabricam sem tratamento especial, são sem dúvida rústicos. Ao saírem de um país de clima tropical para a Itália, forçosamente sofreram as diferenças de clima. Não poderiam soar notas com a justeza conseguida por instrumentos de orquestra, sempre de boa qualidade e afinados no diapasão. Como o fabricante copiou os modelos de posse do Maestro, na reprodução fabricou instrumentos consoantes.

E impossível que Carlos Gomes não soubesse dessas diferenças na sonoridade. Daí deduzirmos que houve intenção de conseguir novos timbres com a fusão de sons em defasagem de intervalos de quarto de tom, ou menores ainda. Junte se a isso a prova de que colocou banda em confronto com a orquestra na Festa das Marias.

Se nossa hipótese puder ser confirmada por estudos de alguém que se dedique somente à musicologia ou à acústica ou a ambas, Carlos Gomes pesquisou, embora não tenha dissertado sobre os estudos e apenas colocou nas partituras. Se isso ocorreu, nosso Maestro antecedeu às pesquisas de Ravel, explícitas no seu famoso Bolero e até antecedeu os negros norte-americanos, que criaram as tão belas blue notes.

Ansiamos por que os dedicados estudiosos confirmem nossa hipótese e que possam salientar mais um trabalho inovador do nosso idolatrado Maestro Carlos Gomes.

* In memoriam.

Referências bibliográficas:

