A Maldição dos Eternos Domingos sem Derby

The Damnation of the Everlasting Sundays without Derby.

Por Luiz Roberto Saviani Rey – professor de jornalismo da PUC-Campinas. Titular da Cadeira Nº 14 do IHGG Campinas.

No país do futebol, entre as conquistas das copas do mundo de 1958, 1962 e 1970, uma cidade no estado de São Paulo viu aguçar de maneira intensa e sem precedentes a rivalidade entre as torcidas de seus dois clubes, posicionados naquele período em divisões diferentes, distanciados da disputa direta, porém indissociáveis. A alegria de uns era tristeza para outros, mas a tristeza maior, para ambas as facções de Campinas, era não poder ver e participar do espetáculo produzido pelo confronto entre Guarani e Ponte Preta, o chamado Derby campineiro.

Os sucessos e os fracassos de cada um nesses tempos de jejum só contribuíram para aprofundar a rivalidade e para exacerbar a cultura do escracho, da ironia, da sátira que envolvera a população desde as décadas anteriores. Ninguém poderia ficar neutro ou impune à ação daquele vírus. Ninguém se safava das ironias, e elas, a todos alcançavam, onde quer que se estivesse e em todas as situações, das mais descontraídas às mais solenes e graves.

Nessa guerra verbal entre torcidas, o palavrão era a tônica, a ironia, a mordacidade, a criatividade para gozar o inimigo, a inventividade de frases de efeitos e analogias entre derrotas e títulos de filmes e espetáculos consistiam a moldura mais efetiva de uma cultura que tomou conta da cidade por décadas sucessivas, até que Campinas cresceu demais e perdeu sua identidade, a partir dos anos 1990.

Nesse longo caminhar de agruras para a facção pontepretana, um calvário de nove anos de um rebaixamento que parecia infindável, houve uma tarde fatídica, inesquecível para os inimigos, triste para os pontepretanos. Amarga tarde de derrota, quando a reconquista do paraíso parecia tão próxima, tão próxima e tão longe de escapar das mãos, como nunca ocorrera nos cinco anos que a antecedera. E essa tarde de martírio pontepretano o cenário principal desta história.

Este livro, ficção calcada em realidade, não pretende ser biográfico, nem historiar a trajetória de Ponte Preta e de Guarani, tampouco abordar os confrontos entre ambos. A intenção da obra a de romancear apenas, sem se prender a datas ou se preocupar com a cronologia dos fatos. Não se obriga a resgatar a totalidade da história dessa rivalidade, que é ampla, indescritível, impossível de ser colocada integralmente em um livro, assim como a língua é insuficiente para expressar todos os sentimentos e as ideias humanas.

O livro prende-se à particularidade daquela tarde, na ótica de um personagem, o Tio Lula, apaixonado e mordaz, intolerante em relação ao clube adversário, no caso, a Ponte Preta, e no imaginário de seu sobrinho Carlos Alberto, o Bebeco, um visitante das paragens desse confronto. Nestas páginas, de forma periférica, passa um pouco do cenário da pequena Campinas e do comportamento popular da época, a linguagem, a cultura desportiva que alimentou os ânimos na cidade, no interior da qual somente havia valores na equidade do ardor futebolístico. A tal ponto, de muitos comerciantes somente empregarem em seus estabelecimentos pessoas com atestado de paixão clubística, para não terem dissabores após uma derrota domingueira.

Pais acolhiam namorados de suas filhas sem pestanejar, desde que iguais na cor esportiva. Professores assinalavam notas altas para alunos medíocres, quando equânimes na simpatia por Guarani ou Ponte Preta. Alguns perseguiam os inimigos, trituravam-nos, apertavam-lhes os culhões à dor mais pungente. Patrões perdoavam faltosos e incorporavam empregados ao seu grupo de amigos das tardes esportivas, se a camisa fosse semelhante.

Nesse período, muitas frases de efeito e piadas foram cunhadas no calor da rivalidade, criando um verdadeiro lixo cultural que invadiu bares, salões de baile, escolas, a universidade, reuniões políticas e decisórias, que cobriu a sociedade da ainda interiorana Campinas e prevaleceu por muitos anos como expressão de verdade, marcando de forma imperativa a vida da cidade.

As décadas que se seguiram, com derbys monumentais e o crescimento fantástico de Guarani e Ponte Preta, transformados em celeiros do futebol brasileiro, as conquistas retumbantes: o Guarani campeão brasileiro de 1978, a Ponte Preta cinco vezes vice-campeã paulista – feitos orquestrados por atletas como Dicá, o Mestre, por Zenon, o Magnífico, o exuberante Oscar, por Renato Pé Murcho, por Carlos, Polozzi, Amaral, Careca, o grande centroavante, Edmar, Júlio César e João Paulo, entre tantos, seriam impossíveis de se virtualizar sem a transição daqueles eternos domingos sem derby.

A intenção dessa obra é não perder de vista histórias curiosas, dentro de um universo histórico de uma cidade, a de Campinas, que já perdeu praticamente toda sua identidade, transformando-se em uma praça mercantil, onde as histórias já não interessam, a morte do sujeito é latente, impondo-se à sua sociedade um ritmo pós-moderno, de lógica cultural do capitalismo revigorado, ou tardio, para citar o sociólogo norte americano Frederic Jameson, um dos áulicos da teoria pós-moderna.

Referência bibliográfica:

REY, Luiz R. Saviani. A maldição dos eternos domingos sem derby. Campinas: Komedi, 2010, 80p.Arquivo Escaneado 13

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