História Oral: uma metodologia de pesquisa onde o homem é o narrador do seu próprio passado.

Olga Rodrigues de Moraes von Simson – socióloga, professora na Faculdade de Educação da Unicamp. Titular da Cadeira 40 do IHGG Campinas.

Conversando com o meu colega da Faculdade de Educação e confrade na Academia Campinense de Letras e no nosso estimado Instituto Histórico, Geográfico e Genealógico de Campinas, Sérgio Castanho, disse que gostei muito do seu artigo História, estória, causo, publicado no Caderno de Cultura do jornal Correio Popular, no dia 12 de janeiro de 2021. Concordo com suas considerações a respeito dos termos constantes do título daquele artigo, que podem confundir um jovem pesquisador que adentra ao nosso campo de estudo e pesquisa. Mas, afirmei também que existem desdobramentos recentes, os quais merecem ser lembrados e mencionados.

A partir dos anos de 60 do século passado, por iniciativa de pesquisadores ingleses e norte-americanos, um novo campo de pesquisa foi aberto, quando se compreendeu que o homem comum também é capaz de relembrar o seu próprio passado e aquele do seu grupo social e, também, consegue expô-lo, narrá-lo com competência. Surgiu então, na Europa e nos Estados Unidos da América, uma nova disciplina na área da História, que se mesclou com os estudos socioculturais e que passou a ser denominada de História Oral.

Aqui no Brasil, as pesquisadoras da Fundação Getúlio Vargas carioca, ao se voltarem para a captação e registro da história de vida do presidente Getúlio Vargas, foram precursoras da utilização desse método de pesquisa no Rio de Janeiro. Em São Paulo, o Centro de Estudos Rurais e Urbanos (CERU), um núcleo de apoio a pesquisa do Departamento de Sociologia da Universidade de São Paulo, liderado pelas pesquisadoras Maria Isaura Pereira de Queiroz e Eva Alterman Blay, utilizavam, na mesma época, essa metodologia nas suas pesquisas, seja reconstruindo a ocupação do Vale do Paraíba pela atividade pecuarista, após a decadência da cultura cafeeira, ou captando as origens da industrialização na cidade de São Paulo e ressaltando o importante papel do homem comum nesses processos e, para tanto, ouvindo os membros das classes populares que recontavam as suas vivências e conquistas, que iam sendo gravadas, transcritas e analisadas pelos pesquisadores.

Maria Isaura Pereira de Queiroz que, juntamente com Fernando Henrique Cardoso e Otávio Ianni, havia sido auxiliar de pesquisa de Florestan Fernandes em seus estudos sobre a importância da comunidade negra na história paulistana, no final dos anos de 1930 e início dos 40, foi umas das primeiras a utilizar o recurso dos depoimentos orais. Ela nos revelou em suas aulas, que para poder captar a fala das classes populares e ante a não existência de gravadores cassete (K7) nessa época, havia estudado taquigrafia, para captar as falas dos entrevistados em registros taquigráficos, que depois eram transcritos para um texto normal, que seria entregue ao seu orientador.

Sob a orientação de Maria Isaura Pereira de Queiroz eu trabalhei em vários projetos de pesquisa, realizados por equipes de pesquisadores seniores e juniores. O primeiro deles cuidou de avaliar o impacto da abertura da estrada de São Paulo à Curitiba, sobre as populações rurais dos municípios de Itapecerica da Serra e Juquitiba. A minha primeira pesquisa solo, pessoal, resultou de um convênio entre o Museu da Imagem e do Som de São Paulo e o Centro de Estudos Rurais e Urbanos da USP, quando então pude realizar um estudo sociológico sobre o carnaval popular paulistano, entrevistando as lideranças dos principais cordões e escolas de samba da cidade, colhendo relatos importantíssimos que deram origem à minha tese de doutorado, que foi publicada com o título de: CARNAVAL EM BRANCO E NEGRO. Carnaval Popular Paulistano 1914-1988, de 2007.

Foi durante a realização desta pesquisa, que uma outra conquista metodológica aconteceu: logo na segunda entrevista que realizei no MIS, com Seu Zezinho do Morro da Casa Verde, um importante líder do carnaval negro da Zona Norte de São Paulo, o entrevistado chegou ao MIS com os bolsos do paletó recheados de fotos antigas, as quais registravam os carnavais paulistanos, desde o início do século XX até a contemporaneidade, porque ele acreditava na foto como prova de verdade. Concordei com ele que aqueles registros eram importantes, mas pedi que ele primeiro contasse a sua participação, desde a infância, no carnaval paulistano, a partir da sua memória, para só depois examinarmos juntos aqueles registros imagéticos.

Consegui que ele datasse as imagens e as organizei em ordem cronológica e depois de as examinarmos cuidadosamente, pedi que ele recontasse a sua vida no carnaval de São Paulo, tendo por base os registros organizados sobre a mesa. A narrativa que se seguiu foi muito mais rica que a anterior, ressaltando o papel das principais lideranças na folia popular de São Paulo e a importância fundamental da comunidade afro-paulistana na constituição desse carnaval popular.

A partir de então, passei a solicitar a todos os entrevistados que vinham depor no MIS, ou que nós íamos ouvir em suas entidades carnavalescas, que procurassem trazer as suas fotos antigas ligadas aos carnavais do passado e assim conseguimos amealhar um conjunto de mais de quinhentas imagens, que foram melhoradas visualmente pelos técnicos em fotografia do museu e ampliadas em cópias de 18 por 24 cm, que eram então mostradas aos doadores, quando lhes devolvíamos os seus originais. Eles, ao examinarem as ampliações fotográficas, passavam a enxergar outros detalhes, até então imperceptíveis, o que lhes permitia acionar memórias muito ricas e esquecidas até aquele momento.

No meu livro sobre o carnaval paulistano consta uma parte final, que denominei de Imagens do Carnaval Paulistano em que apresento uma seleção dessas fotos, o que me permitiu diferenciar claramente o modo de festejar Momo, criado pelos descendentes dos imigrantes que viviam nos bairros do Brás e da Mooca, mas também nos da Água Branca e da Lapa, além de um precioso material imagético sobre o carnaval de outros importantes redutos negros da capital paulistana: a Barra Funda, o Bexiga e a Baixada do Glicério, além da famosa Vila Matilde, o reduto de Seu Nenê.

Isso tudo para defender a ideia de que a História Oral é um importante recurso da metodologia das Ciências Sociais que, quando bem utilizado, nos permite reconstruir a história do tempo presente, sob diversos enfoques: das elites, das classes médias, das classes populares, de homens, mulheres e até das crianças, assim como dos grupos marginalizados socialmente, como percebi com os travestis que de há muito tempo participavam do carnaval em São Paulo.

Notei também que a imagem é um importante fator para ativar as memórias dos depoentes, assim como a música, pois ambas nos permitem acionar memórias agradáveis, mas também penosas, as quais ficam esquecidas nas dobras infinitas dos nossos cérebros.

Referência:

SIMSON, Olga Rodrigues de Moraes von. Carnaval em branco e negro. Carnaval popular paulistano, 1914-1988. São Paulo, Campinas: Ed. USP / Ed. da UNICAMP / Imprensa Oficial de SP, 2007.

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