José de Anchieta, o Santo do Brasil

José de Anchieta, the Saint of Brazil.

Por Paulo Barros Camargo (in memoriam) – educador, museólogo. Sócio fundador do IHGG Campinas.

No dizer do Mestre Afonso de Taunay, Anchieta foi o mais notável dos fundadores de São Paulo. Pergunta-se então, por que o mais notável? São Paulo teve mais de um fundador? Está aqui um ponto controvertido da história paulista. Os documentos não são categóricos e o historiador encontra posições antagônicas que se digladiam de forma peremptória.

Isto não acontece apenas com relação a São Paulo de Piratininga, pois em quase todas as povoações coloniais do Brasil encontramos dificuldades e confusões em determinar, com segurança, a época da fundação e seus fundadores. Isto se dá, inclusive, com a fundação de São Vicente, a célula mater da nacionalidade.

Foi Martin Afonso de Souza o fundador? Teria sido João Ramalho? Os jesuítas Nóbrega, Anchieta, Leonardo Nunes ou Manoel de Paiva? Ou ainda os caciques Tibiriçá ou Caiubi? No dizer do historiador Ernani da Silva Bruno, Ninguém tem o direito de expulsar do ato amplexo da fundação da cidade de Piratininga nenhum desses personagens. Eles atuaram como símbolos ou expressões de profundos fatores econômicos, políticos e religiosos, que se entrelaçaram e se fundiram em determinado momento histórico, dando em resultado o povoamento do planalto da Capitania de São Vicente e da formação do seu primeiro núcleo urbano estável.

Entretanto, não podemos deixar de reconhecer a figura de Anchieta como a de maior expressão no episódio da fundação de São Paulo. No dia 25 de janeiro de 1554, o padre jesuíta Manoel de Paiva ministrou a 1ª Missa no planalto de Piratininga, considerado por muitos o ato da fundação de São Paulo. Na mesma data, o irmão José de Anchieta fundou o Colégio e, uma vez fundado, este iniciou a formação da Vila em meio selvagem e inóspito, à boca do sertão, no topo da Serra do Mar, sem condição alguma de prosperar. Foi Anchieta quem forjou essas condições.

Cassiano Ricardo diz: São Paulo foi fundado por um ato inicial simples, quase simbólico e por uma longa série de atos sucessivos e penosos. Estes atos sucessivos e penosos só uma personalidade forte e destemida como a de Anchieta poderia ter praticado. Ele sentiu a força telúrica do ambiente, aproveitou os padrões culturais de comportamento, estudou Tupi para poder entrar no mundo primitivo, pois só assim poderia garantir a obra da fundação, tendo sido o indígena sua preocupação primeira. É admirável pensar que essa proeza formidável de um pequeno espanhol das Canárias, mal saído das aulas humanísticas de Coimbra, ainda quase adolescente, enfermiço e tímido, fosse chegar à figura gigante e polimorfa, cujas virtudes heroicas marcam a história paulista, como posição central na galeria dos seus maiores personagens.

Do Brasil, José de Anchieta foi o primeiro Mestre Escola; Tupinólogo; Poeta; Soldado; Diplomata; Cronista; Jornalista; Dramaturgo e fundador do Teatro Brasileiro. Pode ainda Anchieta ser o patrono de muitas profissões, como sapateiro, barbeiro, pedreiro, farmacêutico, enfermeiro, construtor engenheiro. Enfim, ele exerceu os misteres da vida, primazia, dedicação, competência, amor e total renúncia, não tendo outro objetivo senão a sua fé no Criador em benefício do próximo, em meio totalmente incerto e selvagem, não tendo outro escopo a não ser a Glória de Deus. Minudenciar a vida fabulosa de Anchieta é exercício amplo que devemos resumir.

