V-8 e a preservação da memória e da história pela iconografia

Aristides V-8 and the preservation of the memory and history by iconography.

Nadja Regina de Oliveira Prado – fotógrafa, agente cultural. Titular da Cadeira 23 do IHGG Campinas.

O patrono da cadeira 23, da qual ocupo no Instituto Histórico, Geográfico e Genealógico de Campinas, foi um cidadão fenomenal. O seu nome era Aristides Pedro da Silva, o V-8. Tive a sorte de conhecê-lo, ainda menina, quando meu pai ia ao seu estúdio fotográfico, comprar pôsteres com imagens antigas de Campinas. Aproveitavam a oportunidade e proseavam. O assunto era sempre o mesmo: saudosismo.

Hoje é possível encontrar esses pôsteres pendurados nas paredes de certos estabelecimentos comerciais de nossa cidade, belas imagens da antiga Campinas, que também decoravam a casa de meus pais. Portanto, cresci em meio ao colecionismo de meu patrono e amigo da família.

Pouco antes de falecer, Eliana, sobrinha de V-8, junto ao esposo, visitaram meu pai, na época, doente e acamado. Sim, os laços fraternais que atravessaram décadas, na verdade, iniciaram-se na infância, prosseguindo na mocidade, atingindo a maturidade e finalizando na velhice, após a morte. Além das afinidades e parentescos, as famílias negras de antigamente eram unidas por conta da segregação racial, formadora dos guetos.

A população negra em Campinas, tempos atrás, tinha as próprias sociedades recreativas e culturais. Por exemplo, em 1933, foi criada a Corporação Campineira dos Homens de Cor, pois os negros eram impedidos de participar das bandas da cidade. O maestro João de Oliveira, então, começou a ensinar música em casa, até que foi criada a banda com o intuito de propiciar um espaço onde eles pudessem expressar seus valores culturais.

A situação, na época, era semelhante ao apartheid da África do Sul de Mandela, a ponto de os negros serem induzidos a realizar o footing no entorno da Praça Carlos Gomes. No seu interior, nem pensar! Eram leis invisíveis, mas poderosas a ponto de colocar cada um no seu lugar.

Foi nessa época que nasceu o cidadão Aristides Pedro da Silva, afro-brasileiro, no dia 23 de outubro de 1921, na Fazenda Atibaia, no Arraial de Sousas, distrito de Campinas. Era filho de Benedicto Pedro da Silva e Presciliana Silveira. O pai era administrador de fazenda, a mãe trabalhava como doméstica nas residências das famílias de elite. Eram sete filhos.

A convite do então prefeito Orosimbo Maia, a família mudou-se para à Fazenda Cachoeira, onde havia a famosa Termas Hotel Fonte Sonia, em Valinhos. O local recebia muitos hóspedes estrangeiros por conta da fama de suas águas radioativas, benéficas para saúde.

Foi nessa atmosfera bucólica, rodeada pela natureza e águas poderosas, que o menino Aristides cresceu junto à família. Era hábito os filhos dos colonos realizarem pequenos serviços em troca de alguns trocados.

Aristides, que futuramente receberia o apelido de V-8, costumava carregar o material de pintura de um casal de franceses, hóspedes do hotel. O fato é que essas idas e vindas, ele criou um vínculo forte a ponto de o casal desejar levá-lo para França, o que não foi concretizado, pois o menino escolheu ficar com sua família.

O tempo passou, Aristides estava com 16 anos de idade quando sua família foi demitida pelo novo proprietário da Fazenda Cachoeira. Mudaram-se para Campinas, onde Dona Presciliana começou a trabalhar em uma banca do Mercado Municipal, o velho Mercadão. Ela também comprou um terreno na Rua Júlio Frank, no bairro Botafogo, próximo daqui, onde construiu uma casa, por sinal, existente até hoje.

Diferente dos irmãos, V-8 não gostava de estudar, então começou a trabalhar na Leiteria Santana, depois na Fundição Gerin, e por fim abriu a Tinturaria V-8, na própria casa.

A história do cidadão Aristides poderia encerrar neste ponto. Porém, o sonho de tornar-se artista plástico – que iniciou com grande empenho, mas foi interrompido pelo alto custo do curso – foi substituído por outra arte, a Fotografia.

Com ajuda do amigo Mário Oliveira, V-8 aprendeu direitinho a lição: Comprei uma máquina pequena, uma Agfa caixão, modelo 6 por 9. Comecei a fotografar nos campos. Comecei devagar. Não sabia pôr um filme, que era chapa de vidro. Foi indo, me aperfeiçoei. (Jornal da UNICAMP, fev. 2002).

Os campos citados por V-8 são os campos de futebol, outra de suas paixões. Ele era bugrino e fotografava as equipes em formação, antes dos jogos e durante as pelejas, como um repórter fotográfico. É preciso dizer que V-8 foi técnico do juvenil do Guarani Futebol Clube, de 1950 a 1960.

V-8, que apelido era esse? Írio, seu irmão, primeiro detentor do apelido, a princípio dizia que o mesmo nasceu de uma aposta com os amigos no Mercado Municipal. Enquanto conversavam um carro estacionou próximo ao grupo, e daí surgiu a dúvida com relação ao motor: Chevrolet ou V-8? Por conta da perda da aposta, Írio pagou a refeição para todos. Assim, de chiste, passaram a chamar Írio de V-8, mas o apelido estendeu-se e colou mesmo em Aristides. Quando a gente não gosta é que o apelido pega. (Jornal da UNICAMP, fev. 2002).

