História e Historiografia: Introdução

History and Historiography: Introduction.

Por Luno Volpato – linguista, historiador. Titular da Cadeira Nº 15 do IHGG Campinas

Os antigos historiadores têm como apanágio da história a verdade.

Segundo Políbio, historiador romano, é próprio da história contar com a verdade. Já Cícero, um dos grandes expoentes da retórica e da literatura latina, assim a define: Quem ignora que a primeira lei da história é não dizer nada falso? Para depois a considerar como mestra da vida ou luz da verdade. No decorrer do tempo, a história passa pelas mais diversas fases, ora de prestígio, ora de desgaste, e até de esquecimento.

A história, uma das ciências mais antigas, abrange, já a partir dos gregos, um campo multidisciplinar. Com o advento e a difusão de novas disciplinas, novos campos de estudo, com o surgimento de outras escalas do conhecimento da humanidade, dentre elas a historiografia, a linguística e a historiografia linguística, ciências relativamente novas (século XX), há a necessidade de se redefinir o papel da história e alterar sua conceituação e metodologia. Tais disciplinas, apesar de próximas, não se confundem. Há que fazer, preliminarmente, essa distinção de forma muito concreta, pois seus compromissos, apesar de se complementarem, são campos epistemológicos com caminhos e objetivos delineados com clareza.

Caracterização de história, de historiografia

Da curiosidade do homem por si mesmo nasce a história (A. Brunner).

Uma curiosidade de explicar e compreender o mundo é o estímulo que leva os homens a estudarem o seu passado (Arnold Toynbee).

O conceito de história, como já observamos, sofre, em sua trajetória, por contingência do contexto cultural, político e religioso, algumas oscilações e desvios, no que tange à sua caracterização. As correntes históricas, as teorias e seus fundamentos mudam conforme a própria evolução do homem, ora se mesclam ao gênero literário, ora voltam às concepções de conteúdo histórico e convergem para uma aceitação consensual: a de que o homem se torna, verdadeiramente, o sujeito da história. Os fatos históricos, a análise dos documentos, as confrontações das fontes, a seriedade das pesquisas e as referências sistemáticas outorgam à história um perfil de ciência, apesar de que essa terminologia, a de ciência, de per si, já é polêmica e questionável.

Os conceitos de história como ciência sofrem oscilações na medida em que os estudiosos, de cada época, adicionam novos componentes e enfoques em razão das descobertas nas diversas áreas do conhecimento humano. Cada um, no âmbito de uma análise autorizada, em função de sua visão de mundo e de sua bagagem cultural, elabora um conceito que melhor o situe nesse processo epistemológico.

O que é a história, afinal? Essa indagação ainda não recebeu uma fundamentação crítica definitiva. Mudam-se os tempos, os alinhamentos metodológicos, as culturas, as civilizações, as técnicas modernizam-se e, concomitantemente, a referência conceitual dessa disciplina. Há, no entanto, um fato incontroverso: o aspecto temporal, sem o que não se concebe a história, e parece ser consenso entre as diversas correntes, em todos os tempos.

Às vezes, são questões puramente terminológicas, outras, de conteúdo. As escolhas cognitivas pelas quais optamos resultam de um diálogo intelectual de que nos valemos para fazer uma aproximação com o passado, vale dizer com a história.

A história

As civilizações ocidentais, em sua maioria, elegem como referência e fonte de conhecimento a Grécia antiga. Os sábios, ou filósofos, atribuem diversos nomes a essa curiosidade intelectual utilizada para designar qualquer espécie de investigação. Cabe aos jônios, criativos e interessados nos acontecimentos da natureza, nas leis do universo, no modo de vida dos povos e nas instituições, esse empreendimento memorável. Tudo lhes causa admiração, tudo é investigado e podemos afirmar que a história é uma das conquistas mais duradouras do gênio grego.

Todos os componentes que, praticamente, determinam nosso perfil cultural são bebidos na inesgotável cultura helênica. A tradição aponta Heródoto de Halicarnasso (século V a.C.) como pai da história e, durante um longo período da história humana, prevalecem como modelos e referências os escritos de nossos ancestrais gregos.

A história segue uma norma mais ou menos genérica e linear na abordagem dos fatos, escrita sob diferentes gêneros, como crônica, memória política, tratados, mas prevalece, como forma dominante, a narrativa dos acontecimentos políticos e militares que apresenta a história como o relato dos grandes reis e chefes militares (Besselaar, 1968). A ciência histórica define-se em relação a uma realidade sobre a qual se ‘indaga e testemunha’. Tal é o significado do termo grego e de sua raiz indo-europeia wid-, weid- ‘ver’. Assim, a história começa como um relato, a narração daquele que pode dizer ‘Eu vi, eu senti’. (Le Goff, 2005).

