Sensibilidades da quarentena: Escritos ascéticos: (III)

Quarantine feelings: Ascetic writings: (III).

Luiz Carlos Ribeiro Borges – magistrado, escritor. Titular da Cadeira 3 do IHGG Campinas.

Quatro ou cinco coisas que (não) sei sobre Will

Declaração de princípios (ou de fins)

Digo o que não sei. Escrevo sobre o que não sei. Exponho, a partir de minhas leituras, dúvidas; ou, quando muito, suposições, suspeitas. Formulo alguma tese, como tal, sujeita a antíteses. Escrever, em suma, é uma forma de me apropriar do que não sei, de torná-lo meu.

Neste período de confinamento (em que a cidade e suas ruas se resumem à paisagem contemplada desde a sacada do apartamento), as temáticas se ampliaram. Mais do que nunca constato o quanto não sei, o tamanho de minha insciência.  Uma leitura conduz a outra, e a outra, e a outra, numa sucessão interminável e obsessiva, indisciplinada. No mesmo ritmo os discursos se expandem. Acordo no meio da noite compondo frases. Como estas.

Para aflição de meus desditosos companheiros.

Shakespeare em Joyce

Assisti pela TV ao filme A pura verdade, dirigido pelo também ator Kenneth Branagh. Trata do retorno de William Shakespeare (interpretado pelo próprio Branagh) à sua terra natal, Stratford, após vinte anos de ausência, quando se encontra com a esposa, Anne Hathaway (Judi Dench), com as filhas, Susanne e Judith – e com a memória do filho, Hamnet, morto ainda menino e, para seu remorso, durante a sua ausência.

É um filme melancólico, crepuscular, algo como um ajuste de contas com o passado, com os ressentimentos familiares, com a vida mundana em Londres e, já agora, com a renúncia a continuar escrevendo – por parte de quem, como ele, Shakespeare, sacrificou a vida em família pela aventura de se dedicar à arte e de, através dela, ser louvado e glorificado.

Por razões inicialmente não muito claras, o filme me conduziu a uma parcial releitura, ou melhor dizendo, a uma consulta, do romance Ulisses, de James Joyce, na tradução pioneira de Antônio Houaiss.

E realmente estava lá: há todo um longo episódio que se passa numa biblioteca de Dublin, onde o personagem Stephen Dedalus (correspondente ao Telêmaco da Odisseia, de Homero) interage com outros frequentadores do local. O assunto é, naturalmente, literatura; ou, de modo mais específico, Shakespeare. Quem domina a conversação é Dedalus, e através dele Joyce certamente expõe suas próprias ideias. Tanto sobre a obra shakespeariana, quanto sobre sua vida pessoal e familiar.

No primeiro caso, há destaque para a figura de Hamlet. O nome do herói trágico, Hamlet, é clara reminiscência do nome do filho morto, Hamnet. Dedalus / Joyce refere que, na encenação da peça, o próprio Shakespeare teria vivido o espectro do pai do herói; e diz: A um filho ele fala, o filho de sua alma, o príncipe, o jovem Hamlet, e ao filho de seu corpo, Hamnet Shakespeare, que morreu em Stratford, para que seu tocaio pudesse viver para sempre. Purgação de culpa por parte do dramaturgo, de seus remorsos de pai ausente?

Também há referências, no discurso de Stephen Dedalus, à esposa, a Anne Hathaway, e à sua idade, mais velha que o marido, e ao fato de ter sido ela a seduzir o jovem Will, e não o contrário: É uma madraça descarada de Stratford que derruba num trigal um amante mais novo que ela. Dedalus ainda lhe faz (a ela, ou a ele?) um breve necrológio: Ela morreu sessenta-e-sete anos depois de ter nascido. Ela o viu entrar e sair deste mundo. Ela recebeu seu primeiro abraço. Ela pariu os filhos dele e ela pôs vinténs nos seus olhos para manter suas pálpebras fechadas quando ele jazia no leito de morte.

Jogos verbais.

Joyce não resiste, no mesmo episódio, à prática dos exercícios lúdicos que lhe são característicos, aqui tendo como elementos o patronímico de Ann e a palavra will, abreviatura de William, mas também substantivo comum com o sentido de “vontade”, “desejo”:

IF OTHERS HAVE THEIR WILL ANN HATH A WAY.

Na tradução literal de Houaiss: Se outros têm sua vontade, Ann tem o seu caminho.

O que parece repercutir outro jogo verbal, de cerca de oitenta anos antes, este inserido no próprio título do conto de Edgar Allan Poe: William Wilson, que assim se dissocia:

WILL I AM, WILL SON

(Desejo eu sou, filho do Desejo).

O jogo de Machado

A Machado de Assis também não eram indiferentes tais jogos lúdicos.

Naquele mesmo volume da Revista Asas da Palavra, da UFAM, dedicado a Machado de Assis e tratada no artigo anterior Escritos ascéticos (II), inclui-se um artigo intitulado A Cartomante, um título genial. Nele, o seu autor, Paulo Maués Correa, observa como no título desse conto de Machado se escondem, ou se revelam, não apenas a palavra “cartomante”, como ainda: “amante”, “carta”, “amor” e “morte”, que, de certa forma, prenunciam o próprio entrecho da narrativa. Não só: na palavra-título ecoam dois TT, representativos, até mesmo onomatopaicamente, dos dois tiros que serão disparados no decorrer da narrativa; e, enfim, constata-se a tripla presença, no título, da vogal A, que também figura nos nomes dos personagens que compõem o triângulo amoroso da estória: Vilela, Rita e Camilo, traço de união a vincular ainda mais os personagens.

