História das atividades carnavalescas em Campinas

Américo Baptista Vilela – professor da ETEc Bento Quirino, curador do Centro de Memórias “Orleide Alves Ferreira” e historiador do Museu da Cidade.

Resumo: O presente artigo trata de uma breve reconstituição do percurso histórico das festividades carnavalescas em Campinas, especialmente a origem do carnaval na tradição do entrudo como manifestação da cultura europeia que, aqui, assumiu características específicas em decorrência da nossa composição étnica e social.

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Para o renomado pintor, desenhista e professor de belas artes francês Jean Baptiste Debret, que integrou a Missão Artística Francesa em 1816 e permaneceu no Brasil até 1831:

O carnaval no Rio e em todas as províncias do Brasil não lembra, em geral, nem os bailes nem os cordões barulhentos de mascarados que, na Europa, comparecem a pé ou de carro nas ruas mais frequentadas, nem as corridas de cavalos xucros, tão comuns na Itália. Os únicos preparativos do carnaval brasileiro consistem na fabricação dos limões-de-cheiro, atividade que ocupa toda a família do pequeno capitalista, da viúva pobre, da negra livre que se reúne a duas ou três amigas, e finalmente das negras das casas ricas, e todas, com dois meses de antecedência e à força de economias, procuram constituir sua provisão de cera. O limão-de-cheiro, único objeto dos divertimentos do carnaval, é um simulacro de laranja, frágil invólucro de cera de um quarto de linha [meio milímetro] de espessura e cuja transparência permite ver-se o volume de água que contém. A cor varia do branco ao vermelho e do amarelo ao verde; o tamanho é o de uma laranja comum; vende-se por um vintém, e os menores a dez réis. (DEBRET, Prancha 33, 103).

O pintor se refere à tradição da prática do Entrudo que, segundo a historiadora Patrícia Lopes de Araújo, pode ser definido assim:

No Dicionário da Língua Portuguesa, publicado por Antônio de Moraes Silva em 1813, encontra-se algo notável a esse respeito e esclarece o que se brincava era o entrudo. No verbete Carnaval lê-se: ‘O tempo do entrudo, das festas, regozijos que então se fazem.’ (p. 348). E o que é Entrudo? ‘São os três dias imediatamente precedentes à quaresma, nos quais é divertir-se o povo com molhar-se, empoar, fazer peças e outras brincadeiras e banquetear-se.’ (p.718). (ARAÚJO, 2011, p. 42).

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A este respeito nos informa o antigo historiador Leopoldo Amaral, em Campinas recordações, sobre os carnavais da cidade no século XIX: O entrudo, então reinava descabeladamente, com o seu cortejo de laranjinhas de cêra (limões de cheiro, como lhes chamavam) de seringas de folhas de Flandres, bacias, barris, baldes, bombas de jardins e, por último, do banho. Senhoras sahiam as ruas, onde se travava renhidos combates, em que elas figuravam valente e vantajosamente. (1927, p. 248). Anteriormente, o mesmo autor destaca uma outra face dessa festa: Tratemos, porém das festas carnavalescas dessas priscas éras. Organizava-se uma diretoria Executiva dos folguedos, que recebia os nomes das pessoas que deviam tomar parte do Congresso, as quaes recebiam cartões com o número correspondente á inscripção, pagando cada uma cinco mil réis, com direito à passeata e aos bailes do Teatro S. Carlos. Moço que se prezasse e que se julgasse elegante, não deixaria de se inscrever. A mocidade, em peso, se fantasiava. Somente seriam admitidos no prestito os representantes do sexo forte. Mulher á fantasia, em pleno público, á luz meridiana não era coisa que se permitisse. (1927, p. 243). O autor ainda prossegue descrevendo os eventos, tais como o desfile nos quais os homens se fantasiavam de Beduíno e desfilavam pelas ruas da Ponte (atual Major Sólon, do Comércio (Dr. Quirino), do Pórtico (Ferreira Penteado), Direita (Barão de Jaguara), da Matriz Velha (Barreto Leme), do Rosário (Francisco Glicério), Campinas Velha (Moraes Sales), Regente Feijó até a da Matriz Velha, onde adentravam a Rua de Baixo (Lusitana), Pórtico, Direita, Largo do Rosário (Visconde de Indaiatuba) Bom Jesus (Campos Sales, Deserta (Alvares Machado), Constituição (Costa Aguiar, até o largo do Teatro (Ruy Barbosa).

