Sabores poéticos: a comida na poesia popular nordestina

Maria Vitória de Rezende Grisi – mestranda do programa de Teoria e História Literária do Instituto de Estudos da Linguagem (IEL) – Unicamp.

Resumo:

Este artigo apresenta os percursos e resultados de uma pesquisa acerca do retrato da comida na poesia popular nordestina. Estimulada por um convite para a palestra Saberes sertanejos: gastronomia e poesia popular, parte desta pesquisa foi construída a quatro mãos – as minhas e as de Ana Rita Dantas Suassuna – e aborda uma série de poemas que retratam a alimentação a partir de dois principais extremos: a comida e a fome.

Poetic flavors: food in northeastern popular poetry

Abstract:

This paper intends to present the paths and results of a research about the portrait of food in northeastern popular poetry. An invitation to the lecture Backland knowledge: gastronomy and popular poetry drove this research, and it was built with the help of researcher Ana Rita Dantas Suassuna. It addresses a series of poems that portray feeding on two main extremes: food and hunger.

* * *

Confesso que me senti lisonjeada quando recebi o convite de Eliane Morelli Abrahão para participar de um evento com a pesquisadora Ana Rita Dantas Suassuna. O título do colóquio era: Saberes sertanejos: gastronomia e poesia popular e fiquei encarregada de abordar a maneira de como a comida costuma ser retratada na poesia popular nordestina. Durante a minha – ainda curta – carreira acadêmica, dediquei meus estudos a essa poesia, mas nunca havia parado para pensar na alimentação como um tema de estudo dentro dela.

Aceitei o desafio sabendo que ele se encontrava, de certa forma, fora da minha zona de conforto. Então, todos meus esforços foram concentrados em colher material o suficiente para que tivéssemos uma conversa saborosa a respeito da poesia e da comida nordestina, mais especificamente do sertão de Pernambuco, região que estudo.

Não demorou muito para que, em minhas pesquisas, fosse descobrindo que a alimentação era algo muito recorrente na poesia e que era possível encará-la a partir de dois extremos: comida e fome. Portanto, daquele momento em diante resolvi focar minhas leituras na busca por esses dois elementos e como eles eram retratados nos versos. O que compartilho neste artigo são os caminhos percorridos durante a pesquisa e as minhas conclusões. É preciso reforçar que as conclusões dizem respeito a abordagem da alimentação apenas na poesia popular, de forma que não podem ser replicadas à alimentação nordestina como um todo e as formas de representá-la.

Desde 2015, meu segundo ano de gradução em Estudos Literários, venho estudando a poesia popular nordestina a partir de uma série de fatores: seu contexto, sua reprodução e, inclusive, sua ausência (ou ainda, seu pequeno espaço) no ensino de literatura brasileira, tanto nos níveis fundamental e médio, quanto no superior. Iniciei meus estudos com a Literatura de Cordel e com o passar do tempo expandi minha visão sobre o universo da poesia popular nordestina e carreguei este tema para o mestrado com o projeto: A criação poética no Sertão do Pajeú e as relações entre identidade e estética.

O Sertão do Pajeú é uma região localizada no interior de Pernambuco e foi batizado em homenagem ao rio homônimo e sazonal que cruza toda sua extensão, nascendo no município de Brejinho e se juntando ao famoso Riacho do Navio no município de Floresta. O Rio Pajeú carrega uma potência imagética e simbólica muito maior que a potência de suas águas, já que ele fica praticamente seco durante grande parte do ano e, em tempos de seca severa, quase desaparece. Entretanto, esta sazonalidade e a seca não impediram que ele se tornasse o principal elo do imaginário poético da região.

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Mapa de Pernambuco com o Sertão do Pajeú destacado

O Rio Pajeú ilustra uma série imensurável de poesias. Reza a lenda que ele é fonte abençoada de inspiração poética e que a tradição da poesia nasceu conforme o povo bebeu de suas águas. A influência dessa lenda é tão grande, que o rio se torna peça chave para entender a efervescência poética daquele sertão e o poder de suas águas torna-se mito fundador da poesia.

Mas e nesta pesquisa, onde encontra-se o rio? É quando falamos de alimentação que a importância dele se torna muito clara. Durante a pesquisa, para localizar na poesia as referências sobre comida, foi possível perceber como a sazonalidade do rio vem impactando a região há anos, mas como o descaso político piora a situação da seca e de escassez. Se é o rio e as suas águas que nos remetem a alimento e abundância, é a seca que nos lembra da fome.

A seca

Por Leonardo Bastião

[…]
Se a seca empurrar o pé
Vai se acabar manga e uva
São Pedro não manda chuva
Só chove se Deus quisé
E eu vou roubar São José
Pra chover no ano novo
Mas vai ser seco de novo
Que uma voz já disse a mim
Que Deus ta perto de vim
Tirar o couro do povo.

