O Condor (1891)

The Condor (1891). Carlos Gomes`s Opera.

Maria Luiza Silveira Pinto de Moura* – escritora, bibliotecária do CCLA, Patronesse da Cadeira Nº 37 do IHGG Campinas e Décio Silveira Pinto de Moura* – escritor, psiquiatra. 

Foi escrito em três atos por encomenda do teatro Scalla e nele Carlos Gomes trabalhou três meses. Foi por ocasião em que voltou a Milão, após deixar o cargo de diretor do conservatório do Rio de Janeiro, em que foi sucedido por Leopoldo Miguez, logo após a proclamação da República. Carlos Gomes era visto como protegido da monarquia brasileira. O libreto foi escrito por Mário Canti.

O enredo está ligado ao século XVII, na propriedade da rainha Odaléia, de Samarcanda, onde se veem um quiosque, um terraço e o acesso ao jardim. Adin, pagem da rainha deitado em um banco, canta alguma melodia que acompanha em guitarra. Adin repele algumas favoritas que surgem e fazem pilhéria contra ele. Alguns lenhadores surgem no palácio, correndo, aparentemente amedrontados, quando se ouve um sinal de alarme e todos se voltam para o fundo do terraço, de onde surge Almazor, quem dá a notícia de que há alguém tentando violação do sagrado santuário de Odaléia.

A rainha diz não crer na notícia e se dirige ao jardim. Enquanto Adin observa a rainha e confessa sua admiração por ela nunca ter amado. Ouve-se de longe uma voz que cantando pergunta se a águia foi criada pelo sol ou pelas estrelas. Almazor afirma que o aventureiro já entrou na propriedade e deverá morrer. Almazor é um astrólogo caldeu.

Ouve-se a mesma desconhecida voz cantar a roubarei a Deus asas para ensiná-las a voar. Odaléia ordena que se retirem todos para que ela enfrente sozinha o aventureiro. Vai para o fundo, depara-se com um estranho, vacila e retorna, mas ele se lança de joelhos aos seus pés. É Condor, chefe de algumas hordas negras, quem exclama: Finalmente contemplo-te, astro ideal do amor!

A rainha exige que se identifique e que se apresse em explicar a que se deve tal ousadia. Condor responde que desejou vê-la novamente antes que fosse morto, pois ficara perdidamente tomado por paixão depois que a avistou no dia do grande perdão. Odaléia contesta que cem punhais lhe apontam o corpo para castigar-lhe a violação. Ele toma de seu punhal e lhe oferece, afirmando que ela deve castigá-lo por ser a ofendida.

A rainha afirma que ele será perdoado, pois as sultanas somente matam os homens por amor ou ódio. Diz-lhe que fuja, mas Condor se nega. Todos acorrem contra ele e Odaléia com um gesto os detém, dizendo aos súditos que ele está perdoado por ser louco. E sobe ela as escadas enquanto Condor fica parado em êxtase.

O segundo ato tem início na mesquita de Omar, nome que homenageia o profeta que sucedeu a Maomé. Na planície ao fundo da mesquita conversa o povo censurando Odaléia por ter perdoado Condor. Zuleide, uma nômade, ao passar ouve o murmúrio do povo. Todos se dirigem à mesquita em atenção à hora da prece e Zuleide ainda impreca contra o povo que pretende a morte de seu filho, também prometendo que antes ela há de incendiar templos e palácios.

Depois, desistindo de aproximar-se da rainha, como andarilha, dirige-se ao deserto e lá arma uma tenda esperando amparar Condor quando ele para lá se dirigisse fatigado pelas lutas. Comparece Condor à tenda, em companhia de um sequaz e ambos armados. Zuleide que se escondera, reaparece e reconhece o filho no que é correspondida. Ambos recordam o tempo em que viviam juntos e demonstram saudade. Pouco antes do aparecimento ouve-se Condor afirmar que pensa somente em Odaléia como obsessão, afirmando estar mudado após ser tomado por este sentimento. Sua confissão foi ouvida por Zuleide.

Nesse instante chegam a eles as vozes da rainha em pedido de socorro. Condor decide acudi-la e, apesar de Zuleide tentar alertá-lo ele parte. O povo a deixa na mesquita em companhia do mufti. Adin conta que uma horda selvagem tentou sequestrar Odaléia e ela foi salva por um desconhecido. Chega sobre um palanque carregada por escravos a rainha Odaléia, quem pergunta pelo seu salvador dizendo estar tomada por um pressentimento.

Entra em cena Condor, desarmado e feito prisioneiro, sem resistência, ao ser reconhecido como chefe das hordas negras. Enquanto a rainha diz que ele é louco, não chefe, chega Zuleide para garantir que ela foi salva por Condor e o declara filho do sultão Amurah. A rainha fica emocionada e diz que já notara não ser Condor um homem comum. Mas, o mufti e o povo exigem a morte de Condor, quem afirma o feito de salvá-la, mas acrescenta que por sua ordem aceita morrer. Todos querem matá-lo, mas Odaléia o proclama emir das suas tropas. O povo protesta pensando-o salteador e ainda exige a morte ao invés de tê-lo junto ao trono, Condor ajoelha-se diante da rainha em juramento de amor.

O ballet Ciranda dos Astros não constava da ópera na estréia, em 1891 e foi composto em 1892, constando da estreia no Rio de Janeiro. Pertence ao segundo ato e transcorre na praça, diante da mesquita de Omar, na cidade de Samarcanda, que ao que consta foi destruída por Gengis Khan.

A Ciranda dos Astros faz referência ao fato de ter a rainha Odaléia dividido a liderança do reino com astrólogos e religiosos islamitas. O ballet ocorre enquanto aguardavam a chegada da rainha. Após a chegada ela é saudada pela Marcha Tártara, marcha que permite presumir pertencer a esse povo, os tártaros, habitantes da antiga Tartária que estava situada ao norte da China, para além da muralha e por grande parte da Sibéria.

O terceiro e último ato ocorre novamente em palácio, onde Odaléia se mostra agitada dado o comportamento do povo. Já se vê tomada por amor. Adin canta a estória da pomba que se apaixonou por um gavião. Chega Almazor, Odaléia mostra desespero e adentra o palácio o que provoca as zombarias de Adin. Entra Zuleide para tentar levar Condor do local, mas este afirma que deve permanecer com Odaléia porque ela corre perigo.

Na ocasião chega Almazor para insultar Condor e este responde que a sorte de Almazor está presa nas suas mãos. Zuleide ainda insiste com ele e Condor promete voltar ao deserto quando a situação for resolvida. Adin faz pilhérias contra todos e Zuleide se retira.

Odaléia chega, Condor faz Almazor sair e Adin ouve de Odaléia a confissão de que ama Condor, pois abraçados ambos se declaram. Mas, o povo ainda está descontente e quer a morte de Condor.

Condor diz a rainha que devem fugir e ela mostra os clarões do incêndio da cidade e também a multidão que deseja matá-la. Condor promete salvá-la e se mata com o punhal. Quando a multidão invade a cena, a rainha joga contra todos o punhal de Condor e encerra a peça dizendo Despedaça-se agora o meu coração. O povo se retira.

* In memoriam.

Referência bibliográfica: 

MOURA, Maria Luiza S. Pinto de e MOURA, Décio Silveira Pinto de. Os ballets na ópera de Carlos Gomes. (s.d.). Ilustrações de Egas Francisco. Campinas : Cia. Aluminis. 62p. (pp. 47-50).

 

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