Escritos ascéticos (II)

Ascetic writings (II).

Luiz Carlos Ribeiro Borges – magistrado, escritor. Titular da Cadeira 3 do IHGG Campinas.

Imortais

In esq uec foi o título (não muito feliz, reconheço, embora tenha desejado, através dele, transmitir certa aura pretensamente esotérica contida na narrativa) de meu primeiro livro de ficção, publicado em 1994.

Essa novela, conduzida por um protagonista narrador, girava em torno de um personagem misterioso, um professor que, ao fim, se revelaria um alienígena (como ninguém mais lerá, já não tem importância entregar a identidade secreta do personagem). Seu nome, não por acaso, se manifestava por um (imperfeito) anagrama, Heleno Higino.

Ele havia desembarcado em nosso planeta, na condição de exilado de outra galáxia (sim, e também não por acaso, como se verá, lembra o Clark Kent / Superman; ou o menos conhecido Surfista Prateado), ainda no tempo dos Assírios, e cedo descobriria que, entre nós, seria dotado do dom da imortalidade, não o abatendo nem a doença nem algum ferimento que, para os mortais, seria, exatamente, mortal. Através desse dom, atravessaria várias eras e eventos históricos, até que, em nosso tempo, assumiria a singela configuração de um professor de história.

A obra, portanto, mesclava ficção científica e lances de novela policial, com citações literárias, mitológicas e bíblicas, tanto que, nas páginas finais, HH será resgatado por uma nave espacial, réplica da esfera de fogo que arrebatou o profeta Elias.

O livro, que contou com uma animada noite de autógrafos (meus leitores se enfileiravam nas escadarias do CCLA!) e com uma notável apreciação do saudoso Eustáquio Gomes, em meia página do Correio Popular, mereceu desde interpretações variadas dos que o leram, como a de que seria uma alegoria da transmigração das almas, até a preferência de muitos por um de seus episódios assumidamente cômicos, uma perseguição num parque de diversões (talvez a indicar que o restante não fosse tão interessante) e o veredito, de um ou outro, de que eu teria talento para uma literatura de caráter juvenil.

Estes últimos talvez não estivessem errados. Não só porque In esq uec de certa forma aborda o mito da eterna juventude, mas também porque é, substancialmente, uma história em quadrinhos, com o detalhe de ser narrada apenas com seus elementos textuais, por seu conteúdo literário, sem a presença do visual, sem as imagens.

Sua inspiração direta tinha sido uma HQ argentina, denominada Mort Cinder, fruto da excepcional associação entre o apurado roteiro de H. Oesterheld e os desenhos de Alberto Breccia (barrocos, com sábia utilização do claro-escuro, dinâmicos, quase dotados de movimento). O herói, o Mort Cinder do título, contatado por um colecionador de antiguidades de nome Ezra, era, como seria o meu Heleno Higino, imortal (o homem de mil e uma mortes); num dos episódios, publicados na edição de nº 3 da revista argentina LD Literatura Dibujada, datada de janeiro de 1969 e que conservo zelosamente, Mort Cinder participa, ao lado de Leônidas, da batalha do desfiladeiro de Termópilas, a que, como em outras situações, milagrosamente sobrevive, até se encontrar com Ezra, já em nosso tempo. O relato, por sinal, se inicia quando Ezra mostra a Mort Cinder uma peça antiga que acabou de adquirir, mas que o herói, com a experiência de sua longevidade, não tarda a reconhecer como mera cópia. Ao que o antiquário replica: a cópia tem o mesmo valor que o original, quando feita com talento e com amor.

A minha versão sobre o homem imortal, se não redigida com talento, teve pelo menos o mérito de ter sido construída com muito amor.

O teor da novela era, sem dúvida, inverossímil. Dentro do próprio contexto ficcional, o narrador não consegue, ao fim, livrar-se do estigma da inverossimilhança: a fantástica estória só se baseia em seu narrar, em seu próprio depoimento; o professor, a rigor, não lhe empresta seu depoimento pessoal, e reduz a sua suposta fala  a uma gravação, que pode, todavia ter sido forjada. Nem o amigo do narrador, Aristides, se mostra convencido; submetido seu relato, sem qualquer sucesso, a uma certa Sociedade para a Investigação de Fenômenos Ultrarreais (SIFU – a sigla ressoava uma conhecida e característica expressão utilizada pelo jornal O Pasquim), no parágrafo final ao narrador não resta senão render-se ao triunfo do trivial.

Machado de Assis e a inverossimilhança

Por três vezes visitamos, eu e Regina, a capital do Pará, Belém, onde à época trabalhava nosso filho Rodolfo, junto a uma unidade da Aeronáutica.

Numa dessas visitas, comparecemos a uma feira de livros, e ali fui atraído por uma Revista editada pela Universidade da Amazônia, intitulada Asas da Palavra, tendo adquirido as três edições disponíveis, contendo estudos dedicados, respectivamente, a Guimarães Rosa, Padre Vieira e Machado de Assis.

Tenho-as folheado, nestes dias de isolamento social, e naquele exemplar dedicado a Machado de Assis, me concentrei na leitura de um alentado artigo de João Adolfo Hansen sobre o conto O Imortal, justamente intitulado O Imortal e a Verossimilhança.

Estimulado por essa leitura, fui atrás do conto em questão, tendo-o encontrado, no Portal da Universidade de Santa Catarina, e lido. Relido? Aparentemente não, pois a impressão final foi de que somente então travava conhecimento da obra.

