Tributo a Benito Juarez, o maestro do povo

Vera Brescia Pessagno – musicista, musicoterapeuta, apresentadora de programas de rádio e televisão e membro atuante das principais entidades culturais de Campinas.  

Resumo:

O legado do maestro Benito Juarez, falecido no início de agosto de 2020, foi romper as barreiras entre o clássico e o popular, apresentando com suas orquestras e corais maravilhosos arranjos de MPB e outros estilos musicais típicos brasileiros.

The Maestro Benito Juarez tribute.

Abstract:

The legacy of maestro Benito Juarez, who died in early August 2020, was to break the walls between the classic and the popular, presenting with his orchestras and choirs, wonderful arrangements of MPB and other typical Brazilian musical styles.

* * *

A Orquestra Sinfônica de Campinas estreou no dia 15 de novembro de 1929 no Cineteatro São Carlos, sob a regência do maestro Salvador Bove. O grupo atravessou o século XX de forma amadora, mantida pelos músicos da cidade, que se reuniam esporadicamente e nos dias de concerto.

Em 1974, na administração de Lauro Péricles Gonçalves e com o empenho do seu secretário, Sérgio Eduardo Montes Castanho (ambos sócios fundadores e atuantes do nosso IHGG Campinas), ressurgia a Orquestra Sinfônica Municipal de Campinas (OSMC), com a atual estrutura profissional e mantida pela Prefeitura de Campinas. O primeiro regente desta nova fase foi Benito Juarez.

Benito era natural do interior de Minas Gerais, nascido a 17 de novembro de 1933. Estudou violino e teoria musical na Escola de Formação Musical da Polícia Militar de Minas Gerais em Belo Horizonte, logo ingressando na Orquestra Sinfônica da PMMG como violinista. Estudou regência com Sérgio Magnani e, depois, na Universidade Federal da Bahia, no fim da década de 1950, especializou-se em regência com o maestro Hans-Joachim Koellreutter.

Em 1967, já em São Paulo, Benito e José Luiz Visconti criaram o Coral Universitário Poli-Enfermagem, a princípio apenas com alunos da Poli e da Enfermagem da Universidade de São Paulo (USP). Com a abertura do grupo para alunos de outros cursos e para a comunidade, o nome foi alterado para Coral da Universidade de São Paulo (CORAL USP), sendo incorporado à Reitoria em março de 1971. Benito permaneceu na direção artística do Coral até 2009.

Em 1970, a Universidade Estadual de Campinas estava em plena efervescência com a implantação dos novos institutos. Em junho, Koellreutter foi convidado a implantar o Departamento de Música, embrião do que viria a ser o atual Instituto de Artes (IA). Benito Juarez foi convidado em 15 de setembro para, também, participar deste trabalho, ficando responsável pela implantação, entre outras coisas, de um coro universitário. As atividades do novo Coral UNICAMP tiveram início no ano seguinte, em 29 de abril de 1971; o concerto inaugural, em 16 de novembro do mesmo ano, marcou o início da produção própria do IA – UNICAMP. Benito permaneceu à frente do grupo até 1980.

Em abril de 1972, Benito saiu em turnê de quase um mês pelos EUA com o CORAL USP, para o III Festival Internacional de Coros Lincoln Center, apresentando-se em Nova York (Lincoln Center), Washington (Casa Branca) e em escolas e universidades de vários estados americanos. Considerado pelo The New York Times como o favorito do público, o Coral acabou convidado para uma turnê pela Europa no ano seguinte. Na turnê europeia de novembro de 1973, ele e o CORAL USP passaram por 13 países, entre os quais Inglaterra, Portugal, Alemanha, Itália, Sérvia e Bélgica.

Com a reativação da Orquestra Sinfônica Municipal de Campinas (OSMC), em 1974, Benito e seus músicos e cantores também passaram a ser convidados para vários eventos. Após o primeiro convite, em julho de 1975, a Orquestra de Câmara de Campinas e o Coral UNICAMP, também regidos pelo maestro, se apresentaram anualmente no Festival de Inverno de Campos de Jordão, o mais importante do Brasil.

Outro feito do nosso maestro se deu em 16 de abril de 1984, quando a Orquestra Sinfônica de Campinas participou da histórica manifestação popular pelas Diretas Já no Vale do Anhangabaú, em São Paulo, executando o Hino Nacional Brasileiro.

O maestro Benito Juarez morreu enquanto dormia, na madrugada de 3 de agosto de 2020, na clínica de repouso em São Paulo onde vivia havia dois anos. Ele foi casado com a pianista e musicista Elizabeth Rangel Pinheiro de Souza, e tiveram cinco filhos: Carmina (cantora e psicanalista), André Juarez (vibrafonista) e Tiago Pinheiro (clarinetista), ambos regentes do CORAL USP, Felipe de Souza (violinista, arranjador e produtor) e Mateus Pinheiro de Souza (psiquiatra e psicanalista).

