Colombo (1892)

Colombo (1892). Carlos Gomes`s Opera

Maria Luiza Silveira Pinto de Moura* – escritora, bibliotecária do CCLA, Patronesse da Cadeira Nº 37 do IHGG Campinas e Décio Silveira Pinto de Moura* – escritor, psiquiatra. 

Colombo é um poema-vocal-sinfônico composto por ocasião em que se comemorou o quarto centenário do descobrimento das Américas. É difícil escolher a obra de Carlos Gomes que melhor representa a grandeza e a maturidade e a maior contribuição musical do grande Maestro. Mas, se fôssemos forçados à opção, escolheríamos o Colombo, dados o equilíbrio das partes e a estrutura da obra, absolutamente ponderados no que se nota perfeita relação entre a textura sinfônica e vocal, e que reveste com a maior perfeição o libreto escrito por Albino Falanca.

O poema contém quatro partes que constitui verdadeira epopeia que surgiu no coração do nosso Maestro para novamente provar o amor à terra natal, deitada eternamente nesse berço esplêndido, O Novo Mundo.

Principalmente nos entusiasma a ideia, já defendida, de que participou no libreto e na redução da partitura para piano. Então, a obra é totalmente sua e por ser a mais perfeita das suas composições permite a ilação de que alguns problemas nas óperas correm por conta do libretista e do público em que se apresentavam, e isso significa que Carlos Gomes nunca deveria ter dividido a sua genialidade.

A primeira parte reza que Colombo, desesperançoso do anseio de descobrir novas terras, sobe ao convento da Rabida em busca de hospitalidade e especialmente de paz. O ambiente é de noite fria e escura e, à distância, o murmúrio do mar exaltado pelo vento que sopra faz fundo para o soar do canto dos pescadores distantes, o que provoca palavras desesperadas em Colombo. No convento há paz e ele ouve o som do órgão e o cantar da ave-maria, quando um frade o aborda interrogando sobre o seu momento íntimo.

Colombo expõe seus anseios e a ideia de ser obstado e, o frade ao perguntar se teria anseios mais sublimes, consulta-o sobre o ingresso no convento e o reforço da fé. No diálogo, diante da insistência do frade e da obstinação de Colombo, o frade promete tentar auxiliá-lo, prometendo-lhe conduzi-lo à Corte. O frade diz – Vamos, abraçando-se a ele. No mosteiro soa um Te Deum.

A segunda parte se passa no palácio real quando celebra-se a vitória contra os sarracenos e estão presentes o rei D. Fernando, a rainha Isabel, damas e fidalgos que cantam homenagens às armas da Espanha.

O rei ainda lastima as ameaças aos seus desejos relativos ao Santo sepulcro e os presentes gritam em favor de guerra ao Islã. A rainha Isabel tenta demover D. Fernando de seu ímpeto guerreiro e aqui dá-se um dueto romântico na peça em que a rainha Isabel se mostra muito amorosa e D. Fernando se mostra decidido irredutivelmente.

Entram o frade e Colombo. Depois da apresentação aos reis e de ser interrogado sobre o pedido a fazer, Colombo responde que desejaria descobrir terras longínquas, além da Atlântida. A ideia recebe a contestação do rei, quem afirma ser um sonho louco. O frade auxilia o genovês no diálogo, os padres do conselho de Salamanca e os dignitários da coroa irritados demonstram ser contra. A rainha já está convencida sobre as novas glórias e o rei se vai convencendo gradualmente, assim como a corte e todos terminam por aceitar o sonho de Colombo e festejam aos gritos a nova ideia de heroísmo.

A terceira parte se passa em alto mar em que se alternam duas calmarias e uma tempestade. A maruja está apavorada e tendendo a rebelar-se acusando Colombo de conduzi-los fatalmente à morte. Após a calma da tempestade, o mar está tranquilo e ouve-se um tiro de canhão e a seguir o grito de terra a vista. A emoção é geral.

A quarta parte se passa em uma ilha, em que se veem crianças indígenas a brincarem e outras a dançarem passos característicos, quando os mais velhos divisam a frota ancorada e ficam paralisados e atentos. Os escaleres vão para a terra e ante o clima de terror dos indígenas os espanhóis desfraldam bandeiras e fazem sinais que possam entender como paz. Os selvagens fogem e os espanhóis bailam procurando imitar passos indígenas. A orquestra toca dança espanhola e à aproximação dos índios toca também as músicas espanholas em contraponto com as indígenas.

Segue-se a cena em que a frota já está em Espanha e os heróis em palácio. Festeja-se a vitória e a promessa de Colombo, especialmente por parte da rainha Isabel e D. Fernando e o libreto termina com o lindo verso dirigido à rainha: primogênita serás duma nova humanidade.

O poema é indicado sinfonicamente por um intermezzo em compasso binário composto com acordes lentos com crescendos alternados por apagamentos.

Sugerem a dúvida de Colombo e as vacilações. O quadro impressiona pelo contraste dos acordes graves, lentos e o cântico altivo dos pescadores. Segue-se o órgão pleno no convento e logo preces com vozes femininas a que se juntam masculinas. O diálogo do frade com o Colombo leva-o à exposição de seus motivos em uma bonita Romanza. Finaliza a primeira parte com a decisão do frade em auxiliá-lo e finalmente o coro dos frades no Te Deum.

Na segunda parte inicia uma grande coral festejando a vitória contra os sarracenos. O dueto com D. Fernando e D. Isabel, em que há melodia cheia de poesia. Segue-se o diálogo do rei com o frade com participação da corte em que o clima musical sugere a apreensão e o final é empolgante pela antevisão da vitória.

Na terceira parte a música é levada à descrição das calmarias e da tempestade assim como contém o descontentamento dos marinheiros e, finalmente, a glória de avistarem terra e a emoção consequente. E talvez o ponto mais alto da qualidade sinfônica do poema.

A quarta parte tem dois episódios na ilha em que se descreve a observação dos marinheiros sobre as danças dos índios, a pausa e a apreensão deles e as danças espanholas para celebrar a paz com os selvagens.

No palácio termina o poema com música entusiástica encenando como ponto preponderante o Hino ao Novo Mundo.

O poema Colombo não somente deveria ser analisado musicalmente com muita profundidade, inclusive com relação a estética musical como deveria ser obra texto para as faculdades de música.

* In memorian.

Referência Bibliográfica: 

MOURA, Maria Luiza S. Pinto de e MOURA, Décio Silveira Pinto de. Os ballets na ópera de Carlos Gomes. (s.d.). Ilustrações de Egas Francisco. Campinas : Cia. Aluminis. 62p. (pp. 51-54).

2 comentários

  1. É fantástico como somos envolvidos pela narrativa. Sinto-me na plateia do teatro, com todos os espectadores absortos por cada movimento e pela música.

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  2. viajamos à um teatro maravilhoso, que até tínhamos em Campinas…obrigada pelas postagens..aprendemos e conhecemos a belíssima obra de Antonio Carlos Gomes..

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