Não é de estranhar, sabendo-se, como se sabe, que Machado de Assis, no início de sua vida profissional, foi tipógrafo.

O Brasil em Shakespeare

Também se sabe que entre os livros que constituíam objeto de leitura e consulta de Shakespeare figurava a obra Ensaios, de Michel de Montaigne.

Diz-se, também, que o nome do personagem Caliban, que figura na peça A Tempestade, seria um anagrama da palavra “canibal”. E que teria sido inspirado num dos ensaios. Aquele em que vem relatado o episódio dos nativos brasileiros que foram conduzidos, pelos navios de Villegaignon, até a França.

Trata-se do ensaio XXXI do Livro Primeiro, justamente intitulado Dos canibais. Nele, Montaigne registra o relato de um homem que permanecera dez ou doze anos nessa parte do Novo Mundo descoberto neste século, no lugar em que tomou pé Villegaignon e a que deu o nome de França Antártica”, no que considera a descoberta de um imenso país.

A seguir, o ensaísta declara nada ver de bárbaro ou selvagem naqueles povos; descreve características do país descoberto, o sabor e delicadeza de seus frutos, seu clima saudável (em termos que por vezes fazem lembrar os das cartas de Caminha), e estendendo-se sobre os hábitos e costumes de seus habitantes.

É quando menciona tipos de sacerdotes ou profetas que aparecem raramente e moram nas montanhas; e, sobretudo, trata da prática do canibalismo, após se referir às constantes guerras intertribais: Quanto aos prisioneiros, guardam-nos durante algum tempo (…). Aquele a que pertence o prisioneiro convoca todos os seus amigos (…). É quando, no momento propício, amarra os braços da vítima, segurando uma das extremidades da corda e confiando a outra ao seu melhor amigo, de modo a manter o condenado incapaz de qualquer reação: Isto feito, ambos o moem a bordoadas às vistas da assistência, assando-o em seguida, comendo-o e presenteando os amigos ausentes com pedaços da vítima.

Porém, o trecho mais curioso é quando Montaigne narra a reação dos três nativos trazidos à França e conduzidos a Rouen, onde então se achava o próprio Rei: levaram-nos a percorrer a cidade e, quando indagados sobre suas impressões, observaram, entre outros pontos, que há entre nós gente bem alimentada, gozando as comodidades da vida, enquanto metades de homens emagrecidos, esfaimados, miseráveis mendigam às portas dos outros (em sua linguagem metafórica a tais infelizes chamam ‘metades’); e acham extraordinário que essas metades de homens suportem tanta injustiça sem se revoltarem e incendiarem as casas dos demais.

De certo modo, esses brasileiros primitivos, ainda em pleno século XVI, alimentavam um sentimento de revolta contra as injustiças sociais que só aflorariam em revolução mais de dois séculos depois…

E, enfim, a reminiscência desses registros de Montaigne supostamente teria feito com que, algumas dezenas de anos depois, o Brasil, na figura de Caliban, se infiltrasse, indiretamente, na última peça teatral legada por Shakespeare.

O outro Robert Johnson

Algo já foi dito, no primeiro conjunto destes Escritos, sobre Robert Johnson, cantor e compositor de blues (Os que morreram jovens).

Porém, houve um segundo (ou primeiro, em ordem cronológica) compositor do mesmo nome, este inglês, e alaudista, que viveu entre 1583 e 1633. Fui encontrá-lo no CD intitulado Shakespeare Songs and Consort Music, do selo Harmonia Mundi, onde seu nome figura como um dos compositores que trabalharam junto ao bardo de Stratford, fornecendo músicas para algumas de suas peças. Johnson comparece ao CD como autor de duas obras musicais, ambas integrantes daquela mesma A Tempestade: Where the bee sucks e Full fathom five.

Penso que os versos iniciais desta última podem figurar entre os mais belos de Shakespeare (não por acaso, o verso inaugural tem sido constantemente invocado por escritores e por compositores populares, entre os quais a norte-americana Laurie Anderson – a esta, e a seu marido, o falecido roqueiro Lou Reed, gostaria de voltar oportunamente):

FULL FATHOM FIVE THY FATHER LIES.
OF HIS BONES ARE CORAL MADE.
THOSE ARE PEARLS THAT WERE HIS EYES.

(Em tosca tradução: A cinco braças jaz teu pai / de seus ossos foram feitos corais / existem pérolas onde eram seus olhos).

Amplamente preferível (proferível), é certo, a notável versão criada, com esmero e rima, por Rafael Rafaelli, em sua tradução de A Tempestade (acessível pelo Portal da Universidade Federal de Santa Catarina (UFSC); tenho outra edição, mas não a encontro na bagunça de minhas estantes):

Ariel (canta)

A cinco braças o seu pai repousa,
Ossos metamorfoseados em coral,
Em cada olho uma pérola pousa.
Nada se esvaneceu, é atemporal.
E através do mar obteve um ganho:
Transformou-se em algo rico e estranho
As ninfas marinhas ressoam seu dobre:
(coro: Dim-Dom)
Ouça, o som do sino a tudo encobre.

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