Uma das características marcantes de sua longa trajetória musical foi a preocupação constante com a popularização da música orquestral e coral. Benito sempre procurou quebrar as barreiras entre o erudito e o popular, executando com suas orquestras e corais inúmeros arranjos de MPB e outros estilos tipicamente brasileiros. Como coordenador do Departamento de Música da UNICAMP, o maestro promoveu a criação do Curso de Música Popular, primeiro do gênero no Brasil, oferecido já a partir de 1989.

Agora, focando em Campinas e reafirmando a significativa importância da gestão Lauro Péricles Gonçalves (1973-1977) para a nossa Cultura, juntamente com o secretario da pasta da época, o professor Sérgio Eduardo Montes Castanho, lembremos que juntos, prefeito e secretário construíram e ofereceram aos artistas e à população o Centro de Convivência Cultural, espaço emblemático do bairro Cambuí.

Infelizmente, as administrações posteriores não seguiram a mesma linha política e, como mudanças geram outras mudanças, Benito encerrou seu período na Sinfônica ao final dos anos de 1990. No Brasil, diferentemente de outros países, a Cultura é muito (mal) influenciada pela política, infelizmente. Benito sofreu com isso. Conheci o maestro logo quando ele assumiu a nossa Orquestra, ele foi um líder inovador e carismático.

Participei da montagem da Ópera A Noite do Castelo, a primeira escrita por Carlos Gomes (aproveito estas linhas para estender este tributo também ao gênio pioneiro, justamente no mês dedicado à sua homenagem pelos campineiros). Pois bem, Benito corajosamente a assumiu e a levou ao público nos anos de 1978 e 1979, no Teatro interno do Centro de Convivência Cultural.

Eu fiz o papel da Aia Inez, dama de companhia de Leonor, interpretada pela também campineira Niza de Castro Tank. Imagine eu, franzina e jovem, contracenando com Niza, um lendário soprano em sua época.

O cast da ópera:

  • Benito Juarez, regente da Orquestra Sinfônica Municipal de Campinas.
  • Conde Orlando: José Dainese.
  • Fernando: Alcides Acosta.
  • Henrique: Luis Tenaglia.
  • Inez: Lucia Pessagno.
  • Leonor: Niza de Castro Tank.
  • Pajem: Fernando J.C. Duarle.
  • Raimundo: José A. Marson.

Ao final, encerrávamos o espetáculo com um bonito dueto. Detalhes da história e dos três atos da Ópera, você pode acompanhar no link: https://pt.wikipedia.org/wiki/A_Noite_do_Castelo

Participei também de vários concertos e apresentações com a OSMC, tanto no Teatro Castro Mendes como no Teatro do Centro de Convivência. Benito excursionou com a Orquestra pelo interior de São Paulo e eu o acompanhei. Passamos pelas cidades de São José do Rio Preto, Rio Pardo, Mogi Guaçu, Paulínia entre outras.

Vera 3_Fotor

Em 1986, O Trio Cultura (Maestro Fausto Massaini no piano, eu no vocal, Gilberto Portilho na clarineta) e Benito, participamos de um encontro na TV Cultura, onde aproveitei para lançar um dos meus CDs sobre a obra de Carlos Gomes.

Em outra ocasião cantei com a Orquestra uma Ária de Carlos Gomes, considerada muito difícil, no grande saguão do Shopping Iguatemi, sob sua regência. O público adorou a novidade e acompanhou a apresentação embevecido.

Benito deixou a OSMC em 1999. Passaram por ela diversos ótimos maestros, cada um com seu estilo de liderança, Benito foi o que mais tempo permaneceu no cargo, ficou à frente da OSMC por 25 anos.

Amo a música, vivo por ela em meus programas de rádio e de televisão e tenho ouvido apurado, sei que existem diferenças importantes nas execuções de peças regidas por um ou por outro maestro. Benito tinha uma grande capacidade de interação com o público, sua origem simples e seu aspecto frágil ajudavam-no nesta empatia com o povo.

Uma boa definição da personalidade do Benito foi dada por um amigo meu, grande companheiro e parceiro no Trio Skala. José Andrade Neto, aposentado da Orquestra e já falecido, sempre comentava sobre a sua relação com Benito, ora amistosa, ora beligerante. O Trio Skala era formado por mim, por José Andrade no violino, por Joseida Frisarini, ao piano, e por Décio Almeida, também da Sinfônica, no contrabaixo.

Benito foi um homem à frente do seu tempo, em suas audições, principalmente em Campos de Jordão, conseguia “cutucar” os maestros mais puristas ao apresentar músicas populares, utilizando arranjos sinfônicos de extremo bom gosto com a Sinfônica de Campinas, um absoluto sucesso de público de uma orquestra de cidade do interior.

Benito Juarez foi um desbravador, um dos grandes responsáveis por colocar Campinas no mapa da Cultura Nacional, foi um período inovador de muita produção cultural de relevância.

Imagens do texto: arquivo pessoal da autora e do site BemBlogado

InovaSamba recebendo a visita do Maestro Benito Juarez em ensaio.

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