Economuseu ou Museu-Empresa Para Preservação de Processos Produtivos Tradicionais

Economuseum or Company-Museum For the Preservation of Traditional Productive Processes.

Por Regina Márcia Moura Tavares – antropóloga, professora. Titular da Cadeira  25 do IHGG Campinas.

Acredito que nunca tenha sido tão adequado falar sobre a preservação de processos produtivos artesanais, como no momento em que vivemos!

A espécie humana vê, pela primeira vez com seriedade, a continuidade de sua existência no planeta Terra estar ameaçada em decorrência do aquecimento global provocado pela emissão de gazes na atmosfera e por outros tantos fatores decorrentes da destruição de itens necessários ao equilíbrio ecológico.

Sem sombra de dúvida, a ciência, o desenvolvimento tecnológico e a industrialização trouxeram qualidade e bem estar ao Homem. Entretanto, a utilização desenfreada dos recursos naturais em favor de um modelo econômico que prioriza a acumulação de riquezas e o consumismo, deixaram cicatrizes terríveis no meio ambiente. Por outro lado, já temos um percentual mínimo da população mundial morando e trabalhando na zona rural, enquanto as cidades crescem desordenadamente, acumulando problemas insolúveis no curto prazo.

No processo de urbanização galopante da 2ª. metade do século XX, perderam-se conhecimentos produzidos por inúmeras gerações sucessivas para resolver os problemas de sobrevivência do Homem em habitats específicos. Soluções criativas, muitas vezes mais condizentes com que hoje chamamos de Desenvolvimento Sustentável, capazes de dar respostas satisfatórias às necessidades dos grupos sociais foram abandonadas em nome do “progresso”.

Justapõe-se a esta perda uma avalanche tecnológica a qual, ao mesmo tempo em que traz benefícios ao Homem, afasta-o do labor diário no qual sente-se útil, motivado e vaidoso de sua condição de criador, de co-responsável pelos caminhos da coletividade à qual pertence. A Indústria Cultural, por outro lado, manipulada pelos interesses de grandes corporações transnacionais, inaugura um tempo de homogeneização cultural planetária, relegando ao descaso tudo o que não é “fashion” e não está na mídia.

Finalmente, cabe ressaltar, que o Desenvolvimento dos países acaba acontecendo muito mais sob a imposição de modelos exógenos, do que pela ação de fatores endógenos; e os próprios cidadãos perdem a condição de agentes históricos, construtores do passado, do presente e do futuro de suas sociedades, pois não vêem suas heranças culturais envolvidas no processo de construção de uma nova realidade. Aliás, esta situação não é tão nova, pois a mundialização da cultura europeia levada a cabo pela burguesia do século XVI seguiu o mesmo figurino!

Se considerarmos válido o conceito de Desenvolvimento do eminente humanista e economista brasileiro Celso Furtado, já referido em texto anterior, iremos verificar que nestes termos não nos desenvolvemos e que o que está em andamento em nossos países, assim como no passado, apesar dos avanços democráticos é, também, uma perigosa marginalização cultural que nos tolda a razão e a capacidade de perceber claramente o que se passa à nossa volta.

Não se poderá jamais promover o desenvolvimento dos povos sem incluir questões de ordem político/econômica na discussão dos temas culturais. Cultura e Poder sempre andaram de mãos dadas e muitas vezes os Museus foram aparatos ideológicos do Estado, assim como a Escola, perpetuando situações de injustiça social através de uma ação equivocada ao tratar e expor suas coleções, com a participação consciente ou não dos profissionais que neles atuam.

A vida social sempre incluiu a troca de bens, o consumo em níveis diferentes tanto nas organizações comunitárias quanto nas societárias. Qualidade de vida na sociedade contemporânea envolve a apropriação, por parte das populações, de uma série de bens que lhes permitem ter saúde, educação, moradia, lazer. As populações ágrafas relativamente isoladas e as camponesas já passaram a ter necessidades semelhantes àquelas dos habitantes das cidades. Se o Poder Público não tomar consciência dessa situação estará colaborando, indiscutivelmente, para a manutenção da vergonhosa situação de disparidade de condições de vida que existe entre as inumeráveis populações do mundo. A globalização econômica vem contribuindo para aumentar o fosso entre os ricos e pobres e colocando às escancaras uma ferida secular que se pretendia ignorar, ou seja, a injustiça social.

As utopias não morreram e por elas devemos continuar lutando! Por isso creio que deva ser divulgada a experiência que vem sendo realizada no Canadá por Cyril Simard, grande estudioso do artesanato nacional, dos índios iroqueses e esquimós. Esse canadense criou o conceito de ECONOMUSEU ou MUSEU-EMPRESA: Economia e Museologia associadas orientando a organização de várias unidades, a saber: a Papelaria St.Gilles (de papel artesanal), o Atelier Parré (madeira), a Verrerie (vidro artesanal da região de Québec), o Economuseu das Peles e muitos outros. Quando fui conhecer melhor sua proposta, Cyril ocupava o cargo de Administrador dos Bens Culturais da Província do Québec, região canadense que já possuía o Turismo Cultural como o primeiro item da balança comercial.

