A Libertação dos Escravos: Como Campinas Viveu Aqueles Dias?

The Slaves Liberation: How Did Campinas, SP, Brazil, Live Those Days?

Por Jorge Alves de Lima – advogado, escritor. Titular da Cadeira Nº 42, ex-presidente do IHGG Campinas

O Diário de Campinas, na sua edição de 10 de maio de 1888, quinta-feira, publicara:

“O Quadro Final.
Está por uns dias a existência da escravidão no Império do Brasil.
Começa o fim. Vão longe as tétricas cenas de barbárie. O quadro final é uma apoteose, em que o povo possuído de entusiasmo delirante, eletrizado de comoção, cobre de flores os chefes abolicionistas, chama-os, carrega-os nos ombros em triunfo, como na antiga Roma eram conduzidos os guerreiros vitoriosos.
É legítimo o júbilo popular porque, com a abolição do cativeiro, é a pátria que se engrandece e nobilita. Não pode haver coração de patriota que não exulte a alma da pátria, assim como não haverá, por certo, nenhuma que não se sinta constrangida quando ela está desolada. A aspiração tanto tempo acalentada está prestes a tornar-se realidade ansiosa; o país inteiro tem os olhos voltados para a capital do Império, fitos no areópago onde vai ser hasteado o lábaro da redenção. Não é só a libertação dos escravos que o parlamento vai decretar, é a libertação do trabalho até agora aviltado em vez de ser considerado no seu verdadeiro valor.
A degradação do trabalho que deve ser tido com elevado título de merecimento alimenta o parasitismo, o ócio, o vício, a corrupção dos costumes e dos bons princípios de moral. O único e verdadeiramente digno de acatamento é o que resulta do esforço individual aplicado ao trabalho assíduo e perseverantemente, quer se trate das elucubrações de gabinete ou da atividade desenvolvida dentro das oficinas ou ao sol dos campos, lavrando a terra.
Banida a planta daninha da escravidão, afastado o homem, a que só cabiam, em partilha fadigas, dores e misérias, o trabalho estará reabilitado e aqueles que o exercem terão a legítima recompensa de suas fadigas.
Liberte-se, liberte-se o trabalho e o trabalhador! Exige-se a humanidade, exige-se o bem público, exige-se a prosperidade da pátria! Cobra-se com um véu o passado tenebroso e que se principie uma nova era de regeneração e liberdade. Chegamos à apoteose. Os hinos e os cânticos festivos que anunciam já o término da escravidão, anunciam, também, o porvir grandioso que nos espera.
Ai dos tíbios e pusilânimes, porque é do esforço dos corajosos o futuro.
Alas à liberdade!”

Este artigo foi o ponto de partida, o estopim dos preparativos, dos festejos comemorativos à extinção do trabalho escravo na cidade de Campinas. Na madrugada do dia 10 foram distribuídos de casa em casa boletins convidando a população para uma reunião nas dependências da Câmara Municipal, para nomeação de uma comissão com a finalidade de organizar os festejos solenes pela celebração da libertação total dos escravos.

Na reunião marcada, compareceram muitos cidadãos que aqui vão citados: Os jornalistas Alberto Sarmento e seu irmão Antônio Duarte de Moraes Sarmento, proprietários do Diário de Campinas, Srs. Dr. Antenor Guimarães, Francisco Glicério, capitão Antônio Francisco de Andrade, Luiz Silvério Alves Cruz, José Pereira de Andrade.

Dentre estes nomes, foi escolhida a comissão, cabendo à presidência ao médico Dr. Antenor Guimarães, à secretaria ao então advogado Francisco Glicério e à tesouraria ao capitão Antônio Francisco de Andrade. A comissão escolhida imediatamente arrecadou a vultosa quantia de três contos de réis para atender as despesas com os referidos festejos.

No dia 13 de maio, em um lindo domingo de outono, o Diário de Campinas publicou em primeira página:

