História e Historiografia: a Importância dos Franceses

History and Historiography: the French Importance.

Por Luno Volpato – linguista, professor. Titular da Cadeira Nº 15 do IHGG Campinas.

A França, como nação sempre à frente em questões ideológicas, filosóficas e culturais, exerce um fascínio sobre a humanidade de então, influencia seus vizinhos e amantes da erudição. Joaquim Nabuco, sobre cuja obra versa nosso estudo linguístico, com grande vivência cosmopolita, estudioso dos povos, diz certa feita que, se lhe fosse dada a prerrogativa de escolher apenas um país sobre a face da terra que melhor representasse a realidade humana, ficaria numa situação embaraçosa, mas, por fim, optaria pela nação francesa.

Nessa galeria de grandes nomes de expressiva contribuição ao campo da história, não podemos deixar de fazer uma especial referência a um francês letrado, filósofo, pintor, dramaturgo e historiador: Voltaire (1694-1778). Ele dedica-se ao estudo do passado, sobretudo, o de sua pátria.

O historiador, a seu ver, não deve fugir da realidade humana com seus heroísmos e fraquezas e analisa as paixões e os motivos que direcionam as ações humanas. Estuda, a fundo, os documentos, a geografia, as obras históricas, os mapas-múndi, entrevista pessoas, deixa a verdade sobressair, quer seus personagens sejam príncipes ou plebeus, papas ou agricultores, mas sempre isso é essencial, traz uma informação eivada de veracidade.

Ambiciona renovar o gênero histórico, outorga-lhe um cunho de veracidade, como uma verdadeira profissão de fé. Ao tratar da história total, afirma que ela não é imutável, desmistifica acontecimentos e relatos antigos, elimina as lendas em que o maravilhoso medieval e a mitologia não são poupados. É um espírito polêmico, demolidor das contradições e do mascaramento da verdade. Para ele, o historiador deve ter a preocupação de agradar, de escrever um texto de forma elegante e concisa e de evitar relatos estéreis, mas amparados por uma documentação sólida e conscienciosa.

Nada lhe passa despercebido a demografia, a economia e a luta contra os preconceitos. Abre as cortinas da história, faz escola e é referencial.

Dentre os inúmeros fatos culturais que marcam a história da França, porque suas raízes vão muito além dos limites geográficos, registra-se a iniciativa de dois inconfundíveis pesquisadores que mudaram o curso dos estudos analisados sob um enfoque mais técnico e criterioso. A partir deles, a história muda sua concepção.

Os Annales

A Revista dos Annales (1929-1989), criada por Lucien Febvre e Marc Bloch, constitui-se em um verdadeiro marco e faz uma completa e devastadora revolução nas formas de se pensar a história. Suas diretrizes permanecem vivas até nossos tempos como um modelo novo de análise, com métodos que visam outorgar à história um cunho de cientificidade.

Surge uma nova tendência, a chamada Historiografia Francesa, que tem alguns objetivos bem delineados. Despreza os aspectos meramente fáticos, para se preocupar com os de longa duração; abandona o caráter meramente político que caracteriza a história e que dá voz apenas aos vencedores, para voltar os olhos para outros fatores em ebulição nos novos tempos como a atividade econômica, a organização social e a psicologia coletiva.

Há, por meio dessa nova visão, a aproximação entre várias disciplinas: história, geografia, sociologia, linguística etc. Enfim, após vários anos de efetiva participação na comunidade científica, a Revista consegue influenciar os historiadores franceses.

Há uma outra ótica para se olhar o passado. Os novos caminhos surgem em momento de intensas mudanças no pensamento humano, com inúmeras descobertas. O historiador deve ter um conhecimento eclético e uma concepção aberta do mundo. Há uma nova abordagem em andamento e os antigos conceitos passam a ser questionados e estudados com mais profundidade e enfocados à luz dos novos rumos.

Durante esse período, há inúmeras vozes de discordância em relação ao paradigma histórico que enfoca precisamente o caráter reducionista, em que situações históricas são vistas como mero jogo de poder entre grandes personagens e, ainda, a tirania do documento que, de extrema importância, não pode prescindir de outras evidências.

Já, Jacob Burckhardt, citado por Peter Burke (1990), analisa a história como um corpo em que interagem três forças – Estado, Religião e Cultura. Michelet defende a história daqueles que sofreram, trabalharam, definharam e morreram sem ter a possibilidade de descrever seus sofrimentos. Essas discordâncias são de todas as esferas e procuram atribuir um novo elemento tido como fundamental nessa análise e outros, simplesmente, se contrapõem à história política, sobretudo na França, onde surgem novas correntes de historiadores que defendem a evolução da sociedade com base na economia e na sociologia, ciência que despontava naquele país.

Nessa época, está em vigor a teoria de James Robinson (1863-1936). Preconiza que a História inclui qualquer traço ou vestígio das coisas que o homem fez ou pensou, desde seu surgimento sobre a terra.

