Nicolina de Assis, a escultora campineira que atravessou o oceano

Nicolina de Assis, the Sculptor Born in Campinas, SP, Brazil, Who Crossed the Ocean.

Por Sara Valadares Ribeiro dos Santos – educadora, professora. Titular da Cadeira  47 e Diretora do IHGG Campinas

O Instituto Histórico Geográfico e Genealógico de Campinas foi fundado em 14 de julho de 2006 pelo escritor Dr. Expedito Ramalho de Alencar, por um grupo de historiadores e por outras pessoas interessadas em história.

Fui convidada para integrar esta Instituição cultural de grande valor e, em 14 de outubro de 2007, tomei posse como Membro, tendo como padrinho o casal de confrades: professores Ângelo Emílio da Silva Pessoa e Mirza Pellicciotta.

Dias antes da posse, o Dr. Expedito sugeriu-me três nomes para patrono da cadeira 47 que seria a minha. Confesso que não senti entusiasmo por nenhum deles e perguntei se não poderia escolher outro patrono. Ele falou que sim, pensei: “Meu DEUS, quem? Queria que fosse uma mulher, de preferência campineira, cogitei várias; a primeira miss brasileira oficial, a campineira Maria José Leone, a Zezé Leone, que foi eleita para as comemorações do centenário da Independência do Brasil em 1922. Pensei também na poetisa Ibrantina Cardona, que apesar de ter nascido no Rio de Janeiro, morou e teve forte ligação com Campinas nos anos 1930, chegando a ser Membro do Centro de Ciências Letras e Artes – CCLA, tendo sido homenageada pela cidade que escolheu seu nome para batizar uma Rua no Distrito Industrial IV. Vaguei pelos nomes das escritoras Júlia Lopes, Maria Amélia Rezende, que escreveu um belíssimo livro sobre seu pai, o Barão Geraldo de Rezende. Por fim, cheguei ao nome de Nicolina de Assis. Não foi professora, poetisa e nem escritora e escolheu uma área de difícil acesso feminino. Foi a primeira escultora brasileira.

Nascida Nicolina Amélia Vaz, em Campinas, em dezembro de 1866. De acordo com a professora e pesquisadora Noemi Ribeiro,

“há um engano quanto a data do nascimento da artista, tanto no dia e no ano, pois ela nasceu prematura e não há registro da certidão de batismo, também não há registro do dia do aniversário de Nicolina. O batismo dela foi realizado in extremis, dada sua condição de saúde. Ela foi batizada pelo Padre José Vieira, na Igreja Milagrosa de Nossa Senhora da Candelária, na cidade de Indaiatuba, SP. Se Nicolina tivesse nascido em 1874, teria 23 anos ao ingressar na Escola Nacional de Belas Artes. Em sua ficha de matrícula constam filiação e sua idade 32 anos, em 1897”.

Filha do Dr. Luiz Gonçalves da Silva Vaz, médico, e de Benvinda Silva Vazo, aos treze anos manifestou vocação para a escultura, ideia bastante extravagante para a época, principalmente para “moças e senhoras de família” mas seus pais a apoiaram e a matricularam na Escola de Belas Artes do Rio de Janeiro. Fez um curso brilhante e, ao término, recebeu medalha de ouro e uma viagem para a Europa às expensas do Governo. Como naquela época esse tipo de auxílio só era dado a homens, o assunto foi discutido no Congresso, que decidiu a favor de Nicolina, onde aperfeiçoaria sua arte nos cursos dos grandes Mestres. Permaneceu em Paris de 1904 a 1907.

Anos antes, já no Rio de Janeiro, havia se casado com o médico Benigno Alfredo de Assis. O casamento aconteceu na Matriz Nossa Senhora da Glória, na cidade do Rio de Janeiro, em 1881. Nicolina tinha quinze anos. O noivo, nascido em 1859, era de família proprietária e produtora de açúcar da cidade de Cachoeira na Bahia, tendo se formado em medicina pela Faculdade do Rio de Janeiro. Dos vinte e oito anos de casados nasceram sete filhos, seis mulheres e um homem. Em 1909 falece Dr. Benigno, deixando Nicolina viúva. Com o falecimento do marido, passou a viver exclusivamente da Escultura.

