Campinas vista por um viajante estrangeiro na segunda metade do século XIX

Duílio Battistoni Filho – historiador, professor aposentado de História da Arte na PUC Campinas. Titular da Cadeira 6 do IHGGC

Desde tempos remotos, o homem teve sempre a preocupação de registrar a realidade do cotidiano de seu tempo para as gerações futuras, na consciente noção de preservação de sua história. Na maior parte das vezes, estes registros foram feitos através de relatos escritos, mas aparecem também com muita frequência nas formas iconográficas.

O Brasil, durante todo o século XIX, abriu suas portas aos estrangeiros, não apenas àqueles aventureiros dos séculos anteriores que correram os sertões em busca de riquezas, mas também a pesquisadores vindos da França, Alemanha, Inglaterra e de outros países europeus, à procura de novos dados para estudos biológicos, sociais e gerais. Além da atração natural que a paisagem tropical do litoral causava a esses viajantes que também se demoravam em descrições minuciosas de portos e praias, o interior foi também muito visitado, a exemplo do que ocorreu com São Paulo para conhecer sua flora, fauna, suas riquezas geológicas e costumes locais.

Um grande volume de informações pode-se obter dos relatos desses viajantes que aqui estiveram na segunda metade do século XIX. Dentre eles, destaca-se o jornalista e escritor português Augusto Emílio Zaluar (1825-1882). Natural de Lisboa, viveu em nosso país durante muito tempo, colaborando em jornais e revistas, no Rio de Janeiro. Sua obra mais notável é “Peregrinação pela Província de São Paulo, 1860-1861”. Editora Itatiaia, 1975, fruto de suas andanças nesta região. Entre as cidades visitadas, Campinas o encantou pelo seu progresso e amabilidade de seu povo, a ponto de aqui permanecer durante dois meses, em 1861. Faz um relato minucioso da urbe, enaltecendo inicialmente o seu clima ameno e salutar, uma natureza deslumbrante e a presença de árvores frutíferas. Por essa época, contava o município com cerca de 24.000 habitantes, dos quais 14.000 escravos e 10.000 livres – sim, a população escrava era maior do que a livre. As primeiras mudas de café já estavam aparecendo, graças ao pioneirismo do fazendeiro Francisco Egídio de Souza Aranha, mas recebidas por quase todos os vizinhos com alguma desconfiança e incredulidade, já que a grande riqueza do município era a cana de açúcar.

Todavia, uma classe já estava despontando, a dos proprietários rurais, origem de uma aristocracia agrária sequiosa de títulos: a dos barões do café. Estes contavam com uma mão-de-obra barata, a dos escravos. O intercâmbio entre os proprietários rurais era intenso.

“As famílias viajam em romaria de uma para outras fazendas e se destacam com este salutar refrigério, enquanto os homens se integram aos exercícios mais varonis da caça e pesca” (p.141).

Os campineiros discutiam a necessidade de progresso em todos os setores, e a esperança estava na chegada dos trilhos da estrada de ferro de Santos, no litoral, portanto no porto, a Campinas, para que os fazendeiros pudessem escoar seus produtos e alcançar riqueza.

Chama a atenção dele o desenvolvimento local do comércio, com a presença de 64 lojas de fazendas e ferragens, 20 armazéns, fábricas de licores, duas de cerveja, de charutos etc. Para ele o tráfego comercial para Goiás, Uberaba, Franca era fundamental para riqueza da cidade. Achou bastante acanhada a Casa da Câmara e Cadeia construída com muito mau gosto, mas enalteceu a habilidade de seus políticos.  Os memorialistas e viajantes estrangeiros que estiveram em Campinas em várias fases diferentes da vida da cidade são unânimes em destacar a íntima relação entre a igreja e a vida social urbana.

O campineiro gosta de música, principalmente a sacra e, neste aspecto, destaca-se o pai de Carlos Gomes, Manoel José Gomes, mestre de capela.  Sendo um povo muito religioso, contava com quatro templos na cidade: o do Rosário, o da Santa Cruz, a Matriz Velha e a Matriz Nova, que estava sendo construída, e futura Catedral. Ao visitar esta última, ficou deslumbrado com a riqueza de seu altar-mor, obra do escultor baiano Vitoriano dos Anjos.

“É um poema de flores, colunatas, arabescos, enlaçados com profusão e simetria” (p.138)”.

Visitou o Teatro São Carlos, que no seu entendimento, era superior ao da capital. Não compreendia porque a cidade não tinha uma companhia dramática para distrair e entreter seus habitantes. Entretanto, ressaltou que o teatro, assim como a igreja tinham o propósito de unir os segmentos da sociedade, já que na cidade só havia um clube recreativo de expressão: o Cultura Artística.

Quanto à instrução pública, Zaluar salientava a grande presença de escolas públicas de primeiras letras, e dois colégios de instrução secundária. Chama a sua atenção a educação dos filhos dos fazendeiros, ministrada por professores particulares, e o envio de muitos deles à Faculdade de Direito de São Paulo. Para ele, o campineiro era sedento de cultura, e a prova está nas duas associações criadas com este propósito: o “Recreio Literário” e o “Gabinete de Leitura”. Importa registrar, que estas casas do saber resultavam da inciativa do grupo letrado da cidade, agentes sociais comprometidos com o ideário liberal de uma educação popular. O Catálogo de 1877 aponta que o Gabinete de Leitura tinha uma média de 2000 obras de autores nacionais e estrangeiros.

Ao conversar com muitas pessoas, notou o grande amor do povo campineiro pela liberdade, sendo recordado o episódio da Venda Grande, rememorado na célebre Revolução de 1842, com mortes e feridos de campineiros.  O historiador Afonso d`Escragnole Taunay exaltou as observações de Zaluar sobre Campinas, ricas em detalhes de sua vida econômica e social, incomparavelmente melhor do que as feitas sobre São Paulo.

2 comentários

  1. Sempre uma boa leitura.O professor Duilio nos brinda com textos muito informativos sobre nossa História…Que venham outros…Serão muito apreciados.

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