Odilon Nogueira de Matos: um Humanista

Odilon Nogueira de Matos: a Humanist.

Por Maria Lúcia de Souza Rangel Ricci (in memoriam) – historiadora, professora. Sócia Fundadora do IHGG Campinas

Nascido em Piratininga (SP) em 5 de maio de 1916, antes de residir em Campinas (final do ano de 1981), Odilon Nogueira de Matos andou por esse Brasil não apenas enquanto aluno, mas também como professor (sua vocação primeira). Assim, estudou em Campinas, Bauru e Juiz de Fora, no tradicional Colégio Granbery, onde se diplomou em 1933.

É esse ser de estatura mediana, de certa maneira roliça, de tez clara, nariz arrebitado, olhos vivos, brilhantes e profundos, fala meiga, extremamente discreto e humilde, possuidor de agudo espírito de observação, caráter ilibado, sendo um dos significativos representantes da cultura / educação paulista.

Não foi apenas educador; teve também sua vida marcada pelo jornalismo, tendo sido colaborador, entre outros jornais, do Correio da Manhã (Rio de Janeiro, onde fez sua estreia), do Estado de São Paulo, do Correio Paulistano, do Correio Popular e do Diário do Povo (ambos de Campinas), além de, por vários anos, escrever para A Federação (Itu).

Fez o curso de Geografia e História na então Faculdade de Filosofia da Universidade de São Paulo, licenciando-se em 1939. Em 1973, doutorou-se em Ciências Humanas na Escola de Sociologia e Política de São Paulo.

Todavia, mesmo antes de licenciado sua capacidade já era conhecida a tal ponto que, em 1935, o Colégio União de Uruguaiana (RS) o chamou para lá ensinar. E, em 1940, já o encontramos como professor substituto de geografia e astronomia no Colégio Universitário, anexo à Escola Agrícola Luiz de Queiroz (Piracicaba). Entre 1941-1946 lecionou nos Colégios Mackenzie e Dante Alighieri (São Paulo).

Nos anos de 1942-1947 foi assistente da Cadeira de História do Brasil da Faculdade de Filosofia, Ciências e Letras da USP, onde permaneceu até que se tornou secretário dessa mesma faculdade (1947-1958). Quando deixou essa Secretaria, tornou-se professor do Departamento de História e Geografia dessa instituição (1958-1977).

As atividades docentes de Odilon Nogueira de Matos estenderam-se também pelas Minas Gerais, por Taubaté, na Escola de Sociologia e Política de São Paulo, na Pontifícia Universidade Católica de São Paulo e, a partir de 1958, na então Universidade Católica de Campinas (elevada à Pontifícia em 1972), onde passou a lecionar Introdução aos Estudos Históricos e História do Brasil.

Não parou por aí sua lida como educador, pois foi também lente na Escola de Biblioteconomia de São Paulo, no Instituto Cultural Brasil-Itália de São Paulo, no Instituto de Tecnologia da Aeronáutica (ITA) de São José dos Campos e na Fundação Armando Álvares Penteado, de São Paulo.

Ao longo de sua vida acadêmica, Odilon participou de vários congressos, simpósios, assembleias e mesas-redondas, nacionais e internacionais, sempre apresentando trabalhos significativos à historiografia brasileira e, em especial, à paulista. Sua cultura e o fato de saber transmiti-la sem arrogância conquistou tanto os que o ouviram em salas de aula, como também em grandes plateias.

Saliento, no entanto, que uma de suas mais significativas realizações foi a fundação, em 1969, da Revista “Notícia Bibliográfica e Histórica”, sob auspícios do Departamento de História da PUC-Campinas. Esteve o professor Odilon a dirigi-la até o final de 2005. Foi a mencionada publicação por todo esse espaço de tempo de periodicidade trimestral, sem nunca haver sido interrompida, com projeção não apenas no país como no estrangeiro, pelo interesse que sempre despertou em seus leitores.

Esse educador, com seu conhecido dinamismo, acabou por imprimir destaque às lides acadêmicas através dos anos, sendo valiosa e copiosa sua bibliografia. Apenas para aguçar nossos espíritos, lembro alguns trabalhos seus, não apenas de imprescindíveis consultas, que todos nós, cada vez que os relemos, sentimo-nos privilegiados por contar com a amizade de um grande ser humano, de ímpar capacidade: “Café e ferrovias” (com quatro edições); “O Brasil” na “Brasiliana”; trabalhos em obras coletivas como: “A cidade de São Paulo no século XIX” e “A literatura dos viajantes estrangeiros como fonte para a história”; prefácios e anotações a várias obras reeditadas (consideradas clássicas) como a “História do Brasil”, de J. Armitage, a “História do Brasil”, de H. Handelmann; além de centenas de artigos publicados em jornais e revistas culturais de várias cidades brasileiras, onde se destacou também como musicólogo, que constitui uma outra faceta desse mestre.

Na medida em que a questão histórico-sócio-educacional exige pés no chão, análise segura e não discursos bombásticos, demonstrou sempre ser o professor Odilon um humanista de primeira ordem, que atuou profissionalmente a cada instante de sua vida acadêmica, evidenciando com familiaridade que palavreado estéril e meras formulações teóricas que visem a situações imaginárias a nada levam, por não retratarem com coerência o cotidiano. E esta foi sempre a tônica desse ser humano que, como se não bastasse, nunca abandonou a modéstia; diria mesmo que jamais deixou de ser extremamente humilde e de se apresentar sempre com inigualável força de vontade, o que acabou por consagrá-lo definitivamente não apenas à paisagem cultural brasileira, mas como um cidadão de bem!

Ainda a destacar o sentido espiritual que Odilon soube dar a sua vida, como homem religioso que foi, e não apenas de uma religião exterior e oca, mas daquela que de fato conduz o homem ao seu Criador e o norteia em superior destino. E é o que sempre pontilhou a vida de nosso caro amigo e que acabou por transparecer em sua paz e retidão de caráter!

É esse mestre de sempre que reverencio e com o qual felizmente tivemos o prazer de conviver. É o homem que, merecidamente, tem a glória por justiça!

Ao relembrá-lo nesta oportunidade só posso agradecer-lhe com muito carinho pelos longos anos de verdadeiro companheirismo que mantivemos e da grata felicidade de ter nele o mestre que me abriu o espírito, para que pudesse ir galgando a maturidade.

Tive a felicidade de iniciar minha vida profissional como sua assistente na PUC-Campinas, na Escola de Sociologia e Política de São Paulo, e na PUC de São Paulo, onde pude constatar que dele promanava não apenas a orientação segura, mas, igualmente, a dedicação e o estímulo de que tanto necessita o jovem que se inicia. E o resultado concreto está nos mestres e doutores que orientou, nas pesquisas que ele próprio empreendeu ou levou outros a empreenderem.

Odilon teve a capacidade de potencializar em todos seus discentes a liberdade, para que pudessem caminhar sobre seus próprios pés, procurando abrir-lhes espaços outros para o reconhecimento das raízes históricas. Ao propor o dialogar continuado no sentido de que fossem as múltiplas visões de mundo, de sensibilidade, encaradas diante da pluralidade contraditória, seu lema foi que o historiador/educador deveria ser pleno de esperanças!

Caro Odilon: você foi o exemplo de que amigo é aquele que respeita, é carinhoso, trata a todos com gentileza; é presente, é música no coração!

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