Imigrantes norte-americanos em Santa Bárbara: mito e realidade

Letícia Aguiar – mestre em ciências econômicas pela Faculdade de Economia da UNICAMP.

Resumo:

Este artigo tem o objetivo de resgatar a trajetória de um grupo de imigrantes norte-americanos que se dirigiu para Santa Bárbara d’Oeste, estado de São Paulo, ao final da Guerra Civil Americana, bem como o mito e a realidade que a envolve. Esse grupo é apontado pela bibliografia como o de maior sucesso relativo, dentre todos aqueles que vieram para o Brasil. O período de análise compreende os anos de 1866 (ano em que se estabeleceram os primeiros imigrantes na região) até 1900.

North American immigrants: myth and reality, the case of Santa Barbara D’Oeste (SP, Brazil).

Abstract:

This paper aims to recover the history of a group of North American immigrants who went to Santa Bárbara d’Oeste, São Paulo state, Brazil, at the end of the American Civil War, as well as the myth and the reality that surrounds it. This group is identified in the literature as the most successful one among all those who came to Brazil. The period of analysis covers the years from 1866 (when the first immigrants settled in the region) up to 1900.

* * *

O mundo do século XIX conviveu com movimentos de deslocamentos populacionais de proporções gigantescas. O mais importante é que a própria Europa tornou-se o grande centro expatriador de milhões de indivíduos das mais diferentes nacionalidades, em fluxo emigratório que se dirigiu principalmente, entre outros destinos, para as costas americanas do Atlântico. Mas houve também outros movimentos significativos vindos do oriente médio e do extremo oriente para as Américas. A primeira pergunta que fazemos é: o que levaria grandes contingentes populacionais a buscarem outros territórios fora dos limites de suas pátrias?

Nos Estados Unidos da América (EUA), a derrota dos confederados na Guerra Civil (1861-1865) – também conhecida como Guerra da Secessão – foi uma importante razão para o grande fluxo migratório de norte-americanos para outras áreas dos Estados Unidos, do México e do Brasil, entre outros países das Américas. Os “sulistas” ou “ex-confederados” estavam desolados após o final do sangrento conflito. As humilhações e privações a que foram submetidos no período da Reconstrução de seu país (1865-1877) os teriam motivado a emigrar. Seria, portanto, a emigração de sulistas ex-confederados derrotados.

Claro que nem todos os que emigraram eram de fato sulistas e ex-confederados; muitos aproveitaram as facilidades oferecidas e embarcaram na aventura. Porém, acredita-se que a maior parte daqueles que se dirigiram ao Brasil era formada por sulistas, ligados direta ou indiretamente à Confederação. Se não eram confederados, eram pelo menos simpatizantes à causa.

Se por um lado os sulistas estavam desolados e buscavam fugir de uma situação de opressão nesse período de Reconstrução, o Governo Imperial brasileiro, por sua vez, estava ansioso por trazer imigrantes tanto para servirem como mão-de-obra alternativa ao trabalho escravo, quanto para desenvolverem territorialmente o país. Com a desarticulação do sistema produtivo sulista, também baseado em mão de obra escravizada, o Brasil viu sua chance de entrar no mercado internacional como fornecedor de algodão para as indústrias inglesas. Assim, a vinda do imigrante sulista era vista com bons olhos, uma vez que se acreditava que estes tinham pleno domínio do cultivo do algodão e que aqui poderiam desenvolvê-lo, contribuindo e muito, para a prosperidade geral.

Na década de 1860, apesar do fracasso das primeiras experiências com o regime de parceria nas fazendas de café de São Paulo, o governo Imperial brasileiro continuava a promover a imigração para o país. Nesse passo, o inicio do evento bélico nos Estados Unidos ofereceu uma boa oportunidade para incentivar a produção nacional de algodão. Com o inicio da guerra, os portos dos estados sulistas foram bloqueados pela União dos estados do Norte e a Inglaterra se viu privada do fornecimento de algodão, em pleno auge produtivo de suas indústrias.

