A visita de D. Pedro II a Campinas, em 1886

Jorge Alves de Lima – escritor, historiador. Titular da Cadeira 42 do IHGG Campinas.

O ano de 1886 foi maravilhoso para Campinas. Além da vinda de Sarah Bernhardt, a maior atriz dramática daquela época, a nossa cidade, berço natal do maestro Antônio Carlos Gomes, mereceu a visita do respeitável imperador D. Pedro II e da imperatriz Dona Tereza Cristina.

O mais culto e honesto chefe de Estado da nossa história veio inaugurar a linha Campinas a Poços de Caldas da Companhia Mogiana de Estradas de Ferro. Ele chegou a Campinas no dia 22 de outubro de 1886, em comboio especial da Companhia Paulista, desembarcando na estação, onde almoçou e, a seguir, tomou o trem inaugural da Mogiana para cumprir o seguinte itinerário:

Dia 23 – Poços de Caldas; 24 – Volta dessa cidade, almoça em São João da Boa Vista e dorme em Ribeirão; 25 – Vai a Batatais e regressa a Ribeirão Preto; 26 – Parte dessa cidade, almoça em Casa Branca e vai dormir em Mogi-Mirim; 28 – Passa o dia todo em Campinas, onde cumpre extenso programa de visitas a diversas entidades; 29 – Daí em diante, a comitiva imperial segue para Porto Ferreira, Araras, Jundiaí, Itu, Piracicaba, Dois Córregos, Brotas, São Carlos do Pinhal, Araraquara, Rio Claro, de onde regressa a São Paulo.

Campinas preparou-se com esmero para receber o imperador. A Câmara Municipal e a Intendência mandaram enfeitar as ruas, largos e praças públicas com arcos de folhagens, bandeiras e bandeirolas. Foram colocados 14 arcos iluminados a gás na Rua da Constituição (Costa Aguiar) e na Rua Direita (Barão de Jaguara) no largo da Matriz Velha (do Carmo) e no Largo da Matriz Nova (da Conceição). Nesse local foram construídos coretos para as bandas de música, em frente ao palacete de Joaquim Egídio de Souza Aranha, então conde de Três Rios (depois marquês), onde ficaram hospedados o imperador e a imperatriz. Essa bela residência situava-se no ponto onde hoje está erguido o edifício Catedral.

Na manhã de 22 de outubro de 1886, uma multidão de mais de 4 mil pessoas ocupava a Estação da Paulista e em seu redor, quando, às 9h20, o trem especial encostou na plataforma, trazendo D. Pedro II, a imperatriz Dona Tereza Cristina e comitiva.

O povo, com respeito e entusiasmo, saudou os ilustres visitantes com foguetes e fogos de artifício; bandeiras brasileiras tremulavam a céu aberto. O hino nacional foi executado pelas bandas musicais do clube Mac-Hardy dos maestros Azarias Dias de Mello e irmãos Túlio. A sala principal da estação foi decorada com elegância e refinado gosto, o assoalho forrado com tapete verde e, nas paredes, vários quadros e espelhos.

Nesse cenário, uma mesa em formato de ferradura continha iguarias preparadas pelo melhor restaurante da época: La Ville de Florence, de propriedade de Dário Pisani. Nesse ambiente requintado, a diretoria da Companhia Paulista de Estradas de Ferro ofertou ao imperador e comitiva um lauto almoço.

Em seguida, eles foram conduzidos para a plataforma da Companhia Mogiana de Estradas de Ferro, nesse tempo, vizinha à da Paulista, onde estava o trem inaugural pronto a partir para Poços de Caldas. O vagão reservado ao imperador e à imperatriz estava mobiliado com finíssimas cadeiras de seda, de cor grená e consolo espelhado, estilo Luiz XV.

Precisamente às 11 horas, o comboio movimentou-se, levando o maior e mais honesto chefe de Estado da nossa história para percorrer pela primeira vez a linha férrea da Mogiana.

O desfile do monarca

No dia 27 de outubro de 1886, primavera de sol radioso e natureza em flor, às 15h30, uma bateria de 21 tiros anunciou o regresso de D. Pedro II e a imperial comitiva a Campinas.

