O Condor (1891)

Maria Luiza Silveira Pinto de Moura* – escritora, pesquisadora. Patronesse da Cadeira 37 do IHGG Campinas e Décio Silveira Pinto de Moura* – escritor, psiquiatra. 

Resumo:

O Condor foi escrito por encomenda do Teatro Scalla, por ocasião em que voltou a Milão, Itália, após deixar o cargo de diretor do Conservatório do Rio de Janeiro, logo após a proclamação da República, em novembro de 1889. Carlos Gomes era visto como protegido da monarquia brasileira. Nessa época surgiram a sua doença e do filho Carlos André. De 1889 até 1896, ano de sua morte, Carlos Gomes sofreria repetidas desilusões.

The Condor (1891). Carlos Gomes’s Opera.

Abstract: 

Condor was written by order of Teatro Scalla, when Carlos Gomes returned to Milan, Italy, after leaving the post of the Conservatory of Rio de Janeiro director, after the Brazilian republican government became (November, 1889). Carlos Gomes was seen as protected from the Brazilian monarchy. At that time his worst illness and that of his son Carlos André emerged. From 1889 to 1896, the year of his death, Carlos Gomes would suffer repeated disappointments.

* * *

Carlos Gomes retornou para a Itália nos princípios de 1890. Ele e os filhos foram então residir em um apartamento na rua Morone, 8, quarto andar. A nova residência, perto do Teatro Scalla em Milão, tinha como principal atrativo de admiração um belo parque florido e ornado de árvores frondosas, ao lado do Museu Trivulzio. As verdejantes castanheiras e os plátanos que ocupavam o imenso jardim remetiam ao pensamento e a imaginação do Tonico à carinhosa sensação de saudade das florestas do Brasil e a de sua antiga residência de Maggianico.
Sua filha Ítala deixou-nos uma descrição dos seus aposentos:
“Ele arranjou, então, seus aposentos e o studio com maior esmero, acompanhado sempre pelos seus inseparáveis pássaros canoros, dos chifres de touro e de todos aqueles objetos e atributos característicos, que lhe lembravam o Brasil… o Brasil… sempre o Brasil! Sobre o piano tinha ao lado das partituras enorme cesto feito com o casco de um tatu gigante, cheio de miscelânea de frutos de sapucaia, bagos de urucuri, que colhia em suas excursões pelas matas brasileiras”.
Em março de 1890, Francisco Glicério escreveu-lhe. Mais uma desilusão. O governo republicano negara-se atender ao seu pedido e ao de Maria Monteiro para reconsiderar o corte de suas pensões.
Todavia, nesse momento de angústia, a diretoria do Theatro Scala solicitou-lhe uma nova ópera para ser levada à cena na temporada lírica de março ou fevereiro de 1891. Assim teria de três a quatro meses apenas para compor a ópera.
Um de seus biógrafos, o jornalista Jolumá Brito, assim escreveu:
“… Carlos Gomes pôs imediatamente mãos à obra. Dia e noite, encerrado no seu studio, ali passava, às vezes, sem se alimentar, tomando continuamente café e mais café… Não queria prosa, não atendia aos amigos, para que no prazo estipulado, pudesse entregar a nova encomenda. Sentia dores na garganta. Seria da “Sigarilha Virginia” — ou seja, charuto da Virginia que fumava? A piteirinha na ponta do charutinho, de quando em vez, feria-lhe a ponta da língua, produzindo um ardor que o incomodava bastante. Mas teria tempo para se tratar depois. Primeiro cuidaria do trabalho que era o mais importante! Afinal, um mês depois, o Condor estava pronto! Os diretores do Scala ficaram boquiabertos quando Antônio Carlos lhes anunciara que a ópera, com algumas corrigendas, dentro em dias lhes seria entregue.”
Carlos Gomes, no começo, sentia um leve incômodo na garganta, e uma dor no ouvido esquerdo de pequena intensidade, mas devido à urgência para terminar a nova ópera, ele iria procurar o Dr. Marzari, seu médico, mais tarde… (LIMA, p. 165-66).

O libreto foi escrito por Mário Canti e o enredo está ligado ao século XVII, na propriedade da rainha Odaléia, de Samarcanda, onde se veem um quiosque, um terraço e o acesso ao jardim. Adin, pagem da rainha deitado em um banco, canta alguma melodia que acompanha em guitarra. Adin repele algumas favoritas que surgem e fazem pilhéria contra ele. Alguns lenhadores surgem no palácio, correndo, aparentemente amedrontados, quando se ouve um sinal de alarme e todos se voltam para o fundo do terraço, de onde surge Almazor, quem dá a notícia de que há alguém tentando violação do sagrado santuário de Odaléia.

A rainha diz não crer na notícia e se dirige ao jardim. Enquanto Adin observa a rainha e confessa sua admiração por ela nunca ter amado. Ouve-se de longe uma voz que cantando pergunta se a águia foi criada pelo sol ou pelas estrelas. Almazor afirma que o aventureiro já entrou na propriedade e deverá morrer. Almazor é um astrólogo caldeu.

Ouve-se a mesma desconhecida voz cantar a roubarei a Deus asas para ensiná-las a voar. Odaléia ordena que se retirem todos para que ela enfrente sozinha o aventureiro. Vai para o fundo, depara-se com um estranho, vacila e retorna, mas ele se lança de joelhos aos seus pés. É Condor, chefe de algumas hordas negras, quem exclama: Finalmente contemplo-te, astro ideal do amor!