Retornando ao Brasil procurei desenvolver um projeto que, simultaneamente, preservasse as tradições populares do Artesanato Brasileiro e abrisse frente de trabalho e renda para segmentos populacionais sem escolaridade suficiente para adentrar ao afunilado e exigente mercado de trabalho dos dias atuais.  A oportunidade surgiu quando, no ano seguinte, orientei no Curso de Turismo da Universidade um projeto para a criação do “ECONOMUSEU DA DOÇARIA TRADICIONAL”, num município tradicionalmente de economia agrícola, distante 350 Km da capital. No projeto arquitetônico, inclusive, buscamos integrar as atividades cultural e comercial de maneira harmônica. Mais tarde, para os técnicos do SEBRAE-SP explicitei em palestra a proposta, tendo-me sido pedido um anteprojeto para um ECONOMUSEU DA CERÂMICA do Vale do Ribeira, visando ao resgate, à valorização, à preservação de técnicas produtivas, à comercialização e ao desenvolvimento daquela região do Estado de São Paulo. Situações político-partidárias, como de costume, inviabilizaram o projeto.

Pode-se dizer que esse tipo de museu tem as características de uma pequena empresa do tipo artesanal que: 1) produz objetos tradicionais e/ou contemporâneos com conotação cultural (em relação ao próprio objeto, ao material, ao local ou às pessoas); 2) que possui um centro de animação e de interpretação da produção (visualização do processo produtivo e documentação pertinente ao mesmo); 3) que valoriza os atributos ambientais e patrimoniais de uma construção e/ou de um local; 4) com o objetivo fundamental de promover um auto-financiamento completo do sistema. Para seu perfeito funcionamento são exigidos quatro espaços bem definidos sendo: o 1º para a visualização de todo o processo produtivo pelo visitante; o 2º para o acesso à documentação em várias linguagens; o 3º para a exposição das matérias primas e produtos produzidos com as mesmas em vários momentos da existência da prática artesanal na região; e o 4º para a apresentação dos produtos a serem comercializados, com pequenos textos explicativos.

Juridicamente, ele pode ter assumir várias formas para atender o proprietário único, a cooperativa, a corporação com fim lucrativo ou a fundação.

Venho fazendo um grande esforço de sensibilização junto a empresários, intelectuais e poder público do Brasil e demais países latino-americanos para a criação dos ECONOMUSEUS para o artesanato e demais produtos oriundos de práticas produtivas tradicionais. Considero que num momento no qual necessitamos, urgentemente, reinventar o modelo de desenvolvimento, dando ênfase à sustentabilidade, tais unidades econômico-culturais podem ser de grande importância, pois irão resgatar, revitalizar e difundir técnicas e práticas já abandonadas pela população em resposta à imposição do “marketing” de grandes conglomerados industriais transnacionais. Penso mesmo que a tecnologia considerada obsoleta pode ser muitas vezes mais adequada às nossas características geofísicas, e que se novamente ativada, poderá vir a colaborar para a criação de um novo modelo de desenvolvimento sustentável para o país.

Em bairros dos grandes centros urbanos ou em pequenas e médias cidades o MUSEU-EMPRESA acaba sendo um polo de atração turística, além de um espaço de educação informal, pois nele há a transmissão da memória local e a autogestão onde estudantes, turistas e pesquisadores podem usufruir da visualização do processo de produção de um produto específico, encontrando farta documentação escrita e audiovisual sobre a assunto e podendo ainda adquirir bens com valor agregado.

Podemos enumerar virtudes de um ECONOMUSEU ou MUSEU-EMPRESA, a saber:

  1. Promove – se a identificação da cultura local para a fruição da própria população que nela se reconhece e a oferece como produto a ser consumido pelos visitantes;
  2. Preserva-se o saber acumulado a respeito de uma determinada atividade da cidade a partir da demonstração do processo, da documentação e da exposição às novas gerações as quais, motivadas, tendem a permanecer em seus lugares de origem reduzindo o já consagrado êxodo para os grandes centros onde acabam tendo vida miserável acrescida da marginalização cultural que acarreta a violência;
  3. O detentor do conhecimento relativo à atividade artesanal é valorizado enquanto um produtor cultural importante, o que lhe garante autoestima, posição social e identidade, elementos essenciais a um bem estar individual e social;
  4. Abre-se um novo mercado de trabalho vinculado às atividades culturais devidamente organizadas para melhorar a qualidade de vida dos habitantes da região;
  5. O turista tem acesso a um fenômeno que lhe é apresentado de forma inovadora e consciente, oferecendo à cidade o retorno que dele se espera;
  6. Aumenta-se a circulação de riquezas, favorecendo a área de serviços básicos.
  7. Inaugura-se um processo de autogestão, garantindo-se a qualidade da proposta através da supervisão de um grupo de especialistas.

Nos países em fase de desenvolvimento, com grandes contingentes populacionais miseráveis, os quais institucionalizaram a violência como forma de sobrevivência, um tipo de museu como este pode e deve ser estimulado para que a preservação da herança cultural não seja um mero exercício de diletantes das camadas favorecidas, mas efetivamente, uma condição imprescindível ao desenvolvimento dos mais carentes e em bases próprias.

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