A descoberta do Brasil segundo Langsdorff – Final

THE DISCOVERY OF BRAZIL ACCORDING TO LANGSDORFF – FINAL

Cecília Prada – jornalista e dramaturga, (prêmio Esso de Jornalismo / Reportagem, em 1980).

Continuação da edição anterior

Cidadão do mundo

O barão Georg Heinrich von Langsdorff, nascido no principado de Mainz, Alemanha, em 1774, pertencia a uma família ilustre, com origem no século XIII. Seu pai era vice-chanceler do grão-ducado de Baden. Formado em medicina pela Universidade de Göttingen, o jovem Langsdorff estabeleceu-se de 1797 a 1802 em Lisboa. Exercendo a profissão e trabalhando também com entomologia e ictiologia, aprendeu ali o português com perfeição e mudou seu nome para Jorge Henrique de Langsdorff.

A partir de 1803, como dominava também perfeitamente o idioma russo, começou a participar, sob o nome de Grigory Ivanovitch Langsdorff, de viagens e excursões científicas ao redor do mundo, organizadas pelo governo imperial da Rússia. Aos 29 anos já era sócio correspondente da Academia de Ciências de São Petersburgo. Participou, como naturalista, da primeira viagem de circum-navegação realizada pelos navios russos Nadezhda e Neva. Em dezembro de 1803 essa excursão ancorava no Brasil, na ilha de Santa Catarina, onde Langsdorff teria seu primeiro contato com o país que tanto interesse despertava nele e que amaria apaixonadamente. Esse local foi escolhido para uma estada de seis semanas, por estar distante do olho desconfiado da administração portuguesa. Até o início do século XIX, Portugal praticava uma política de fechamento à exploração, pois não interessava colocar à disposição de outros países informações sobre os recursos naturais e mineralógicos – principalmente o ouro – do Brasil. Cumpre lembrar que, no século XVIII, de todo o ouro extraído no mundo, 85% provinha do Brasil.

Fascinado por se encontrar diante de “algum mundo novo”, Langsdorff realizou, nessas poucas semanas, várias excursões pelo território, coletou amostras no campo da ictiologia, da herpetologia e da entomologia, e conseguiu organizar um herbário de mil espécies. Como era do seu feitio, em cada região visitada estabelecia um contato real com os habitantes, estudava seus problemas, anotava tudo o que despertava seu interesse e quando preciso cuidava, como médico, da população local. Sempre foi, segundo seu primeiro biógrafo, Manizer, “homem de admirável honestidade e interesse, que respondia atento às necessidades da sociedade em que vivia e trabalhava”. Em Nossa Senhora do Desterro (hoje Florianópolis) ficou muitíssimo impressionado e revoltado com o mercado de escravos que ali se desenvolvia.

De 1804 a 1807 Langsdorff viajou pelo resto do mundo, conhecendo as ilhas Marquesas, o Japão, o Alasca e a Califórnia. Foi também pioneiro em percorrer de trenó as regiões mais afastadas da Sibéria – na península de Kamtchatka horrorizou-se com as condições da população local e fez chegar às mãos das autoridades russas um relatório e um plano de reforma administrativa da região. De 1804 a 1812 publicou uma série de trabalhos científicos e o livro Notas sobre uma Viagem ao redor do Mundo, de 1803 a 1807, em dois volumes, primeiro em alemão e depois em inglês. Essa obra tornou-o famoso na Europa.

Estabelecido em São Petersburgo em 1809 como membro da Academia de Ciências, começou a organizar sua futura viagem ao Brasil. Em 1813 desembarcava no Rio de Janeiro, na qualidade de primeiro cônsul-geral da Rússia. Nos anos seguintes conseguiu desempenhar simultaneamente, com grande eficiência e empenho, as funções de diplomata russo, cientista europeu e fazendeiro brasileiro. Adquiriu em 1816 a Fazenda da Mandioca, nas proximidades de Porto Estrela (hoje município de Magé, RJ) e fez dela tanto um centro de produção agrícola como um núcleo cultural e científico, graças à organização de um jardim botânico, um museu de história natural e uma biblioteca.