A rainha exige que se identifique e que se apresse em explicar a que se deve tal ousadia. Condor responde que desejou vê-la novamente antes que fosse morto, pois ficara perdidamente tomado por paixão depois que a avistou no dia do grande perdão. Odaléia contesta que cem punhais lhe apontam o corpo para castigar-lhe a violação. Ele toma de seu punhal e lhe oferece, afirmando que ela deve castigá-lo por ser a ofendida.

A rainha afirma que ele será perdoado, pois as sultanas somente matam os homens por amor ou ódio. Diz-lhe que fuja, mas Condor se nega. Todos acorrem contra ele e Odaléia com um gesto os detém, dizendo aos súditos que ele está perdoado por ser louco. E sobe ela as escadas enquanto Condor fica parado em êxtase.

O segundo ato tem início na mesquita de Omar, nome que homenageia o profeta que sucedeu a Maomé. Na planície ao fundo da mesquita conversa o povo censurando Odaléia por ter perdoado Condor. Zuleide, uma nômade, ao passar ouve o murmúrio do povo. Todos se dirigem à mesquita em atenção à hora da prece e Zuleide ainda impreca contra o povo que pretende a morte de seu filho, também prometendo que antes ela há de incendiar templos e palácios.

Depois, desistindo de aproximar-se da rainha, como andarilha, dirige-se ao deserto e lá arma uma tenda esperando amparar Condor quando ele para lá se dirigisse fatigado pelas lutas. Comparece Condor à tenda, em companhia de um sequaz e ambos armados. Zuleide que se escondera, reaparece e reconhece o filho no que é correspondida. Ambos recordam o tempo em que viviam juntos e demonstram saudade. Pouco antes do aparecimento ouve-se Condor afirmar que pensa somente em Odaléia como obsessão, afirmando estar mudado após ser tomado por este sentimento. Sua confissão foi ouvida por Zuleide.

Nesse instante chegam a eles as vozes da rainha em pedido de socorro. Condor decide acudi-la e, apesar de Zuleide tentar alertá-lo ele parte. O povo a deixa na mesquita em companhia do mufti. Adin conta que uma horda selvagem tentou sequestrar Odaléia e ela foi salva por um desconhecido. Chega sobre um palanque carregada por escravos a rainha Odaléia, quem pergunta pelo seu salvador dizendo estar tomada por um pressentimento.

Entra em cena Condor, desarmado e feito prisioneiro, sem resistência, ao ser reconhecido como chefe das hordas negras. Enquanto a rainha diz que ele é louco, não chefe, chega Zuleide para garantir que ela foi salva por Condor e o declara filho do sultão Amurah. A rainha fica emocionada e diz que já notara não ser Condor um homem comum. Mas, o mufti e o povo exigem a morte de Condor, quem afirma o feito de salvá-la, mas acrescenta que por sua ordem aceita morrer. Todos querem matá-lo, mas Odaléia o proclama emir das suas tropas. O povo protesta pensando-o salteador e ainda exige a morte ao invés de tê-lo junto ao trono, Condor ajoelha-se diante da rainha em juramento de amor.

O ballet Ciranda dos Astros não constava da ópera na estréia, em 1891 e foi composto em 1892, constando da estreia no Rio de Janeiro. Pertence ao segundo ato e transcorre na praça, diante da mesquita de Omar, na cidade de Samarcanda, que ao que consta foi destruída por Gengis Khan.

A Ciranda dos Astros faz referência ao fato de ter a rainha Odaléia dividido a liderança do reino com astrólogos e religiosos islamitas. O ballet ocorre enquanto aguardavam a chegada da rainha. Após a chegada ela é saudada pela Marcha Tártara, marcha que permite presumir pertencer a esse povo, os tártaros, habitantes da antiga Tartária que estava situada ao norte da China, para além da muralha e por grande parte da Sibéria.

O terceiro e último ato ocorre novamente em palácio, onde Odaléia se mostra agitada dado o comportamento do povo. Já se vê tomada por amor. Adin canta a estória da pomba que se apaixonou por um gavião. Chega Almazor, Odaléia mostra desespero e adentra o palácio o que provoca as zombarias de Adin. Entra Zuleide para tentar levar Condor do local, mas este afirma que deve permanecer com Odaléia porque ela corre perigo.

Na ocasião chega Almazor para insultar Condor e este responde que a sorte de Almazor está presa nas suas mãos. Zuleide ainda insiste com ele e Condor promete voltar ao deserto quando a situação for resolvida. Adin faz pilhérias contra todos e Zuleide se retira.

Odaléia chega, Condor faz Almazor sair e Adin ouve de Odaléia a confissão de que ama Condor, pois abraçados ambos se declaram. Mas, o povo ainda está descontente e quer a morte de Condor.

Condor diz a rainha que devem fugir e ela mostra os clarões do incêndio da cidade e também a multidão que deseja matá-la. Condor promete salvá-la e se mata com o punhal. Quando a multidão invade a cena, a rainha joga contra todos o punhal de Condor e encerra a peça dizendo Despedaça-se agora o meu coração. O povo se retira.

A ópera O Condor foi um enorme sucesso de público e crítica. 

* In memoriam.

Referências:

LIMA, Jorge Alves de. Carlos Gomes. Sou e sempre serei: o Tonico de Campinas. Campinas: Solution Editora, 2016. 1o Volume, 340 p.

MOURA, Maria Luiza S. Pinto de e MOURA, Décio Silveira Pinto de. Os ballets na ópera de Carlos Gomes. (s.d.). Ilustrações de Egas Francisco. Campinas : Cia. Aluminis. 62p. (pp. 47-50).

 

Ópera do Meio Dia no Theatro Municipal do Rio de Janeiro. Ópera Condor de Carlos Gomes. Voz e Piano.

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