As secas

Por Vinícius Gregório

É a seca matando nosso gado
E o governo a achar tudo normal…
Por preferem falar em copa, em festa.
Isso aí dá mais voto, é mais legal.
E essas secas se encaixam feito luva:
Pois se vê no Sertão seca de chuva:
Nos políticos, seca de moral.

Cada esfera que culpe a outra esfera
O prefeito que diz que nada fez,
Pois o líder do estado é quem devia…
Esse aí, pra fugir, por sua vez,
Joga a culpa no líder da nação,
Entretanto, nos tempos de eleição,
Vêm os três pedir voto para os três.

O poema de Leonardo Bastião, escrito em décima (estrofe de 10 versos), é o desabafo sobre um futuro previsível de seca. O poeta, residente de Itapetim (PE), hoje com 76 anos, teve uma vida muito simples e sua família, assim como tantas outras do sertão, morava em um sítio e sempre dependeu das chuvas para se alimentar. Em seu livro Minha herança de matuto – publicado a partir dos registros orais de sua poesia – a fome e a pobreza são temas recorrentes. Já Vinícius Gregório é um poeta da geração jovem e aborda a seca a partir de um viés de descaso político, que não é inédito, mas continua urgente. As secas foi escrito em em setilha (estrofes de 7 versos), Vinícius traz uma visão da seca que se une àquela de Josué de Castro em Geografia da fome e que foi retomada por Roberto Marinho Alves da Silva em seu artigo Entre dois paradigmas: combate à seca e convivência com o semi-árido:

Em sua Geografia da Fome, Josué de Castro denuncia que a seca foi feita vilã do drama nordestino, acobertando as formas dominantes da exploração econômica que criaram e reproduziram a concentração das riquezas e do poder político, gerando miséria e dependência de milhares de sertanejos. A concentração fundiária e a exploração da mão-de-obra dos sertanejos têm destaque na explicação da manutenção da miséria na região semi-árida. (SILVA, 2003, p.362)

Então, falar de seca é falar sobre um projeto político, mas é, também, – e agora retornando às pesquisas deste artigo – falar sobre sua outra face: a comida. A celebração da comida na poesia aparece como forma de resistência, energia, força e afeto. Enquanto por muito tempo prestei atenção apenas na fome e na seca como temas recorrentes, foi a partir desta pesquisa que percebi que a comida também é uma constante e que cada poeta a aborda, mesmo que de maneira sutil, de alguma forma.

Vinícius Gregório, o mesmo poeta de As secas, apresenta no mesmo livro os seguintes versos:

Galope Diferente

[…]
E eu me orgulho muito de ser do Sertão,
Que apesar das secas e do sofrimento,
Seu povo consegue transformar lamento
Em risos, em fé, em trabalho e em canção…
Consegue tirar do tão seco torrão:
Feijão, milho e fava, pra sua saúde…
Retiram da dor em maior plenitude:
Muita inspiração para o seu dia-a-dia.
– Sertão, sofrimento, fé, força e poesia –
Nos dez de galope na beira do açude
[…]

O feijão, o milho e a fava me passariam desapercebido, porém dialogando com Ana Rita Dantas Suassuna compreendi a importância destes grãos para a alimentação sertaneja. É possível reconhecer aqui a comida como resistência à seca e o povo como agente transformador, através do trabalho, deste solo infértil em algo rico. Apesar da aparente sutileza ao abordar os grãos, a importância atribuída a eles, não só nesse poema, mas na vida do sertanejo, é clara, o eu-lírico não é melancólico – apesar de tratar das dificuldades descritas –, ele assume um tom de esperança e determinação.

Para além desta alimentação rica em energia, que o sertanejo celebra por tirar muitos da situação de fome, foi possível identificar também a comida afetiva, aquela que remete a tempos de infância e tradições alimentares:

Ah! Se meu pé de serra falasse!

Por Andrade Lima

[…]
Nosso rancho – uma simples latadinha,
Bem cercada com pau de marmeleiro.
Lembro que pai fazia bem ligeiro,
Um café pra tomar e a farofinha,
Ou cuscuz sempre tinha e com “rolinha”,
Misturava e comia satisfeito,
Rapadura, alfenim, mel ou confeito,
Combatiam da fome – a triste guerra.
[…]

Essa estrofe apresenta uma série de elementos que remetem a afetividade: o antigo rancho em que o eu-lírico vivia, o costume do pai de fazer o café e a diversidade de alimentos que matavam a fome, colocada por ele como uma triste guerra. Durante a palestra, Ana Suassuna contou que a caça foi um alimento essencial para a sobrevivência no sertão, sendo representada pela rolinha nesse poema. De acordo com seu livro Gastronomia Sertaneja (2010), as caças são conhecidas como de patas ou de penas, sendo a primeira permanente e a segunda de migração. Ela ainda relata a existência de uma crença que diz que aquele que come o coração cru de um passarinho se torna exímio caçador, o que nos mostra não só a importância desse alimento à mesa, mas também para o imaginário.

