O Colégio Perseverança (1860-1885)

Daniela do Carmo Kabengele – Antropóloga, professora do Centro Universitário Tiradentes (UNIT), Alagoas.

Resumo:

Antonio Cesarino foi um homem negro, livre, considerado como “pardo”, que investiu no mundo dos negócios, fundou e manteve por mais de duas décadas – com sua mulher e filhas – um dos mais significativos colégios para mulheres em Campinas, no último quarto do século XIX. A narrativa e a análise da trajetória de Antonio Cesarino expõem alguns traços pertinentes de sua biografia, compreendendo, em especial, as relações desse homem com a sociedade em que vivia e as disposições presentes nesse campo.

The Perseverance College (Campinas, SP, Brazil), 1860-1885.

Abstract:

Antonio Cesarino was a free black man, who invested in the business world, founded and maintained for more than two decades – together his wife and daughters – one of the most significant colleges for women in Campinas, in the last quarter 19th century. Narrative and analysis about the life trajectory of Antonio Cesarino brings several pertinent aspects of his biography leading to a deeper understanding of this man relationship to the society he lived in and opportunities avaiable in that context

* * *

Aos 10 de março de 1860, Antônio Cesarino e a sua esposa Balbina Gomes da Graça Cesarino abriram as portas de um colégio para moças em Campinas, SP. Situado inicialmente na Rua do Alecrim, nº 1, esquina com a Rua América (atual Dr. Quirino), o Colégio Perseverança, ou Colégio do Cesarino, localiza-se anos após a inauguração na Rua do Comércio (atual Rua General Osório), em frente ao atual Centro de Convivência (LAPA, 1996, p. 171).

Havia uma diferença entre colégios e escolas, sendo os primeiros vistos como estabelecimentos de educação mais aperfeiçoada, ou seja, observavam a variedade e a excelência nos conteúdos, e podiam funcionar em regime de internato, semi-internato e externato; neste último caso, atendendo àqueles que residiam na cidade. Como era de se esperar, os valores das matrículas variavam segundo a forma de permanência no colégio.

As escolas, por sua vez, eram locais de instrução um pouco mais rasa e funcionavam comumente em regime de externato. Até onde se sabe, o estabelecimento de ensino dos Cesarinos, além de funcionar em regime de internato, oferecia uma educação que primava por conteúdos variados.

Em relação à especificidade de seu corpo discente, aquele colégio destinava-se exclusivamente à educação feminina (BARBOSA, 1997; RIBEIRO, 2006). Em suas referências ao colégio, os termos alunas, meninas, moças, colégio para mulheres e internato para o sexo feminino estão marcados e são correntes. Valiosa fonte, o Relatório do Presidente da Província de 1865, traz em seus anexos a relação de colégios femininos em atividade em São Paulo, naquele ano. Dos 16 colégios listados em nove cidades, encontra-se em Campinas o colégio dirigido por D. Bernardina Gomes Cesarino que, cinco anos após a sua fundação, atendia a 44 alunas.

E muitas delas, dizem, bem-nascidas. Pelo menos esse foi o parecer de alguns contemporâneos. O jornalista Henrique Barcellos (1854-1911), por exemplo, sublinhou que o Perseverança era frequentado por filhas das melhores famílias de Campinas. Por seu turno, o jornalista e memorialista Leopoldo Amaral (1856-1938), que participou de algumas atividades naquele colégio, escreveu que eram algumas [alunas] pertencentes às primeiras famílias desta cidade. Opinião parecida expressou, um século adiante, um bisneto de Antônio, Antônio Ferreira Cesarino Júnior, que em suas Memórias, de 1982, observou que o estabelecimento de ensino fundado por seu bisavô atendia a moças, filhas de fazendeiros da região.

Mas não eram só alunas abastadas que lá estudaram. Já se disse que em 1865 o Perseverança atendia a 44 alunas. Em 1871, o número diminui para 30; mas quatro anos depois, em 1875, o colégio contava com 51alunas, sendo que oito delas não pagavam mensalidades, pois eram pobres e/ou órfãs. Para admitir essas meninas, o colégio recebia uma subvenção da Intendência Municipal. Esclarece Irene Barbosa (1997): […] o Colégio Perseverança ou Cesarino fazia parte dessa categoria de ensino privado que, ao lado das alunas que podiam pagar, mantinha as pobres negras e para isso recebia subvenção.