Assim que pisaram o solo campineiro na plataforma da Mogiana, tendo o Hino Nacional como fundo musical, o imperador e a imperatriz foram aclamados pela multidão assistente. Tomaram assento na carruagem descoberta, puxada por quatro cavalos brancos, e desfilaram pela Rua da Constituição (atual Dr. Costa Aguiar). Os estudantes com seus estandartes e uma grande massa popular ocuparam literalmente a via pública, previamente decorada com arcos, bandeiras e folhagens. As janelas das residências, decoradas de verde e amarelo, estavam apinhadas de homens e mulheres.

À medida que o carro imperial avançava, D. Pedro II era delirantemente aplaudido. Os cidadãos e as crianças presentes atiravam-lhe flores. Em determinado instante, a carruagem foi envolvida e empurrada pelo povo entusiasmado até a residência do então conde de Três Rios (futuro marquês), situada no largo da Catedral. De uma janela, o imperador acenava aos populares que ocupavam a praça e as ruas vizinhas.

Após um ligeiro descanso, D. Pedro II visitou a Catedral e subiu à sua torre. No local reservado aos coros, ouviu, ao som maravilhoso do órgão, variadas peças musicais, nesse momento executadas pelo senhor Antônio Carlos de Sampaio Peixoto.

À noite, a iluminação a gás, na frente da igreja, nos arcos armados no largo e nas ruas adjacentes, ocasionou um efeito deslumbrante. Bandas musicais percorreram o centro festivo e movimentado de Campinas.

O imperador ouve operários

Já no dia seguinte, quinta-feira, 28 de outubro de 1886, D. Pedro II, às 6 horas da manhã, começou a visitar Campinas, sem obedecer ao roteiro traçado pelas autoridades locais.

Acompanhado do Conselheiro Antônio Prado, ministro da Agricultura, do Barão de Parnaíba, presidente da província de São Paulo e do marquês de Paranaguá, D. Pedro II, a pé, dirigiu-se à indústria Arens Irmãos e Cia., fabricante de implementos agrícolas. Percorreu-a completamente e conversou com os 140 operários que ali trabalhavam, inteirando-se pacientemente de suas reivindicações. Em seguida, sempre a pé, o imperador e comitiva dirigiram-se à empresa Lidgerwood M.F.G.C., localizada ao lado da Estação Férrea da Companhia Paulista. Examinaram-na, atentamente percorreram as oficinas de ferraria, carpintaria, de fundição, de torno, onde, democraticamente, o imperador dialogou com 198 operários. Continuando a pé sua visita, D. Pedro II, seguido das autoridades de sua comitiva, conheceu a indústria de Guilherme Mac-Hardy e Cia., operosa fábrica de máquinas agrícolas. Percorreu as dependências da empresa, quando palestrou com 180 operários a respeito de vários assuntos e das suas necessidades.

Tendo sido declarado maior a 27 de julho de 1840, quando começou a governar, foi, entretanto, sagrado imperador a 18 de junho de 1841. Fazia portanto 45 anos; quatro meses e dez dias que ocupava o trono quando aqui esteve nessa oportunidade. Dessa visita se conclui, caro leitor, que D. Pedro II dava para os políticos da época e os atuais, verdadeiras lições de democracia, civismo e patriotismo. Era profundamente honesto, exigente e sério no trato da coisa pública, qualidades inexistentes nos denominados representantes do povo de hoje, com raras e honrosas exceções.