Além da caça – a rolinha –, o cuscuz ou a farofinha (farinha) também ajudavam a dar sustância para a alimentação. Já os elementos como a rapadura, o alfenim, o mel e confeito eram os doces derivados de açúcar que costumavam estar presentes nas casas do sertão. Segundo a pesquisa e o próprio eu-lírico, esses doces fazem parte de uma memória coletiva da infância sertaneja, sendo que muitas pessoas recordam o processo e o ofício de fazê-los.

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Alfenim

Na poesia, portanto, não poderia ser diferente: falar de comida é necessariamente falar de costumes e tradições. Tanto no folheto de Andrade Lima, quanto no próprio livro de Ana Rita Dantas Suassuna, o alimento aparece como sendo um fator entre tantos que compõe a tradição gastronômica do sertão. O aspecto climático, as ferramentas, os processos e os rituais são todos elementos que resultam em uma gastronomia única e muito ligada ao respeito à comida.

Sertão teu, sertão meu, sertão de nós

Por Isabelly Moreira

[…]
Beber água de pote e de quartinha,
Jantar boa coalhada com farinha,
Descansar numa rede e, logo após,
Conversar co’os vizinhos na calçada,
Sob a benção da noite enluarada:
Sertão teu, sertão meu, sertão de nós
No domingo ir à missa bem “cedim”…
Sábado é dia do povo fazer feira:
Comprar carro de lata, baladeira,
Quebra queixo, castanha e alfenim,
Tomar caldo de cana e, com certeza,
Se tiver em jejum, dá na fraqueza,
Dá moleza no corpo, até na voz…
Igualmente um pirão de meio dia,
Quente e gordo pra ter mais energia:
Sertão teu, sertão meu, sertão de nós.

A poesia popular, como encontrada na região do Pajeú, diferente da erudita, é capaz de narrar com simplicidade uma tradição e transformar em linguagem poética aquilo que muitos consideram banal. Parte da razão pela qual essa poesia se faz tão presente no cotidiano dos moradores da região é a questão identitária: os pajeusenses conseguem se enxergar dentro da poesia e ela fala diretamente a eles. A partir dessa pesquisa, concluí que a alimentação pode ser um forte elemento de identificação, seja pelo viés fome/comida, seja pelo seca/abundância. Ela é recorrente na poesia porque é um tema relevante para quem consome esses versos.

Criei, então, uma nova forma de olhar para a poesia e para os retratos da alimentação sertaneja. Em nenhuma das minhas duas viagens de campo realizadas ao Sertão do Pajeú coloquei a alimentação como tópico de pesquisa e, apesar de ela não ser o foco do meu mestrado, consigo enxergar agora um novo elemento de estudo e uma nova fonte de dados. Futuramente, ao retornar ao Sertão do Pajeú, com certeza meu olhar renovado agregará a comida e as práticas alimentares do sertanejo como formas de identidade.

Bibliografia:

BASTIÃO, Leonardo. Minha herança de matuto. 1a. ed. [Itapetim]: [s.n]. 2018.
LIMA, Andrade. 2013. Ah! Se meu pé de serra falasse! [Folheto] / Andrade Lima. [Tabira]: Cordel Improvisado, 2013.
MOREIRA, Isabelly. Canta Dores. 1a. ed. Teresina: Halley, 2017.
SILVA, Roberto Marinho Alves da. Entre dois paradigmas: combate à seca e convivência com o semi-árido. Sociedade e estado, v. 18, n. 1-2, p. 361-385, 2003.
SUASSUNA, Ana Rita Dantas. Gastronomia Sertaneja. São Paulo: Melhoramentos, 2010.

Imagens:

Imagem 1: Mapa de Pernambuco com o Sertão do Pajeú destacado: disponível em <https://pt.wikipedia.org/wiki/Ficheiro:Brazil_Pernambuco_location_map_Micro_Paje%C3%BA.svg> Acesso em 18/06/2020.
Imagem 2: Alfenim: disponível em <https://www.tripadvisor.com.br/LocationPhotoDirectLink-g3168939-d7322730-i322369231-Engenho_Sao_Lourenco-Agua_Branca_State_of_Alagoas.html> acesso em 18/06/2020.

4 comentários

  1. É um trabalho brilhante
    E toda essa sintonia,
    Tem um poder relevante
    Para nós no dia a dia!
    O Pajeú agradece,
    Pois tudo isso enriquece
    O sabor da poesia!

    Parabéns!!!

    Andrade Lima
    03/09/2020

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