Com relação à educação, a Constituição de 1824 destacava que: A instrução primária é gratuita para todos os cidadãos. Quer dizer que era obrigação do Estado prover a instrução primária. Em 15 de outubro de 1827, a Assembleia Legislativa aprovou a primeira lei sobre a instrução pública nacional do Império do Brasil, estabelecendo que em todas as cidades, vilas e lugares populosos haverá escolas de primeiras letras que forem necessárias. Mas, ainda assim, até meados daquele século, a situação educacional permaneceu quase estacionária e as razões para tal situação eram: insuficiência de escolas públicas, pouca verba, grande extensão do territorial nacional, disseminação irregular da população, entre outras.

Em 1854, com a implementação das diretrizes gerais de Regulamento da Instrução Primária e Secundária da Corte, ficou estabelecido o ensino obrigatório primário para menores entre 7 e 14 anos. Esse preceito legal obrigava os pais ou responsáveis a cuidarem da instrução primária dos menores, sob pena de multa. Mas ainda assim a situação não havia mudado muito. Então, para garantir a viabilização desse preceito legal, e cumprir o seu próprio dever estabelecido na Carta de 1824, o governo decidiu pela criação de novas escolas públicas e pela subvenção das particulares.

Assim, o Colégio Perseverança teve, pelo menos por um período, condições de reservar algumas vagas para aquelas meninas pobres, órfãs e negras. Por receber essas infelizes desamparadas em seu colégio, Cesarino foi considerado […] um cidadão de proeminente dedicação à infância desvalida, pois dava-lhes amparo material e moral, de modo que se pode  concluir que foram muitos os órfãos que nele [Cesarino] encontraram um protetor dedicado.

O quadro docente do Perseverança compunha-se de membros da família e outros. Da família, apresentavam-se o próprio Cesarino, sua esposa Balbina e as filhas do casal: Amância, Bernardina e Balbina-filha. Da sociedade campineira, compareceram Leopoldo Amaral e Amador Florence, este filho mais velho do primeiro casamento de Hércules Florence, pioneiro da fotografia, com D. Maria Angélica Machado e Vasconcellos. Amador Florence viria a se tornar, anos após sua estada no Perseverança, professor de Latim, Francês e Desenho no Colégio Culto à Ciência; anos mais tarde, tornar-se-ia um de seus diretores. Já Leopoldo Amaral era funcionário público e, na maturidade, tornou-se proeminente jornalista que escreveu sobre temas e aspectos da História de Campinas.

No que concerne ao dia a dia de funcionamento dos colégios daquela época, os anexos do já referido Relatório do Presidente da Província de 1865 trazem mais informações:

Os educandos levantam-se às 6 horas, lavam-se, e depois de uma breve oração, tomam uma breve refeição. Às 6 e meia entram para a escola, até ás 9. Até às 10 almoço e recreio. Até às 12 e meia oficina (para os que frequentam). Até à uma e meia jantar e recreio. Até às quatro escola. Até às 6 oficina. Até às 8 (de inverno) e até às 8 e meia (de verão) recreio, oração à Ave-Maria, e ceia, lavam-se e deitam-se.

No Colégio Perseverança, ensinavam-se Primeiras Letras, Arithmetica, Portuguez, Francez, Geographia, História, Musica e todas as Prendas Domésticas. Também se ensinavam Desenho, Canto, Dança (RIBEIRO, 2006). Muito provavelmente Balbina-filha respondia pela disciplina de música e era a professora de piano. Balbina-mãe, provavelmente, contribuía no ensino das prendas domésticas. A direção do colégio, conforme faz saber o Relatório, estava nas mãos de Bernardina Cesarino.

As transformações socioeconômicas de meados do século XIX em diante tinham a ver com a expansão da lavoura cafeeira, o acúmulo de capital privado a urbanização da cidade e as transformações na mentalidade de seus habitantes. E não se pode compreender o significado dessas mudanças sem pensar na importância que certos grupos davam à educação. Tendo no horizonte o crescimento econômico, mas, também, a extrema desigualdade e as muitas contradições presentes na sociedade, alguns grupos que ganhavam projeção e se tornando influentes – como os liberais e os republicanos, por exemplo – enxergavam na Educação a solução para o desenvolvimento social. Ao progresso da cidade respondiam com o letramento de seus cidadãos. E se o alcance dessa ideia pode ser percebido nas muitas escolas que se abriram na cidade a partir da segunda metade do século XIX, é porque figuras históricas e nomes de peso da sociedade como Campos Salles, Francisco Quirino dos Santos e Francisco Glicério, estiveram na batalha, direta e indiretamente, a favor dessa ideia. Campos Salles teria dito publicamente que: O povo que tem as melhores escolas é o primeiro povo; se ele não o é hoje, se-lo-á amanhã e que Nem um outro progresso é realmente possível sem a cooperação do ensino, esse elemento primordial da civilização (…) (Almanack de Campinas para 1871).

