Deploração pela perda de um amigo

Deploration on the loss of a friend.

Luiz Carlos Ribeiro Borges – magistrado, escritor. Titular da Cadeira 3 do IHGG Campinas.

Ao longo da História desenvolveu-se, na linguagem poética e musical, uma forma de composição destinada a lamentar a morte de algum ente familiar, ou amigo, ou pessoa pública notável e digna de admiração. No curso desse desenvolvimento ganhou denominações diversas. Como “planh”, entre os trovadores medievais. Ou “tombeau”, por volta dos séculos 17 e 18, ressurgindo já no século 20, do que é exemplo Le tombeau de Coupérin, obra de Ravel. Ainda no século anterior, Mallarmé usaria o termo como título de dois sonetos em homenagem, respectivamente, a Baudelaire e a E. A. Poe. Outro vocábulo a designar esse gênero de poema fúnebre foi “endecha”, utilizado em poesia espanhola, de tradição oral, do século 15. A preferência, no entanto, aqui recaiu na expressão “deploração”, por sua maior intensidade para exprimir o sentimento de pesar. A qual remonta às belíssimas composições polifônicas escritas no período entre o final da Idade Média e o Renascimento. Johannes Ockeghem (1420-1495) compôs uma Déploration sur la mort de Binchois, tendo sido este, Gilles Binchois, igualmente compositor; vindo a falecer o próprio Ockeghem, foi reverenciado por seu sucessor Josquin des Prês (1450-1521), sob o mesmo título de Déploration. No século precedente, também Guillaume de Machaut (1300-1377), que muitos consideram o maior dos inventores da polifonia, tinha sido merecedor de homenagem póstuma similar.

* * *

Regressei a Campinas em 1978, após nove anos de ausência, para exercer a Magistratura no Foro local, ocasião em que conheci um escrevente de cartório chamado Luís Carlos. Aqui permaneci por mais oito anos, até ser promovido para a Comarca da Capital e, depois, exercer a atividade judiciária nos Tribunais ali sediados, onde permaneci até me aposentar, em 1992.

Nesse entretempo continuei acompanhando a trajetória profissional, sempre ascendente, daquele jovem escrevente: formou-se em Direito, exerceu a advocacia, ingressou mediante concurso no Ministério Público do Trabalho, passando a integrar, a partir de 1994, como Desembargador, pelo quinto constitucional, o Tribunal Regional do Trabalho da 15ª  Região, sediado em Campinas, no qual veio a ser eleito Presidente para o biênio 2008/2010.

Durante todos esses anos, encontrava-o casualmente, em diversos locais da cidade, em geral em companhia de sua esposa Desia, inclusive tendo sido convidado para comparecer à cerimônia de sua posse na Presidência do Tribunal: Luís Carlos – Luís Carlos Cândido Martins Sotero da Silva, já então conhecido pelo nome “regimental” de Sotero – invariavelmente demonstrava, nesses encontros, o mesmo apreço manifestado desde os primeiros tempos de nosso mútuo conhecimento. Certa ocasião, encontrei-o caminhando na Rua Barão de Jaguara, quando então me comunicou a sua recente aposentadoria, oportunidade em que, na companhia de meu filho Daniel, pudemos compartilhar um café no Regina.

Nossa aproximação e convívio tornou-se mais assídua quando ingressou na Academia Campinense de Letras, quando, a seu honroso convite, proferi a oração de saudação, na cerimônia de sua posse no Sodalício.

Não tardou para que, prestes a se findar o último – e profícuo – mandato do confrade Agostinho Toffoli Tavolaro à frente da ACL, fosse Sotero convidado, por seus pares, para sucedê-lo. Sotero apenas aceitou sob a condição de que contasse com o apoio e a assessoria de seus confrades; desde cedo me propus a figurar entre esses colaboradores, o que, após sua eleição e posse, procurei cumprir, dentro de minhas notórias limitações.

Como acentuou a confreira Ana Maria Melo Negrão, Sotero imprimiu à sua gestão um feitio substancialmente democrático, procurando sempre ouvir, prudentemente, criteriosamente, os conselhos e opiniões de seus companheiros, por essa forma nos prestigiando. Inclusive a mim, pelo que lhe sou infinitamente grato – se esse advérbio cabe dentro dos limites incontornáveis de nossa finitude.

E eis que a notícia dessa finitude veio a se abater, no último dia 06 de julho, sobre todos nós, sobre seus familiares e seus inúmeros amigos, através da supressão – brutal, precoce, definitiva, irreparável – de sua presença sempre afável, sempre fraternal.

É a perda dessa presença, desses laços de amizade e calor humano, que ora lastimo e deploro. Pois Sotero era dessas figuras humanas com quem simpatizamos instantaneamente. Todo ele transparecia afabilidade, generosidade, em seus mínimos gestos, em suas palavras ponderadas, no sorriso, no olhar. E tamanhas eram essas demonstrações de amizade que a sensação, que ora me envolve, é a de que eu nunca soube manifestar condignamente a reciprocidade desses gestos amigos: minhas palavras talvez nunca tenham sido suficientemente calorosas, meu abraço talvez nunca tenha sido suficientemente afetuoso.

Nas últimas semanas nos falamos duas vezes por telefone: assim como ele, em fins do ano passado, com a generosidade de sempre, procurara saber de mim, de minha saúde, também eu buscava acompanhá-lo em sua própria luta pela preservação da saúde, procurava lhe transmitir mensagens de apoio, de conforto, de esperanças.

As esperanças, lastimavelmente, se desfizeram.

Agora, neste momento em que escrevo essas linhas, experimento a mesma sensação de inaptidão das palavras, porque agora tenho diante de mim a sua ausência, o seu silêncio: a interlocução se tornou um solilóquio.

Por isso, caro amigo, só posso lhe pedir que aceite, derradeira homenagem, este silêncio – a veemência deste silêncio, a consternação e o pesar deste silêncio – que venho depositar aos pés de sua memória.

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