Era uma mulher bonita e de temperamento tímido. Agraciada com a Menção Honrosa no salão de Belas Artes, não foi receber o prêmio.

Em 1911, tendo como testemunhas Maryon Ricciardi e Sebastião Ricciardi, respectivamente filha e genro, casa-se com o Escultor Português Rodolfo Pinto Couto, vinte anos mais novo que ela e que havia conhecido em uma viagem de trabalho em Paris. Passa a assinar Nicolina Vaz Pinto do Couto. Ele passa a gerir a carreira de Nicolina. Neste período trabalham bastante, Rodolfo assina contrato com a Irmandade de Nossa Senhora da Candelária para a realização de dois púlpitos em mármore para a nave central da igreja. Participa de inúmeras Exposições. Em 1913, durante o Salão 1913, é a única mulher na sessão de esculturas, onde apresenta uma estatueta de mármore (Amor Selvagem) e um retrato busto, em gesso, de Francisco Pereira Passos.

Em 1919 começa seu trabalho de maior vulto, a Fonte Monumental, que é inaugurada talvez em 1923, a data não é precisa, pois em um catálogo de 1929 é dada como em execução. Localizada na Praça Júlio de Mesquita, antiga Praça da Vitória em São Paulo. Feita de mármore italiano em duas tonalidades.

Nicolina continua a produzir bustos, monumentos públicos e funerários. O relacionamento com Rodolfo começa a desgastar-se e ela separa-se judicialmente em 6 de agosto de 1936. Rodolfo Pinto Couto retornou para Portugal, não se tendo mais notícias dele. O casal não teve filhos.

Não se tem notícias se ela retornou à sua terra natal. Viveu seus últimos anos em Petrópolis, no Rio de Janeiro, vindo a falecer em 19 de outubro de 1941, tinha setenta e cinco anos, uma família numerosa e um legado artístico construído não só no Brasil, mas em Paris, Milão e Lisboa onde perpetua seu nome e trabalho por meio de suas obras.

Em sua homenagem, Campinas deu seu nome a uma rua no Jardim Leonor. O Prefeito Antônio Mendonça de Barros, atendendo a um pedido do Jornalista Bráulio Nogueira Mendes sancionou a Lei n°1.009 de 23 de setembro de 1953, perpetuando para sempre o nome de Nicolina de Assis em sua terra natal.

Nicolina de Assis é também nome de rua no bairro Butantã em São Paulo, também material de tese acadêmica apresentada na Universidade de São Paulo, USP pela Professora Ana Paula Cavalcanti Simioni. Sua imagem mais conhecida é o quadro pintado pelo Pintor Eliseu Visconti (1866-1944), em 1905.

Em toda sua carreira executou mais de 500 peças, destacam-se: o monumento funerário do General Couto de Magalhães, no Cemitério da Consolação, SP; bustos do Marechal Deodoro da Fonseca, Floriano Peixoto, Doutor Prudente de Moraes, Doutor Campos Salles, Doutor Rodrigues Alves, Doutor Afonso Pena, de Sua Eminência o Cardeal Arcebispo do Rio de Janeiro D. Joaquim Arcoverde; do Ator Gravinha na Itália, do Conselheiro Camello Lampreia em Portugal, dentre outros.

Se quando do convite para adentrar ao Instituto Histórico Geográfico e Genealógico de Campinas fiquei na dúvida qual seria o patrono de minha cadeira, agora, passados sete anos, sinto-me gratificada por ter trazido à luz a figura brilhante desta campineira virtuosa que através de sua arte não só engrandeceu o nome de Campinas, sua cidade natal, como atravessou além-mar.

Bibliografia
BITTENCOURT, Adalzira. A Mulher Paulista na História. Rio de Janeiro: Livros de Portugal, 1954.
GRACIE, Reila (Org.) Julieta e Nicolina: duas Escultoras Brasileiras; a escultura feminina na passagem do século XIX ao XX. Rio de Janeiro: Ediouro, 2009.
SCHUMAHER, Maria Aparecida e BRAZIL, Érico Vital. Dicionário Mulheres do Brasil: de 1500 até a atualidade. Rio de Janeiro: Jorge Zahar, 2000.
SIMIONI, Ana Paula Cavalcante. Profissão Artista: Pintoras e Escultoras Brasileiras. São Paulo: USP/Fapesp, 2008.

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