Comércio e vida urbana em Campinas (1870-1914): alguns aspectos

Duílio Battistoni Filho – historiador, professor de História da Arte na PUC Campinas. Titular da Cadeira 6 do IHGGC

Resumo: O período tratado representa um momento importante para o comércio campineiro, já que a cidade passa por profundas transformações urbanas gestadas e dinamizadas pela riqueza do café. O burgo, na segunda metade do século XIX, mostra ainda traços da antiga vila colonial, com o trânsito de carros de boi, ferrarias e hospedarias servindo ao comércio de passagem das tropas.

Trade and urban life (1870-1914): some aspects

Abstract: The period covered in this article represented an important moment for the commerce of Campinas (SP, Brazil) since the city was going through deep urban transformations generated and dynamized by the wealth of the coffee industry. The city, in the second half of the 19th century, still showed traces of the old colonial village, with the traffic of ox carts, blacksmiths, and lodges serving the trade for the passing troops.

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As primeiras casas de comércio, os chamados “barracões”, forneciam os gêneros alimentícios, mas, aos poucos a população vai buscando os artigos industrializados, mormente os estrangeiros. O importante a frisar é que o comércio impulsiona o nascimento de uma indústria local. Deve-se ressaltar a crescente produção industrial europeia, a emergência dos Estados Unidos da América também como potência nesse setor e a América do Sul se tornando, essencialmente, no sistema mundial, um mercado consumidor. Produtos industrializados de todos os tipos passam a ser descarregados nos portos brasileiros, sendo tais exportações lideradas, no geral, pela Inglaterra e forte presença de produtos alemães e franceses.

Campinas, aos poucos passa por uma fase de modernidade graças ao capital cafeeiro empregado na implantação de ferrovias, casas comissárias e bancos. A chegada dos imigrantes foi importante no sentido de empregar novo sistema capitalista de produção ao romper com as tradições coloniais. As casas de taipa aos poucos são abandonadas para dar início à construção de sobrados, residências dos grandes proprietários de terra e os primeiros industriais. O comércio está concentrado nas Ruas Barão de Jaguara, Dr. Quirino, Lusitana e adjacências, empurrando para áreas periféricas as atividades fabris.

Compulsando os jornais da época, deparamos que os franceses levam a melhor no comércio de papelaria, joias, bijuterias e, principalmente, no vestuário. A moda francesa é ditadora absoluta no que diz respeito ao traje feminino: sapatos, vestidos, roupa branca, luvas, chapéus, tudo obedecia a suas regras. As lojas de produtos franceses começam a aparecer, não desmerecendo os nacionais. O tecido foi o produto que primeiro se desenvolveu, embora a sua fabricação tenha se restringido por muito tempo a panos de algodão destinados à sacaria para produtos agrícolas e roupa para os trabalhadores. Os tecidos finos para roupas elegantes vinham de fora, assim como os padrões estéticos, as técnicas, as modas. Campinas passa a receber um grande número de comerciantes franceses. Chama-nos a atenção a liderança da Casa Genoud, outrora chamada de Au Monde Elegant, fundada pelo francês Alfred Genoud, com sua diversidade de departamentos, abrangendo papelaria, livros, instrumentos musicais, perfumaria até a importação de toda sorte de produtos sofisticados como vinhos e champanhe.

Paulatinamente, aumenta o número de modistas donas de casas especializadas para senhoras. Todas elas utilizam na frente do nome a forma de tratamento francesa madames (abreviada Mme). A “Casa de Modas” de propriedade de Antonieta Ricci, na Rua Barão de Jaguara, 112, tornou-se uma das mais requintadas da cidade, especializando-se em chapéus para senhoras e para os homens com o célebre chapéu-coco Borsalino. Suas exposições eram exaltadas na imprensa. Ademais, é oportuno lembrar que muitos chapéus eram fornecidos pela fábrica Bierrembach no bairro Santa Cruz, sendo a primeira a empregar mulheres e introduzir em São Paulo a máquina de costura Singer. Teve também importância a fábrica de Chapéus Hempel de propriedade de Kaysel & Shreiner, fundada em 1872, situada na Rua Barão de Jaguara, 17.  A francesa Marie Cellulare era dona da loja Aux Modes Parisiennes, na Rua Dr. Quirino, 51, especializada em cintos e luvas finas para bailes e casamentos. Várias são as cabeleireiras e costureiras como Madame Perrotin que ensina a técnica de pentear a muitas senhoras e escravas. Um anúncio na Gazeta de Campinas, de 10 de fevereiro de 1887, diz necessita de boas costureiras que sejam bem adiantadas na sua arte.

