A Academia Campinense de Letras: 62 Anos

The Campinense Academy of Letters: 62 years of foundation.

Por Duílio Battistoni Filho – historiador, professor. Titular da Cadeira Nº 6 do IHGG Campinas,

Fernando Antonio Abrahão – historiador, pesquisador. Titular da Cadeira Nº 11 e presidente do IHGG Campinas.

Estamos felizes neste 17 de maio por mais um aniversário da Academia Campinense de Letras (ACL), espaço de nossas letras e orgulho para toda Campinas. Nesses 62 anos de existência passaram e passam por ela acadêmicos imbuídos de cultuar a língua pátria e reverenciar as artes e as letras. Muito tempo passou desde sua criação, em 1956. Gerações prestaram relevantes serviços para o seu engrandecimento.

As Academias são organizações estruturadas, voltadas às disciplinas literárias, científicas, artísticas e às tradições. Por vezes têm sido objeto de críticas depreciativas e imerecidas. Censuram-se-lhes as solenidades, os discursos e seu formalismo, por vezes exagerado. Mas, ao lado dessas restrições é imprescindível mencionar o seu sentido de cooperação cultural.

Temos asseverado o quão importante é a presença atuante delas nos dias atuais, quando assistimos atônitos, o descaso quanto ao uso da palavra, articulada ou escrita. É imperdoável a falta de conhecimento de alguns políticos, por exemplo, que se valem de palavras vulgares e erradas em seus escritos e discursos. Temos saudades do tempo que a escola era o fator social mais importante no setor educativo. Ela agia sobre o aluno e seus familiares, aconselhando-os e ensinando novos costumes e, principalmente, a pureza da linguagem. O tempo passou, a escola parou; em muitos lugares retrocedeu. Assim, “a última flor do Lácio inculta e bela” está cada vez mais carente de zeladores competentes.

Uma Academia de Letras deve, em primeiro lugar, contar a sua história, para, depois, estudar os diversos segmentos da literatura. Muitos são indiferentes, mas há os nostálgicos que aparentam desprezá-la, quando na realidade são os mais apaixonados por ela.

Temos que convir que é uma casa voltada para as humanidades. Em Campinas, a uma plêiade de intelectuais se deve o empenho e a coordenação dos esforços que levaram à sua fundação, ocorrida em uma dependência do saudoso Teatro Municipal. O grande mentor foi o professor e filólogo Francisco Ribeiro Sampaio, que se tornou seu primeiro presidente. Homem de franqueza exuberante, cultura ampla e sólida, obstinado e polêmico, venceu com galhardia a incompreensão do estreito meio cultural. Sofreu campanha jornalística de descrédito, a oposição de eventuais candidatos frustrados, múltiplas antipatias e obstáculos de toda ordem. O enorme talento, suficiente para consagrá-lo como um dos maiores professores do nosso tempo, multiplicava-se e se enriqueceu, por ser um tenaz trabalhador literário, homem íntegro, inteiro, incansável, diuturno. Um homem de caráter. Convenhamos, o zelo pela língua não é apenas compromisso do nosso Estatuto, mas imperativo da vontade de todos os acadêmicos.

Até os anos 60 do século passado as sessões eram realizadas de forma precária, muitas vezes em salas minúsculas, acanhadas, sem o mínimo conforto. Na sessão de 20 de abril de 1974 ocorreu a posse do acadêmico Francelino Piauí, para cujo acontecimento o prefeito Lauro Péricles Gonçalves foi oficialmente convidado. A solenidade teve lugar no Salão Nobre do Centro de Ciências, Letras e Artes. Em palestra com alguns acadêmicos, entre o final da parte solene e o coquetel, o prefeito soube que a Academia ainda não possuía uma sede condigna para a realização de festas daquele porte.

Face à situação, o chefe do Executivo se propôs doar uma sede condigna ao sodalício. Prometeu e não parou na promessa. Surpreendeu os próprios acadêmicos com a notícia de que o terreno já estava escolhido e que os primeiros “riscos” da obra já haviam sido esboçados por seu próprio punho: um magnífico projeto de edifício em estilo dórico. É preciso destacar o zelo e o carinho do prefeito para o desenvolvimento das obras. Era comum vê-lo quase que diariamente fazendo sua inspeção. É um fato sem paralelo na história da Academia Campinense de Letras.