Em 1952, V-8 montou seu primeiro estúdio fotográfico na Rua Treze de Maio, 485, depois na Rua Conceição e Rua Dr. Quirino, até estabelecer-se na Rua Julio Frank, sua residência.

Excelente profissional, tinha fixação pela luz e cenário. No entanto, foi o papel de lixeiro que o fez entrar para história de Campinas. V-8 era ávido colecionador de fotos antigas, hobby desenvolvido por conta de seu olhar educado cultivado desde a infância, quando observava o casal de franceses, a retratar nas telas os cenários da fazenda onde morava. Por isso, desenvolveu a sensibilidade e o interesse pela arte, desde a infância.

V-8 não tinha vergonha nem dava ouvidos às pessoas, quando era chamado de lixeiro pelo fato de revirar as latas de lixo em busca de fotografias antigas. Se lixeiro soubesse um pouco de arte, ficaria rico. (Jornal da UNICAMP, fev. 2002).

Os porões das residências também eram alvos de sua garimpagem. Algumas vezes, ganhava fotografias de amigos e até de desconhecidos. Ao longo de 50 anos, formou um fantástico acervo iconográfico de 4.500 imagens entre fotografias e negativos flexíveis e de vidro, datados de 1870 a 1970, divididos em duas partes: fotografias antigas, garimpadas, e fotografias clicadas por ele durante as transformações urbanísticas em Campinas.

Na época das demolições do Plano de Melhoramentos Urbanos de Prestes Maia, em 1952, V-8 registrou sequências importantes, incluindo:

– A demolição da Igreja Nossa Senhora do Rosário, em 1956, na Avenida Francisco Glycério.
– A demolição do Teatro Municipal Carlos Gomes, em 1965, que comove o campineiro até hoje.
– A despedida dos bondes, em 1968.
– O alargamento da Rua Aquidabã, em 1975.

A construção do Estádio Brinco de Ouro da Princesa, do Guarani Futebol Clube, desde a pedra fundamental, em 1951, até sua inauguração, em 1953, também foram registrados por ele. Todo esse acervo iconográfico é de grande importância ao povo campineiro!

Quem acompanhou os acontecimentos de perto pode relatá-los por meio da linguagem oral e escrita, no entanto, as imagens têm papel crucial no registro da história, pois a fotografia é um documento sui generis, que guarda na sua superfície sensível a marca indefectível do passado.

No caso do acervo de V-8, testemunho válido, que não somente documentou as mudanças urbanísticas como ainda as condições de vida, o trabalho, a moda, o comportamento social, os costumes. Por isso, a importância de preservação e pesquisa desses documentos.

Pensando assim, José Roberto Amaral Lapa e Olga Von Simson, mobilizaram-se e tiveram participação importantíssima na transferência do acervo de V-8 para UNICAMP. Após criteriosa avaliação das pesquisadoras Solange Ferraz de Lima e Vânia Carneiro de Carvalho, a UNICAMP ofereceu um valor monetário que pode dar um fim de vida mais tranquilo ao já idoso titular.

Sim, devemos gratidão a Aristides Pedro da Silva, o V-8, pelo tesouro que acumulou ao longo de 50 anos, garimpando em porões empoeirados ou fotografando a sua cidade. Tesouro que pode ser admirado e pesquisado no Centro de Memória – Unicamp (CMU), onde está devidamente preservado.

Quão prazeroso é observarmos as fotografias do final do século XIX e início do XX. A bela Praça Carlos Gomes nos anos de 1930, os fordecos transitando pela Rua Barão de Jaguara enquanto a população, elegantemente vestida, passeava pelas estreitas calçadas.

O que dizer da menina humilde, trajando vestido de petit-pois, carregando sua boneca de pano enquanto a mãe, vendedora de doces, tratava com um transeunte? Ao fundo se vê uma menina negra, pajem de algumas crianças brancas, atenta ao seu trabalho. Onde ocorreu tudo isso? Próximo ao prédio da antiga Estação Ferroviária Carlos Botelho, futuro Mercado Municipal, o tradicional Mercadão. Essas são algumas das imagens iconográficas resgatadas por V-8, das quais temos a satisfação de contemplar e viajar pelo tempo.

A fotografia certamente desempenha um papel crucial no registro da história. No entanto, é preciso cultivar o olhar educado, focado não somente na estética, mas direcionado também à memória. E foi isso que fez Aristides, o V-8, autodidata, mas dono de uma respeitada cultura conquistada ao longo de sua vida.

Sebastião Salgado, brasileiro, um dos maiores fotógrafos do mundo, disse o seguinte:  Você não fotografa com sua máquina. Você fotografa com toda sua cultura.

A importância de Aristides Pedro da Silva para a História de Campinas não acabou com a sua morte no dia 31 de julho de 2012, aos 91 anos de idade, em São Paulo. Seu legado o perpetuará!

Referências bibliográficas:

Acervo Haroldo Pazinatto.
Blog Pró-Memória de Campinas, de João Marcos Fantinatti. Acesso em Set. de 2019.
Coleção fotográfica V8 – Centro de Memória Unicamp (CMU).
Jornal da UNICAMP (02/09/2012) <https://www.unicamp.br/unicamp/sites/default/files/clipping/jornal_correio_popular_pag_10_4.pdf >
MAUAD, Ana Maria. Através da imagem: fotografia e história, interfaces. In: Tempo. Rio de Janeiro, v. 1, n. 2, 1996, p. 73-98.

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