Resenha bibliográfica: Ibicaba, entendendo, vivendo e construindo futuros

Olga Rodrigues de Moraes von Simson – professora colaboradora do Programa de Pós-Graduação em Ciências Sociais e Educação da Faculdade de Educação e do Programa de Pós-Graduação em Gerontologia da Faculdade de Ciências Médicas, ambos da UNICAMP. Titular da Cadeira 40 do IHGGC.

Resenha bibliográfica:

WITZEL DE SOUZA, Bruno Gabriel & SANTIN GARDENAL, Leonardo Antonio (orgs.) IBICABA (1817-2017) – ENTENDENDO, VIVENDO E CONSTRUINDO FUTUROS. 1ª ed., Campinas (SP), Pontes Editores, 2021, 472 páginas. 

Esta obra, reunindo contribuições de vários autores, foi organizada a partir de uma introdução e quatro partes distintas. A Parte I intitulada: “Entendendo Ibicaba: textos analíticos” é composta por doze capítulos, a cargo de quatorze autores, que focalizaram a história dessa fazenda emblemática na introdução da mão de obra imigrante ainda na província e depois influenciando o próprio estado de São Paulo. Focaliza na parte I o processo histórico de criação e crescimento econômico e social dessa experiência inovadora, voltada para a substituição da mão de obra escrava pelo trabalho de imigrantes europeus (portugueses, alemães, suíços e italianos). Eles foram fixados em solo paulista e encarregados do plantio, trato e colheita do café, graças à iniciativa inovadora do Senador Nicolau de Campos Vergueiro.

Nesta primeira parte saliento a elaboração biográfica da figura do Senador Vergueiro que, sendo de origem portuguesa, viveu do final do século XVIII, até a segunda metade do XIX dividindo-se entre Portugal e Brasil. Tendo estudado na Universidade de Coimbra, sofreu influência das ideias pombalinas, encarando a substituição da mão de obra escrava como fundamental para o sucesso de empresas agrícolas em solo brasileiro. Saliento nesta parte, também, a preocupação dos Vergueiros (pai e filho) com os caminhos carroçáveis da província de São Paulo, vistos como fundamentais para o sucesso da agricultura de bens exportáveis, ainda antes da introdução das ferrovias em nossa região.

A primeira parte do livro é fechada por uma entrevista realizada por Bruno Witzel de Souza com um especialista em Economia das Migrações, o Prof.Hillel Rapoport, da Paris School  of Economics – Universidade de Paris1 – Panthéon/Sorbonne, na qual há uma comparação importante entre as migrações internacionais no passado e na contemporaneidade. Uma frase desse especialista sobre as migrações atuais chamou a minha atenção: “Os migrantes internacionais são aqueles altamente motivados, amantes do risco, ou simplesmente desesperados.” Rapoport mencionou também uma afirmação importante de Heinrich Böhl: “Nós buscamos trabalhadores, mas recebemos pessoas”, que nos ajuda a explicar os desencontros havidos em Ibicaba.

A Parte II do livro é formada pela transcrição e edição das muitas entrevistas, realizadas para a elaboração dessa obra, e se intitula: “Vivendo Ibicaba”. O primeiro entrevistado é o atual proprietário da fazenda Ibicaba: José Theodoro Hayden Carvalhaes, que em suas falas focalizou os rumos do café no século XX e mencionou uma nova atividade rentável, introduzida com bastante sucesso na fazenda, na atualidade: o turismo histórico. A seguir, um antigo administrador da propriedade e um ex-colono, que hoje vive como barbeiro na cidade Cordeirópolis (função que começou a exercer quando ainda trabalhava em Ibicaba), têm suas vozes registradas. Outros dois entrevistados são os irmãos Pott, que trabalharam na fazenda e reconstruíram suas trajetórias de vida salientando as diferenças entre diaristas, colonos e camaradas. Um terceiro Pott – também irmão dos anteriores –, cujo prenome é Fernando, já nascido na segunda metade do século XX, conta a vida dos trabalhadores nesse final de século. Por fim, conhecemos a fala de Francisco Olivato, também um ex-trabalhador de Ibicaba, mas hoje comerciante em Cordeirópolis e pintor naif, cujas obras são apresentadas no belo álbum colorido, que fecha o livro. Oséias Beda, reconstrói em sua fala a chegada do trem à sub-estação de Cordeirópolis e que alcança também a fazenda estudada. Por fim, a voz feminina de Olga M. Giorgi Kleiner Bernardi, uma apaixonada por genealogia, fecha esse conjunto de valiosas histórias de vida.

A Parte III deste livro é formada por notas diplomáticas: do Embaixador Suíço no Brasil e dos Cônsules Honorários da Itália em Campinas, e da República Federal da Alemanha em Ribeirão Preto.

É importante salientar a Parte IV, constituída pelo álbum imagético que fecha essa obra e reúne fotos coloridas e reproduções de obras de arte, todas retratando aspectos importantes do passado e do presente da fazenda Ibicaba. Elas permitem ao leitor complementar, visual e agradavelmente, as informações recebidas através dos muitos e variados textos. Assim, muito bem informado sobre o rico passado dessa fazenda emblemática, surge um desejo intenso de visitá-la para, com consciência, mergulhar nas marcas perenizadas de uma trajetória sócio histórica “sui generis”, que foi muito bem reconstruída, nesta valiosa obra conjunta.

O lançamento do Livro será realizado na próxima terça-feira, 26/10/2021. Maiores informações: http://www.ponteseditores.com.br     

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