Sob o acento daqueles que detinham o capital privado e se constituíam como formadores de opinião, a criação de escolas constituiu parte do projeto das elites. Em síntese, se naquela época existia um lugar propício à abertura de um estabelecimento de ensino, esse lugar era Campinas, e Antônio Ferreira Cesarino, homem vivido e ativo, teve consciência disso. Captando as demandas que perpassavam a sociedade campineira naquele momento, os reclames das elites pela criação de escolas, Cesarino decidiu por levar adiante a empreitada.

Considere-se, também, o folego que Cesarino tinha para o mundo dos negócios e o dinheiro que dispunha no final da década de 1850. Porém, não bastavam apenas disposição e réis no bolso para abrir um colégio. Aos necessários recursos financeiros e o ímpeto do empreendedor deveriam corresponder o suporte de credenciais adequadas. E aqui entram em cena os predicados de Cesarino e de suas filhas. Formação escolar Cesarino tinha, pois viu-se que, de menino letrado a estudante noturno, o jovem havia conquistado um diploma de professor. Acrescenta-se a essas prerrogativas a hipótese de que, por ocasião da abertura do colégio, suas filhas também já tivessem formação escolar adequada, que as habilitasse para lecionar.

Em relação à boa aceitação e reputação do Colégio Perseverança na sociedade campineira, alguns fatores devem ser considerados. Em primeiro lugar, a dosagem de sua proposta pedagógica que alinhavava tópicos para a instrução das moças àqueles que resguardariam os ainda caros valores e anseios da época. Vimos que as Primeiras Letras, os conteúdos de Aritmética, Português, Geografia e História faziam parte da grade curricular do colégio, assim como Francês, Música, Desenho, Canto, Dança e todas as Prendas Domésticas. Se as famílias ricas de Campinas já não mais queriam e já não mais mantinham filhas analfabetas em casa, pois a racionalidade positivista flagrada na cidade em meados do século XIX via com bons olhos a aquisição de uma educação científica, é importante salientar que, entretanto, se trata de uma época em que as moças campineiras, mesmo letradas, ainda continuavam a ser preparadas para a vida do lar.

Em relação à boa aceitação e reputação desse colégio, deve-se levar em conta, em segundo lugar, a qualidade do corpo discente. Se as expressões filhas das melhores famílias, pertencentes às primeiras famílias, moças, filhas de fazendeiros, em referência às discentes, mais do que especificar a origem social das moças, enfatizava, a boa aceitação do colégio junto a sociedade e a presença das (poucas) meninas pobres, órfãs e negras conferia uma reputação, por assim dizer, generosa. A dimensão simbólica que está por trás do destaque da origem social das alunas do Perseverança deve ser admitida tanto pelo prestígio quanto pelo desvelo.

Deve-se mencionar a presença dos indivíduos que lá ensinaram. Afinal, um professor de Latim de família ilustre; um promissor funcionário público, que mais tarde tornar-se-ia um proeminente jornalista da cidade; um padre cuja batina poderia infundir seriedade por onde passasse, pois não se pode esquecer de que se trata de uma localidade de tradição católica, e que não muito tempo antes do transcorrer desses eventos era chamada de Freguesia de Nossa Senhora da Conceição das Campinas; todos esses sujeitos, que carregavam consigo a envergadura de suas pertenças, estariam afiançando a reputação do colégio.

Se os dados de que disponho não são capazes de revelar o momento exato e a maneira específica pela qual Cesarino conheceu e travou relações com cada uma dessas pessoas e as aglutinou no espaço do colégio, nota-se, todavia, uma cordialidade entre eles. Por exemplo, no ano de 1875, Cesarino teria convidado o jornalista Leopoldo Amaral para participar da banca dos exames de finais de ano do colégio e que o resultado da participação de Leopoldo teria sido excelente. Cesarino simpatizou tanto com com ele que, então, insistiu para que ensinasse francês as meninas mais adiantadas. Decorridas as férias, lá estava Leopoldo dando a primeira aula de francês, para alegria do velho Cesarino. Assim, por entre cordialidades, convites, aceites e resultados excelentes, Cesarino pôde formar o corpo docente de seu colégio e ir se relacionando com essas pessoas importantes da cidade.

Cabe salientar ainda que Cesarino parece ter se valido de certas práticas de sociabilidade e delas ter derivado uma boa impressão para o seu colégio. Corria o mês de dezembro de 1875 quando, em uma noite, Cesarino promoveu um baile no Perseverança e nesse baile tomaram parte o corpo discente, nas figuras das alunas, as famílias das alunas, professores e outras pessoas da sociedade local.