“PROGRAMA Dos festejos pela extinção da escravidão no Brasil.
À chegada do telegrama comunicando a sanção da abolição, girândolas em frente aos jornais anunciarão a concorrência do povo ao Largo de José Bonifácio. Aí reunido o povo, o orador oficial, da escadaria da Matriz, dirigirá ao povo uma alocução alusiva ao importante fato. Finda esta se fará passeata pelas ruas principais, acompanhada de bandas musicais e o estrondar de foguetes. No segundo dia, alvorada às 5 horas da manhã, tocando as músicas na sala dos sinos da Matriz Nova, e percurso das ruas pelo povo, com músicas. Ao meio-dia, a comissão executiva e a grande comissão, partindo do Largo José Bonifácio, com as bandas de música, irão até à Câmara Municipal, onde se proclamará o decreto da abolição.
Às quatro horas da tarde se organizará, no Largo do Teatro, a procissão cívica que desfilará pela rua da Constituição (hoje Dr. Costa Aguiar) abaixo, circundando o Largo da Matriz Nova, até à rua do Regente Feijó e por esta à rua do Barreto Leme, seguindo esta à do Dr. Quirino até à do Ferreira Penteado, desta à rua Direita (hoje Barão de Jaguara) até à do Barreto Leme, subindo à do Rosário, até ao Largo de José Bonifácio, onde o orador fará o discurso comemorativo”.

Publicado o programa, a comissão organizadora publicou, ainda, um boletim assim dirigido:

“Ao povo de Campinas
A Comissão executiva dos festejos pela extinção da escravidão no Brasil pede a todos os habitantes desta cidade, comércio, indústria, lavoura e ofícios, o seu concurso para o brilhantismo das festas, nos dias que forem designados por boletins. Roga-se especialmente aos comerciantes e industriais que, logo que ouvirem as girândolas de aviso, haja por bem dispensar seus empregados, a fim de confraternizarem com o povo nas festas da liberdade”.

Todavia, o noticiário do dia 13 de maio, domingo – relativo à notícia da libertação dos escravos, só foi publicado pelo Diário de Campinas no dia 16 de maio – quarta-feira, com a seguinte manchete:

“Homenagem à Pátria Livre
Lei n° 3.353, de 13 de maio de 1888.
Declaro Extinta a Escravidão no Brasil.
A Princesa Imperial Regente em nome de Sua Majestade o Imperador Sr. Dom Pedro II faz saber a todos os súditos do Império que a Assembleia Geral decretou e ela sancionou a lei seguinte:
Art. 1 – É declarada extinta desde a data desta Lei a escravidão no Brasil.
Art. 2 – Revogam-se as disposições em contrário”.

Nessa mesma edição, o Diário de Campinas publicou a seguinte matéria:

“Boletim
Logo que recebemos, no domingo, a notícia de ter sido sancionada, por S. A. a Princesa Regente, a lei da abolição, fizemos distribuir na cidade o seguinte boletim:
NÃO HÁ MAIS ESCRAVOS NO BRASIL!
A lei da abolição da escravatura tem a sansão de S. A. a Princesa Regente, que completou a Lei Áurea de 1871 e conclui a grandiosa obra de redenção da pátria, banindo, para todo e sempre da livre América a instituição execrada, legada pelos séculos idos.
É livre, enfim, a Pátria!
Na comunhão dos povos cultos pode o Brasil comparecer ufano, limpo do ferrote cruel que tanto tempo lhe fez pender a fronte e baixar os olhos humilhados.
Não mais! Não mais! Será ele apontado como exceção única e odiosa entre as nações civilizadas!
Hoje celebra-se uma nova missa.
Hoje raiou a aurora da paz e da concórdia.
Hoje é o dia da justiça e da reabilitação para os oprimidos e opressores.
Hoje a liberdade já não é mais uma mentira.
Glória a quantos se empenharam na luta gigantesca, com esperança no futuro e fortalecidos de indomável tenacidade para alcançarem a reparação do monstruoso delito!
Já não pesa sobre nós o crime do Caim.
Foi inscrito o epitáfio da iniquidade, que a escravidão representava sobre as ruínas da Bastilha Negra.
Temos a consciência aliviada do grande crime contra nossos irmãos que, enfim, veem acabados os seus sofrimentos, sustada a torrente de sangue e de lágrimas que verteram.
Exultemos, cidadãos, que é sagrado o nosso júbilo!
Exultemos com aqueles que ainda ontem eram cativos!
Exultemos! …
Este dia assinala o ponto de partida do renascimento nacional.
Ave Libertae!”