Note-se que, dificilmente, o historiador participa do palco das operações, por isso baseia-se em documentos, relatos orais, registros, testemunhas.

Desde a Antiguidade, a ciência histórica reúne documentos, ultrapassa o limite dos historiadores que apenas vivenciam o fato e são suas testemunhas oculares. Transpõe também as limitações impostas pela oralidade. As bibliotecas e os arquivos fornecem os materiais da história para depois incorporarem métodos científicos, que lhe conferem um cunho técnico de ciência, sobretudo, a partir do século XVIII.

Já no século XX, coloca-se em dúvida a condição do fato histórico, pois ele resulta da construção do historiador, bem como, hoje, fazem-se restrições ao documento que não é um material bruto e inocente, mas exprime o poder da sociedade do passado sobre a memória e o futuro: O documento é um monumento ou um texto, e nunca é puramente objetivo (Le Goff, 2005). É por demais conhecido o axioma: Sem documento não há história.

Desde o momento em que o ser humano se conscientiza de sua posição na comunidade humana, como partícipe das sociedades, que desempenha o papel central na história do universo, uma série de indagações fervilham-lhe a mente. Ele quer descobrir o porquê das instituições que o cercam, das normas, dos costumes, das crenças, enfim, questiona sua herança cultural, sem encontrar uma resposta satisfatória. A curiosidade, inerência peculiar ao homo sapiens, bem como a reflexão sobre sua presença solitária no universo, as influências sociais, políticas e religiosas intrigam-no.

O homem sente a necessidade de refletir, de explicar suas origens, de tentar encontrar seu elo perdido. Para tanto tem de, fatalmente, mergulhar em seu passado, buscar em seus ancestrais, no conhecimento que se perpetua através dos séculos, de geração em geração, sobretudo, através da oralidade, a força e o enigma de sua identidade.

Mas a história não se resume apenas a uma enumeração de fatos, datas, acontecimentos, batalhas, conquistas, contados e registrados, às vezes, a pedido de uma autoridade, com interesse no conteúdo do documento, como se fora um diário, despreocupado com sua autenticidade, sem considerar o tempo em que os acontecimentos tomam vulto, a partir de sua visão de mundo, portanto interior e subjetiva.

A história é algo muito mais significativa. Seu estudo leva-nos ao esclarecimento do destino do homem. Essa disciplina sofre várias rupturas e a primeira, segundo Ecléa Bosi (1998), ocorre quando ela deixa de ser um mero relato para se preocupar com as ações realizadas pelo homem e o traz para o centro do universo, tendo como seu objeto as ações humanas. Esse é o primeiro grande passo que vai influenciar outros setores da cultura humana.

O conhecimento histórico, por sua própria natureza, é inseparável do historiador, pois é ele quem, da documentação coletada, destaca o singular e eleva um fato à condição de histórico. Fustel de Coulanges (1830-1889) erudito do século XIX, textua: O historiador deve empenhar-se na procura da verdade e para isto examinar os documentos mais seguros, portanto os mais próximos dos fatos relatados, confrontar os testemunhos divergentes, desconfiar dos erros veiculados pela opinião comum […].

São de suma importância as páginas do historiador grego por sua visão de futuro e atualidade, já que é comum a narrativa sem uma análise mais profunda, em que se omite, deliberadamente, o que não agrada aos que estão no poder. A história é contada pelos vencedores e, portanto, sujeita às suas ideologias, opiniões e doutrinas. Verificamos, no prefácio de As escolas históricas (Bourdé & Martin, 1983), que a história tem outro enfoque. A questão do método, do objeto da história, vem dar um novo direcionamento às relações históricas, diverso daquele nascido à sombra da Acrópole.

A concepção de história mostra-nos que, durante um longo período, há poucas mudanças. Com a prevalência do sistema teocêntrico, que vigora durante a Idade Média até os primeiros sintomas do Renascimento, os autores quase em nada contribuem no que tange à história como um veículo eivado de autenticidade. O que vemos é uma disciplina tendenciosa que realça a interpretação dos desígnios de Deus e sobrepõe-se à questão racional, cujo arquétipo moral e religioso impõe-se com a prevalência do discurso religioso e do milagre sobre a realidade histórica.

No século XII, a história não é estudada nas escolas, as quais não têm outro intuito senão auxiliar na exegese dos textos sagrados. Não passa de uma relação com os desígnios divinos, não é uma propriedade dos homens e assume, conforme a mentalidade medieval, um papel a-histórico. É a teologia a serviço da história. Essa concepção providencialista da história, em que Deus interfere na conduta humana e modifica seu curso, ultrapassa os limites da Idade Média e avança pelo período moderno.