A inauguração do novo prédio deu-se a 16 de maio de 1976. Nesse dia, compareceram representantes da Academia Brasileira de Letras, das Academia Paulista e Mineira, do Instituto Histórico de São Paulo, da Academia Paulista de História, entre outras instituições. A “Casa de Machado de Assis” mandou três de suas mais expressivas figuras: Viana Moog, o ensaísta de “Bandeirantes e Pioneiros”, Francisco de Assis Barbosa, o biógrafo de Lima Barreto e Afrânio Coutinho, coordenador de importante história da literatura brasileira. No breve discurso de abertura, o presidente Lycurgo enalteceu a obra quando tudo parecia um sonho, uma utopia, mas convertidos em realidade.

Magnífico, sob todos os pontos de vista, o discurso oficial do acadêmico Hilton Federici, que soube enfocar com extrema felicidade o papel cultural de Campinas no Estado de São Paulo, especialmente a posição que, em seu contexto deveria representar a Academia.

Viana Moog declarou-se surpreso por ver a Academia construída em estilo grego. Mas, mais surpreso ainda, disse o ensaísta ao ver a festa “presidida por dois gregos: um Lycurgo e um Péricles”. A verdade é que todos os acadêmicos seguiram e seguem as determinações dos fundadores e o comando do plenário, pois sabemos que uma Academia não é paisagem, mas movimento na paisagem.

Méritos para a saudosa confreira Maria Conceição de Arruda Toledo que fez o primeiro esboço histórico do sodalício ao consultar Atas e Arquivos em um trabalho beneditino que se tornou referência para todos nós. Ela presta homenagens aos acadêmicos falecidos, obedecendo o ditado chinês que diz “quando morre uma pessoa sábia, perdemos uma biblioteca”.

Aliás, a diretoria do biênio de 1989-90 (a 17ª), marcou a ascensão de Maria Conceição como a primeira mulher a assumir a presidência da ACL. Nessa gestão a presença feminina se consolidava com Maria Celestina Teixeira Mendes Torres, Maria Dezonne Pacheco Fernandes, Maria Jose Morais Pupo Nogueira e Nair de Santana Moscoso. Hoje nossa Casa é repleta da presença feminina.

A cidade crescia rapidamente naquela época e a atração de cidadãos por melhores oportunidades superava a infraestrutura da metrópole nascente, que não oferecia condições de trabalho, moradia, saúde e educação para todos. Infelizmente, esse desequilíbrio contribuía para o aumento dos registros de criminalidade. Desguarnecida de muros e de zeladoria constante, a sede sofreu com a depredação das escadarias, paredes externas e das belas colunas do hall de entrada. Mas, a situação melhorou em agosto de 1990, quando a Prefeitura instalou alambrado e plantou arbustos, compondo um cercado de seguridade e privacidade.

Adentramos à última década do milênio. Os 70 anos da Semana de Arte Moderna de São Paulo foram lembrados e comemorados em 1992. Foram várias conferências e, numa delas, Maria José Pupo Nogueira enalteceu a poetisa “Cora Coralina”, abordando o caso verdadeiro da imposição do marido dela, que a proibiu de participar do mais representativo evento artístico brasileiro da primeira metade do século XX. O convite lhe fora feito por Monteiro Lobato, mas Cora Coralina se conformou. A pouca propaganda de sua obra atrasou o conhecimento de sua belíssima obra pelo grande público.

As belas-artes da arquitetura do imóvel, do mobiliário e dos elementos decorativos, especialmente as esculturas dos semblantes do poeta português Luiz Vaz de Camões e do fundador, Francisco Ribeiro Sampaio, assim como do candelabro inglês localizado no átrio e da Fênix mitológica instalada no alto da fachada frontal, apoiaram a criação de um espaço de exposições na ACL. Em abril de 1995, com a presença do prefeito José Roberto Magalhães Teixeira foi criada a Galeria de Artes Lélio Coluccini, uma homenagem ao escultor italiano radicado em Campinas.