O Primeiro Mestre

Com a fundação do Colégio a 25 de janeiro de 1554, deu início Anchieta à sua obra evangelizadora e educativa: Eu ensino os meninos a ler, escrever e cantar. Fez-se professor dos curumins, dos irmãos e dos sacerdotes. Para suprir a falta de livros, perdia parte da noite a copiá-los e sua atividade intelectual era incansável. É evidente a primazia de Anchieta no ensino da Cartilha em São Paulo. Além do mais, Anchieta já fora mestre do ABC no Colégio da Bahia quando de sua chegada ao Brasil e, assim continuando, quando da sua estada na Vila de São Vicente. Um ano depois da fundação do Colégio em São Paulo, em 1555, escrevia Anchieta em suas cartas quadrimestrais: estamos nesta aldeia de Piratininga onde uma grande escola de meninos, filhos de índios, ensinados já a ler e escrever. Seus pais são muito domináveis, posto que já não matam nem comem os contrários. Basicamente era uma escola de ler, escrever e de religião. Anchieta também ensinou irmãos e até padres, pois se revelara excepcional humanista. Latim, Português, Castelhano e Tupi eram as cátedras que ele regia nos dias da Implantação do Colégio.

Jônatas Serrano diz que Anchieta foi o precursor da Escola nova na floresta ínvia entre a indiana antropófaga. Ele era vocacionalmente um mestre, um professor inato, um estudioso permanente. Poeta e dramaturgo, usando a poesia e o teatro como forma de transmissão de ensinamentos, ia o irmão José incutindo nos selvagens ensinamentos morais e religiosos, plantando as verdadeiras raízes da nacionalidade. É inacreditável o poder de improvisação desse inaciano, ora nas próprias tabas, ora em pleno campo a céu aberto. Os métodos de aprendizagem por ele empregados eram os mais diversos: não havia papel, tinta, lápis, livros, quadro negro. Faltava de tudo.

Só não faltava aquele espírito indômito de caridade continuada que animava José de Anchieta, no sentido de catequizar e evangelizar os selvagens e o colono. Ele mesmo diz em um dos seus autos:

Alegrai-vos
Filhos meus por mim
Aqui estou para vos proteger
Vim do Céu
Para junto de vós
A ajudar-nos sempre.
 

O Médico

Em sua Pequena História da Medicina Brasileira, o nosso historiador Lycurgo de Castro Santos Filho diz: A assistência médica foi uma das poderosas armas empregadas pelos padres jesuítas na catequese do selvagem brasileiro. Foi ela quem deu à Companhia de Jesus um de seus maiores títulos de glória, proporcionando o socorro médico, não somente ao indígena como aos colonizadores e escravos.

Nesses duros anos de catequese, o inaciano medicou, lancetou, sangrou e até patejou. Nos primeiros anos de colonização, quase todos os padres e irmãos jesuítas praticaram a assistência médica.

Diz o historiador Lopes Rodrigues, em seu livro Anchieta e a Medicina, que: Anchieta foi médico, cirurgião, parteiro, higienista, legista, terapeuta, genicólogo, psiquiatra, nosologista, naturalista e observador, enfermeiro, padioleiro, coveiro, não houve ramos de medicina que não atraísse a divina intuição do Padre Anchieta. Mais adiante ainda diz: Mezinhou, operou, sangrou, partejou, pensou, exumou; curou feridas bravas, cancros, mordeduras, envenenamentos, assistiu a velhos e infantes, moribundos e alucinados; curou feridas de guerra, flechados, massacrados; combateu pestes, infecções, febres, epidemias, suicídios, sugestionou, persuadiu, aliviou aflitos e moribundos, inhomou os mortos, finalmente descreveu doenças e doentes. E ainda diz: é por isso que lhe damos o título de: Galeno Jesuítico do Brasil.

É o próprio Anchieta que diz em uma de suas célebres cartas: No tempo em que estive em Piratininga, servi de Médico e barbeiro, curando e sangrando.