A saudosa economista Alice Canabrava analisou a introdução e o desenvolvimento da cultura do algodão na província de São Paulo, apontando justamente os desdobramentos da guerra e os incentivos ingleses como promotores do inicio da cultura de algodão do tipo herbáceo na província. Até então, segundo a autora, a cultura de algodão estava abandonada, sendo que no passado, o tipo plantado era de algodão arbóreo, diferente do herbáceo. Mas a Inglaterra demandava algodão herbáceo, de preferência das mesmas variedades antes importadas dos norte-americanos, como o algodão da variedade New Orleans, que servia para produzir fios de algodão mais grossos, para vestimentas mais rústicas.

A Inglaterra chegou, inclusive, a enviar sementes para o Brasil ao saber do interesse do país em produzir esse tipo de algodão. A Associação para o Suprimento do Algodão de Manchester (Manchester Cotton Supply Association) interessava-se em encontrar outros fornecedores de matéria-prima, pois os acontecimentos nos Estados Unidos, principal fornecedor, estavam prejudicando a indústria com a paralisação da produção devido à falta de matéria-prima. A associação inglesa de Manchester se encarregou de incentivar o cultivo de algodão não só no Brasil, mas também na Índia e no Egito.

Além do governo Imperial, duas associações imigrantistas, uma em São Paulo e outra no Rio de Janeiro, também se dedicaram à promoção da imigração de sulistas para o país. Essas duas associações estavam interessadas em expandir os negócios de seus membros e viram nesse possível fluxo migratório tal oportunidade.

Muitos sulistas, insatisfeitos com os rumos que os estados do Sul vinha tomando após a Guerra Civil, no processo de Reconstrução, decidiram emigrar. Dentre os destinos escolhidos estavam a Europa, e países como México, Honduras, Venezuela e, claro, o Brasil. Os incentivos do Governo de D. Pedro II e das associações imigrantistas parecem ter contribuído para essa escolha. Além desses, a propaganda feita por agentes norte-americanos também foi decisiva na escolha pelo nosso país.

Esses agentes vinham ao Brasil representando um grupo ou uma associação pró-emigração sulista. Eles eram recebidos no Rio de Janeiro e encaminhados ao Ministério da Agricultura. O próprio ministro se encarregava de recomendá-los a pessoas influentes que pudessem mostrar as terras e as condições de vida no país.

Após a visita desses agentes ao Brasil, estes retornaram aos Estados Unidos e publicaram livros e panfletos divulgando as maravilhas do país e incentivando seus compatriotas a emigrarem. A grande maioria desses agentes atuou como líder de um grupo de emigrantes dispostos a se estabelecer no país. Foi o caso, por exemplo, do Reverendo Ballard S. Dunn, que se estabeleceu no Vale do Ribeira com compatriotas, a partir de 1867; de James McFadden Gaston, que também se estabeleceu no Vale do Ribeira, no mesmo ano, porém, em área distinta da de Dunn, e do Major Lansford Warren Hastings, que se estabeleceu em Santarém (PA), trazendo duas levas de imigrantes (uma em 1867 e outra em 1868, totalizando mais de 300 imigrantes).

Os primeiros norte-americanos envolvidos nesse processo começaram a chegar ao Brasil em 1865, porém a maior parte deles fixou-se durante o ano de 1867. Estabelecendo-se no Pará (Santarém), no Espírito Santo (próximo à lagoa Juparanã, na região de Linhares), no Paraná (proximidades do Rio Assungui), Minas, Bahia, Pernambuco, Rio de Janeiro e São Paulo (no litoral – região do Vale do Ribeira – e na região de Santa Bárbara), esses imigrantes em 1867 totalizaram 2700 indivíduos, sendo que a província de São Paulo concentrou o maior número deles: 800.