Madame Genoud também mantinha uma espécie de salão de cabeleireira para senhoras, cuja especialidade eram as tranças postiças e os vistosos canudos para os cabelos, de muito uso no final do século. Muitas dessas lojas mantinham um sistema de vendas à distância, com distribuição de catálogos a partir dos quais o consumidor podia escolher e pedir as encomendas desejadas. Além do mais, o estrangeiro aqui radicado deixava de ser estrangeiro para tornar-se um novo componente nacional. É nessa categoria que vamos encontrar grande parte dos comerciantes em atividade na cidade de Campinas na primeira metade do século XX.

A referência francesa no ramo do vestuário foi enorme, como vimos. Entretanto, um alemão de 25 anos, Daniel Heydenreich, em 1880, começou a trazer para São Paulo e estocar artigos procedentes da Alemanha, como peças de linho e rendas. Os negócios prosperaram de tal forma que, em 1883, foi inaugurada a Casa Alemã, especializada em vestidos, roupas brancas, artigos para homens, tapetes e cortinas. O estabelecimento era uma referência tanto na capital como no interior. Suas exposições eram famosas. Os campineiros foram presenteados, em 1887, com uma filial da casa na Rua Moraes Sales.

Pela presença constante de ourives e fornecedores de joias na cidade, presume-se que, apesar das mantilhas pretas usadas pelas campineiras tais adornos não eram dispensados pelas mulheres. Nesse período, o comércio de joias era próspero, o que se conclui pelo número de comerciantes e lojas. De todos eles, o mais antigo era José Gerin, dono da Casa Importadora de Joias fundada em 1863 e estabelecida na Rua Barão de Jaguara, 62. Nessa época, a Joalheria Au Palais Royal, do Rio de Janeiro, mandou vir de Paris um grupo seleto de oficiais de ourivesaria a fim de dar execução às joias das princesas do Brasil, encomenda que havia recebido do imperador d. Pedro II. No grupo de ourives estava Emile Decourt que, depois de trabalhar dez anos no Rio de Janeiro, se estabeleceu em Campinas, em 1876, com sua Casa de Joias, na Rua Francisco Glicério, 43. Ele foi o primeiro a vender óculos na cidade, relógios, binóculos e pince nez(aqueles óculos sem hastes, presos no nariz). Além de vender para consumo geral, oferecia serviços de colocação de relógios públicos nas igrejas, colégios e edifícios públicos. Outro comerciante muito famoso foi Alberto Samuel, dono da Grande Casa de Joias na Rua Barão de Jaguara, especializado na importação direta da Europa. Muitos desses tradicionais joalheiros-relojoeiros encetariam reformas ou reconstruções modernizadoras de seus estabelecimentos.

Um comércio que se destacou foi o de ferragens que se manteve nas mãos dos luso-brasileiros até a segunda metade do século XIX cabendo aos alemães continuar esse empreendimento. Tudo começou quando o berlinense Luis Faber, em 1858, instalou uma fábrica de fundição no bairro Bonfim, a qual contribuiria para o aparecimento de novas indústrias ligadas a implementos agrícolas, como a Lidgerwood (1884) a Mac Hardy (1875) e Arens Irmãos (1877). Todas elas forneceriam produtos para a Loja de Santos Nogueira, de José Pereira Bueno e para A Lavoura de A. Reinhardt & Hoffmann, todas situadas na Praça Bento Quirino. Ambas se uniram na venda de ferragens, canos de ferro, armas, munições, tintas, além de máquinas agrícolas. Aliás, a Santos Nogueira, que tinha como sócio Bento Quirino, foi homenageada pelos seus esforços no combate à epidemia da febre amarela, com a colocação de uma placa de mármore numa das paredes externas da Sede da firma. Outras lojas foram importantes como a Casa de Ferragens de Abílio de Gouveia, na Rua Dr. Quirino, 67, especializada em armas de fogo e artigos para a lavoura. É importante ressaltar que elas representaram, talvez, o ramo de comércio em que mais se manteve aquela tradição de variedade, não-especializada, do estoque formado de acordo com as circunstâncias, tanto de demanda como de oportunidade de aquisições. Constituíram-se como espécie de bazares.