Foi nessa época, também, que a Biblioteca sofreu mudança significativa. O acervo compunha-se de pouco mais de 4 mil exemplares, segundo a primeira Resenha Histórica da ACL, elaborada por Maria Conceição Toledo, em 1981. Os livros foram transferidos para o Centro de Ciências, Letras e Artes em outubro de 1995, em Convênio assinado após o despacho do presidente Uassyr Martinelli, informando que a dependência por ela ocupada se tornara exígua e inadequada.

Apesar da rica produção acadêmica e da rotina de conferências, o último biênio do século XX, 1999-2000, registrou a diminuição do número de pessoas presentes nas Sessões. Havia, no seio da sociedade, a ideia de que o sodalício excetuava, por assim dizer, o público mais geral. Mesmo que nunca houvesse quaisquer reservas formais ou tácitas à assistência de qualquer cidadão, as audiências continuavam com pouca gente. Aproveitou-se dessa pretensa fraqueza a presidência da FUMEC, que pediu ao prefeito da época, Chico Amaral, a posse do imóvel cedido pela Prefeitura na gestão de Lauro Péricles.

Rubem Costa incumbiu-se de salvaguardar os interesses do sodalício e assim o fez com firmeza. Rubem ainda contra-atacou, empenhando-se no revigoramento da cultura e reuniu entidades culturais, pessoas e famílias tradicionais. O resultado foi observado ainda em 2001, quando vários Convênios abriram as portas do magnífico prédio, tornando-o acessível para entidades sem auditórios, que puderam usufruir deste e de toda a estrutura.

Uma importante contrapartida foi obtida junto ao Centro de Poesia e Artes de Campinas (CPAC), na figura de sua então presidente, Carmem Pimentel, que cedeu o piano que está em uso no auditório. Desde então, tradicionalmente, as sessões são iniciadas ou finalizadas com apresentações musicais.

A Biblioteca sempre esteve entre as grandes preocupações dos acadêmicos. Lembremo-nos de que ela estava sob os cuidados do CCLA, desde 1995 e por 10 anos, segundo o Convênio entre as entidades. Porém, alguns desejavam reaproximar a Biblioteca do sodalício, iniciativa sempre impedida pela falta de espaço adequado. O problema foi resolvido com um novo empenho de Lauro Péricles e Rubem Costa, que costuraram o acordo com o Sindicato dos Trabalhadores de Empresas Ferroviárias da Zona Mogiana, para que a Biblioteca da ACL fosse instalada a poucos metros daqui, onde permanece atualmente.

O cinquentenário da ACL foi comemorado durante todo o ano de 2006. No âmbito das publicações foram lançados: “Academia Campinense de Letras: patronos, fundadores e titulares” (2ª edição); “Antologia: de 2001 a 2006” e “Discursos acadêmicos em comemoração ao Cinquentenário da ACL”. Publicou-se, também, o 1º número da “Revista da Academia”, contendo matérias sobre os festejos e sobre o “Concurso Literário Guilherme de Almeida”.

Havia uma fotografia com os acadêmicos da época. Dez anos depois, em 2016, no aniversário de 60 anos, uma nova fotografia registrou os acadêmicos atuais. Esse período consolidou a ACL para além do âmbito local.

A representatividade da ACL ampliou-se na gestão de Agostinho Tavolaro (2007-16). Sua gestão confirmou as atividades voluntárias e hercúleas da presidência, cujos homens dispõem, por vezes, de recursos pessoais e de seus relacionamentos profissionais e fraternais. No domínio das conferências, houve palestras dos imortais da Academia Brasileira de Letras (ABL), Arnaldo Nesquier, Carlos Nejar, Paulo Ruanet e Paulo Bonfim. Da Academia Paulista de Letras (APL) palestraram Antônio Penteado Mendonça, Ives Gandra Martins e Luiz Gonzaga Bertelli.

