A Comemoração do Primeiro Centenário da Independência do Brasil na cidade de Campinas (1822-1922)

Por Beatriz Piva Momesso – historiadora, professora. Titular da Cadeira 12 do IHGGC.

Resumo:

As páginas do jornal Gazeta de Campinas noticiaram amplamente a comemoração do primeiro centenário da Independência do Brasil ocorrida em Campinas entre os dias 06 e 09 de setembro de 1922. Em meio à narração dos festejos, é possível vislumbrar a gestão de projetos políticos locais, o cultivo das tradições culturais e tentativas de entrada da cidade na modernidade através da rememoração laudatória do passado nacional.

The Celebration of the First Centennial of the Brazilian Independence in the city of Campinas (1822-1922)

Abstract:

The newspaper Gazeta de Campinas widely reported the celebration of the first centennial of Brazil’s Independence, which took place in the city of Campinas from September 6th to 9th, 1922. Amidst the narration of the festivities, it is possible to glimpse at the management of local political projects, cultural traditions and attempts of the city to enter modern times through the laudatory remembrance of the national past.

***

Em 1822, ano da Proclamação da Independência do Brasil por Dom Pedro I, a atual cidade de Campinas ainda era a Vila de São Carlos. Havia se emancipado de Jundiaí e passava por um processo de transformação econômica. A cultura cafeeira começava a se desenvolver e vislumbrava-se o crescimento demográfico. Àquela altura não havia jornais impressos na localidade, apenas folhas manuscritas ou pasquins. Portanto, a imprensa não fornece pistas sobre as reações ao 7 de setembro na vila.

Em 1922, já na qualidade de cidade que aspirava à modernização, Campinas reservou dias festivos para celebrar o primeiro centenário da Independência do Brasil. As páginas do jornal Gazeta de Campinas trazem notícias dessa comemoração sob o título repetido entre os dias 08 e 10 de setembro: “ (1822-1922) Independência ou Morte! ”. Com a iniciativa do então prefeito Raphael Duarte, uma comissão comemorativa foi formada para definir o calendário do centenário. A agenda campinense incluía eventos de diversas naturezas a acontecerem na própria cidade, mas também marcava a   participação especial de Campinas na grande festa cívica brasileira a ser realizada no Rio de Janeiro.

Tratava-se da Exposição Internacional Comemorativa do Centenário da Independência do Brasil, na capital fluminense. O objetivo do evento era expressar a vida econômica e social do Brasil em 1922, bem como mostrar ao mundo o desenvolvimento e modernização alcançados até então. Prédios da cidade carioca foram derrubados e, em seus lugares, foram construídos pavilhões para a exposição. Cada estado que o desejasse tinha direito de ocupar um pavilhão. Nele se exibia, entre outras coisas, invenções científicas usadas na agricultura ou nas primeiras indústrias, avanços envolvendo a eletricidade e obras de arte. Na ocasião, aconteceu a primeira transmissão de rádio no Brasil com o discurso realizado pelo presidente Epitácio Pessoa diretamente da Exposição Internacional.  Campinas fez questão de participar do evento. O prefeito Raphael de Andrade Duarte com Álvaro Ribeiro tramitou de modo a conseguir um pavilhão inteiro somente para a exposição campinense, que, segundo nota da Gazeta de Campinas, mostrava-se tão ou mais significativo que o pavilhão do estado de São Paulo.

Pelo que se sabe no pavilhão representativo da cidade foram expostos desde partituras de O Guarani até o café produzido a partir de novas técnicas de beneficiamento. Durante todo o tempo, uma banda musical executava, sob aplausos, as composições de Carlos Gomes, aliás o nobre maestro foi evocado em várias circunstâncias das comemorações do centenário.

Campinas claramente buscava inserir-se e fomentar o ideal de modernização e progresso nacional, um ideal da década de 20, a partir da sua participação na Exposição Internacional. Por outro lado, a celebração do Centenário da Independência na localidade, demonstra a exaltação de tradições regionais típicas de Campinas e uma certa preocupação em preservar a identidade cultural e conectar os tempos gloriosos do passado e do presente.

As festas começaram com todo fervor a meia noite do dia 7. Naquele momento, sinos repicavam e foi queimada uma bateria de 21 tiros. Nas noites entre os dias 6 a 8, as ruas estavam iluminadas e a catedral mais bela ainda com lâmpadas multicolores. Bandas de música tocavam pela madrugada do dia 7 e o jornal anunciava a venda de serpentinas e confetes para o evento, esclarecendo que as lojas especializadas por tais itens funcionariam inclusive no feriado a fim de que o povo campinense pudesse “munir-se destes artefatos e assim abrilhantar a celebração”. O lança-perfume foi liberado para uso nas ruas e nos salões durante os festejos.

