Artistas e aventureiros: a dura vida dos profissionais convidados para a Expedição Langsdorff

Cecília Prada – jornalista e dramaturga, (prêmio Esso de Jornalismo / Reportagem, em 1980).

Pintores, naturalistas, geógrafos, astrônomos e vários outros cientistas foram convidados por Langsdorff para sua expedição. Alguns vieram da Europa especialmente e outros foram contratados no Brasil. Cada um legou obras de valor incalculável e uma história de vida marcada por coragem, resignação e tragédia, como o desenhista Adrien Taunay, que se afogou ao tentar atravessar o rio Guaporé.

A revolta de Rugendas

Quando foi contratado por Langsdorff, em 1821, o artista alemão Johann Moritz Rugendas tinha apenas 19 anos. Pertencia a uma família tradicional de pintores, de nobre linhagem. Ainda não terminara seus estudos, mas, influenciado pelo relato de viagens dos naturalistas Spix e Martius e dos pintores austríacos Thomas Ender e Buchberger, mostrava-se extremamente ansioso para conhecer o Novo Mundo. Mas o longo tempo de espera que teve de suportar na Fazenda da Mandioca antes do início da expedição foi demasiado para seu temperamento.

Poucos meses após a chegada ao Brasil, tentou romper seu contrato. Sem pedir permissão ou dar qualquer explicação, viajou da fazenda para a cidade do Rio de Janeiro, onde procurou trabalho. Não conseguindo nada, teve de voltar para o serviço com Langsdorff, mas dali por diante a tensão entre os dois só aumentaria, contagiando outros membros da expedição. Diz Langsdorff: “…Apoquentou-me de todas as maneiras. Procurava criar motivos para se ver livre da expedição… Ele desenhava com aplicação, tendo feito muitos esboços e composições. Mas se eu me aproximava dele enquanto estava trabalhando, fechava o álbum com força e abria numa outra folha limpa, para que eu não visse o que estava desenhando”. Abusando da liberdade de que gozava na casa da fazenda, Rugendas – segundo Langsdorff – teria chegado até mesmo a violar sua correspondência, procurando nela fundamentos para os boatos que lançou sobre uma suposta improbidade do cônsul na manipulação dos fundos da expedição.

Essa situação manteve-se até o final do ano de 1824. Achando-se então a expedição, já em pleno curso, acampada numa fazenda de Minas Gerais, uma discussão entre os dois tornou-se tão grave, acarretando insultos grosseiros, que o cônsul imediatamente tomou a resolução de demitir o desenhista – ordenando que, conforme o contrato que assinara, Rugendas entregasse à expedição todos os desenhos feitos até então. Mas o artista se recusou a cumprir seu contrato. Em relatório feito ao vice-chanceler russo, Karl Nesselrode, Langsdorff diria, em carta de 18 de dezembro de 1824: “Ele entregou-me algumas cópias e esboços feitos a lápis, sem grande importância e praticamente inacabados. Conservou consigo os trabalhos bons e originais”.

Em maio de 1825, fugindo ao controle do consulado russo, Rugendas embarcava de volta para a Europa, levando 500 de seus melhores desenhos, e no mesmo ano promovia sua primeira mostra em Paris. Todas as tentativas feitas pelo governo russo para reaver o material foram inúteis. Em 1827, com o apoio do cientista Alexander von Humboldt, foi iniciada a publicação das gravuras que se tornariam célebres, baseadas nos desenhos. A edição completa de Voyage Pitoresque dans le Brésil, com 100 gravuras originais, foi completada em 1835 e divulgou o Brasil na Europa.

Entre 1825 e 1831 Rugendas viveu na França, na Alemanha e na Itália. Vinte anos mais tarde voltou ao Brasil, onde se demorou mais quatro anos, percorrendo-o e registrando suas paisagens e costumes. Fez também extensas viagens ao Haiti, México, Chile, Peru, Bolívia, Argentina e Uruguai – uma grandiosa epopéia, refletida em cerca de 3,5 mil obras. Recebeu por esse motivo o título de “pintor das Américas”, do grande geógrafo Domingos Sarmiento. Apesar desse reconhecimento, o pintor sempre passou por dificuldades materiais. Sua situação só melhorou após o monarca da Baviera, Ludwig I, ter comprado a maior parte de seus trabalhos. Rugendas faleceu em Württemberg, Alemanha, em 1858.

A tragédia de Taunay

Alguns meses após a partida de Rugendas, Langsdorff contratava como desenhista da expedição o jovem pintor francês Adrien Aimé Taunay, filho do pintor Nicolas-Antoine Taunay, que viera se estabelecer com a família no Brasil em 1816, integrando a Missão Artística Francesa.

Adrien Taunay já tivera tempo, aos 23 anos, de demonstrar tanto seu talento como seu espírito aventureiro e destemido. De 1818 a 1820 participara como desenhista da expedição de Louis de Frecynet ao Pacífico – Austrália, Timor, Ilhas Carolinas, Marianas, Havaí e arquipélago de Samoa. Perto das Ilhas Falkland o navio dessa expedição, L’Uranie, naufragou, e o jovem escapou por pouco da morte.

O relacionamento entre Taunay e Langsdorff não foi muito fácil também, pelos mesmos motivos que haviam causado o rompimento entre Rugendas e o cônsul. Da parte deste, autoritarismo e talvez exigências demasiadas; da parte do jovem, a mesma impaciência com os percalços que faziam retardar a marcha da expedição, com os longos períodos despendidos em lugares como Cuiabá e na povoação dos índios apiacás. O temperamento de Adrien, com tendência à depressão, era classificado pelo cônsul como “indolente” – o oposto do seu, muito agitado.