Assim podemos concluir a existência de dois carnavais na área urbana da Campinas do século XIX, sem deixar de considerar as festividades nas fazendas, que são mencionadas pelo mesmo autor as quais deveriam ser realizadas por uma população africana ou afrodescendente escravizada, com seus batuques e ritmos musicais. Voltando a área urbana, podemos perceber uma festividade na qual era cobrado uma taxa para os homens que quisessem participar o que excluía os escravizados e também excluía as mulheres pois, pela moral da época, a exposição da mulher das camadas economicamente dominantes não era permitido. Na outra das atividades carnavalescas mencionada por Amaral, mais popular e espontânea, as famosas guerras de limão de cheiro,  não havia a exclusão feminina e a parcela mais pobre da população, além de se integrar às brincadeiras, poderia arrecadar algum recurso produzindo e vendendo os limões de cheiro.

Já para os autores da pesquisa, Pra tudo se acabar em Carnaval: A história da folia de Rua em Campinas, Luís Ricardo de Souza e Talita Galucci Sotero, o carnaval: era a reunião de rapazes brancos que saíam pelas ruas e tinham o costume de atirar bolinhas de água. O Carnaval era limitado no reduto das grandes famílias ricas, e as classes baixas aproveitavam a época para ganhar renda extra confeccionando bolinhas.” (…) No entanto, no começo do século XX, essa situação começou a mudar após uma campanha organizada pela elite, com apoio da imprensa, para acabar com o Carnaval e uma proibição das festas nas ruas do município. Havia uma campanha de acabar com o Carnaval nas ruas, chamado de Entrudo, e denominar como sendo Carnaval de verdade o modelo importado da Europa, o estilo veneziano. Bailes cheios de luxo e glamour, feitos no teatro da cidade, por exemplo. Inclusive, em 1907, o secretário de Segurança proíbe as festas nas ruas.

Para Mariana de Oliveira Cândido: Em 1912 as movimentações do carnaval haviam-se tornado ainda mais intensas. Nos salões das sociedades, no Cassino e no Rink, e até mesmo nos cafés havia reuniões festivas. As ruas, porém, eram o principal cenário dos divertimentos: As ruas centrais inundavam-se de uma chuva de luz polycroma, jorradas por centenares de lâmpadas elétricas. Bandas de música alegravam festivas o ambiente, enquanto a multidão invadia o centro; de minuto a minuto a onda popular crescia. (DIÁRIO DO POVO, fevereiro de 1912).

Os grandes carnavais de rua eram animados, portanto, pelas corporações musicais. (CANDIDO, 2016, p.123).

A este respeito é preciso considerar que talvez tenha ocorrido uma redução por parte das classes econômica e politicamente dominantes nas festividades, tendo em vista que a nova realidade da proclamação da república pretendia criar um ar de modernidade e progresso que afastava essas classes da festas populares, porém não podemos deixar de apontar a criação da Sociedade Recreativa de Desportos e Football Banda do Boi, em 1905, que embalou os carnavais de Campinas até 1938 quando se dissolveu. Além desse, outros blocos fizeram a festa dos carnavais campineiros, como o Azul e Branco, Leão da Várzea, Marujos, Camisa Verde e dos Farrapos que desfilavam pela Rua Barão de Jaguara e que em sua maioria se articulavam a partir dos bairros operários que surgiam em uma cidade que se urbanizava.

