Culto à Ciência: a República Antecipada

Por Sérgio Eduardo Montes Castanho – educador, professor colaborador de História da Educação na UNICAMP. Titular da Cadeira Nº 35 do IHGG Campinas.

O Colégio Culto à Ciência, cantado em prosa e verso por quantos andaram a pesquisar a história da educação em Campinas, é uma escola cuja fundação remonta ao período imperial no século XIX e que, no início do século XX, com a República, tornou-se parte do sistema estadual, dedicando-se sobretudo ao que hoje denominamos ensino médio. Chama-se presentemente Escola Estadual Culto à Ciência.

O gérmen dessa instituição foi a Sociedade Culto à Ciência, do setor privado, constituída, em 1869, por pessoas gradas, representadas por fazendeiros, industriais, comerciantes e alguns graduados por academias, nas palavras do Carlos Francisco de Paula[1] (1946, p. 7). Como se vê, a nata da cidade. Acresce que praticamente a totalidade dos membros dessa associação pertencia aos quadros da maçonaria.

À sociedade constituída incumbiria fazer construir e funcionar uma escola que preparasse os filhos desse que era, pela metade do século XIX, “um dos municípios mais prósperos e opulentos da então província de São Paulo” (PAULA, ibid.), para as carreiras superiores nas academias. Em 1873 – ano considerado oficialmente o inaugural – era lançada a pedra fundamental do colégio. E, enfim, no dia 12 de janeiro de 1874, deu-se o ato solene de inauguração do Colégio Culto à Ciência, no terreno de dois hectares comprado pela Sociedade. Falando na ocasião, o futuro presidente da República Manuel Ferraz de Campos Sales, então secretário da Sociedade, proferiu um discurso de evidente tom republicano. Destaco esta passagem:

E se é certo que hoje a necessidade de instrução popular é entre nós um ponto livre de controvérsias e se esta é a verdade universalmente proclamada, cumpre, porque o momento urge, fazê-la baixar do realismo doutrinário para a realeza prática. Eu conheço, disse um profundo pensador, uma força maior que todas as forças – é a força do espírito humano quando ele é esclarecido; e uma fraqueza, a mais incurável de todas as fraquezas – é a ignorância. Não se espere, pois, indolente, pela ação oficial. Que o povo se associe para educar o povo (id., ibid., p. 15) – grifos meus.

Nessa fala, encontram-se todos os elementos característicos das revoluções modernas pelo alto, como dizia o insuperável mestre Florestan Fernandes. No nosso caso, a – por que não? – revolução republicana. Embora tais mudanças se fizessem pelo alto, o seu apelo era para resolver problemas dos de baixo, ou, em linguagem da França revolucionária de 1789, do povo. A necessidade de instrução popular do fantástico discurso de Campos Sales é ponto de honra dessas revoluções. Baixar do realismo doutrinário para a realeza prática era o que pretendia o grupo liberal-republicano fundador do Culto à Ciência, com direito inclusive ao trocadilho realeza, regime do rei, em vez de realidade, regime da história. Uma força maior que todas as forças – é a força do espírito humano quando ele é esclarecido: racionalismo, cientificismo, iluminismo republicano. Não se espere, pois, indolente, pela ação oficial, ou seja, esse grupo de maioria republicana não deveria esperar que o governo imperial educasse a nova geração que haveria de eliminá-lo. Que o povo se associe para educar o povo: essa força nova da sociedade – empresários, comerciantes, cafeicultores e seus aliados – chamada desde os pródromos da revolução de 1789 o povo, ou terceiro estado, deveria, desde logo, sem aguardar o desenlace republicano, associar-se para a sua própria formação cultural, que inexoravelmente levaria ao sucesso político – assim pensavam os ideólogos, entre eles Alcides Sales, irmão do futuro presidente Campos Sales, e os ativistas republicanos.

Esse grupo paulista de republicanos de Campinas estava se preparando para passar, um dia, de socialmente dominante, que já era, a politicamente dirigente, que viria a ser com a República (MORAES, 2006). De fato, logo no dealbar da nova forma de governo, em 1892, a sociedade particular mantenedora do Culto à Ciência é dissolvida e seu patrimônio transferido para a Câmara Municipal de Campinas, que assume o compromisso de com ele patrocinar exclusivamente a instrução pública. Da Câmara esse patrimônio se transfere para o governo do estado de São Paulo, que assume o mesmo compromisso.

