A repressão das Beguinas

Sérgio Eduardo Montes Castanho – professor de História da Educação da UNICAMP. Titular da Cadeira 35 do IHGG Campinas.

The repression of Beguinas.

Há tempos me inquieta a questão das assim ditas heresias na história ocidental. Estudando o tema, em certo momento surgiu-me uma indagação: entre os diversos movimentos ditos heréticos haveria algum que, escapando à regra do protagonismo masculino, fosse ativado e conduzido por mulheres? Foi procurando dar resposta a isso que acabei encontrando o movimento das beguinas.

Mas devagar com o andor. É preciso dizer antes de tudo que esse movimento não foi algo isolado no medievo. Muitos outros houve, mas sempre com protagonismo masculino. A baixa Idade Média (período histórico que escorre entre os séculos 11 e 15) é um tempo de grande impulso renovador no seio da igreja cristã romana. Os movimentos que buscavam a vida pobre dos cristãos primevos, e por isso denominados pauperísticos (pobre, em latim, é pauper), compreendiam os cátaros, os valdenses, os franciscanos radicais, os fraticelli, os goliardos. Aderiam a eles grandes massas de pobres, lideradas geralmente por religiosos que contestavam o governo eclesial romano e sua ortodoxia teológica.

Nas palavras de Alder Calado, as Beguinas se apresentam, ao mesmo tempo, como resultado, expressão e protagonismo desse período histórico. Elas marcam a história das experiências religiosas femininas heterodoxas. Viviam em pequenas comunidades chamadas Begijnhof ou Béguinages, dependendo de onde atuavam, se em Flandres, Liège, Bruges ou Antuérpia. Eram mulheres jovens e adultas, celibatárias, viúvas, algumas casadas, que, organizadas principalmente nas urbes, tinham uma vida de oração, de trabalho autogestionário e de serviço aos pobres, doentes e marginalizados da época. Sua espiritualidade era de caráter leigo. É provável, sempre na esteira da pesquisa de Calado, que a origem das beguinas esteja em Lambert le Bègue, a quem também se atribui o movimento dos begardos, formação masculina de pregadores errantes na Bélgica do século 12 que apontavam os desmandos do clero e pregavam uma vida à luz do evangelho como a das primeiras comunidades cristãs.

As beguinas singularizavam-se por não terem a bandeira de um santo fundador, não quererem respaldo da hierarquia eclesiástica, não se pautarem por uma constituição ou regra e não fazerem votos públicos, restringindo-se a uma declaração de intenção, sem o placet de qualquer autoridade eclesiástica que lhes impusesse uma disciplina. Elas podiam, ademais, continuar com sua atividade normal no mundo. Originárias da Bélgica, as beguinas expandiram-se pelos Países Baixos e por regiões da Alemanha e da França, sempre no meio urbano, onde podiam respirar certa liberdade, impossível, à época, no meio rural.

José Comblin, um dos filósofos e teólogos de Louvain, Bélgica, trazidos por Monsenhor Emílio José Salim nos anos 1960 para reforçar a docência na PUC-Campinas, assim a elas se refere:

As ‘beguinas’ eram moças que não queriam entrar no mosteiro, queriam dedicar sua vida ao serviço de Deus e do próximo. Até os 30 anos de idade viviam na casa de uma ‘beguina’ mais velha. Ao completarem 30 anos, passavam a viver sozinhas numa casinha. Dedicavam a vida ao trabalho e ao serviço dos pobres, doentes ou anciãos. Realizavam exercícios de piedade em conjunto, mas cada uma tinha sua vida independente. Formavam às vezes ruas inteiras de casinhas semelhantes. Em certas cidades formavam como que uma cidade dentro da cidade (‘Begijnhof’, ‘Béguinage’). (COMBLIN, 2005).

Teriam totalizado duzentas mil beguinas, num universo estimado à época em torno de vinte milhões de habitantes. Nos primeiros tempos, tinham para os poderes dominantes a aparência de uma simples experiência beneficente e útil. A vigilância inquisitorial não enxergava nelas nada de ameaçador ou fora de controle. No entanto, quando se consolidaram como organização de mulheres livres, sem subordinação ao poder masculino na família, no clero e nas estruturas políticas, começaram a ser perseguidas. Em 1311, no Concílio de Viena, foram condenadas por heresia. A implacável Inquisição perseguiu-as, julgou-as em tribunais eclesiásticos e condenou-as a penas diversas que chegavam à morte. Foi assim que Marguerite de Porète (1260-1310), autora da obra Le mirouer des âmes simples et anienties et qui seulement demourent em vouloir et désir d’amour (“O espelho das almas simples e anuladas e que somente permanecem no querer e no desejo do amor”, em tradução livre do francês medieval), por seu legado de mística, de perfil profético e de mártir, foi condenada à fogueira com apenas cinquenta anos” (OLIVEIRA, 2018).

Além dela, várias beguinas sofreram o mesmo fim, como a precursora Hildegard de Bingen, Matilde de Magdeburgo, Gertrude de Hefta, Marie d’Oignie, Matilde de Hackeborn, Beatriz de Nazareth e Hadewijch de Antuérpia. Lembra Régine Pernoud: Le mouvement des béguines séduit parce qu´il propose aux femmes d´exister n´étant ni épouse, ni moniales, affranchie de toute domination masculine. (PERNOUD, apud CALADO, 2012).

A hierarquia eclesiástica sempre viu com desconfiança e até aberta oposição o movimento dessas mulheres que se conduziam com desenvoltura social, organizadas em pequenas comunidades fora do controle da igreja, com independência econômica, graças a seu trabalho de autogestão, e com autonomia religiosa, já que não pertenciam a conventos ou congregações. Apesar de tudo, o ideal das beguinas sobrevive até hoje, não sem concessões, aceitas como pessoas que cuidavam de asilos de moças pobres. Mesmo em nossos dias ainda há experiências de béguinage na Bélgica. Mesmo no Brasil, Alder Calado localizou resquícios do ideal das beguinas nas PCIs – Pequenas Comunidades de Religiosas Inseridas no Meio Popular. Tais comunidades, visíveis no nordeste brasileiro, congregam religiosas vindas de diversas congregações, das quais algumas aceitam ajuda e outras não.

Vale ressaltar, por último, que, diferentemente de muitos movimentos considerados heréticos por trilharem caminhos teológicos diversos dos ditados pela ortodoxia da igreja romana, o das beguinas confrontou Roma mais por outros aspectos, que punham em xeque o poder eclesiástico.

Referências bibliográficas:

CALADO, Alder Júlio F. O Movimento das Beguinas: interfaces e ressonâncias em experiências sociorreligiosas femininas do presente. Revista on-line Consciência.net, 12 de junho de 2012. Acesso em 30 de abril de 2020.
COMBLIN, José. Vocação para a liberdade. São Paulo: Paulus, 2005.
OLIVEIRA, Leandro da Motta. Marguerite Porete e as Beguinas: a importância das mulheres nos movimentos espirituais e políticos da Idade Média. Brasília, DF: UnB, Mestrado (dissertação), 2018.

Um comentário

  1. Parabéns, Sérgio, pelo seu excelente trabalho digno de um intelectual respeitado e versado no tratamento das heresias. Um abraço do Duílio.

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