Filosofia da História: uma Introdução

Philosophy of History: an Introduction.

Por Gabriel Lomba Santiago – doutor em filosofia, professor. Titular da cadeira Nº 50 do IHGG Campinas.

A filosofia da história é um ramo da filosofia que estuda o desenvolvimento e as formas pelas quais os seres humanos criam a história.

Pode-se em alguns casos especular sobre a existência de um fim (teleológico) da história.

São muitas as perguntas sobre as quais trabalha a filosofia da história. Por exemplo: qual é o sujeito próprio do estudo do passado humano? É o indivíduo, as organizações sociais, a cultura?

A história não é apenas uma narrativa do passado, mas, sim, o estudo de uma complexa totalidade que implica as ações passadas e suas consequências visíveis, com suas correntes de pensamento.

Segundo a concepção de George Collingwood e Benedetto Croce, o pensamento dos agentes históricos é um conceito fundamental da investigação histórica.

Cabem aqui duas perguntas:

  1. Existe algum tipo de explicação através do estudo do passado, como por exemplo, ciclos ou ideia de progresso?
  2. Existe o progresso ou sua antítese na história? Enfim, quais são suas direções e qual é a força diretriz desse progresso?

Primeiro temos que perceber o que é a história a partir dos gregos. Para eles, a história é o conhecimento que se transmite mediante investigação, indagação, interrogatório e o resultado deste interrogatório.

Istor é um testemunho, juiz, que pode esclarecer o que aconteceu. Istoreo é o verbo que significa investigar, indagar, passando para o latim como historiae. E no alemão passa de historiae para Geschichte, esclarecimento, ciência etc.

A partir do século XVIII, desenvolve-se uma crítica histórica, na qual se entenderá a história de duas formas:

  1. por um lado aos acontecimentos feitos pelo homem (res gestae);
  2. o reconhecimento disto, cognitio (res memoria);

Portanto não existe apenas a realidade histórica, mas também o conhecimento, isto é, a história converteu-se em ciência.

Desta dupla concepção, a história apontou dois problemas para a filosofia: um ontológico e outro epistemológico. A res gestae colocou o problema ontológico e a res memoria, o problema epistemológico.

A historicidade humana

Parece-nos que o homem é um ser histórico em oposição aos seres naturais, que são estáticos. O homem se faz assim mesmo (por isso a questão do homo sapiens e homo faber). Justamente aqui trabalha a filosofia, determinada pelo espaço temporal, colocando problemas para a sociedade em que vive seu significativo momento histórico.

A história, por sua parte, tem um caráter filosófico: terá historiadores idealistas e materialistas, hegelianos, marxistas, positivistas e hermenêuticos; com isso entendemos o porquê da filosofia da história.

A filosofia especulativa da história aparece no século XVIII, especialmente no idealismo alemão de Immanuel Kant e chegando na Universidade de Berlim com Georg Hegel. Suas conclusões se manterão no positivismo de Auguste Comte e no materialismo histórico de Karl Marx, embora ambos os autores tenham linhas distintas.

A filosofia crítica da história não aceita o fim da história. Este grupo surge no século XIX com uma crítica ao idealismo hegeliano, composto por Leopold Von Ranke, a escola alemã com Friederich Maineke, a corrente hermenêutica de Martin Heidegger e a Escola de Frankfurt, a corrente analítica da história com Carl Hempel e Karl Popper.

A concepção cíclica e linear da História

A concepção mítica do tempo não é linear, mas cíclica, por exemplo: a doutrina do Eterno Retorno; as religiões dármicas e, entre os gregos, os pitagóricos. As concepções cíclicas se mantiveram nos séculos XIX e XX por autores como Oswald Spengler e Paul Kennedy.

Willian McGaughey (Cinco Épocas de Civilização) vê a história humana como uma contínua história relacionada com o desenvolvimento da sociedade em épocas históricas. As introduções de melhores tecnologias de comunicação, como a escrita e a eletrônica, mudam a sociedade de tal forma que pode se considerar uma nova civilização. Não há fim da história, mas um processo contínuo de inovação tecnológica e desenvolvimento social.

A publicação de A Origem das Espécies, de Charles Darwin, em 1859, coloca o problema da evolução. É mais uma teoria da evolução linear em que as sociedades começavam pelo estado primitivo e, gradualmente, se convertiam nas mais civilizadas de seu tempo, igualando a cultura e tecnologia da civilização ocidental, com o progresso.

A história tem um sentido teleológico?

Pode-se dizer que Karl Marx e Auguste Comte têm uma concepção teleológica imanente da história, embora haja em seus trabalhos algumas descontinuidades (como no materialismo histórico e dialético de Marx).

O vencedor é aquele que escreve melhor a história?

Michel Foucault costumava argumentar que os vencedores de uma luta social usam seu predomínio político para suprimir a versão dos fatos históricos de seus derrotados adversários.

Walter Benjamin considerava que os historiadores marxistas deviam tomar um ponto de vista radicalmente diferente do capitalismo burguês na tentativa de criar um perfil da história de base de quem faz, isto é, a partir dos trabalhadores.

Os historiadores romanos atribuem a seus seculares inimigos, os cartagineses, crueldades sem fim. De modo similar, só temos a versão cristã de como o Cristianismo chegou a ser a religião da Europa, mas não a visão pagã (o mitraísmo, no século IV). Temos a visão europeia da conquista da América, mas não a visão dos nativos. Heródoto conta a versão grega das guerras médicas, mas não chegou até nós o lado persa. Temos uma visão inglesa sobre as atrocidades cometidas por espanhóis e portugueses, mas não as atrocidades inglesas cometidas nos Estados Unidos, África do Sul, Índia, Austrália, Nova Zelândia e Tasmânia.

E que este pequeno panorama os convidem a filosofar mais. Porque não?

Referências bibliográficas:

BERKHOFER, R. F. Mas allá de la gran história: la história como texto y discurso. Cambridge (MA): Harvard University Press, 1995.
COLLINGWOOD, R. G. A Ideia de História. Lisboa: Editorial Presença, 2001.
GARDINER, P. La Filosofia de la História. New York: Oxford Readings in Philosophy, 1974.
________.  Teorias da História. Lisboa: Fundação Calouste Gulbenkian, 1974.
JAMESON, F. La Inconciencia Politica: Narrativa como um acto social simbólico. Ithaca: Cornell University Press, 1981.

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