Ainda para os autores de Pra tudo se acabar em Carnaval: A história da folia de Rua em Campinas: Os blocos de rua, como, por exemplo, o conhecido ‘Nem Sangue Nem Areia’, iniciado em 1941 (a data correta seria 1946), na década de 50 e 60 chegava a percorrer 20 quilômetros na cidade (da Vila industrial, passando pelo Centro, chegando no Bonfim). E ainda haviam os carnavais de clube. Basicamente, o auge dos carnavais de blocos foi entre a década de 40 até 60. As escolas de samba começaram a aparecer também em Campinas na década de 1950, escolas de samba que seguiam o modelo carioca de desfiles já a partir da década de 50. Quando o então coronel Rodopho Petená recebe a função de organizar os desfiles das escolas de samba na década de 50, já haviam escolas de samba que seguiam um modelo ao estilo Rio, mas sem as verbas públicas. Muitos carnavalescos iam até o Rio para buscar influências dos carnavais de desfiles. Nesse período também ocorrerá a transferência dos desfiles para a Avenida Francisco Glicério, totalmente alargada após a demolição da Igreja do Rosário em 1956. Na década de 60, mesmo sem oferecer verbas para o Carnaval (vetado desde 64 após o Golpe Militar), os prefeitos apoiavam o modelo, pois era uma maneira mais fácil de controlar a multidão do que carnavais de blocos, afirma Talita. Nesse mesmo período, nos anos 1950 e 60, ocorrerá também a criação dos bailes de carnavais em clubes com os chamados desfiles de gala em oposição às atividades carnavalescas nas ruas da cidade, sendo a primeira frequentada pelas classes com maior poder aquisitivo e as segundas pelas classes trabalhadoras que não tinham acesso aos clubes da elite.

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Fantasia de Carnaval de autoria de Carlito Maia, intitulada: La via en rose. Acervo do Museu da Cidade. S.d.

Para o jornalista Luís Ricardo Vieira, com o modelo carioca de Carnaval, adotado em Campinas, as escolas de samba e os blocos não conseguiram evoluir e seguir o mesmo padrão. “A cidade não deu infraestrutura. Não existem quadras de escolas de samba, espaço para produção de fantasias e alegorias e nem interesse, por parte do poder público, de viabilizar manifestações populares na rua, devido aos custos”, explica. Diante desse novo cenário, para Vieira, a saída para as escolas de samba é se reinventar. “As escolas de samba, em Campinas, precisam se reestruturar internamente. A cidade já foi referência de desfiles para o país. É preciso despertar o interesse no setor do turismo e lazer. Já os blocos, são mais livres do “regulamento” de desfile com fantasias e alegorias”, destaca. Para Talita, o Carnaval é uma festa do povo, uma manifestação espontânea, que não pode ser barrada por questões políticas ou econômicas. Ela também acredita que a tendência é cada vez mais termos uma comemoração com blocos e menos escolas, mas os festejos não devem cessar. “O Carnaval nunca vai acabar, ele vai se transformando. Essa festa é nossa marca, nossa identidade”, finaliza.

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Corso de Carnaval – Classes Economicamente dominantes desfilavam em seus veículos.

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Referências:

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AMARAL, Leopoldo. “Carnavais de Outrora”. Campinas recordações. São Paulo: Secção de Obras de São Paulo, 1927, 529 páginas.

ARAUJO, Patrícia Vargas Lopes de. “Os festejos de entrudo no Século XIX”. Textos escolhidos de cultura e arte populares. Rio de Janeiro, v.8, n2, p41-45, nov.2011. Disponível em https://www.e-publicacoes.uerj.br/index.php/tecap/article/download/10331/8118 acesso em 09 de fevereiro de 2021.

DEBRET, Jean-Baptiste. Voyage pittoresque et historique au Brésil. Tome II. 1839. Disponível em https://digital.bbm.usp.br/handle/bbm/3802″>https://digital.bbm.usp.br/handle/bbm/3802 acesso em 09 de fevereiro de 2021.

CANDIDO, Mariana de Oliveira. Vida musical em campinas na passagem dos séculos: rupturas, permanências e novos caminhos (1889-1922). [Dissertação de mestrado].Campinas: Instituto de Artes da UNICAMP, 2016. Disponível em: http://repositorio.unicamp.br/jspui/bitstream/REPOSIP/321102/1/Candido_MarianadeOliveira_M.pdf”>http://repositorio.unicamp.br/jspui/bitstream/REPOSIP/321102/1/Candido_MarianadeOliveira_M.pdf acesso e, 09 de fevereiro de 2021.

Um comentário

  1. Em poucas linhas o autor nos presenteia com a possibilidade de reconstituir cenas carnavalescas campineiros, sua inventividade, racejos, limitações através de citações memoráveis. Parabens!

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