Lo Schiavo (1889)

Maria Luiza Silveira Pinto de Moura* – escritora, pesquisadora. Patronesse da Cadeira 37 do IHGG Campinas e Décio Silveira Pinto de Moura* – escritor, psiquiatra. 

Resumo:

O tema é baseado na obra original de Alfredo d’Escragnolle Taunay, o Visconde de Taunay (1843-1889). Foi reproduzida recentemente no Brasil, em Campinas, com a Orquestra Sinfônica Municipal e com cantores líricos locais. Foi levada à cena pela primeira vez e com esplêndido sucesso em setembro de 1889, no Rio de Janeiro, como homenagem à princesa Isabel, a Redentora.

The Slave (1889). Carlos Gomes’s Opera.

Abstract:

The theme is based on original short story by Alfredo d’Escragnolle Taunay, the Viscount of Taunay (1843-1889). The opera was recently reproduced in Campinas, SP, by the Municipal Symphony Orchestra and local lyrical singers. It was first performed with splendid success  in September 1889, at Rio de Janeiro, in honor of Princess Isabel, the “Redeemer”.

* * *

O escravo é um drama lírico que se desenvolve em quatro atos, cujo libreto foi escrito por Rodolfo Paravicini, que se baseou em peça de autoria de Taunay. Segundo consta, o autor do libreto modificou o enredo e desentendimentos surgiram entre ele e o compositor.

Consta que, ao decidir por outra obra cujo tema versasse sobre algo nacional, ele teria dito, todavia, que faria obra a onde não houvesse bugres. Contudo, ao atender a sugestão de seu amigo Taunay acabou aceitando a peça onde os principais personagens negros são substituídos por indígenas, por imposição do autor do libreto.

Quem lesse o título da ópera e soubesse que Carlos Gomes, embora não ativista, tinha ideia abolicionista, poderia pensar que a história descreverá o que de desumano e genocida acontecia com a escravidão. Todavia, o nosso maestro estava compondo ópera para frequentadores de teatro europeu. Apesar de que o manifesto de F. Engels e K. Marx tenha sido publicado em 1848, essa gama de população não se interessava por causas sociais. Seu núcleo de interesse estava voltado para estórias de amor e, o quanto possível, bem dramáticas. Ora! Assim sendo, temos mais uma estória de amor que ocorre no ano de 1567.

No primeiro ato é focalizada a fazenda do conde Rodrigo, próxima ao rio Paraíba, na qual aparece o terreiro, por onde cruzam os escravos, uma capela rústica, a casa do feitor e ao fundo a colônia. Enquanto camaradas e capangas vão enfeitando a fazenda, sob vergastadas do feitor Gianfera, comentam a desconfiança de que tudo se prepara para uma festa nupcial. E dizem que é mais um casamento sem amor, coisa não rara.

Américo, filho do conde, ama Ilara, índia mantida em casa como doméstica. Mas o pai não quer permitir o casamento de seu filho com uma escrava. Américo é oficial da marinha portuguesa e o pai ordena que ele vá juntar-se à armada, empenhada em luta na baia de Guanabara contra os tamoios, que se haviam rebelado. Diz o pai para Américo que, como fidalgo, militar e patriota, tem como dever lutar e vencer o inimigo.

O filho interroga sobre Ilara e ele responde que depois, veremos… o que leva Américo a crer que teria permissão para casar-se após a missão militar. Despede-se de Ilara e, para praticar boa ação, solta as algemas e liberta o índio Iberê, preso pelo feitor Gianfera. O escravo ajoelha-se para agradecer e lhe beija a mão jurando eterna lealdade. Américo aperta a mão do índio e lhe promete que libertará todos os escravos, para espanto dos que ouvem.

Assim que o jovem partiu, Gianfera manda novamente prender Iberê e também Ilara. Os dois são arrastados para capela e lá se leva a efeito o casamento de ambos, conforme ordem dada pelo conde Rodrigo e contra a vontade deles. E assim pensou Rodrigo ter impedido o casamento de Ilara com seu filho.

A ópera é rica musicalmente e neste ato já se salientam as árias como a que canta Iberê: In aspra guerra e o dueto de Américo e Ilara.

O segundo ato se passa na fazenda da condessa de Boissy, em Niterói, onde estão terminados os preparativos da festa a ser realizada em que a condessa concederá liberdade aos escravos que lhe pertencem. Chega antes Américo, ainda fardado de oficial, e é recebido pela condessa que confessa seu amor. A condessa seria a esposa prometida a Américo por seu pai. Américo deixa a condessa perceber que já tem um amor, o que a decepciona. Américo está confiante em pedir ao pai permissão para casar-se com Ilara, pois a missão militar foi cumprida.

A condessa ainda pretende saber do segredo do amor de Américo e está irritada. Por ocasião em que Américo e a condessa dialogavam, Américo quer um momento a sós esperando falar com o conde.

Rodrigo, referindo-se sobre a mão de Ilara, canta a ária mais conhecida da ópera que se inicia por Quando nasceste tu?

Seguem-se danças e a festa atinge sua plenitude quando a condessa intervém para anunciar, que por ser francesa, não aceita a escravidão e que os escravos que comprou foram adquiridos somente pelo desejo de dar-lhes a liberdade. E a ocasião em que se ouve o hino da liberdade. E a condessa ordena que entrem os escravos libertos.

