Lo Schiavo (1889)

The Slave (1889). Carlos Gomes`s Opera.

Maria Luiza Silveira Pinto de Moura* – escritora, bibliotecária do CCLA, Patronesse da Cadeira Nº 37 do IHGG Campinas e Décio Silveira Pinto de Moura* – escritor, psiquiatra. 

O escravo é um drama lírico que se desenvolve em quatro atos, cujo libreto foi escrito por Rodolfo Paravicini, que se baseou em uma peça de autoria do Visconde de Taunay. Segundo consta, o autor do libreto modificou o enredo e desentendimentos surgiram entre ele e o compositor. O tema é abolicionista pois, Carlos Gomes teve a intenção de homenagear a princesa Izabel.

Consta que, ao decidir por outra obra cujo tema versasse sobre algo nacional, ele teria dito, todavia, que faria obra a onde não houvesse bugres. Contudo, ao atender a sugestão de seu amigo Taunay acabou aceitando a peça onde os principais personagens negros são substituídos por indígenas, por imposição do autor do libreto.

Quem lesse o título da ópera e soubesse que Carlos Gomes, embora não ativista, tinha ideia abolicionista, poderia pensar que a história descreverá o que de desumano e genocida acontecia com a escravidão. Todavia, o nosso maestro estava compondo ópera para frequentadores de teatro europeu. Apesar de que o manifesto de F. Engels e K. Marx tenha sido publicado em 1848, essa gama de população não se interessava por causas sociais. Seu núcleo de interesse estava voltado para estórias de amor e, o quanto possível, bem dramáticas. Ora! Assim sendo, temos mais uma estória de amor que ocorre no ano de 1567.

No primeiro ato é focalizada a fazenda do conde Rodrigo, próxima ao rio Paraíba, na qual aparece o terreiro, por onde cruzam os escravos, uma capela rústica, a casa do feitor e ao fundo a colônia. Enquanto camaradas e capangas vão enfeitando a fazenda, sob vergastadas do feitor Gianfera, comentam a desconfiança de que tudo se prepara para uma festa nupcial. E dizem que é mais um casamento sem amor, coisa não rara.

Américo, filho do conde, ama Ilara, índia mantida em casa como doméstica. Mas o pai não quer permitir o casamento de seu filho com uma escrava. Américo é oficial da marinha portuguesa e o pai ordena que ele vá juntar-se à armada, empenhada em luta na baia de Guanabara contra os tamoios, que se haviam rebelado. Diz o pai para Américo que, como fidalgo, militar e patriota, tem como dever lutar e vencer o inimigo.

O filho interroga sobre Ilara e ele responde que depois, veremos… o que leva Américo a crer que teria permissão para casar-se após a missão militar. Despede-se de Ilara e, para praticar boa ação, solta as algemas e liberta o índio Iberê, preso pelo feitor Gianfera. O escravo ajoelha-se para agradecer e lhe beija a mão jurando eterna lealdade. Américo aperta a mão do índio e lhe promete que libertará todos os escravos, para espanto dos que ouvem.

Assim que o jovem partiu, Gianfera manda novamente prender Iberê e também Ilara. Os dois são arrastados para capela e lá se leva a efeito o casamento de ambos, conforme ordem dada pelo conde Rodrigo e contra a vontade deles. E assim pensou Rodrigo ter impedido o casamento de Ilara com seu filho.

A ópera é rica musicalmente e neste ato já se salientam as árias como a que canta Iberê: In aspra guerra e o dueto de Américo e Ilara.

O segundo ato se passa na fazenda da condessa de Boissy, em Niterói, onde estão terminados os preparativos da festa a ser realizada em que a condessa concederá liberdade aos escravos que lhe pertencem. Chega antes Américo, ainda fardado de oficial, e é recebido pela condessa que confessa seu amor. A condessa seria a esposa prometida a Américo por seu pai. Américo deixa a condessa perceber que já tem um amor, o que a decepciona. Américo está confiante em pedir ao pai permissão para casar-se com Ilara, pois a missão militar foi cumprida.

A condessa ainda pretende saber do segredo do amor de Américo e está irritada. Por ocasião em que Américo e a condessa dialogavam, Américo quer um momento a sós esperando falar com o conde.

Rodrigo, referindo-se sobre a mão de Ilara, canta a ária mais conhecida da ópera que se inicia por Quando nasceste tu?

Seguem-se danças e a festa atinge sua plenitude quando a condessa intervém para anunciar, que por ser francesa, não aceita a escravidão e que os escravos que comprou foram adquiridos somente pelo desejo de dar-lhes a liberdade. E a ocasião em que se ouve o hino da liberdade. E a condessa ordena que entrem os escravos libertos.

A surpresa de Américo foi grande ao ver entre os escravos libertos Ilara e Iberê. E não tardou que se revelasse para ele surpresa ainda maior. Ilara é esposa de Iberê. Nesse momento há confusão na sala porque Américo se sente traído por Iberê e o insulta. O escravo pretende esclarecer os fatos, mas diante de um gesto do conde Rodrigo, obedece e silencia. Ilara confirma o casamento e somente a grande emoção que tomou Américo permite entender que ele não tivesse condição para ser mais reflexivo e entender que seu pai havia preparado o ardil. Américo investe contra Iberê para matá-lo e é contido pelo conde Rodrigo, e este faz o casal retirar-se da sala e fugir.