Focaram-se os intelectuais de entidades convidadas a interagir. Entre as entidades parceiras estão a Academia Maçônica de Letras, a Academia de Letras das Forças Armadas, a Academia Jovem Machado de Assis, o Centro de Ciências Letras e Artes, a Associação Brasileira “Carlos Gomes” de Artistas Líricos (ABAL), Associação dos Cegos Trabalhadores, Casa do Poeta, Centro de Poesia e Artes de Campinas, Instituto de Formação e Educação, Centro de Memória – Unicamp e o nosso Instituto Histórico, Geográfico e Genealógico de Campinas.

Aprimorou-se a colaboração com a imprensa escrita, especialmente com o jornal “Correio Popular”; e com a radiodifusão, por meio do “Minuto da Memória Campineira”, transmitido pela Rádio Educativa de Campinas. Tais iniciativas são alimentadas pelos acadêmicos e acadêmicas – com destaque para uma das idealizadoras do “Minuto”, Regina Márcia Moura Tavares –, que também valorizam o programa de visitas de escolas, onde alunos aparecem no sodalício e assistem a explanações sobre um tema.

A gestão de Agostinho Tavolaro inovou, também, com a Abertura do Ano Acadêmico Paulista. A primeira aconteceu em 2014, com a conferência do atual presidente da República, Michel Temer. No ano seguinte, a Abertura coube ao presidente do Tribunal de Justiça de São Paulo, José Renato Nalini. A Abertura de 2016, nosso jubileu de 60 anos, contou com a palestra do Presidente da Academia Brasileira de Letras (ABL), Domício Proença Filho.

Também foi um marco da gestão de Agostinho Tavolaro o Convênio de Cooperação com a UNICAMP, assinado após a conferência do Reitor José Tadeu Jorge, em outubro de 2016, em meio às comemorações dos nossos 60 anos e dos 50 anos de fundação daquela importante Universidade, uma das melhores do mundo.

Todavia, o final da gestão de Agostinho coincidiu, infelizmente, com as graves crises econômica, política e institucional que ainda vivemos e estamos lutando para superá-las. Mas este sempre foi e ainda será o desafio de todos, já que a difusão da cultura sobrevive com iniciativa, criatividade, bons trabalhos e muita perseverança.

A vida acadêmica é assim. As Sessões são o palco onde a Academia exprime sua vitalidade, superando dificuldades, expandindo suas alegrias, esgrimindo nas controvérsias, a força da inteligência de seus membros; mas, e principalmente, são nelas que o convívio vivificador das relações entre seus integrantes, a base da perenidade da Academia, se concretiza.

A cultura é uma aposta fundamental na modernização do país e um imperativo de afirmação e renovação de nossa identidade. A Academia não está preocupada com a glória e sim com os outros. A tradição é o nosso primeiro voto que deve perdurar. Nosso presidente Luís Carlos Cândido Martins Sotero da Silva está plenamente imbuído dos melhores propósitos no sentido de melhorar mais ainda nossa casa e proporcionar momentos de grande prazer cultural a todos os segmentos de nossa sociedade.

Cultivando a memória da ACL faremos dela uma estrela guia de nossa caminhada, tornando-nos um pouco mais conscientes de nossos deveres ético-morais. Estamos desencantados, é verdade, desesperados e assustados com o grau de corrupção de nosso país. Em vez da vida digna pela qual lutamos, temos que nos defrontar com a podridão moral, que ora prevalece. As pessoas conscientes estão preocupadas – diríamos melhor, estão estarrecidas – com as contradições e com os absurdos estampados nos jornais. Elas estão amarguradas com a diluição das hierarquias e com a liquefação da família, enquanto a banalização dos costumes e dos valores morais vão ganhando espaço em toda a mídia. Continuam a acontecer, alguns com máscara de legalidade.

Contudo, temos que ser otimistas. É chegado o momento de recordar os momentos felizes que passamos nesses anos. Olhemos para o futuro, com esperança, no sentido de engrandecer mais ainda nossa convivência. Parabéns a ela e que sempre dê bons frutos por muitos e muitos anos.

Pesquisa realizada nos Arquivos e na Biblioteca da ACL.

Um comentário

  1. Parabéns por esta data tao festiva… A história deste Instituto mostra uma caminhada de gigantes….Que tenham muitos e muitos anos de conquistas, convivência,,comemorações e produções literárias,como é rotina nesse celeiro de notáveis.

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