A surpresa de Américo foi grande ao ver entre os escravos libertos Ilara e Iberê. E não tardou que se revelasse para ele surpresa ainda maior. Ilara é esposa de Iberê. Nesse momento há confusão na sala porque Américo se sente traído por Iberê e o insulta. O escravo pretende esclarecer os fatos, mas diante de um gesto do conde Rodrigo, obedece e silencia. Ilara confirma o casamento e somente a grande emoção que tomou Américo permite entender que ele não tivesse condição para ser mais reflexivo e entender que seu pai havia preparado o ardil. Américo investe contra Iberê para matá-lo e é contido pelo conde Rodrigo, e este faz o casal retirar-se da sala e fugir.

A condessa Boissy ainda ironiza ao saber que sua rival era uma escrava, ao mesmo tempo que se decepciona com os valores de Américo, quem coloca no mesmo nível uma nobre e uma índia. Nos tempos atuais podem muitos leitores não entender a distância em que se punham essas classes sociais. Américo, ao retirar-se, ainda conserva a intenção de esclarecer tudo e vencer o problema.

O terceiro ato se inicia mostrando duas cabanas situadas na floresta próxima a Jacarepaguá, onde moram próximos Ilara e Iberê lamentando a grande tortura de Ilara e a saudade que conserva de Américo seu grande amor. Seu companheiro ainda lhe fala que Américo talvez a tenha esquecido e tenta mostrar-lhe a desigualdade, convencendo-a de que tal casamento seria inviável. O diálogo prossegue entre os dois, tentando Iberê mostrar a Ilara que ela é cruel nos seus sentimentos já que ele é seu marido. Ilara declara que ainda ama Américo dizendo: Egli è tutta la mia vita. Egli è il sol che m’ ha irradiato! Iberê afirma a Ilara que ela lhe está inspirando ciúme e ira. Ilara lhe responde com violência que ele pode virar em direção a ela o instrumento da sua vingança, quando ele apontava para ela o punhal.

Na terceira cena do ato Iberê canta a ária Fragile cor di donna, em que cogita de alguma vingança. E, quando ouve o soar de uma trombeta indígena, que, por ser guerreira, chama a sua atenção. Em seguida aparecem alguns tamoios sediados à margem do rio Paraíba. Lembram-lhe que muitas batalhas enfrentaram juntos e o convidam para ser seu chefe, tanto para combater os invasores de nossas terras, como para saquear a fazenda do conde Rodrigo, administrada pelo feitor Gianfera.

Surge Ilara, apresentada aos demais por Iberê como sua fiel companheira. Esta ainda interroga Iberê sobre o que se passa, Iberê lhe responde que Tupã guiou os companheiros para que o encontrasse. Ao saber Ilara a intenção de extermínio da fazenda onde fora criada mostra desejo de ficar ao lado de Iberê, mas com desejo de salvar Américo. De fato, os índios proclamavam Iberê seu chefe e em clima de guerra termina o terceiro ato. Na sexta cena Ilara canta a ária Guerra spietata e morte. No final do ato ao ouvirem a aproximação da armada portuguesa, os índios decidem esconder-se e Ilara pensa salvo egli è e tenta juntar-se aos portugueses.

Inicia-se o quarto ato em planalto da Guanabara, para onde se retiram os tamoios, após a batalha travada. Dialogam mostrando-se descontentes com Iberê por não ter sido cruel com os inimigos, como exige a tradição dos tamoios. Iberê tranquilo, a sós, canta a ária Sospettano di me, em que confessa tudo possuir menos o amor de Ilara e que por esse amor trocaria tudo. Parece não lhe interessarem as suspeitas dos companheiros que estão em véspera de considerá-lo traidor e eliminá-lo. Ouve-se então a inesquecível Alvorada que descreve o amanhecer na floresta. Ilara está arrumada como guerreiro e olhando a espada portuguesa canta a ária Come confida, em que mais uma vez refere-se ao grande amor. Aproxima-se Iberê, mas Ilara torna a repeli-lo. Iberê já sente que seu amor está mais forte.

Surgem junto a Iberê os tamoios com um prisioneiro. É Américo. Iberê quer ficar a sós com o prisioneiro sob pretexto de interrogá-lo. Os guerreiros ao deixarem a cena advertem Iberê que será morto caso liberte o prisioneiro.

Ainda ressentido Américo acusa e insulta Iberê. Este responde que Américo lhe roubara o amor de Ilara e lhe tirou a paz de espírito. Américo avança para Iberê e é contido por Ilara, quem o defende, fato que se torna mais enigmático para Américo. Iberê em grande angústia e humilhado relata para Américo a verdadeira estória do casamento urdido por seu pai Rodrigo e afirma terem vivido, Ilara e ele como irmãos e que ela nunca foi tocada, apesar do amor que lhe dedica, impedido, todavia, pela gratidão a Américo.

Américo se mostra comovido e Iberê tomando da mão de Ilara entrega-a a Américo e aconselha-os que fujam. Iberê ainda olha ambos ao longe, quando surgem os índios desejosos de vingança contra Américo já ausente. Iberê desfaz-se das insígnias de guerreiro ao apunhalar-se e proclama que no mundo novamente o amor venceu. Diz ainda aos guerreiros que ele lhes prometera uma vida, então entrega a dele. Encerra-se a ópera considerada como um dos pontos culminantes de produção artística de Carlos Gomes, pela composição musical que apresenta inovações harmônicas ao lado de primorosas linhas melódicas.

* In memoriam

Referência bibliográfica: 

MOURA, Maria Luiza S. Pinto de, e MOURA, Décio Silveira Pinto de. Os ballets na ópera de Carlos Gomes. (s.d.). Ilustrações de Egas Francisco. Campinas : Cia. Aluminis. 62p. (pp. 41-46).

Opera Lo Schiavo de Antonio Carlos Gomes em versão concertante com a Orquestra Sinfônica Municipal de Campinas (OSMC) sob a regência do Maestro Victor Hugo Toro.

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