A condessa Boissy ainda ironiza ao saber que sua rival era uma escrava, ao mesmo tempo que se decepciona com os valores de Américo, quem coloca no mesmo nível uma nobre e uma índia. Nos tempos atuais podem muitos leitores não entender a distância em que se punham essas classes sociais. Américo, ao retirar-se, ainda conserva a intenção de esclarecer tudo e vencer o problema.

O terceiro ato se inicia mostrando duas cabanas situadas na floresta próxima a Jacarepaguá, onde moram próximos Ilara e Iberê lamentando a grande tortura de Ilara e a saudade que conserva de Américo seu grande amor. Seu companheiro ainda lhe fala que Américo talvez a tenha esquecido e tenta mostrar-lhe a desigualdade, convencendo-a de que tal casamento seria inviável. O diálogo prossegue entre os dois, tentando Iberê mostrar a Ilara que ela é cruel nos seus sentimentos já que ele é seu marido. Ilara declara que ainda ama Américo dizendo: Egli è tutta la mia vita. Egli è il sol che m’ ha irradiato! Iberê afirma a Ilara que ela lhe está inspirando ciúme e ira. Ilara lhe responde com violência que ele pode virar em direção a ela o instrumento da sua vingança, quando ele apontava para ela o punhal.

Na terceira cena do ato Iberê canta a ária Fragile cor di donna, em que cogita de alguma vingança. E, quando ouve o soar de uma trombeta indígena, que, por ser guerreira, chama a sua atenção. Em seguida aparecem alguns tamoios sediados à margem do rio Paraíba. Lembram-lhe que muitas batalhas enfrentaram juntos e o convidam para ser seu chefe, tanto para combater os invasores de nossas terras, como para saquear a fazenda do conde Rodrigo, administrada pelo feitor Gianfera.

Surge Ilara, apresentada aos demais por Iberê como sua fiel companheira. Esta ainda interroga Iberê sobre o que se passa, Iberê lhe responde que Tupã guiou os companheiros para que o encontrasse. Ao saber Ilara a intenção de extermínio da fazenda onde fora criada mostra desejo de ficar ao lado de Iberê, mas com desejo de salvar Américo. De fato, os índios proclamavam Iberê seu chefe e em clima de guerra termina o terceiro ato. Na sexta cena Ilara canta a ária Guerra spietata e morte. No final do ato ao ouvirem a aproximação da armada portuguesa, os índios decidem esconder-se e Ilara pensa salvo egli è e tenta juntar-se aos portugueses.

Inicia-se o quarto ato em planalto da Guanabara, para onde se retiram os tamoios, após a batalha travada. Dialogam mostrando-se descontentes com Iberê por não ter sido cruel com os inimigos, como exige a tradição dos tamoios. Iberê tranquilo, a sós, canta a ária Sospettano di me, em que confessa tudo possuir menos o amor de Ilara e que por esse amor trocaria tudo. Parece não lhe interessarem as suspeitas dos companheiros que estão em véspera de considerá-lo traidor e eliminá-lo. Ouve-se então a inesquecível Alvorada que descreve o amanhecer na floresta. Ilara está arrumada como guerreiro e olhando a espada portuguesa canta a ária Come confida, em que mais uma vez refere-se ao grande amor. Aproxima-se Iberê, mas Ilara torna a repeli-lo. Iberê já sente que seu amor está mais forte.

Surgem junto a Iberê os tamoios com um prisioneiro. É Américo. Iberê quer ficar a sós com o prisioneiro sob pretexto de interrogá-lo. Os guerreiros ao deixarem a cena advertem Iberê que será morto caso liberte o prisioneiro.

Ainda ressentido Américo acusa e insulta Iberê. Este responde que Américo lhe roubara o amor de Ilara e lhe tirou a paz de espírito. Américo avança para Iberê e é contido por Ilara, quem o defende, fato que se torna mais enigmático para Américo. Iberê em grande angústia e humilhado relata para Américo a verdadeira estória do casamento urdido por seu pai Rodrigo e afirma terem vivido, Ilara e ele como irmãos e que ela nunca foi tocada, apesar do amor que lhe dedica, impedido, todavia, pela gratidão a Américo.

Américo se mostra comovido e Iberê tomando da mão de Ilara entrega-a a Américo e aconselha-os que fujam. Iberê ainda olha ambos ao longe, quando surgem os índios desejosos de vingança contra Américo já ausente. Iberê desfaz-se das insígnias de guerreiro ao apunhalar-se e proclama que no mundo novamente o amor venceu. Diz ainda aos guerreiros que ele lhes prometera uma vida, então entrega a dele. Encerra-se a ópera considerada como um dos pontos culminantes de produção artística de Carlos Gomes, pela composição musical que apresenta inovações harmônicas ao lado de primorosas linhas melódicas.

* In memoriam

Referência bibliográfica: 

MOURA, Maria Luiza S. Pinto de, e MOURA, Décio Silveira Pinto de. Os ballets na ópera de Carlos Gomes. (s.d.). Ilustrações de Egas Francisco. Campinas : Cia. Aluminis. 62p. (pp. 41-46).

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