O imigrante e a empresa familiar: estudos de casos

The immigrant and the family business: studium cases

Fernando Antonio Abrahão – historiador, pesquisador. Titular da Cadeira 11 e presidente do IHGG Campinas.

A empresa como organização social é um observatório privilegiado para quem estuda as relações entre capital e trabalho, desenvolvimento da gestão administrativa e formação de carreiras empresariais. Segundo a literatura acadêmica, a disciplina conhecida como História de Empresas ou História Empresarial – Business History – surgiu no início do século passado. O interesse inicial veio da demanda por padrões de gestão e controle dos negócios do capitalismo moderno. Pouco depois, o contexto político-econômico após a 2a Guerra Mundial promoveu a superação conceitual da escola original para o estudo de grandes corporações, com destaque para as empresas multinacionais ou transnacionais. Finalmente, a Business History evoluiu para a história social dos empresários, declinando da síntese das grandes corporações para enfocar proprietários e dirigentes em agendas que integram perfis e trajetórias de mobilidade social, padrões educativos e culturais e as relações destes com a sociedade e o meio-ambiente.

A participação de empresas e empresários nos estudos de desenvolvimento econômico no Brasil evidenciou-se desde os anos de 1970, especialmente com o empenho e os trabalhos do economista Tamás Szmrecsányi. Também na UNICAMP, um grupo de pesquisadores do Centro de Memória (CMU)* desenvolveu projetos com empresas familiares. Os resultados apontam para a necessidade de discutir-se algumas características dos negócios fundados por imigrantes e seus descendentes: a) o trabalho familiar como forma de reunião de capital de partida para constituir a empresa; b) as estratégias de crescimento; e c) a sucessão ou “passar o bastão”. Este artigo discute tais questões com base nas características de duas empresas pioneiras em seus setores econômicos e sediadas na região de Campinas: os Restaurantes Frango Assado e a EMS Indústrias Farmacêuticas.

As motivações que levam ao surgimento de empresas familiares

Os especialistas estimam que empresas familiares representem o significativo número de 85% das atividades econômicas no mundo todo. Além de antiga, essa forma de propriedade e produtividade revela ainda a importância que o homem dá ao trabalho e à família, na medida em que as iniciativas bem-sucedidas trazem sustento e bem-estar. Segundo Gersick et al (1998), a motivação que propicia o surgimento de empresas familiares está no desejo de se encontrar uma oportunidade, explorá-la e tornar-se proprietário-dirigente. (p. 142-43) Os casos a seguir ilustram essa hipótese.

A Rede Frango Assado de Restaurantes teve origem em uma barraca de frutas instalada no início dos anos de 1950 na rodovia Anhanguera. Seus fundadores eram filhos de imigrantes italianos, antigos colonos das fazendas de café de Valinhos (SP), então distrito de Campinas, no final do século XIX. Com o declínio da produção cafeeira local, essa região destacou-se pela diversificação da produção agrícola, com plantio de frutas: uva, maçã, goiaba e figo roxo. A transformação fundiária das grandes propriedades para as pequenas e médias possibilitou a aquisição destas por famílias de trabalhadores, especialmente os italianos e seus descendentes. Uma dessas propriedades, sediada em Valinhos, foi adquirida por José Mamprin e Rosa Giardelli, em 1926.

Anos depois, José e Rosa adquiriram um novo sítio de 17 alqueires no bairro da Capela, no distrito de Rocinha, antigo nome de Vinhedo (SP), naquela época pertencente ao município de Jundiaí (SP). A administração da primeira propriedade (em Valinhos) foi partilhada com o primogênito Guilherme, que também atuava na intermediação do comércio e transporte da produção agrícola local. A administração da nova propriedade coube à filha Luiza e seu marido Francisco. Arnaldo, o terceiro, transitava entre as duas propriedades e Constantina, a caçula, dirigia com o marido Antônio um bar na estação de trens de Louveira (SP), ao Sul de Rocinha.