O Renascimento inverte as concepções sobre o rumo da história da humanidade. O homem, rei da criação, símbolo da evolução, criador da arte, responsável pelo conhecimento e capaz de obras deslumbrantes, insere-se no centro do universo e a divindade ocupa um plano secundário. O homem não está mais sujeito ao fatalismo diante do qual sucumbe. Abre-se-lhe um novo tempo, com novas expectativas. É dono de seus atos, tem às mãos as rédeas de seu próprio destino. É a prevalência do antropocentrismo sobre o teocentrismo. Essa nova postura do ser humano, no contexto evolutivo da humanidade, é um autêntico divisor de águas.

Obstáculos à história

Os séculos XVII e XVIII criam uma série de empecilhos para o desenvolvimento de uma história metódica, principalmente pela herança advinda dos períodos anteriores, arraigada a certos padrões, como a história providencialista, a subordinação às marcas da teologia, a presença da hagiografia e do antropocentrismo. Os documentos ficam reféns de quem os usa e o saber torna-se prisioneiro da obscuridade, da política e distanciam-se do padrão metodológico.

A humanidade vive momentos de estagnação, abre espaço para o surgimento de novas observações e aparecem pesquisadores e informações, consentâneos com a realidade histórica.

A partir do século XVII procura-se estabelecer uma nova metodologia para ser aplicada à história e submeter seus componentes a uma razão crítica. No final desse século, começa uma nova era para o estudo da história. Inicia-se a fase do historicismo, marcado por uma atitude crítica em todos os campos da inteligência que rejeita os mistérios, os milagres e as lendas.

Não se deve dar crédito imediato ao que não pode ser provado. As fontes são submetidas a uma triagem rígida e passa-se a desconfiar de determinadas maneiras de relacionar os fatos, tornando-se, cada vez mais, um importante elemento no processo da decifração. Essa escolha dos documentos caracteriza a tarefa do historiador como verdadeiro ofício.

No final do século XVII e começo do século XVIII, surge uma movimentação de intelectuais que estimula uma vida científica coletiva com a criação de bibliotecas e academias fora dos claustros, o que resulta, na prática, um exame mais acurado dos processos da história. Estabelecem-se novas regras, como o culto das peças originais, cartas, decretos reais, bulas pontifícias, o selo dos barões, imbricados a um desejo de interpretar bem esses documentos. Há um trabalho sobre os textos que se inspira nos métodos da gramática e da exegese.

O século XVIII marca, definitivamente, o processo de análise das ciências e, obviamente, da história, disciplina sempre em evidência por suas raízes e tradições.

No século XVIII, conhecido como o Século das Luzes, eclode na Europa um movimento revolucionário, o Iluminismo, em decorrência do qual a humanidade nunca mais será a mesma. Esse movimento dá à história um novo sentido protagonizado, sobretudo, pela presença de pensadores, filósofos que apregoam o devir da matéria, da evolução das espécies e do progresso humano.

Sob a égide da Revolução Francesa, que contamina a Europa, florescem as filosofias da história. Oswald Splenger afirma que a história universal está colocada sob o signo da descontinuidade. Para ele, os homens são escravos da vontade da história e devem manifestar sua vontade de poder. Ele acredita que a civilização é o destino inevitável de uma cultura e exemplifica citando o caso da Grécia e de Roma.

Arnold Toynbee (1889-1975) e Karl Marx (1818-1883) contribuem com suas ideias para definir os estatutos da história.

Impossível, quando se estuda a história dessa época, não fazer uma escala na terra de Voltaire, para sentir a ebulição cultural que então resplandece e ilumina os espaços da arte e do conhecimento. Esse é o mote do artigo seguinte.

Referências bibliográficas:

BESSELAAR, Joseph J. van den. Introdução aos estudos históricos. São Paulo: Herder, 1968.
BOSI, Ecléa. Memória e sociedade: lembranças de velhos. São Paulo: Cia das Letras, 1998.
BOURDÉ, Guy e MARTIN, Hervé. As escolas históricas. Portugal: Publicações Europa América Ltda., 1983.
FUSTEL DE COLANGES, Numa Denis. A cidade antiga. São Paulo: Martin Claret, 2001.
LE GOFF, Jacques. História e memória, 5ª ed. Campinas: Ed. da Unicamp, 2005.
SPENGLER, Oswald. A decadência do ocidente. Rio de Janeiro: Zahar Editores, 1984.

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