Na manhã do dia 7, dez mil alunos de escolas estaduais e particulares se reuniram na Praça Correa de Melo, hastearam solenemente a bandeira e cantaram o hino nacional, bem como o hino à bandeira. O prefeito estava presente à solenidade e, além dos alunos, uma multidão encontrava-se na praça o que, segundo a Gazeta de Campinas, constituía um espetáculo maravilhoso. A seguir, deu entrada na praça uma grande cruz levada até o seu destino: um altar montado nos fundos da Escola Correa de Melo. A multidão acompanhou uma missa campal realizada por Dom Francisco de Campos Barreto. O vigário geral da diocese discursou sobre a data evocando o patriotismo como virtude.

Um cortejo cívico que envolvia militares e o próprio desfile dos alunos emocionou a multidão que estava na Barão de Jaguara e dirigiu-se ao Paço Municipal.

Na Câmara Municipal, aconteceram curiosas e seguidas sessões públicas e comemorativas do Centenário. O local estava ricamente enfeitado por flores e ramagens e quem quisesse podia entrar. Por três vezes a Gazeta de Campinas repetiu que em todas as sessões “estavam representadas famílias de todas as classes sociais”. Na ocasião, cantava-se o hino nacional. O quadro O Grito do Ipiranga em bronze foi inaugurado pelo presidente da Câmara que abriu a primeira sessão e discursou. Benedito Otavio e Justo Pereira entregaram diplomas e prêmios aos expositores distinguidos na Exposição Preparatória Municipal, que, ao que tudo indica, foi a primeira fase do concurso para a Exposição Internacional do Rio de Janeiro. Todas as pessoas presentes puderam assinar o Livro de Ouro.

Às 15 horas, a Comissão Organizadora dirigiu-se às proximidades da Escola Normal, que estava em construção e se uniu a uma concentração de representantes de clubes, associações, delegações de escolas e corporações. Saiu o grande cortejo. Durante este houve um momento de silêncio religioso e absoluto marcado por um tiro de morteiro, silêncio que se estendeu por toda a cidade. Após o segundo morteiro, músicas e bandas executaram o hino nacional e foram dadas vivas à pátria e aos heróis do 7 de setembro. Confetes e serpentinas eram atirados desde as sacadas dos edifícios da Barão de Jaguara.

Após a subida da rua 13 de maio, o cortejo rumou para a Praça Luiz de Camões onde se deu a inauguração do busto que representa o poeta luso. A esta altura, o leitor pode estar se perguntando: – Mas uma homenagem a um português no centenário da Independência do Brasil?

O discurso do prefeito Raphael Duarte traz a resposta:

 

“Portugal é o berço deste Brasil estremecido. O magnífico busto do português Luiz de Camões demonstra nosso afeto aos irmãos lusos (…). Eles também labutaram conosco e partilharam conosco nossas sua crença, alegrias e lutas (…) Raça de irmãos, que como irmãos conosco convivem, ligados pelo mesmo ideal de progresso e bem-estar (…)” (GAZETA,1922: 09 set.).

O prefeito, sem dúvida, nutria especial admiração por Camões. Isto é óbvio ao considerar-se seus trabalhos de jornalista, historiador, poeta, teatrólogo, biógrafo e membro da Academia Campinense de Letras, aliás, ele foi também um dos fundadores do Centro de Ciências Letras e Artes, em 1901. No entanto, seu discurso parece ir além do mero apreço pessoal pelas humanidades. Demonstra, um desejo de continuidade com as tradições lusas, um agradecimento aos portugueses que ajudaram na construção do Brasil e nos deixaram a nossa principal tradição religiosa. Sobretudo, o orador une brasileiros e portugueses em seu discurso pelo grande ideal dos anos 20: o ideal de modernização, bem-estar e progresso.

O cortejo também parou na Praça Ruy Barbosa para lançamento da pedra fundamental do novo Teatro Municipal, muito caro ao prefeito. A instituição simbolizava “um projeto de modernização cultural e de promoção das sociabilidades campinenses”, segundo palavras do discurso do próprio Raphael Duarte. Nota-se a escolha dos festejos da Independência para associar sua grandiosidade ao futuro projeto regional de construção do teatro.