Apregoa que o método deve valer-se de todas as descobertas sobre a humanidade, feitas pelos pesquisadores de todas as áreas do conhecimento. Essa teoria é, exaustivamente, defendida pela Revista dos Annales e surge uma história total que defende a ideia de que todos os dados – políticos e institucionais, ideológicos, econômicos, sociais e da mentalidade humana – sejam fundidos e integrados para conseguir uma explicação correta que, mesmo extremamente difícil, seria a marca de um ideal, de uma meta a ser alcançada.

A historiografia

Marc Bloch e Lucien Febvre, já nas primeiras décadas do século XX, mostram insatisfação em relação à história política, à relativa pobreza em que situações históricas complexas se encontram reduzidas a um simples jogo de poder entre grandes homens ou países, sem perceber que, aquém e além deles, se situam campos de forças estruturais, coletivas e individuais que lhes conferem densidade e profundidade incompatíveis. Essa realidade não corresponde aos anseios da humanidade que, nesses tempos, vive sob a égide das convulsões, rupturas com o passado, e não consegue responder satisfatoriamente às exigências desse novo homem que está surgindo. É imperiosa a necessidade de se pensar no homem em sua complexidade, em sua maneira de sentir, pensar e agir. Como protagonista dos fatos, ele não pode continuar como um simples reflexo do comportamento e das decisões dos poderosos.

Mais do que urgente é conferir ao homem sua condição de plenitude, ampliar sua visão de mundo, seu papel diante da história, abrir-lhe uma nova perspectiva e inseri-lo definitivamente em sua real dimensão no fazer historiográfico que tem um espírito que cria, sente e reage de acordo com as circunstâncias. É o nascimento de um novo período para a história do homem, para a pesquisa historiográfica, chamada Nova História.

A Revista Enciclopédia Mundial (2005) sintetiza a distinção entre história e historiografia: Historia y historiografia: En su sentido más amplio, la historia es la totalidad de los sucesos humanos acaecidos em el pasado, aunque una definición más realista la limitaria al pasado conocido mediante cualesquiera que sean las fuentes documentales. La historiografia es el registro escrito de lo que se conoce sobre las vidas y sociedades humanas del pasado y la forma em que los historiadores han intentado estudiarlas.

Por seu turno, a historiografia tem suas raízes na França e possui grande proximidade com a história, motivo por que passa por um processo de adaptação aos seus paradigmas. À medida que o tempo avança em direção à contemporaneidade com as novas tecnologias e descobertas científicas, o ser humano passa a analisar a historiografia sob um novo enfoque, mais abrangente, mormente em sua intermultidisciplinaridade e, mais especificamente, a verticalidade de seu enfoque.

O livro de Peter Burke A escola dos Annales: a revolução francesa da historiografia, nos dá uma clara visão dessa época, dos construtores da nacionalidade francesa, bem como dos acontecimentos que culminam com o surgimento da historiografia, cujo termo foi cunhado pela primeira vez em 1929. Nesse livro, já no Prefácio (p.11), podemos identificar a força dos Annales: Da produção intelectual, no campo da historiografia, no século XX, uma importante parcela do que existe de mais inovador, notável e significativo, origina-se na França.

A historiografia tem como escopo inicial o relato dos fatos históricos por meio do registro escrito dos acontecimentos. O documento aliado ao fato histórico passa a ser fundamental para a historiografia, que enfrenta inúmeros processos de adaptação aos paradigmas que norteiam os estudos históricos. Assim, ela incorpora um atributo interdisciplinar e encontra sua complementaridade em outras disciplinas, como a sociologia, a psicologia, a economia, a geografia e a própria linguística e, praticamente, abrange todos os feitos humanos.

É considerada de singular importância a investigação detalhada do documento, em que é questionada sua credibilidade, o meio no qual é elaborado, as correntes políticas que prevalecem, o comportamento da sociedade. Valoriza o homem comum, não apenas os cardeais, príncipes e reis. A autenticidade do documento é analisada com mais objetividade, pois visa a um resultado científico, enfim, há outra abordagem, com diferentes objetivos e novos problemas.

A bem dizer, é uma reflexão sobre a produção e a escrita da história. É, segundo Guy Bourdé e Hervé Martin: o exame dos discursos de diferentes historiadores, também de como eles pensam o método histórico. Ainda, segundo os autores, a perspectiva historiográfica é uma ferramenta para o ofício do historiador ao descrever escolas históricas e como produziram conhecimento ao longo do tempo.

A historiografia permite-nos conhecer os pensamentos e as influências daqueles que escrevem a história antes de nós, como o fazem e a conhecer os elementos comuns a esses escritores, o processo de elaboração, as fontes consultadas, as referências, enfim, o pensamento histórico. Deixa claro para o historiógrafo que, nesses processos de escrita, as pessoas sofrem pressões de toda ordem, a influência do meio, cometem erros, têm um componente subjetivo, preconceitos etc.