De todos os agrupamentos formados, um em particular se destacou: justamente o de Santa Bárbara. Localizado em região próxima a Campinas, esse agrupamento obteve o maior sucesso relativo, uma vez que seus membros se inseriram na economia local nas mais variadas profissões, sendo que a grande maioria atuou mesmo como lavradores. Cultivando gêneros comerciais, como o algodão, a cana-de-açúcar e a melancia, esses homens e mulheres conseguiram se inserir no circuito mercantil da região, tendo se integrado também à vida social e política local. Como exemplo disso, entre 1896 e 1898, Wilber Fish McKnight, um membro da comunidade norte-americana, foi vereador na Câmara Municipal de Santa Bárbara. Ao que se sabe, ele foi o primeiro norte-americano a tomar parte ativa na política local.

No entanto, Santa Bárbara não fez parte dos locais oferecidos pelo governo Imperial aos agentes norte-americanos, a preços mais modestos e com facilidades de pagamento, como as terras localizadas no Vale do Ribeira. Os homens e mulheres que compraram terras em Santa Bárbara assim o fizeram aos preços vigentes à época, e sem as facilidades oferecidas aos que se dirigiram para o litoral paulista. Então, por que esses norte-americanos se dirigiram justamente para Santa Bárbara? Por que, dentre todos os agrupamentos, esse foi o de maior sucesso relativo? O que tinha a região para oferecer a esses imigrantes?

Em Santa Bárbara eles compraram terras e escravos. Na produção de gêneros comerciais utilizaram a mão-de-obra escrava e também a livre, familiar ou através de empreitadas, locação de serviços etc. Realizavam as plantações em terras próprias, compradas à vista ou a prazo, em terras compradas em sociedade com outro imigrante, terras arrendadas e outras.

Dentre as atividades urbanas, dedicaram-se principalmente ao comércio, com destaque para os negócios de secos e molhados. Nos anos de 1890, muitos desses comerciantes tornaram-se grandes credores, a partir de empréstimos de dinheiro a juros, com garantia de hipoteca sobre os bens do devedor, atuando, então, como capitalistas.

Nos cartórios locais encontramos 505 transações registradas, envolvendo quase 200 famílias norte-americanas. Comprando e vendendo terras, escravos, imóveis urbanos, aguardente, realizando hipotecas (tanto como credores quanto como devedores), realizando sociedades agrícolas, nomeando procuradores, esses norte-americanos foram se integrando ao novo meio. No início essas transações foram mais limitadas, mas com o passar dos anos elas foram se intensificando, sendo que nos anos 1880 cresceram vertiginosamente.

Se nesse primeiro momento os imigrantes procuraram o isolamento, em uma atitude de defesa cultural, a virada do século os encontrou completamente integrados à comunidade barbarense. Os valores, crenças e religião se misturaram, os casamentos mistos passaram a ser frequentes, e alguns descendentes já não mais aprendiam a língua inglesa. Apesar do seu número reduzido, se comparado a outras nacionalidades de imigrantes que se instalaram na região, os norte-americanos também exerceram forte influência sobre a sociedade. Nos campos religioso e educacional, a influência deles não se circunscreveu a Santa Bárbara, mas se disseminou por todo o país. Na localidade, os agricultores nacionais aprenderam a usar o arado trazido pelos norte-americanos para plantar, e conheceram também os trolleys, carroções de quatro rodas, que eram mais ágeis que os velhos carros de bois anteriormente utilizados na região, facilitando assim o escoamento das produções até as ferrovias.

Esses imigrantes também foram influenciados pela população local, passando a adotar seus costumes, como o de tomar cachaça, por exemplo, e também aprenderam a fabricar a aguardente. Encontramos muitos norte-americanos dedicados ao fabrico e comercialização da aguardente em fins do século XIX.