Em 1827, quando a expedição já se encontrava em Mato Grosso, Langsdorff resolveu dividi-la em dois grupos. Um deles, que chefiava, se embrenharia na selva por caminhos pouco conhecidos, decidido a descobrir as nascentes do rio Paraguai, enquanto o outro – composto do botânico Riedel e de Taunay – atingiria o Amazonas descendo os rios Guaporé, Madeira e Mamoré. O ponto de encontro dos dois grupos seria o Forte de São José, na barra do rio Negro (hoje Manaus). Dali, todos deveriam entrar por território espanhol até chegar ao rio Orenoco.

No dia 21 de novembro de 1827 o botânico e o pintor deixaram Cuiabá, com destino à região do Diamantino. Em carta dirigida a Riedel, Langsdorff dava-lhe instruções pormenorizadas sobre o roteiro e o procedimento que devia adotar. E escrevia, em relação a Taunay, que este estaria subordinado à autoridade de Riedel, acrescentando: “Tente conseguir que ele seja de boa vontade aplicado, e desse modo possa organizar a vida dele. Talvez consiga isso melhor do que eu, porquanto mais adiante ele terá menos distração do que aqui. Se ele não o ajudar em nada, eu o autorizo a despedi-lo”.

É interessante notar que a “distração” que censurava no jovem Adrien incluía um trabalho notável realizado por este, durante a estada em Cuiabá – como tinha também interesse por música, Adrien conseguira pesquisar e transcrever 84 preciosas peças musicais de ninguém menos do que o famoso mestre padre José Maurício, cujas partituras haviam ido parar em tão remotas plagas. E enquanto censurava essas “outras atividades” a que se entregavam seus subordinados, ele próprio, Langsdorff, era por sua vez criticado acerbamente por aqueles, pelo tempo que perdia.

Nessa carta Langsdorff aconselhava também Riedel a manter-se afastado da Vila Bela de Mato Grosso (hoje Vila Bela da Santíssima Trindade), pela incidência de febres. Aconselhava-o a um longo período de espera em Vila Borba, antes de se encaminhar à barra do rio Negro. Mas, não se sabe por quê, Riedel ignorou o conselho de Langsdorff. E assim, no dia 18 de dezembro de 1827, ele e Taunay chegaram a Vila Bela. No dia 30 de dezembro resolveram fazer uma pequena viagem até Casalvasco, na fronteira da Bolívia, aonde chegaram em 3 de janeiro de 1828. Na volta a Vila Bela, o impetuoso Adrien disparou à frente de Riedel, em meio a uma violenta tempestade que se aproximava. Ao chegar ao rio Guaporé, de águas caudalosas e agitadas, em meio a forte chuva e raios resolveu atravessá-lo a nado, impaciente com o barqueiro que não vinha. Adrien nadava muito bem e confiou demasiado em suas forças. Sob o olhar consternado dos que estavam no local, que não conseguiram fazer nada para socorrê-lo, desapareceu para sempre nas águas – tinha 25 anos.

Escreveu Langsdorff em seu diário: “Essa notícia foi para mim muito dolorosa, mesmo tendo muitas e fundamentadas razões para estar descontente com o comportamento do falecido. Taunay possuía um dom natural variado. Foi um artista verdadeiramente genial, em todo o sentido da palavra. Imaginação aguçada, inclinação para a música, a mecânica, a pintura, além de ter sido infinitamente imprudente e arrojado…Se estava inspirado, em uma hora produzia mais que qualquer outra pessoa em meio dia”.

A objetividade de Florence

Nascido em Nice em 1804 de uma família de médicos militares, Antoine Hercule Romuald Florence veio para o Brasil aos 20 anos, onde abrasileirou seu prenome principal para “Hércules”. Em vista do acontecido com Rugendas, Langsdorff, após ter contratado Taunay, resolveu acrescentar à expedição um segundo desenhista, e colocou um anúncio no jornal para esse fim. Florence apresentou-se e foi logo contratado. Somava às suas aptidões artísticas um espírito prático e inventivo que lhe permitiu desempenhar tarefas de grande apoio para a expedição, nos quatro anos que com ela viajou. Após a morte trágica de Taunay assumiu o papel de desenhista oficial – executou um grande número de desenhos e quadros sobre motivos da flora e da fauna, índios e outras populações da região percorrida, e ainda paisagens. Catalogou também a extensa obra deixada por Taunay e Rugendas.

Além disso, deve-se a Florence o registro minucioso, através de seu diário de campo (1825-1829), de todos os trabalhos e peripécias da expedição. Deixou cerca de 2 mil páginas escritas, uma parte das quais ainda inédita, em manuscrito conservado pela sua trineta Teresa Cristina Florence, moradora em Campinas (SP). Esses textos incluem também o livro L’Ami des Arts livré à lui-même, amplamente ilustrado, em que relaciona as suas numerosas invenções e registra episódios da vida cotidiana na sua fazenda. Outros trabalhos seus, principalmente desenhos e quadros, encontram-se na coleção de sua bisneta Leila Florence Moraes, no Rio Grande do Sul.

Após o término da expedição, Florence resolveu estabelecer-se definitivamente na então Vila de São Carlos, hoje Campinas(SP), casou-se duas vezes e teve 16 filhos. Tornou-se agricultor e fazendeiro e dedicou-se, além da pintura e da poesia, a suas invenções, tendo passado à história como um pioneiro da descoberta da fotografia e da poligrafia (método semelhante à mimeografia atual). A invenção desse sistema de impressão possibilitou o aparecimento do primeiro jornal na região, A Aurora Campineira. Foi pioneiro também ao escrever um tratado de zoofonia (as vozes dos animais).

Faleceu em Campinas em 1879, aos 75 anos, considerado um cidadão insigne.

Referência:

Matéria de capa de Problemas Brasileiros, nº 342, novembro/dezembro de 2000.

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