Campinas, até o fim da primeira metade do século XIX, não tinha hospedarias nem restaurantes ou cafés, mas apenas albergues – pousadas situadas nas entradas da cidade para abrigar tropas em trânsito. Aos poucos, já se liam anúncios de hotéis no jornal Gazeta de Campinas. Vários são os franceses que aparecem como hoteleiros ou donos de restaurantes em Campinas. Basta dizer que, estando na cidade, em 1865, a caminho do Paraguai, a comitiva de engenheiros militares, tendo à frente o Visconde de Taunay, surpreendeu-se com o bom gosto e requinte e boa alimentação do hotel do francês Casé, localizado no Largo da Matriz. Um estabelecimento de hospedagem muito conceituado foi o Hotel de Paris de Pierre Lambougeot, na Rua Bom Jesus (atual Campos Sales), com cozinheiro francês e seus quitutes – a preço fixo.

A cozinha francesa fazia sua entrée, introduzindo não só novos pratos, mas também alguns de seus nomes, às vezes grafados à moda do lugar. A colônia francesa da cidade frequentava esse estabelecimento. Era o local de grandes comemorações, como festas de casamento e formatura. Outros hotéis muito frequentados eram o Grande Hotel de França de propriedade do francês Ferdinand Domingo, no Largo da Matriz Nova, 41, com magníficos cômodos arejados próprios para banquetes. Muito solicitado pelos viajantes que vinham a Campinas para consultas médicas e hospitalares era o Hotel d’Europe na Rua Benjamim Constant cujos donos eram Joaquim Vilac e Marie Vilac, ambos de origem suíça. Durou até 1928, quando foi doado à Congregação de Jesus Crucificado. Quanto aos restaurantes no final do século XIX tinha importância os restaurantes Des Pirinés e o France. Segundo Castro Mendes, este último, para honra de seu proprietário Dario Pisani, chegou a hospedar a artista francesa Sarah Bernhardt quando de sua exibição no Teatro São Carlos, em 1886. É bom frisar que todos estes estabelecimentos movimentaram a vida social de Campinas, na base do refinamento das suas instalações gastronômicas. Devido ao grande progresso comercial da cidade, em 1885, foi realizada a Primeira Exposição Regional do Município de Campinas, nas dependências do palacete do capitalista Próspero Belinfanti, onde foram expostos, além de produtos agrícolas, produtos industriais das mais importantes oficinas, notadamente Lidgerwood, Mac Hardy e Arens Irmãos, então em funcionamento. A cidade contava 579 estabelecimentos devidamente registrados.

Referências:

AMARAL, Leopoldo. A cidade de Campinas em 1900. Campinas, Livro Azul, 1899.
AMÊNDOLA, João. “O comércio em Campinas”. In: Monografia Histórica do Município de Campinas, IBGE, 1952.
BARBUY, Heloisa. A cidade-exposição. São Paulo: Editora da Universidade de São Paulo, 2006.
CAMILLO, Ema Elisabete Rodrigues. Guia Histórico da Indústria Nascente em Campinas- 1850-1930. Campinas: CMU, UNICAMP, 1993.
GAZETA DE CAMPINAS
MENDES, José de Castro. Efemérides Campineiras. Editora Gráfica Palmeiras, 1963.
OCTÁVIO, Benedito, MELILLO, Vicente. Almanach Histórico e Estatístico de Campinas. Campinas: Typ Casa Mascote, 1912.

2 comentários

  1. Excelente o trabalho de Duilio, que convida a uma pesquisa mais profunda, merecendo mesmo ser objeto de livro, dados os elementos históricos de que a matéria é farta. Sugiro que o mesmo seja enviado à ACM – Associação Comercial de Campinas e à FECOMERCIO – Federação do Comercio do Estado de São Paulo, da qual sou membro do CSD – Conselho Superior de Direito do qual sou membro. Sugiro ainda seja ao mesmo enviado à Academia Paulista de História, da qual Duílio, Jorge Alves de LIma e eu somos acadêmicos, bem como ao IHGB, IHGSP e aos institutos e acadêmias congêneres, em especial os da regiâo de Campinas.
    Agostinho Toffoli Tavolaro – cadeira 39

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