D. Pedro II e Maria Monteiro

Terminada a visita à nascente indústria de Campinas, D. Pedro II e comitiva foram ao edifício do Circolo Italiani Uniti (futura Casa de Saúde), ainda em fase de construção, onde funcionavam as aulas sustentadas por essa sociedade. Recebido com emoção e respeito pelos professores, que lhe ofereceram uma pasta de veludo verde, forrada a cetim amarelo, contendo uma fotografia do prédio, D. Pedro II verificou o livro de matrículas, examinou alguns alunos e alunas, falando com eles em italiano e português. Depois, o imperador dirigiu-se ao Colégio Culto à Ciência, percorrendo-o e vistoriando, minuciosamente, todas as suas dependências; conversou com os professores e, como sempre fazia, questionou os alunos em diversas matérias, ficando impressionado com o alto nível de ensino ali ministrado e com o aproveitamento escolar dos discípulos. Dali partiu D. Pedro II para as escolas Correia Mello, Confederada Italiana, Colégio Internacional e Colégio Florence. Neste estabelecimento de ensino, alunas homenagearam o imperador cantando em coro diversas músicas. Todavia, o que mais impressionou D. Pedro II foi a jovem Maria Monteiro, que, com sua bela voz de contralto, interpretou com sensibilidade e talento diversas canções de Antônio Carlos Gomes, acompanhada ao violino por Sant’Ana Gomes e ao piano pelo professor Emílio Giorgetti.

Admirado pelas qualidades artísticas reveladas por Maria Monteiro, o imperador a enviou à Itália em 6 de junho de 1887. Foi a primeira artista lírica brasileira a pisar e fazer sucesso nos palcos do Velho Mundo, morrendo ali, infelizmente, ainda jovem, em 13 de fevereiro de 1897. Maria Monteiro é nome de rua no bairro do Cambuí.

D. Pedro II possuía intuição apurada para descobrir talentos com pendores intelectuais e artísticos e não media esforços para mandá-los à Europa, como fez com Carlos Gomes, o maior gênio musical do continente americano.

1 conto e 900 mil-réis

Depois de visitar as escolas de Campinas, D. Pedro II dirigiu-se à Santa Casa de Misericórdia. Percorreu-a de ponta a ponta, conversando com o corpo clínico, para saber, detalhadamente, o serviço médico ministrado, necessidades mais prementes da equipe de enfermagem e de todos aqueles envolvidos com os pacientes internados. Todos os doentes ficaram cativos da simplicidade e do carinho demonstrados pelo imperador. Dali D. Pedro II encaminhou-se ao hospital da Sociedade Portuguesa de Beneficência, sendo recebido à entrada pela diretoria e por uma chuva de flores jogadas pela multidão que o aplaudia calorosamente. O imperador visitou todas as dependências do modelar estabelecimento hospitalar e comoveu os doentes pelo interesse e desvelo que demonstrou, principalmente com os desvalidos.

Finalmente, às 6 h de sábado, dia 30 de outubro de 1886, D. Pedro II e comitiva partiram de Campinas. Todavia, antes de retirar-se, o imperador chamou à sua presença o doutor José Joaquim Baeta Neves, juiz de direito da Comarca, e incumbiu-lhe de distribuir a quantia de um conto e novecentos mil-réis para as seguintes entidades: Escola de Asilos e Órfãos, Escola de Circolo Italiani Uniti (Casa de Saúde), Colégio Culto à Ciência, Santa Casa de Misericórdia, Sociedade Portuguesa de Beneficência, Gabinete de Leitura para aquisição de livros, e ao vigário de Santa Cruz para distribuir aos pobres.

Compare, leitor amigo, o comportamento austero de D. Pedro II ao distribuir verbas, com os políticos de hoje, useiros vezeiros em roubar o nosso sofrido povo. Os anos passam, porém, mais cresce aos olhos dos brasileiros a figura majestosa de D. Pedro II, o mais culto, talentoso e honesto chefe de Estado do Brasil, modelo de virtudes cívicas que deve ser seguido pela atual geração de homens públicos.

4 comentários

  1. O Dr. Jorge como sempre nos brinda com histórias campineiras replenadas de momentos históricos e de famílias campineiras.

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  2. Em uma das visitas a Campinas dom Pedro fez pernoite em uma instalação de um nobre justamente onde foi construido o colégio Ateneu Paulista e durante esse período aconteceu um crime com um ajudante que servia temporariamente no local e corpo foi localizado na valeta da próximo da Orozimbo Maia

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  3. Ele apadrinhou nosso tio-bisavô Pedro Humberto Bellinfanti(Irmão de Guiomar de Magalhães) , filho de Próspero Bellinfanti, esse último mentor da Confederata. A qual possuo foto do infante empunhando um estandarte para o desfile. A flâmula ainda existe em posse de uma prima e talheres dados à família como presente por D. Pedro.

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