A rodovia estadual Anhanguera funcionava desde 1940, partindo da Capital em direção ao interior do estado. Em 1948 inaugurou-se o trecho asfaltado ligando Jundiaí a Limeira. Anos depois, com a notícia da duplicação do trecho de São Paulo a Jundiaí, José e Guilherme Mamprin decidiram explorar um ponto de parada para o comércio de frutas e alimentos. Guilherme solicitou e recebeu uma concessão do Departamento de Estradas de Rodagem (DER). Em 1952 estava inaugurado o Rancho São Cristóvão, localizado no quilômetro 73 da via Anhanguera, sentido interior-capital, em Louveira, distante cerca de 30 quilômetros de Campinas.

O comércio de frutas, alimentos preparados (sanduíches de carne, linguiça, salgadinhos, torresmos) e bebidas transformou-se quando os clientes exigiram refeições completas no horário de almoço. O prato que se destacou do cardápio caseiro, caipira e italiano de Rosa Mamprin foi o “Frango assado com farofa”. O sucesso do produto fez os viajantes identificarem a parada como “o Rancho do Frango Assado”.

Este é um exemplo da motivação que impacta o surgimento de empresas: o desejo de encontrar e explorar uma oportunidade econômica. A chance materializou-se quando José e Guilherme decidiram vender parte da produção agrícola de frutas da família na parada rodoviária recém-inaugurada, juntamente com alimentos preparados por Rosa e suas ajudantes.

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O primeiro Rancho. Louveira, [1953]. Repare a placa Frango Assado sobrepondo o nome São Cristóvão, ao fundo.

A hipótese de Gersick et al (1998) se completa com o desejo do empreendedor estudar, aprender e tornar-se proprietário e dirigente. Esse atributo pode ser visto, também, na origem das Indústrias Farmacêuticas EMS, empresa fundada em 1963 por Emiliano Sanchez e sua esposa Ana Defillo. Emiliano era natural de Dobrada (SP) e neto de imigrantes italianos por parte de mãe e filho de espanhóis por parte do pai, que trabalharam nas lavouras de café da região de Araraquara (SP). Emiliano não desejava a roça e empregou-se na farmácia da cidade, como ajudante geral e entregador.

O trabalho lhe rendeu bem mais do que o pequeno salário. A forma como o farmacêutico tratava e aconselhava os clientes e a contrapartida respeitosa da população despertou-lhe a vocação. Em 1946, com 17 anos, Emiliano mudou para São Paulo, concluiu o curso de oficial de farmácia e empregou-se em Santo André (SP), cidade que acompanhava a Capital no franco crescimento industrial daquela época. Naquele momento Emiliano inseriu-se em um movimento social amplo, relacionado com a incorporação de mão de obra por um sistema econômico em desenvolvimento. Viver e trabalhar no grande centro urbano era a ambição que levava à melhoria da condição econômica, dificilmente alcançada na localidade natal, onde o emprego rareava e os salários eram baixos.

Emiliano casou com Ana Defillo e em 1950, com apoio financeiro do sogro Angelo, também descendente de italianos, instalaram a Farmácia Santa Catarina, em Santo André. Na época era comum as farmácias fazerem uso de uma sala específica para a manipulação de fórmulas dos receituários médicos trazidos pelos clientes. E foi na bancada dessa farmácia que ele produziu seus primeiros medicamentos de uso popular.

O movimento determinou a contratação de funcionários e a opção apontou para os familiares e amigos que moravam no interior do estado. Nesta fase inicial, o apoio da esposa, do sogro e o trabalho dos irmãos e primos possibilitaram a acumulação de capital, que depois foi investido no prédio próprio de sua farmácia, inaugurada em 1955.

O cotidiano de poucos médicos, hospitais e postos de saúde transformavam os bons farmacêuticos em referências confiáveis de cura para a população carente. Porém, em 21/1/1961, por meio do Decreto Nº 49974-A, o qual o governo federal instituiu o Código Nacional de Saúde, incumbindo o Ministério da Saúde de adotar medidas para a defesa e a proteção da saúde pública. A legislação pôs fim àquela relação de confiança, mas favoreceu o surgimento de indústrias de medicamentos de capital nacional. A desaceleração passageira do poder econômico setorial exercido até então pelas empresas multinacionais de medicamentos, estimulou Emiliano Sanchez a fundar sua pequena indústria. Assim, a 31/10/1963 firmou-se o contrato social da Produtos Químicos e Farmacêuticos EMS Ltda.

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Emiliano Sanchez no balcão da Farmácia Santa Catarina, atendendo a uma família. Santo André, SP. [1956].