ACHAR, Dalal. Ballet, Arte, Técnica, Interpretação. Rio de Janeiro: Cia. Brasileira de Artes Gráficas, 1980.
ALENCAR, José Martiniano de. O Guarani em obras completas. Rio de Janeiro: Ed. José Aguilar, p 25 – 280, 1964.
ALMEIDA, Renato. História da música brasileira. Rio de Janeiro: Briguiet, 1942.
AMBERG, George. Ballet. New York: A Mentor, 1951.
ANDRADE, Mário. Danças dramáticas do Brasil. 2a ed. Belo Horizonte: Ed. Itatiaia, INL, 1982.
DICIONÁRIO Musical Brasileiro. Rio de Janeiro: Itatiaia, 1989.
ANTONIO Carlos Gomes: 1836-1896 – Dal Brasile a Milano. Milano: Centro Culturale Italo-Brasiliano, 1986.
AZEVEDO, Fernando. A Cultura Brasileira. 4a ed. São Paulo: Melhoramentos, 1964.
AZEVEDO, Luís Heitor Correia. Bibliografia Musical Brasileira: 1820 1950. Rio de Janeiro: INL, 1952.
BALDUS, Herbert. “Breves notícias sobre o mbyá-guaraní de Guarita”. In: Revista do Museu Paulista, v. 6, p. 479-487, 1952.
BALDUS, Herbert. Tapirapé, tribo tupi no Brasil Central. São Paulo: Companhia ed. Nacional.
BARBOSA, Lessa. Primeiras noções de teatro. São Paulo: Alves, 1958.
BARON at the Ballet: introduction and commentary by Arnold L. Haskell; Foreword by Sacheverell Sitwell. London: Collins, 1951.
BAS, Júlio. Tratado de la forma musical. Buenos Aires: Ricordi Americana, 1965.
BATISTA FILHO, Zito. A ópera. 4a edição. Rio de Janeiro: Nova Fronteira, 1987.
BEAUMONT, Cyril W. O livro do Ballet. Porto Alegre: Globo, 1953.
BIERRENBACH, César. Produções literárias. Curitiba: Livraria Universal, 2 volumes, 1937.
BOCCANERA Jr., Sílio. In Memoriam: Um Artista Brasileiro. Bahia: qyp. Bahiana de Cincinnato Melchiades, 1913.
BORBA, Tomas et al. Dicionário de Música. Lisboa: Kosmos, 2 volumes, 1962.
BOTAFOGO, Ana et al. Ana Botafogo na magia do Palco. Rio de Janeiro: Nova Fronteira, 1993.
CAMARGO, Odecio. Maneco Músico. In: Revista do Centro de Ciências, Letras e Artes de Campinas; edição comemorativa do Primeiro Centenário de Carlos Gomes, v. 22, n. 56, p 23-4, 1936.
CAMEU, Helza. Instrumentos musicais dos indígenas brasileiros. Rio de Janeiro: Biblioteca Nacional, Funarte, 1979.
CARLOS Gomes: uma obra em foco. Edição comemorativa do Sesquicentenário do Compositor, por Vicente Salles e outros. Rio de Janeiro: Funarte, 1987.
CARLOS Gomes Nel 150o Aniversario della nascitá. Milano: Shumenti, 1936.
CARPEAUX, Otto Maria. Uma nova história da música. 4a ed. Rio de Janeiro: Alhambra, 1977.
CARVALHO, Itala Vaz de. Vida de Carlos Gomes. 3 a ed. Rio de Janeiro, “A noite”, 1946.
CATHARINO, José Martins. Trabalho de índio em terras de vera ou santa Cruz e do Brasil. Rio de Janeiro, Salamandra, 1995.
COLOMBANI, Alfredo. L’Opera italiana nel secolo XIX. Milano: Tipografia del Corriere della Sera, 1900.
CORRIERE Mercantila. Gênova, 1982.
CORTE, A. Della et al. Dizionario di musica. Torino: G. B. Paravia, 1945.
CORTE, A. Della. História da Música. 2a ed. Barcelona: Labor, 1965.
DUECENTO ANNI ALLA SCALA. Milano: Electa Editrice, 1978.
DUFOURCQ, Norbert. La musique des origines a nos jours. Paris: Librairie Larousse, 1946.
ENCICLOPÉDIA de Música Brasileira Erudita, Folclórica e Popular. São Paulo: Art ed. 1977.
ECCLES, John C. O conhecimento do cérebro. São Paulo: Ateneu, 1979.
EHRENZWEIG, Anton. Psicanálise da percepção artística: uma introdução da teoria da percepção inconsciente. Rio de Janeiro: Zahar, 1977.
ELIMERICH, Luís. História da Música de São Paulo: Boa Leitura, 2 volumes, 1962.
FUX, Robert. Dicionário Enciclopédico da Música e Músicos. São Paulo: Gráfica São José, 1957.
GAELZER, E G. Bailados do Folklore internacional. Porto Alegre: Globo, s.d.
GAZZETTA Musicale de Milano. Antonio Ghilanzoni, 1884.
GROVE, Geoge. Dictionary of music and musicians. New York: St. Martin Press, 9 volumes, 1955.
HORTA, Luiz Paulo. Caderno de música: cenas da vida musical. Rio de Janeiro: Labor, 1983.
HOWELER, Casper. Enciclopedia de la musica. Barcelona: Editorial Noguer, 1978.