Nela, o narrador (o próprio autor) relata a conversa mantida por um certo Dr. Leão, divulgador da homeopatia, em que este faz a dois amigos um relato das peripécias vividas por seu pai, Rui de Leão, num interregno de 250 anos, ou seja, de seu nascimento, no ano de 1600, até meados do século XIX, quando, por ato voluntário, morre.

No caso, essa relativa imortalidade não lhe foi assegurada por alguma origem extraterrestre, mas pela ingestão de um elixir fornecido por um pajé, quando, no início da trama, o herói se refugia numa tribo indígena. O mesmo elixir a que, muito tempo depois, recorre o personagem, para fazer cessar uma imortalidade que já o conduzira a um verdadeiro fastio.

O conto apresenta-se recheado de lugares-comuns, frases feitas e estereótipos, o que não é habitual na escrita machadiana. Como assinala João Adolfo Hansen (cuja pluralidade e riqueza de observações não cabe aqui reproduzir), a intenção do escritor foi exatamente construir uma paródia, um pastiche dos procedimentos temáticos e estilísticos próprios da Escola romântica. Exemplifica: a referência ao elixir mágico do pajé e aos nomes próprios dos indígenas, como Pirajuá e Maracujá, constituem alusão paródica aos romances indigenistas de José de Alencar.

As peripécias do imortal em questão ainda passarão por diversos locais do Brasil e por vários países da Europa, onde ele se envolve e mesmo intervém em importantes momentos históricos, e acaba retornando ao Brasil, até, finalmente, ingerir o restante do elixir para alcançar o inverso efeito da mortalidade – não sem antes narrar ao filho sua extraordinária aventura.

Tudo isso, até aqui relatado, para observar que há várias similaridades entre a minha pobre (e juvenil) ficção e a machadiana: a constatação da imortalidade de ambos os heróis, ao sofrerem, incólumes, respectivamente, os golpes de uma lança assíria e do cutelo de um verdugo; a convivência com personagens célebres ao longo dos séculos (Espinoza e Napoleão, no caso de Rui de Leão; o trovador Guilherme de Poitiers e Ferdinand de Saussure, inventor da Semiologia, no caso de Heleno Higino). E a final percepção em torno da óbvia inverossimilhança do narrado, que em Machado de Assis, após dizer que os amigos creram no caso e que outros o atribuíram à loucura, ainda se expressa pela suspeita de que ele apenas quis propagar a homeopatia em alguns cérebros, e não era inverossímil. Enfim: Tal é o caso, extraordinário, que há anos, com outro nome, e por outras palavras, contei a este bom povo, que provavelmente já os esqueceu a ambos, aqui se referindo àquele outro conto de dez anos antes, o Rui de Leão, que já reputa esquecido.

Teria eu lido o conto machadiano, no passado, em algum momento de minha mocidade, de modo que sua lembrança se houvesse aninhado nos armazéns da memória, terminando por ser esquecida numa de suas prateleiras, assim como supõe Machado de Assis ao final de seu conto a propósito da similar narrativa anterior – e que sua lembrança houvesse inconscientemente aflorado no momento de minha escrita?

Parece verossímil.

Mãe

Minha mãe sobreviveu a meu pai e a meus dois irmãos. Dizia-me, quase como uma advertência, uma repreensão, que eu tomasse cuidado, que não a deixasse sozinha; ou anunciava: Rezo muito para o seu pai, para que ele cuide de seus irmãos. Eu me calava; nada conseguia responder; nem havia o que dizer.

Quando minha mãe também partiu, adoeci. Foi como se as forças que até então eu procurava aparentar de repente houvessem todas desmoronado.

Nestes dias de confinamento, tenho esvaziado algumas gavetas, desfazendo-me de velhos papeis e agendas; numa destas se achavam rabiscadas algumas linhas, escritas logo após a partida de minha mãe:

Sinto frio, mãe, um frio abrasador,
E não há regaço onde me acolher.

Aos teus lamentos nunca tive palavras.
Como as ter se seriam, como as tuas, de dor?
Como, inconsolado, eu poderia consolar
Se, em meu silêncio, mais me doesse o pesar?

Que ao menos agora, em tua solidão feita absoluta,
Mitigues a saudade dos que, antes de ti, partiram.

No íntimo panteão desta memória
Só posso depositar, tardia e inócua flor,
Esta última palavra, que vale pouco mais
–  ou muito menos – que o silêncio.

Quase Príncipe

Também nestes dias, retirei das estantes meu exemplar das Poesias Completas do poeta romântico Fagundes Varela. Da página de rosto consta, carimbada, uma dedicatória: Recordação de Nosso Cantinho do Diário do Povo.

A poesia mais conhecida de Fagundes Varela era (ainda será?) A flor do maracujá, que terminava com estes versos: não se enojem teus ouvidos / de tantas rimas em – a – / mas ouve meus juramentos, / meus cantos ouve, sinhá! / Te peço pelos mistérios / da flor do maracujá!

Nosso Cantinho era a denominação de um suplemento literário do jornal Diário do Povo, destinado ao público juvenil, e que, naqueles finais da década de 1950, realizou um concurso destinado a escolher o Príncipe dos Jovens Poetas Campineiros.

Fiz a minha inscrição, com uma poesia intitulada, se não me engano, O castelo da ilusão. Não; não fui eleito Príncipe. Mas terminei em terceiro lugar. Nada mau para quem trazia, correndo nas veias, o mais nobre e legítimo sangue caipira.

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