A Transformação da Escrita Feminina: os Receituários de Cozinha nos Arquivos Pessoais

The Female Writing Transformation: Cooking Recipes in the Personal/Family Archives.

Por Eliane Morelli Abrahão – historiadora, professora da Unicamp
Titular da Cadeira  26 e diretora do IHGG Campinas

O primeiro contato com o Fundo Theodoro de Sousa Campos Junior (FTSCJ) – como é chamado o arquivo do titular, que se encontra sob a guarda e conservação do Centro de Memória – Unicamp (CMU) – ocorreu em 2004, ano em que o professor Hector Hernán Bruit – um dos primeiros pesquisadores do CMU – reuniu historiadores interessados em estudar a alimentação paulista de meados do século XIX até o início do XX. Os estudos abordavam às questões da sociabilidade, da comensalidade e dos modos de vida das famílias paulistas. A pesquisa foi realizada com base nos documentos que compõe o acervo de Arquivos Históricos do CMU.

A documentação que compõe o FTSCJ traz ricas informações sobre a história da família Sousa Campos – intimamente ligada com a fundação da Freguesia de Nossa Senhora da Conceição de Campinas de Mato Grosso, o primeiro nome dado a Campinas, em 1774. Foi possível desvendar aspectos culturais da sociedade entre 1860-1940, período analisado em minha tese de doutoramento: Os receituários manuscritos e as práticas alimentares em Campinas (1860-1940), defendida em novembro de 2014, junto ao Departamento de História do Instituto de Filosofia e Ciências Humanas da Unicamp.

Foi graças ao cuidado de Theodoro que esta história familiar, e a sua própria, foi preservada. Theodorinho, como era chamado pelos mais próximos, deixou registrado em testamento a intenção de doar seu arquivo de documentos pessoais e familiares e sua biblioteca ao CMU, desejo este que foi cumprido por sua irmã caçula, Maria de Lourdes Souza Campos Badaró (2006). Juntamente com os documentos – entre eles cadernos de receitas culinárias –, foram doados objetos de uso pessoal e doméstico, como candelabros em prata com as iniciais JSC (José de Sousa Campos), colheres e facas de prata, um jogo com cinco facas com as iniciais TSC (Theodoro Sousa Campos), toalhas de mesa, mobiliário, dentre outros itens museológicos.

Considerei, na referida pesquisa, os três receituários de cozinha redigidos pela mãe de Theodorinho, Anna Henriqueta de Albuquerque Pinheiro, entre os anos de c.1900-1940. Trata-se de importante fonte documental para estudar as práticas alimentares e vislumbrar as mudanças culturais e do cotidiano familiar, nesse caso, de uma significativa parte da sociedade paulista, no período de 1860-1940.

Receita de Meiguice de Sinhá
Receita de Meiguice de Sinhá escrita por Anna Henriqueta de Albuquerque Pinheiro. Acervo CMU, FTJCF.

Interessante apontar o quão difícil é localizar esse tipo documental nos arquivos privados. As famílias normalmente preservam a história dos homens públicos – políticos, empresários, por exemplo, e não a sua própria memória. Conforme aponta Michelle Perrot (2005, p.12), os herdeiros ou as próprias mulheres são pouco preocupados em deixar traços de seus eventuais segredos.

Anna Henriqueta Albuquerque Pinheiro
Anna Henriqueta Albuquerque Pinheiro. Pintura de Benedito Calixto. Acervo CMU.

Para compreender o processo de preservação dos receituários por meio dos registros escritos, tracei, baseada nesse arquivo familiar, a trajetória de vida de Anna Henriqueta. Isso permitiu-me analisar detalhes de sua rotina doméstica e estabelecer padrões que, comparados à outras experiências já estudadas, sugeriam atuações das mulheres no dia a dia da sociedade do período analisado.

A escritura feminina esteve presente no cotidiano da sociedade brasileira, desde meados do século XIX. As mulheres, inicialmente, eram leitoras de romances, novelas francesas e folhetins, para, depois, tornarem-se autoras de seus próprios textos. Antes de aventurarem-se na escrita autoral, facultavam-se a elas algumas poucas possibilidades de escritura: a institucional (os livros de oração e de registros religiosos) e os pessoais (os cadernos de pensamentos, os diários com seus segredos mais íntimos). Muito provavelmente, as leituras de livros, novelas e folhetins serviram de inspiração para os textos próprios, além de as aproximarem das ideias europeias. Na Inglaterra e França, por exemplo, as mulheres estão escrevendo e lutando por um espaço público de atuação. No Brasil, Josefina Álvares de Azevedo (redatora-chefe do jornal A Família, que circulou de 1888-1897) traz matérias sobre a precária situação da educação feminina e a opressão social sobre o sexo feminino.

É nesse contexto que  outras formas de escritura eram ensaiadas e produzidas pelas jovens senhoras. Após o casamento figuram os registros das tarefas rotineiras no lar, os cadernos de receitas de cozinha, registros de informações pessoais de filhos, pais, avós e outros parentes queridos (inclusive para lembrar das datas de nascimentos, casamentos e falecimentos), além de cartas trocadas com a família.

No que toca aos receituários culinários, muitas vezes eles eram recompilados ou ampliados, justamente, a partir das novas funções das mulheres casadas e na condição de donas de casa. É muito provável que a experiência adquirida na confecção de tais cadernos tenha estimulado as primeiras investidas de algumas delas na carreira das letras. Ou seja, dá-se a transformação qualitativa de uma escrita que nasce doméstica e se expande para além da casa, com a publicação de livros de cozinha contendo receitas “pessoais”, por exemplo.