O pesquisador moderno deve saber que não há texto inocente e nem pode agir com ingenuidade em face de uma documentação, cuja essencialidade é a escrita da história. Para Rogério Forastieri da Silva é uma reflexão sobre historiadores e suas obras. Sob esse aspecto, a historiografia, em que pese ter surgido no século XX, já tem, em outras épocas, uma preocupação historiográfica quando exercitam um processo de análise de suas obras, comparando-as com as de seu tempo, na Antiguidade clássica. O mesmo fazem alguns cronistas, mas a concepção de que a historiografia é o estudo dos escritos e métodos das interpretações e de que possui objeto próprio, a ação do homem no tempo, tem essa característica a partir do século passado.

É, sobretudo, a partir da influência da sociologia, do materialismo histórico e de um conjunto de nomes ilustres que Annales se firma como uma Escola que passa a ter decisiva participação e influência sobre essa disciplina em todo o Ocidente. Ela ultrapassa as fronteiras francesas e dissemina a nova cultura. Outros historiadores, em diversos países, sobretudo Inglaterra e Estados Unidos, assimilam o conteúdo da Nova História e agregam a essa disciplina a antropologia, a linguística e a teoria literária e caracterizam a interdisciplinaridade como um forte componente da historiografia.

Segundo Silva e Silva, a historiografia segue um novo caminho neste início de milênio, passa a restaurar a escola metódica que dá um valor de proeminência ao enfoque do documento. Esses autores consideram de singular importância a preocupação da historiografia moderna em perguntar-se como os outros realizaram as pesquisas, em suma, ter a consciência crítica.

Historiografia é a reflexão sobre a escrita da história. Há que ter, pois, um relacionamento de erudição, de conhecimento da historiografia cultural em que não se pode prescindir de um conteúdo profundo das novas concepções, das teorias modernas e dos rumos da historiografia atual que desenvolvem pesquisas sérias e responsáveis. O historiógrafo necessita lucidez e bom senso, uma visão do conjunto, pois a história revela-nos que o discurso histórico é, por natureza, instável e suscetível às mudanças. Ao elaborar seu texto, fica prisioneiro de influências, de conteúdos afetivos, intelectuais e ideológicos. O questionamento é a baliza do pesquisador. É fundamental perguntar, inquirir, analisar os porquês de a história ter sido escrita desta ou daquela maneira. Se o documento nos dá respostas, certamente, faz-nos inúmeras perguntas. Responder às indagações do documento é o trabalho primordial do historiógrafo.

Georg Hegel faz duras críticas ao historiador vulgar e medíocre que pretende que sua atitude seja puramente receptiva, que se submeta aos dados […]. Raymon Aron imagina o embaraço do historiógrafo diante de um documento, pois a pluralidade das interpretações é evidente assim que se encara o trabalho do historiador […]. Porque surgem tantas interpretações quantos sistemas existem […]. O zelo com o documento é levantado por Voltaire, que elabora um questionário preestabelecido. Esse relativismo histórico é elementar, pois, ao fazer o recorte do fato histórico, cada um o elabora à sua vontade e valoriza os fatos de acordo com seu processo cultural, filosófico, pedagógico etc.

Segundo Bourdé e Martin, o historiógrafo não deve apenas se contentar em enriquecer sua experiência interior, mas também compartilhar as aquisições das suas investigações com os contemporâneos, numa espécie de eucaristia intelectual. Algo raro, mas que levaria a historiografia a um pragmatismo salutar.

Referências bibliográficas:

BESSELAAR, Joseph J. van den. Introdução aos estudos históricos. São Paulo: Herder, 1968.
BOSI, Ecléa. Memória e sociedade: lembranças de velhos. São Paulo: Cia das Letras, 1998.
BOURDÉ, Guy e MARTIN, Hervé. As escolas históricas. Portugal: Publicações Europa América Ltda., 1983.
BURKE, Peter. A escola dos Annales: a revolução francesa da historiografia (1929-1989). São Paulo: Ed. Unesp, 1997.
FUSTEL DE COLANGES, Numa Denis. A cidade antiga. São Paulo: Martin Claret, 2001.
LE GOFF, Jacques. História e memória, 5ª ed. Campinas: Ed. da Unicamp, 2005.
SILVA, Kalina Vanderlei e SILVA, Maciel Henrique. Dicionário de conceitos históricos. São Paulo: Ed. Contexto, 2005.
SILVA, Rogério Forastieri. História da historiografia: capítulos para uma história das histórias da historiografia. Bauru, SP: Edusc, 2001.
SPENGLER, Oswald. A decadência do ocidente. Rio de Janeiro: Zahar Editores, 1984.

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