A Mandioca hospedou grande número de cientistas e viajantes ilustres de passagem. Sua fama tornou-se internacional – os cientistas maravilhavam-se com as coleções nela existentes, e o botânico Giuseppe Raddi, ao descobrir uma nova espécie de planta, denominou-a mandiocana. Uma revista noticiou, em Moscou, a formação de “um núcleo de população original chamado Mandioca, fundado no Brasil pelo cônsul-geral da Rússia”. A fazenda chegou a ser visitada pelos próprios imperadores do Brasil, Dom Pedro I e Dona Leopoldina.

Foram numerosas as viagens isoladas que Langsdorff empreendeu de 1813 a 1822 pelo interior do Brasil, aproveitando sempre para coletar materiais e reunir informações de várias espécies sobre a natureza e a população do país. Desde março de 1814 começou a enviar regularmente para São Petersburgo coleções entomológicas e ornitológicas. Manteve durante esse tempo intercâmbio científico com todos os viajantes que passavam pelo país. Muitas vezes subvencionou pesquisas com recursos próprios. Durante umas férias, em 1816, realizou com o botânico francês Auguste de Saint-Hilaire uma viagem a Minas Gerais, para estudar a exploração de minérios. Saint-Hilaire surpreendia-se com a energia física e moral daquele alemão alto e magro, que já contava 42 anos, mas cujo ritmo vigoroso o botânico, embora mais moço, mal conseguia acompanhar.

Era de temperamento forte, e extremamente exigente, como chefe. Trabalhava sem descanso, indiferente a todas as dificuldades, e esperava isso das demais pessoas.

Um grande sonho

De todas as expedições científicas ao Novo Mundo nenhuma foi tão cuidadosamente preparada como a empreendida por Langsdorff. Em junho de 1821, quando estava em férias em São Petersburgo, ele apresentou a Karl Nesselrode, vice-chanceler do Império, o plano de uma grande expedição  pelo interior do Brasil, que teria como objetivos “descobertas científicas, pesquisas geográficas, estatísticas e outras, estudo dos produtos pouco conhecidos no comércio, material sobre todos os reinos da natureza que eu possa coletar e que possam concorrer para o enriquecimento das atuais coleções do Império”. Dois dias depois era recebido pelo czar Alexandre I, que garantiu seu patrocínio pessoal à iniciativa, com plena liberdade de roteiro e prazo não definido.

Langsdorff demorou-se na Europa, escolhendo especialistas em vários ramos da ciência e comprando equipamentos. Voltou ao Brasil em navio fretado, trazendo sua família, o zoólogo Ménétriès, o artista Johann Moritz Rugendas, e também cerca de duas dezenas de famílias de colonos alemães, destinadas à Fazenda da Mandioca. Mais tarde, já no Brasil, outros especialistas se juntariam à expedição – como o astrônomo Rubtsov, o botânico Ludwig Riedel e o jovem naturalista Christian Hasse, além dos artistas Taunay e Florence.

A 5 de março de 1822 aportavam no Rio de Janeiro, mas as circunstâncias de instabilidade política do país, o acúmulo de funções desempenhadas no setor diplomático, a escassez verificada das verbas, foram fatores que retardaram durante dois anos a expedição. José Bonifácio de Andrada e Silva, que, além de político era cientista, teve grande interesse por ela, e a apoiou.

A primeira etapa da expedição – viagem a Minas Gerais – realizou-se em 1824, levou cerca de um ano e percorreu mil quilômetros, recolhendo precioso material de interesse científico e fazendo um levantamento cartográfico, econômico e etnográfico das regiões atravessadas. Além disso, tanto Langsdorff como Riedel retardaram muitas vezes o percurso da expedição porque freqüentemente eram solicitados, e até mesmo “assediados” a prestar serviços médicos às populações doentes.

Em agosto de 1825 a expedição partiu do Rio de Janeiro para Santos. Percorreu várias partes da província de São Paulo durante o restante daquele ano e somente partiu de Porto Feliz (pelo rio Tietê) para Mato Grosso em 22 de junho de 1826, seguindo depois sua penetração pela região amazônica. Após os grandes revezes que se abateram sobre ela, os membros remanescentes embarcaram em Santarém, no dia 24 de janeiro de 1829, em um brigue fretado, “Dom Pedro I”, levando consigo para o Rio de Janeiro o seu chefe, Langsdorff, irremediavelmente atingido em suas faculdades mentais. Embarcado com a família para a Europa em 1830, o barão de Langsdorff morreria em Freiburg, Alemanha, 22 anos mais tarde – em 1852, sem ter recuperado a razão.