O Poeta

Encontramos no Pequeno Dicionário de Literatura Brasileira da Editora Cultrix, no verbete Anchieta, página 31, o seguinte Desde logo, ao lado da Catequese, Anchieta dedicou-se ao estudo da língua nativa, compondo nela orações cristãs, o catecismo e os interrogatórios para as confissões, esboços dramáticos, cantigas profanas e sacras, chegando a estabelecer, baseado na língua latina, as normas gramaticais do idioma gentio em sua obra “Arte de Gramática” da língua mais usada na costa do Brasil (Coimbra, 1595). A poesia, tanto aquela expressa em português e espanhol (cuja experiência se inspira na tradição poética da Península em metro redondilho), como a que escreveu em latim ou tupi, surge marcada por acentos fortes de melancolia e desencanto, quando não por uma unção religiosa que não chega a ser mística num prolongamento da velha tradição europeia do culto poético mariano. Duma poesia lírica que lembra os melhores momentos da poesia de Gil Vicente, são as suas trovas escritas para Santa Inês, em pentassílabos.

Decerto, temos em Anchieta um autêntico polígrafo, escrevendo em vários idiomas e sobre matérias as mais diversas: didática, epistolografia, poética, parenética, teatral e histórica. Para a maioria dos críticos literários, Anchieta foi o criador da poesia brasileira e ponto de partida esplêndido de uma literatura que despontava para os seus grandes momentos. É Cassiano Ricardo quem diz Mas o meu Anchieta é o poeta, hoje ainda de vanguarda, pois são até os vanguardistas de 1965 que o citam como precursor.

A Comissão do IV Centenário da cidade de São Paulo publicou um alentado volume de 833 páginas com as poesias de José de Anchieta, em português, castelhano, latim e tupi, em manuscrito do século XVI, que é o maior repositório da obra de Anchieta, por onde se vê a sua grande produção literária. O Poema à Virgem Santíssima é, talvez, de todas as obras de Anchieta, a mais conhecida e a mais celebrada. Diz o escritor Julio Garcia Morejón O Poema à Virgem escrito na areia de Iperoig, é uma das suas obras-primas, extraordinário esforço de mais de cinco mil versos e uma das maiores alturas a que chega a poesia mariana em latim à época em que produziu.

O poeta Menotti Del Picchia assim canta:

Anchieta,
Taumaturgo e poeta,
Teu fulgor enche a noite da colonização
Como um astro a luzir através do sertão
Ergueste à Virgem pura um poema lunar
Nas areias do mar, junto às ondas do mar
Da praia vicentina em cujo céu de anil
Teu vulto cresce, imenso, a irradiar glória e graça
Santo da minha raça, Nosso Senhor do Brasil.
 

O Santo

Depois de ter levado vida santificada e mortificada, morre ele a 9 de junho de 1597 em Beritiba: imediatamente, o Padre Pero Rodrigues, Provincial do Brasil, encarregou o Padre Quirino Caxa, professor de Teologia dogmática e moral, de escrever uma biografia do Taumaturgo do Brasil, o que foi feito em 1598. Quirino foi, portanto, o primeiro biógrafo de Anchieta e, em sua obra, lemos: Se é verdade que todas as virtudes andam juntas como boas irmãs, certo é que o Padre José as teve todas em muita perfeição.

Em seguida enumerou todas elas e mais ainda um rol extenso dos milagres, com pormenores e provas, dos dons sobrenaturais de Anchieta.

Uma auréola de Santidade desde logo circundou a fronte do Taumaturgo que, além de apóstolo, praticava atos que só um santo poderia fazer.

Por sua vida imaculada, seu constante martírio, ainda em terra selvagem e inóspita, José de Anchieta bem mereceu a honra dos Altares. Foi eleito um bem-aventurado. O processo de sua canonização ainda não está concluído. Apenas foi beatificado e seu culto pode se dar no Brasil onde exerceu o seu apostolado, na Companhia de Jesus, da qual era membro, e em sua terra natal, as Canárias. É, pois, Padre José nosso Santo, Santo do Brasil, seu primeiro taumaturgo, modelo dos heróis evangélicos que o Brasil produziu no período colonial.

(Nota do editor: não estava canonizado à época da publicação original deste artigo, mas o Papa Francisco decretou sua santidade a 3 de abril de 2014).

Referência
Em São Paulo localiza-se a Biblioteca Pública Padre José de Anchieta. http://www.prefeitura.sp.gov.br/cidade/secretarias/cultura/bibliotecas/bibliotecas_bairro/bibliotecas_m_z/padrejosedeanchieta/. Acesso em: 8/11/2017

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