Sensibilidades da quarentena: Recordações e sabores da infância

Quarantine feelings: Childhood memories and flavours.

Eliane Morelli Abrahão – historiadora do CLE e professora colaboradora da Unicamp. Titular da Cadeira 26 do IHGG Campinas.

Recordações e sabores da infância

Vive-se tempos inimagináveis.

Quando imaginaríamos que uma pandemia assolaria o mundo e o Brasil.

Tempos que nos causam saudades, mas, também, angústias. Afinal, queremos abraçar e beijar nossos entes queridos. Enquanto a razão nos alerta: não é tempo para isso!

O que fazer? Como preencher os dias, semanas, meses em que apenas saímos às ruas para ir ao mercado, à quitanda ou a farmácia?

Aprender a ficar reclusa. Sim, foi necessário.

As primeiras semanas pareciam férias do trabalho. As seguintes tornaram-se torturantes, porquê eu não conseguia ajustar o relógio biológico, tampouco o emocional para concatenar o trabalho à distância com as atividades da casa.

O tempo passou e me vi com meu caderno de receitas culinárias, buscando sabores que recordassem a minha infância.

Virei uma a uma as folhas do fascinante manuscrito. Por alguns momentos detinha-me por uma ou outra instrução e pensava: terei coragem de prepará-la?

Salivava e sorria a cada vez que me deparava com uma receita que me lembrava minha mãe, irmãs e tias.

Confesso… nunca fui doceira. Prefiro os pratos salgados.

Mas decidi inovar. Afinal, para o café da tarde cai bem um bolo de laranja, de banana e até de fubá.

Tal foi a minha surpresa ao perceber que a prática e o tempo livre, mostraram-me que consigo produzir roscas, pães, bolos e doces.

A cada feitura ficam mais saborosos e esteticamente belos.

Certo dia, decidi que galgaria mais um degrau. Disse ao Fernando: vou preparar a receita de rosca de natal de minha mãe.

Todos os anos ela assava formas e formas daquela rosca. Cheiro e sabor inigualáveis!

Li e reli várias vezes a receita que copiei de seu manuscrito.

Notei que havia algo errado e recorri às minhas irmãs. Sanadas as dúvidas, fui ao mercado em busca de banha animal e do fermento para pão.

Separei os ingredientes um a um e os coloquei sobre a bancada. O caderno ao meu lado para que não passasse desapercebido nenhum detalhe.

Tudo pronto!

Chegou o momento de colocar a mão na massa, literalmente. Preparei-a em duas etapas, como a instrução apontava. Ao final, em um copo com água, coloquei uma pequena bolinha, uma amostra daquela massa.

Cobri a tigela com um pano próprio e aguardei o momento certo para manipular a massa.

Minha mãe dizia: quando a bolinha subir, pode terminar as roscas. Eu era criança e adorava fitar a tal bolinha no copo d’água até ela subir.

Hum… difícil etapa. Não consegui trançar a massa, como ela fazia. Mas não desisti.

Levei-as para o forno. Não demorou e o aroma invadiu o apartamento.

Imediatamente retornaram as lembranças daqueles dias que antecediam as celebrações natalinas. Ruas enfeitadas, casas com cheiros e sabores. Do tempero da leitoa assada às  sempre presentes rabanadas. E, para o café, as roscas recheadas com uvas passas e frutas secas.

Confesso que as minhas não tinham o mesmo sabor das fornadas de minha mãe, mas esta quarentena me aproximou do fazer culinário.

Dos estudos com livros e cadernos de receitas e cardápios passei para a prática, um fazer culinário ligado à memória afetiva que a cozinha nos traz.

Abstract

This issue talks about feelings. During the quarantine, I have worked and cooked a lot. One day, it dawned on me: why not try a new food recipe? To start, I picked up my manuscript recipe book and dedicated a few hours browsing through the pages. However, I think I was actually looking for recipes connected to my childhood memories. It was then that I read: “Rosca Josephina”. Immediately, I was brought back to my mother’s kitchen and the memory of her preparing this delicacy for Christmas family gathering. Without hesitation I decided to make it, and step by step I followed the instructions. After the “Rosca” was finally baked, to my surprise, it did not taste the same as my mother’s batches. To conclude, I confess, this quarantine brought me closer to cooking. From studying books and notebooks of recipes and menus, I eventually started to put some of theses recipes in practice. By doing so, I was reconnected to the affective memory that the kitchen brings up on us.

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