A fase de amadurecimento das empresas familiares

Para assumir a condição de proprietário e dirigente, o empreendedor se vale de ideias, sugestões e do trabalho de familiares e amigos. Decerto, os negócios começam como parte de um processo que inclui muitos esforços, alguns sucessos e fracassos, a partir dos quais o empreendedor aprende aquilo do que precisa saber.

No primeiro caso, José Mamprin e sua esposa Rosa contaram com o bom relacionamento político do filho Guilherme para obterem a concessão de um ponto de vendas junto ao DER e darem início ao comércio de frutas e alimentos na rodovia, em 1952. Presume-se que a já citada experiência da filha Constantina no bar da estação de trens de Louveira os tenham auxiliado. Também se tornou comum, ainda, o trabalho dos netos ainda adolescentes.

Fator importante para o sucesso foi duplicação da via Anhanguera. Em 1956 a família inaugurou o prédio do Restaurante Frango Assado, em propriedade com frente para a estrada. A empresa despertou uma nova consciência familiar, pois sua evolução dependia do capital para benfeitorias do entorno e do próprio restaurante. Nesse momento, a empresa deixou de ser um negócio agregado para tornar-se a principal fonte de renda e lucro.

Em 1957, o plano de metas do presidente Juscelino Kubitscheck favoreceu os estabelecimentos comerciais e de serviços nas rodovias, vejamos: grande parte do material utilizado na construção de Brasília (DF) utilizava a via Anhanguera e o movimento avultou significativamente; some-se também o crescimento considerável da frota nacional de veículos automotores.

Vamos para o segundo caso. Vimos que Emiliano Sanches promovera a passagem da manipulação artesanal na Farmácia Santa Catarina para a produção industrial de expectorantes, analgésicos, fortificantes e complementos vitamínicos. Este catálogo popular sem necessidade de receituário médico para o comércio alavancou a pequena empresa. Nela, os cargos técnicos eram desempenhados por especialistas, mas as funções administrativas, de vendas e controles diversos por familiares, sobre quem Emiliano impunha rígida hierarquia.

A demanda aumentou, a sede tornou-se acanhada e foi transferida para um prédio maior em São Bernardo do Campo, também no ABC paulista. Além de supervisionar a reforma das novas dependências e de participar ativamente da compra de maquinário para a ampliação das linhas de produtos, Emiliano expandiu seu contingente de trabalhadores vindos da cidade de Fernando Prestes (SP), também na região de Araraquara, onde vivia a maior parte de seus familiares. Assim como ele fizera aos 17 anos, esses homens e mulheres encontram na empresa familiar o elo necessário para empregarem-se e vencerem na grande cidade.

Os investimentos na contratação de pesquisadores conformam uma característica que resultou no desenvolvimento técnico e na qualidade dos produtos.

Outro atributo próprio remete à estratégia de concorrência comercial com as indústrias poderosas: a distribuição exclusiva. Emiliano ofereceu participações societárias a familiares e amigos próximos na constituição de distribuidoras regionais de produtos. A essa manobra comercial somou-se o marketing predador – que beneficia os balconistas das farmácias – na consolidação da marca EMS no mercado de medicamentos.

* O grupo de pesquisadores: o autor, Ema Elisabete Rodrigues Camillo, Eliana Regina Camargo Corrêa e graduandos do curso de História da Universidade.

Continua na próxima edição.

Referências:

ABRAHÃO, Fernando A. Tradição de família: a história da Rede Frango Assado. São Paulo: Prêmio Editorial, 2004.
COLEMAN, Donald. “History, economic history and the numbers game”. In: The Historical Journal, v. 38, no 3. Sep. 1995, p. 635-46. Cambridge University Press.
GERSICK, Kelin, DAVIS, John, HAMPTON, Marion McCollom e LANSBERG, Ivan. De Geração para geração: ciclos de vida das empresas familiares. São Paulo: Negócio Editora, 1998.
GRAS, Norman. S. B. “Questions and Answers in Business History”. In: Bulletin of the Business Historical Society, V. 20, 1, Feb. 1946, p. 25-27.
NEGRI, Barjas. Política nacional de assistência farmacêutica: 1990 a 2002. Brasília: Editora do Ministério da Saúde, 2002.

Imagem de destaque: Tumisu por Pixabay

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