Na dissertação de mestrado que apresentei à Faculdade de Economia da UNICAMP em 2009, atuei com o objetivo de resgatar a história dos norte-americanos em Santa Bárbara e região, procurando recompor a rede de relações, principalmente econômicas. Além disso, tratava-se de tentar desmistificar algumas “verdades” tidas como absolutas e de uso comum no que se refere à história desses homens e mulheres no município.

O primeiro mito questionado foi o de que eles eram ricos e poderosos fazendeiros sulistas antes da Guerra Civil. Na pesquisa foi possível mostrar que o grupo era bastante heterogêneo, com pessoas de todas as classes sociais e de diversas profissões. Vários foram os imigrantes que ao chegarem procuraram comprar escravos para mão de obra da lavoura, plantando apenas um gênero comercial em suas terras, nos moldes da grande plantation sulista. Porém, como bem apontado pelos manuscritos pesquisados, muitos foram os que cultivaram com seu trabalho a sua própria terra, com a ajuda de um ou dois camaradas na época das colheitas. A escritura cartorial de uma empreitada com dois imigrantes americanos atuando como lavradores contratados por um fazendeiro nacional de Monte Mor, é extremamente ilustrativa. Grandes fazendeiros sulistas não trabalhariam suas próprias terras, menos ainda terras alheias.

Outro mito contestado é o de que eles teriam vindo impulsionados pelo Destino Manifesto, na tentativa de reconstruir o modo de vida sulista no Brasil. O isolamento inicial dos imigrantes parece corroborar esse mito. No entanto, essa postura isolacionista com forte sentido de proteção fez-se necessária em um breve período de adaptação. Afinal, a mudança para um país com cultura e hábitos tão diferentes dos Estados Unidos exigiu esse cuidado, e até mesmo de aprendizagem do novo idioma. A dificuldade de comunicação, a estranheza dos hábitos e dos costumes causou maior união entre eles, justificativas plausíveis para esse pretenso isolamento inicial. Quanto ao Destino Manifesto, acreditamos que a razão primordial para essa emigração tenha sido o orgulho ferido, a perda do poder de influenciar politicamente em seu país natal e, principalmente, as humilhações sofridas após a derrota para os estados do Norte. Cumprir os desígnios de Deus enquanto povo escolhido, conquistando a América Latina, parece ter sido algo secundário, se é que teve importância na decisão de emigrar.

A presença dos norte-americanos na região é sempre lembrada. A vizinha cidade de Americana deve seu nome à presença de imigrantes ao redor da estação ferroviária local, formando um povoado que posteriormente deu origem ao município. Entre Santa Bárbara e Americana existe o Cemitério do Campo, local onde foram enterrados os primeiros imigrantes e seus descendentes, uma vez que muitos eram protestantes e não podiam ser enterrados nos cemitérios municipais, católicos. Nesse local sagrado ainda existe uma bonita festa, que é realizada todos os anos em comemoração à vinda dos antepassados para a região. A festa relembra os feitos desses imigrantes, sua religião (existe uma capela dentro do cemitério, onde os primeiros cultos foram realizados), as comidas e trajes sulistas, típicos do século XIX. São feitas apresentações de danças, típicas do Velho Sul.

Além disso, existe em Santa Bárbara d’Oeste um museu dedicado aos imigrantes, onde se pode contemplar boa parte da história dos norte-americanos que vieram para a região no último terço do século XIX. O Museu da Imigração é rico em fotografias, roupas, utensílios e objetos relacionados ao grupo pioneiro. O Museu está localizado ao lado do Centro de Memória do município, onde está documentada grande parte da história dessa imigração, que é sempre lembrada e homenageada em Santa Bárbara.

Referência:

AGUIAR, Letícia. Imigrantes norte-americanos no Brasil: mito e realidade, o caso de Santa Bárbara. Instituto de Economia – Unicamp. [dissertação de mestrado], 2009.

As teses e dissertações estão disponíveis no Repositório da Produção Científica e Intelectual da Unicamp <http://repositorio.unicamp.br&gt;  

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