Um dos últimos e, talvez, um dos mais simbólicos festejos do dia aconteceu na entrada da rodovia que liga Campinas a São Paulo. O prefeito acompanhado de vereadores, autoridades e personagens ilustres da vida campineira inaugurou uma coluna comemorativa da abertura da estrada que pôs a capital em comunicação com cidade de Carlos Gomes. A homenagem não era dirigida apenas a Washington Luís  que, na qualidade de prefeito de São Paulo, expandiu a malha rodoviária valorizando os acessos ao interior. Tratou-se de rememorar o passado e celebrar o desenvolvimento modernizador do presente.

Segundo palavras de Raphael Duarte:

“A estrada é vida, é expansão, é o progresso, é a riqueza. Os organismos que não tem circulação ou que a possuem deficiente, tenderão, fatalmente, para a inercia e ao completo aniquilamento. Campinas se expande, possui posição favorável, ligada a muitos municípios. São 300 km de estradas municipais que se engastalham em todos os sentidos. ” (GAZETA, 1922: 10 set.).

Novamente, o projeto da modernização aparece, desta vez, relacionado ao conjunto urbanístico. A urbanização é associada ao progresso e desenvolvimento e o discurso ilustrado da autoridade comprova que a cidade de Campinas se inclui certamente em tal realidade nacional, que, por sua vez, merece ser lembrada e celebrada num dia cívico.

A reportagem exalta a grande festa na Barão de Jaguara pós-cortejo ainda repleta de confetes, serpentinas e lança-perfumes. O dia 7 terminou com a celebração do Te Deum, hino religioso de ação de graças, na catedral da cidade. O periódico lista inúmera missas rezadas em Campinas na data em diferentes igrejas e capelas.

Nos dias 8 e 9 de setembro, diversos clubes como o Concordia, fundado por alemães residentes em Campinas, realizaram bailes em homenagem à data. O clube Mogyana promoveu um sarau e o Cine Rink exibiu o que chamou de dois filmes muito especiais, Nascido do Silêncio e  Senhorita Sorriso, um drama mudo lançado no mesmo ano.

No dia 8, em especial, foi programado um evento futebolístico que movimentou a cidade: um jogo entre o Clube Guarani, fundado em Campinas por um grupo de jovens italianos e um jovem alemão, e o Clube Rio Branco. Enfim, também teve futebol em Campinas para celebrar a Independência do Brasil!

O Guarani fundado em 1911, contava com apenas 11 anos de existência e, pelo que se nota, já era bem apreciado na cidade. A Gazeta de Campinas gastou quase todas as seis colunas da primeira página do jornal do dia 9 de setembro para descrever o jogo ocorrido no dia anterior: desde a escalação dos jogadores, à atuação razoável dos juízes, os grandes lances da partida e a reação do público repleto de “jovens representantes do belo sexo”. A prática do esporte é vista como um festival de exaltação da pátria e um brinde à população na alegre data cívica, uma atração importante e imprescindível para comemorações populares. O futebol local configurava-se como uma marca da nossa identidade regional.

Finalmente, ao concluir a leitura da Gazeta de Campinas sobre os festejos locais do Primeiro Centenário da Independência do Brasil, leva-se o retrato de uma cidade que adentrava a belle époque, mas que mantinha suas tradições, necessárias para lhe conferir características próprias. A narração do jogo do Guarani, e descrição dos bailes nos clubes locais serviram para a Gazeta reafirmar a autonomia e a personalidade de Campinas.  Os festejos são usados para simbolizar que em cem anos a cidade cresceu, se modernizou, ganhou relevância dentro do cenário brasileiro. Ao mesmo tempo, demonstram a conservação de costumes cristãos do passado e a ligação dos campinenses com os nobres portugueses. Passado e presente se conectaram no Comemorações do Primeiro Centenário da Independência em Campinas. Ainda mais: as festas almejaram prever o futuro da cidade e sugeriam suas possíveis transformações de modo a configurar Campinas como um polo cultural, econômico e político de grande relevância.

Referências bibliográficas:

ATLAS FGV. Disponível em: https://atlas.fgv.br/verbetes/exposicao-internacional-do-centenario-da-independencia-do-brasil. Acesso em 29 ago.2022.

BRESCIANI, M. S. (Org.). Imagens da cidade: séculos XIX e XX. São Paulo: Marco Zero/Anpuh, 1994.

CENTRO DE MEMÓRIA UNICAMP (CMU). Gazeta de Campinas. 06-10 setembro, 1922.

 

 

 

 

 

 

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