Nessa mesma edição, o Diário de Campinas conta-nos como foi o domingo do dia 13 de maio de 1888, em Campinas:

“A Abolição
No domingo, logo que chegou, por telegrama, a notícia de ter sido sancionado o projeto da abolição do elemento servil, foi ele anunciado por girândolas, que subiram ao ar, em frente às redações dos jornais, sinal que previamente fora indicado pela comissão executiva dos festejos.
Imediatamente afluiu grande quantidade de povo à praça de José Bonifácio (hoje Largo da Catedral), onde se queimaram foguetes e baterias e que estava adornado de bambus, flâmulas e bandeiras, embandeirando-se muitas casas da cidade.
Na mesma praça tocaram a banda de música, regida pelo professor Azarias de Mello e a banda italiana dos irmãos Tulio.
Da escadaria da Matriz da Conceição dirigiram a palavra ao povo aglomerado na praça, os Srs. Francisco Glicério, Drs. Antenor Guimarães, Pedro de Magalhães, Antônio Duarte de Moraes Sarmento, Otaviano Silva e Antônio Antunes Pereira.
Em seguida, entre as aclamações entusiásticas, partiu a multidão, queimando fogos pelas ruas já mencionadas, em roteiro programado. Na rua do Dr. Quirino, a multidão parou em frente ao escritório da Gazeta de Campinas, que foi saudada. Respondeu agradecendo, visto não estar presente pessoa alguma da redação, o Sr. Francisco da Costa Carvalho.
Em seguida, todos se dirigiram à rua Direita (Barão de Jaguara) e saudaram a redação do Correio de Campinas, falando em agradecimento o jornalista Henrique de Barcelos.
De regresso à praça José Bonifácio, foi saudada a redação do Diário de Campinas, falando os Srs. Dr. Antenor Guimarães, Dr. Antônio Álvares Lobo e Pedro de Magalhães.
Na população, em geral, notava-se grande contentamento que, no entanto, era diminuído pelas más notícias, que até essa ocasião haviam chegado sobre o estado de saúde de Sua Majestade, o Imperador Dom Pedro II. À tarde, porém, vieram telegramas, dando notícias do augusto enfermo, já mostrando melhoras, e isso contribuiu para se expandir largamente o júbilo popular”.

No dia seguinte, 14 de maio – segunda-feira – os festejos prolongarem-se com muito vigor e entusiasmo. Ao meio-dia

“… a comissão de festejos incorporada, seguida de grande multidão e das bandas de músicas, foi ao edifício da Câmara, onde os vereadores estavam reunidos, saudar a corporação municipal. Usou da palavra o presidente da Comissão Dr. Antenor Guimarães, que saudou a Câmara e, em nome do povo, convidou o presidente a ler e proclamar o decreto da abolição.
Todos os vereadores presentes apareceram com o respectivo presidente Sr. Otto Langaard, na sacada, sendo por este lido o decreto ao povo que cercava o edifício. O Sr. Otto Langaard, ao terminar a leitura, levantou vivas à família Imperial, à nação brasileira e à província de São Paulo, sendo todos respondidos com entusiasmo. Dr. Antenor Guimarães saudou novamente a Câmara e de uma das janelas do edifício falou num liberto”.
À noite foi rezada uma missa, celebrada pelo padre João Batista Correia Nery, que no púlpito saudou, também, a liberdade em nome do clero. No Largo da Catedral foi acesa uma fogueira enorme, onde foram lançados um tronco, correntes e grilhões que tanto foram usados contra os escravos. Muitos homens de cor andaram pelas ruas da cidade, tocando zabumba e dando vivas à liberdade, ao dr. Antônio Bento, à imprensa e indo dançar samba, até pouco depois das 11 horas da noite, retirando-se então pacificamente e na melhor ordem. O samba foi no Largo da Catedral”.

Mais uma notícia publicada pelo Diário de Campinas, doze dias após a proclamação da Lei que libertou os escravos, ou seja, no dia 25 de maio de 1888 – sexta-feira – comoveu muito a população de Campinas, pois o Imperador Dom Pedro II, recuperado da doença que o acometeu na Europa, expediu para a Sra. Alteza, a Princesa Imperial, o seguinte telegrama:

“Grande satisfação para meu coração. Dou graças a Deus pela abolição da escravidão no Brasil.
Felicitando-vos, felicito a todos os brasileiros. Pedro e Teresa”.

Referência da foto:

https://www.vix.com/pt/bbr/ciencia/4882/por-que-nao-celebrar-o-dia-da-abolicao-entenda-o-que-pensam-pesquisadores-e-movimentos

2 comentários

  1. Como sempre o dr Jorge Alves de Lima retrata a história de campinas com muita lucidez e clareza. Ademais em nome da minha família agradeço a citação do meu bisavô Advogado Pedro de Magalhães.

    Curtido por 2 pessoas

    1. Obrigado Ruyrillo. O IHGG Campinas convida você, nosso confrade, para produzir um ou mais artigos. Suas memórias e conhecimentos de Campinas e de seus importantes ascendentes esperam publicação aqui. Abraço.

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