Por fim, há que se notar que Cesarino cumpria certos requisitos e procedimentos que permitiam o bom andamento do seu colégio. Em dezembro de 1872, realizou-se a entrega de prêmios para as alunas que passaram nos exames finais com distinção. Nessa ocasião, o colégio recebeu a visita do inspetor do distrito, o capitão Pimenta e os Srs. Diogo Pupo, Américo Brasiliense e Campos Salles, os dois últimos membros da Sociedade Culto a Ciência. A presença do inspetor do distrito era obrigatória para dar validade aos exames, principalmente em se tratando de escolas privadas. De todo modo, as presenças da autoridade e de notáveis eram tomadas como um fator político, na medida em que as diretorias de escolas da época demandavam essas presenças em busca da cidadania e do reconhecimento público.

Pelo exposto, considero que a criação daquele colégio e a boa reputação que teve foram possíveis graças ao alinhamento de fatores tão diversos quanto vigorosos. Desde o contexto sócio-histórico favorável, em que a criação de escolas, mais do que incentivada, constituía um projeto de grupos proeminentes da cidade, passando pelo dinheiro de que Cesarino dispunha para a criação do colégio e em sua disposição de investir no mundo dos negócios. Atam-se a isso seus predicados pessoais, aportes educacionais, esses que se somaram aos de suas filhas, e a boa relação com destacados nomes da sociedade campineira. O cumprimento de requisitos burocráticos, a atenção a procedimentos que favoreciam o reconhecimento do colégio, as práticas de sociabilidade, são elementos que contribuíram para que Cesarino fundasse e mantivesse seu colégio na cidade de Campinas por mais de duas décadas.

Em relação ao fechamento desse colégio, Irene Barbosa (1997) afirma que o Perseverança deve ter desaparecido no final de 1876, quando Cesarino declarou a um jornal que fechara seu estabelecimento de ensino para meninas. Nessa perspectiva, o colégio funcionara por dezesseis anos. Em contrapartida, Ribeiro (2006), considera que o colégio dos Cesarinos deve ter funcionado até 1885, pois a partir daí não encontrou mais referências a seu respeito. Amaral Lapa (1996) também aponta o ano de 1885 como o do provável fechamento. Nesse ponto, as informações desses últimos dois autores parecem as mais factíveis, haja vista que no próprio jornal A Gazeta de Campinas, do ano de 1883, encontram-se informações a respeito do colégio funcionando naquele ano. Fechado em 1885, contam-se, então, vinte e três anos de funcionamento.

Em 10 de agosto de 1886, foi apresentada uma demanda na sessão da Câmara Municipal de Campinas propondo a mudança do nome da Rua da Boa Morte para Rua Antônio Cesarino. Mas, ao que tudo indica, o pedido ficou arquivado por alguns anos até que, em 13 de janeiro de 1899, foi unanimemente aprovado. Ao que consta, mais tarde um vereador quis mudar o nome da rua, mas Antônio Lobo não deixou: enquanto existir um membro da família Cesarino. Como existiam muitos deles e existem até hoje, pode-se ver no centro da cidade de Campinas, bem próxima à Prefeitura, uma rua estreita, com a placa azul anil pregada ao poste, onde se lê em letras brancas: Rua Antônio Cezarino. De todo modo, Cesarino não pôde receber a homenagem concedida a ele em 1899, pois faleceu em 2 de novembro de 1892.

Referências:

BARBOSA, Irene Maria Ferreira. Enfrentando preconceitos: um estudo da escola como estratégia de superação de desigualdades. Campinas: Área de Publicações CMU/UNICAMP, 1997.
KABENGELE, Daniela do Carmo. A trajetória do “pardo” Antonio Ferreira Cesarino (1808-1892) e o trânsito das mercês. Campinas: IFCH – Unicamp [Tese de doutorado], 2012.
LAPA, José Roberto do Amaral.
A cidade: os cantos e os antros, Campinas: 1850-1900. São Paulo: Editora da Universidade de São Paulo, 1996.
RELATÓRIO do Presidente da Província de São Paulo de 1865.
RIBEIRO, Arilda Inês.
A educação feminina durante o século XIX: O Colégio Florence de Campinas (1863-1869). Campinas: Área de Publicações CMU/UNICAMP, 1993.

CONHEÇA: as teses e dissertações estão disponíveis no Repositório da Produção Científica e Intelectual da Unicamp: http://repositorio.unicamp.br  

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