Inicialmente restritas à escrita privada – dos diários, cartas e receituários, como frisado –, as mulheres não tardaram a se aventurar na redação de escritos públicos, ainda timidamente circunscritos a temáticas consideradas “femininas” como educação, artes, filantropia, religião, cozinha ou etiqueta social. A partir dessas encorajadoras incursões pelo mundo das letras, as mulheres da virada do século XIX para o XX foram, progressivamente, apropriando-se de outros campos da comunicação escrita, como o jornalismo e a literatura, especialmente a poesia e o romance.

A pesquisa confirma a transformação da escrita feminina, antes privada e familiar também em pública, configurando os dois gêneros. Primeiro, os diários e cadernos de receitas. Depois, esses escritos perdem a característica intimista ou doméstica, tornando-se conhecimento dirigido ao público, ao alcance de um universo muito mais amplo formado por seus leitores. Confirmam essa hipótese os três livros de cozinha originados de cadernos de receitas manuscritos, indicando claramente essa passagem do estágio doméstico para o público.

Estima-se que o número de manuscritos culinários que ultrapassaram as cozinhas dos lares de suas autoras para se transformar em livros impressos deve ser muito mais significativo para o período estudado.

Os escritos culinários de Anna Henriqueta abarcaram um extenso período de sua vida. A leitura desses documentos – sobreviventes do constante manuseio, do fogo e da gordura – revelam aspectos significativos daquela sociedade, tal como o âmbito da liberdade de escolhas alimentares das famílias, que ajudam a compor o retrato de seu cotidiano – imbricado de articulações simbólicas e repleto de lembranças de ensinamentos que foram sendo transmitidos através de gerações.

Também se pode encontrar nos receituários de cozinha as lembranças de lugares, de hábitos familiares e práticas sociais, de cheiros e sabores “[…] cujos retratos permitem reconstituir o ontem, o antes de ontem e o antes de antes de ontem”, como bem observou Lilian de Lacerda (2003, p.27). Mas esse é tema para futuro artigo.

Enfim, o estudo das trajetórias de Anna Henriqueta e de outras senhoras de seu tempo, por meio de seus arquivos pessoais ou familiares, permitiu-me realçar papéis sociais desempenhados por elas, representantes de parte significativa das mulheres brasileiras, antes vistas como meras donas de casa, com pouquíssimos “direitos” e quase sem possibilidades de expressão no seio da família patriarcal, tendo apenas como função serem boas mães, educadoras e esposas. Não foi bem assim. O que pude perceber é que algumas delas – poucas, certamente – conseguiram alçar voos mais altos nessa sociedade tradicional, marcando seu espaço e papel enquanto definidoras de novos padrões de comportamento e abrindo caminho para reivindicações futuras, por exemplo, o direito ao voto, conquistado em 1932.

Referências:
ABRAHÃO, Eliane Morelli. Os receituários manuscritos e as práticas alimentares em Campinas (1860-1940). Tese (Doutorado em História) – Instituto de Filosofia e Ciências Humanas, Universidade Estadual de Campinas, Campinas, 2014.
ABRAHÃO, Fernando A. (org.). Delícias das sinhás. História e receitas culinárias da segunda metade do século XIX e início do século XX. Campinas: CMU, Arte Escrita, 2007.
BADARÓ, Maria de Lourdes Sousa Campos. Depoimento com descendentes de famílias Campineiras. Campinas, 13 de junho de 2006. Entrevista concedida a Eliane Morelli Abrahão.
LACERDA, Lilian. Álbum de leitura, memórias de vida, histórias de leitoras. Prefácio de Roger Chartier. São Paulo: Unesp, 2003.
MAIOR, Valéria Andrade Souto. “Josefina Álvares de Azevedo. Teatro e propaganda sufragista no Brasil do século XIX”. Acervo Histórico, 2. Semestre 2004.
MALUF, Marina; MOTT, Maria Lucia. Recônditos do mundo feminino. In: SEVCENKO, NICOLAU (org.). República: da Belle Époque à Era do Rádio. v.3, p.7-48. In: História da vida privada no Brasil. Coleção coordenada por Fernando Antonio Novais (coord.). São Paulo: Companhia das Letras, 1998.
PERROT, Michelle. As mulheres ou os silêncios da história. Bauru: EDUSC, 2005.
TELLES, Norma. Escritoras, escritas e escrituras. In: PRIORE, Mary del (org.); PINSKY, Carla Bassanezi (coord.). História das mulheres no Brasil. São Paulo: Contexto, 2011.

Dados sobre o fundo:
Título: Theodoro de Sousa Campos Junior
Código de referência: BR UNICAMP CMU TSCJ
Período de acumulação: 1846-1991
Procedência: documentos doados pela família ao CMU
Âmbito e conteúdo: documentos textuais, iconográficos, museológicos e bibliográficos.

2 comentários

  1. Muito interessante seu artigo, Eliane. Gostaria de saber mais sobre Anna Henriqueta. Outro dia conversando com meu pai falamos de Theodorinho, que cursou Farmácia com meu tio Arnaldo Melchior. Tenho uma carta manuscrita de Theodoro de Souza Campos, datada de 1923, para sua filha Mariquinha, que morava em Bica de Pedra e era casada com o Dr. João Pupo Nogueira, combinando os detalhes de uma visita dela à Campinas para o aniversário da neta. Nessa carta ele menciona os arranjos que D. Anna sugeria para uma viagem tranquila.

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