HUGO, Victor. Maria Tudor: ouevres complàtes. Paris: Nelson ed., 1883.
ILUSTRAÇÃO Musical: Revista de Cultura e informes musicais, 1931.
KINNEY, Troy et al. The dance its place in art and life. New York: Frederick A. Stones, 1914.
KOBBÉ, Gustave. O livro completo da ópera; editado pelo Conde de Harewood. Rio de Janeiro: Zahar, 1944.
LIFAR, Serge. Traité de dance académique: dessins de Monique Lancelot. Paris: Kapp a Nanves, 1952.
LAVIGNAC, Albert. La musique et les musiciens. Paris: Libraire Delagrave, 1920.
MACEDO, Agenor F. de et al. O índio brasileiro. Rio de Janeiro: Ferreira de Matos, 1935.
MANZIER, H. H. Música e instrumentos de música de algumas tribos do Brasil. Rio de Janeiro: Instituto Nacional de Música, 1934.
MARIZ, Vasco. História da Música no Brasil. Rio de Janeiro: Civilização Brasileira, 1981.
MARTINS, Wilson. História da inteligência brasileira. São Paulo: Cultura, 7 volumes, 1978.
MELATTE, Júlio Cesar. Índios do Brasil. Brasília: Editora Brasília, 1970.
MIRA Y LOPES, Emilio. Definición de los conceptos psicológicos fundamentales. Buenos Aires: El Ateneo, 1952.
LA MUSIQUE Populaire: Le Ballet. Paris: 1882.
A MÚSICA no Rio de Janeiro Imperial: 1822 – 1870. Rio de Janeiro: MEC, 1962.
OLIVEIRA, Carlos Estevam. Os campos de águas belas. In Revista do Museu Paulista. Tomo XVII, 1a parte, 527. São Paulo: Ideal, 1931.
THE OXFORD Illustrated History of Opera. New York: Oxford University Press, 1994.
PENALVA, José. Carlos Gomes: o compositor. Campinas: Papirus, 1986.
PENALVA, José. Carlos Gomes e seus horizontes. Curitiba: Fundação Cultural de Curitiba, 1966.
OLIVIER, Giovanina Gomes de Freitas. Um olhar sob o conceito de esquema corporal, imagem corporal, consciência corporal e corporeidade. Tese de mestrado da Unicamp. Campinas: Unicamp, 1955.
REVISTA Brasileira de Música. Carlos Gomes. Rio de Janeiro: Instituto Nacioanal de Música da Universidade do Rio de Janeiro, 1936.
ROHRACHER, Aubert. Origen de las percepciones. Barcelona: Ed. Cientifico-Médica, 1967.
ROSAY, Madeleine. Dicionário de Ballet. 5 a ed. Rio de Janeiro: Ed. Nórdica, 1980.
SCHADEN, Egon. Aspectos fundamentais da cultura guarani. São Paulo: Difusão européia do livro, 1962.
SALAZAR, Adolfo. La musica en la sociedad europeia. Madrid: Alianza editorial, 1983.
SANDVED. El mundo de la musica: guia musical. Madrid: Espasa Calpe, 1962.
SCHILDER, Paul. A imagem do corpo. São Paulo: Martins Fontes, 1980.
SINZIG, Pedro. Dicionário musical. 2 a ed. Rio de Janeiro: Kosmos, 1976.
SOUSA, J. Galante. O teatro no Brasil. Rio de Janeiro: INL., 2 volumes.
STEPHAN, Rudolf. Música. Lisboa: Ed. Meridiano, 1968.
TRANCHEFORT, François Rene. Los instrumentos musicales en el mundo. Madrid: Alianza, s.d.
VETRO, Gaspare Nello. Antonio Carlos Gomes: carteggi italiani. 3 volumes. Milano: Nouve edizione, 2002.
VON DEN STEIN, Karl. Entre os aborígines do Brasil Central (Ornamentação de máscaras e adornos para danças). São Paulo: Depto. de Cultura, 1940.
VERÍSSIMO, Ignacio José. André Rebouças através de sua autobiografia. Rio de Janeiro: José Olympio, 1939.
ZAMACOIS, Joaquim. Teoria de la Música. Buenos Aires: Labor, 1986.

Acervo da Academia de Ballet Lina Penteado.
Acervo Ballet Juliana Omatti.
Acervo Fundação Jürgensen.
Acervo Centro de Ciências Letras e Artes de Campinas.
Acervo Maria Silvia Genaro.
Acervo Reinaldo Ciasca.
Acervo Jose de Castro Mendes.

Deixe uma resposta

Preencha os seus dados abaixo ou clique em um ícone para log in:

Logotipo do WordPress.com

Você está comentando utilizando sua conta WordPress.com. Sair /  Alterar )

Foto do Google

Você está comentando utilizando sua conta Google. Sair /  Alterar )

Imagem do Twitter

Você está comentando utilizando sua conta Twitter. Sair /  Alterar )

Foto do Facebook

Você está comentando utilizando sua conta Facebook. Sair /  Alterar )

Conectando a %s