E, no entanto, Langsdorff amava tanto o Brasil que planejava viver aqui até o fim de seus dias. Dizia em 1827, em uma carta: “No Rio de Janeiro eu gostaria de encontrar, nos anos que me restam, uma ocupação permanente para deixar esta vida de cigano e viver e morrer em paz”.

Além de um filho natural, Karl Georg, nascido em 1809 na Alemanha, o barão teve duas filhas, nascidas no Brasil, de um seu primeiro casamento com Friderike Schubert, e seis filhos de seu casamento com Wilhelmine, quatro dos quais nascidos no Brasil. São numerosos seus descendentes atuais, em quinta geração, na Alemanha, na França e no Brasil – seu filho Heinrich Ernst (nascido em 1823) fixou residência aqui, depois da volta da família para a Alemanha. As atrizes Luma e Isis de Oliveira descendem desse ramo da família Langsdorff.

 A SELVA TRÁGICA

Redigidos em alemão gótico, os manuscritos dos diários de Langsdorff somente foram encontrados na década de 1930, em Leningrado, e permaneceram inéditos até 1998. Contêm descrições pormenorizadas das riquezas naturais, das belíssimas paisagens, da vida dos povos indígenas, mas registram também a grande miséria do país, as doenças, os perigos da selva. Um pressentimento de tragédia parece envolvê-lo, desde seu início, como se pode ver nos trechos abaixo.

“Começamos hoje um caminho novo, ainda não trilhado por ninguém. Temos diante dos olhos um véu escuro. Deixamos o mundo civilizado para viver entre índios, onças, tapires e macacos” (22/6/1826, dia da partida de Porto Feliz para Cuiabá).

“Vivíamos em uma nuvem de mosquitos e éramos mártires da paixão pelas viagens… Somente quem for capaz de imaginar o que significa alguém conseguir escrever, desenhar, preparar peles e empalhar, coberto por uma nuvem escura de insetos que picam e esvoaçam em torno, é que poderá avaliar o preço deste material aqui coletado.”

“As águas do Paraguai, que corriam vagarosamente, estavam cobertas de folhas podres, raízes, peixes mortos, jacarés, barro vermelho e uma espuma amarela. Tinham uma aparência abominável e eram impróprias para beber” (3/12/1826, no Pantanal).

“Dentro de alguns dias, se possível, chegarei ao pouco conhecido território diamantífero. Determinarei as nascentes do rio Paraguai. Terei de atravessar uma região elevada e descer os rios Preto, Arinos e Tapajós, para chegar à Fortaleza de Santarém, no Amazonas… Nenhum perigo ou dificuldade conseguirão intimidar a mim e a meus homens” (25/4/1827, em carta a Nesselrode).

“Hoje, desde a manhã, estive ocupado com diversos assuntos. Alguns peixes novos…Coloquei algumas plantas para secar. Tive uma lição de língua apiacá e senti-me bem até lá pelas duas horas da tarde, quando fui acometido por novo acesso de febre fria que se prolongou até a noite… As causas desta febre são permanentes: emanação e infiltração de substâncias putrefatas que provêm de qualquer ponto das margens dos rios. Como poderão os remédios produzir efeitos?” (9/4/1828).

“Dois dias infelizes. Não pensei que passasse do dia de ontem… Hoje, porém, consigo novamente controlar meu corpo, mas não meu espírito” (20/4/1828).

“Com a ajuda e assistência de Deus, estou vivo e posso escrever… Desde 24 de abril passo a maior parte do dia e da noite inconsciente e entregue aos mais fantásticos sonhos” (13/5/1828).

“Nossas provisões minguam a olhos vistos. Precisamos apressar nossa marcha. Temos ainda de atravessar muitos lugares perigosos do rio. Se Deus quiser, hoje continuaremos nossa viagem. As provisões diminuem mas ainda temos pólvora e chumbo” (20/5/1828).

(Essas foram as últimas palavras escritas por Langsdorff. Um novo acesso de febre apagaria para sempre seu grande espírito.).

Referência:

Matéria de capa de Problemas Brasileiros, nº 342, novembro/dezembro de 2000.

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