Aspectos arquitetônicos da Igreja de Nossa Senhora das Dores

Architectural aspects of the Our Lady of Pain church (Campinas, SP, Brazil).

Duílio Battistoni Filho – historiador, professor. Titular da Cadeira 6 do IHGG Campinas.

Em Campinas, as igrejas se encontram por todos os cantos da imensa cidade, atestando o espírito religioso de seu povo. Velhos documentos o demonstram. Tradição gloriosa que vem dos próprios fundamentos da cidade, recuados que se encontram nos séculos, naqueles dias duros dos primeiros colonizadores tentando firmar as bases da metrópole. As velhas igrejas de Campinas guardam o espírito agitado da cidade, que vem crescendo desordenadamente da humilde igrejinha de frei Antônio de Pádua até os arranha-céus de hoje. Mas em Campinas, que agora ultrapassa centenas de anos de história, existem igrejas de todo o quilate. Dentre elas, destaca-se a de Nossa Senhora das Dores, no bairro Cambuí.

A paróquia foi fundada em 27 de agosto de 1936, por um decreto do segundo bispo de Campinas, d. Francisco de Campos Barreto. Funcionou provisoriamente na Capela de Santa Cruz (Matriz do Carmo) até que finalmente, aprovada a planta em abril de 1938, coube ao Dr, Hoche Neger Segurado (1895-1959) dar início ao seu projeto arquitetônico de construção do templo. É preciso que se diga que o Dr. Hoche foi um dos mais conceituados engenheiros campineiros e autor de diversas obras na cidade. Era filho do conceituado educador Artur Segurado e genro de Rafael Duarte, ex-prefeito de Campinas.

O templo foi inaugurado em 1941 e aberto ao público com uma missa solene. Apresenta particularidades interessantes: seu frontispício é em estilo neocolonial com largas pilastras em relevo de fuste quadrado encimados por capitéis jônicos; o portal é tríptico com vários ornamentos com pequenos frontões triangulares e no extremo pináculos em forma de vasos. No eixo da simetria destaca-se a imagem de Nossa Senhora das Dores. Anexas à grande nave surgem as capelas laterais, verdadeiras ilhargas que funcionam como contrafortes. O entablamento é composto por cornijas, frisos e cimalhas. A torre situada do lado esquerdo da nave é de base quadrada e que abriga o Batistério. No seu conjunto, no primeiro piso aparecem três portas com sacada; no segundo, o compartimento do relógio e no terceiro, de base octogonal, o domo, côncavo e convexo, cuja extremidade é coroada por uma cruz latina.

A pintura do teto superior da nave é de grandes dimensões, de seis metros por doze, obra de Franco Sacchi e que apresenta como tema: a apresentação de Nossa Senhora no templo. O entablamento interno é sustentado por pilastras planas estriada em pares entre as janelas e piso em mármore. A mesa do altar-mór é de mármore travertino sustentada por colunas de fino ônix com bases de capitéis de bronze sobre os degraus; no centro a imagem de Nossa Senhora das Dores. O retábulo do altar é de cedro decorado ladeando a sacristia: a grande cruz dominando e centralizando toda a riqueza do altar é em jacarandá da Bahia com incrustações de prata num harmonioso conjunto. A imagem de Cristo é em madeira patinada. Todos os trabalhos e mais os altares laterais consagrados ao Coração de Jesus e Via Sacra foram projetados pelo professor Joaquim Olavo Sampaio, lente de Desenho Arquitetônico da Escola Industrial Bento Quirino que frequentava a paróquia. Em 1951, o altar de Nossa Senhora de Fátima é aprovado pelo bispo diocesano D. Paulo de Tarso Campos que, na ocasião, autorizou vir de Portugal a imagem da santa. Neste mesmo ano foi instalado o relógio da torre de fabricação holandesa, o término do altar-mor e a colocação do piso em mármore nacional.

A sacristia foi construída em estilo barroco, com 20m, apresenta janelas com sacada e envasaduras ricamente ornamentadas e um portal no térreo cuja fachada é coroada com cornijas e platibanda com desenhos. A sacristia foi reformada em 1949 com um aumento de 80m da área, com piso elevado em mais de um metro, possibilitando o surgimento de um salão reservado a reuniões. O mestre de todas essas reformas foi o engenheiro Dr. Waldemar Strazzacappa. O teto da sacristia foi pintado por Franco Sacchi com dois quadros representando “O sacrifício de Abrahão” e os “Quatro evangelistas num céu onde se vê o cordeiro”.

O Batistério é outro segmento de grande beleza, com um pórtico muito decorado; na verga arqueada há uma cornija também arqueada, decorada por um medalhão em forma de concha com volutas em estilo barroco e rococó. Uma grade de ferro em estilo art-nouveau protege o acesso ao batistério. Destaque para paredes e piso com barrado em azulejos branco e azul, herança dos séculos XVIII e XIX, muito comum em Portugal. Há um armário em nicho na parede de forma retangular e portas de treliça de madeira. Uma pia de água benta está na parede em mármore cinza. A pia batismal de mármore branco é imponente com tampa de metal e sob ela, o desenho de uma cruz.

De grande beleza são os vitrais que foram adquiridos a partir de 1949, encomendados em sua totalidade à Casa Conrado Sorgenicht  da capital paulista. Seu tema percorre desde o nascimento de Jesus, sua trajetória pregando o Evangelho até sua prisão e martírio na cruz. O desenho em estilo barroco e rococó utiliza cores quentes como o azul, amarelo e vermelho, complementando com cores frias como o roxo, verde e outros. O tipo de vidro usado foi o da Catedral, opalescentes tipo telefani, antiglas e outros, recebendo pintura e patina. Os vitrais projetam uma luz violácea, suavizando os lugares altos e desenvolvem-se sob a égide do sofrimento. Fazendo um parêntesis, é preciso que se diga que o vitralista Conrado Sorgenichts, responsável pela confecção , vivia em um de suas melhores fases. Seu ateliê fundado em 1889 sobreviveu por mais de um século e três gerações. Deixou mais de 600 obras por todo o Brasil. Mas voltando aos vitrais, muitos foram os doadores de famílias tradicionais do bairro e da cidade que colaboraram para o embelezamento do templo.  Através dos anos muitos vitrais foram restaurados. É preciso enfatizar que uma restauração requer muito cuidado. Primeiro, com a instalação de andaimes por causa da altura, muitas vezes, inacessíveis; segundo, as peças são numeradas em sequência para facilitar a colocação; terceiro, vidros incolores são colocados do lado externo dos vitrais para servirem de proteção contra as intempéries como chuva, sol e vento. Os ventos são os principais agentes abauladores dos vitrais, pela razão de provocarem o afundamento das placas em virtude do estiramento da malha de chumbo que segura os vidros. Enfim, o templo é um dos mais bonitos de Campinas e um exemplo bonito de arte religiosa.

Referências bibliográficas:

FINETTO, Maria. Uma história de tradição e fé: Paróquia de Nossa Senhora das Dores. Arte Escrita, 2012.
GAZETA do Cambuí, nº 2, 2003
MELLO, Regina Lara Silveira. Casa Conrado: cem anos de vitral brasileiro. Dissertação de Mestrado. Unicamp, 1996.
NOSSA Comunidade, Julho-Agosto, nº 40, 2001

Um comentário

  1. Um artigo que faz jus à memória de um conjunto arquitetônico harmonioso, dedicado à contemplação. Quando adolescente, nos meus quinze e dezesseis, frequentei este templo agradecendo a quem o construiu a dedicação prestimosa. Hoje repiso meu agradecimento ao autor desta narrativa primorosa!

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