Em 14 de março de 1895, a lei n. 284 estabelece: Fica criado um ginásio para o ensino secundário, científico e literário, na cidade de Campinas. O antigo Culto à Ciência, agora com a denominação de Ginásio de Campinas, passa republicanamente à órbita estatal. Será o segundo ginásio estadual de São Paulo. É o desenlace a que antes aludi: a República antecipada no Culto à Ciência torna-se realidade histórica com a ascensão política do grupo que patrocinara o antigo educandário. A inauguração do Ginásio [2] deu-se em 4 de dezembro de 1896. E em 1901 forma-se a primeira turma de bacharéis em ciências e letras da escola estatizada.

Um pouco de cronologia: 1909 – matriculam-se as primeiras alunas no curso ginasial que até então só admitia alunos; 1930 – elimina-se o sexto ano do curso ginasial e estingue-se o diploma de bacharel em ciências e letras, criando-se, em decorrência da Reforma Francisco Campos, um novo ciclo do secundário, com os cursos de pré (pré-médico, pré-engenheiro etc.); 1942 – em virtude da mudança no ensino secundário da Reforma Capanema, a escola passa a se chamar Colégio Estadual de Campinas, com dois ciclos de nível médio, o ginasial, com duração de quatro anos, e o colegial, com três anos, este com dois cursos, o clássico, para quem se destinasse a carreiras de humanidades, e o científico, para os que se endereçassem a ciências exatas ou biológicas; 1947 – atendendo a reclamos da associação de ex-alunos, o governador Ademar de Barros assina o decreto n. 17.350 que devolve à escola o antigo nome, passando a denominar-se Colégio Estadual Culto à Ciência; 1963 – o colégio adquire autonomia didático-administrativa pela lei paulista 7.817; 1973 – início da derrocada qualitativa do estabelecimento, que sofre os efeitos da lei 5.692/71, a qual unificou os cursos primário e ginasial num 1º grau com 8 anos de duração e os cursos colegiais num 2º grau de 3 anos. O Culto à Ciência passou a ter da 5ª à 8ª série do 1º grau – revivendo o ginásio de 4 anos, e as 3 séries do 2º grau – revivendo o colegial clássico/científico de 3 anos, numa fracassada tentativa de profissionalização do ensino; 1975 – o decreto estadual 7.400 limita o ensino da escola ao 2º grau, o antigo colegial; 1996 – a nova LDB, lei nº 9.394/96, muda os nomes: o 1º grau passa a ser o ensino fundamental e o 2º grau, o ensino médio. A partir daí a Escola Estadual Culto à Ciência permanece até os dias atuais com esse nome e apenas com o ensino médio[3].

Atualmente a escola funciona em três turnos. Segundo depoimento de Pedro Stuchi Sobrinho, professor do Colégio nos áureos tempos das décadas de 1950 e 1960, a grande perda de qualidade da escola deu-se a partir dos anos de 1970, com a exclusão do primeiro grau. “Hoje os alunos vêm de diversas escolas de primeiro grau e não há uma continuidade”, disse o prof. Stuchi (VELTRONE ET AL., 2007, p. 51).

Notas:

[1] Carlos Francisco de Paula, autor do opúsculo citado e ao fim referenciado, foi professor do Culto à Ciência, então Ginásio de Campinas, por 35 anos. O prefácio da obra é de Aníbal de Freitas, ex-diretor do estabelecimento e autor do primeiro tratado de Física no Brasil.
[2] Até pouco tempo era comum entre campineiros mais tradicionalistas a referência ao “ginásio do estado” para designar o Culto à Ciência.
[3] Essa sequência cronológica foi estabelecida por um trabalho de pesquisa, que orientei, dos meus alunos de História da Educação da graduação em Pedagogia da FE/UNICAMP no 2º semestre de 2001. Nas referências esse trabalho entra como VELTRONE ET AL., 2007.

Referências bibliográficas:

CASTANHO, Sérgio (2011). “Transformações históricas da escola pública no Brasil ou: como chegamos à escola estatal que temos?”. In: LOMBARDI, José Claudinei, SAVIANI, Dermeval (orgs). História, educação e transformação: tendências e perspectivas para a educação pública no Brasil. Campinas, SP: Autores Associados.
MORAES, Carmen Sylvia Vidigal de (2006). O ideário republicano e a educação: uma contribuição à história das instituições. Campinas, SP: Mercado de Letras.
PAULA, Carlos Francisco de (1946). Culto à Ciência: colégio, ginásio e colégio estadual: monografia histórica. Campinas, SP: s/ edit.
VELTRONE, Aline et al. (2007). O ensino médio desde a República até os dias atuais em Campinas. Relatório de Pesquisa. Orientação:  Prof. Dr. Sérgio E. M. Castanho. Campinas, SP: Faculdade de Educação, UNICAMP.

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