A Matriz da Conceição

The Mother Church of Our Lady of Conception (Campinas, SP, Brazil).

Jorge Alves de Lima – historiador, escritor. Titular da Cadeira 42 e ex-presidente do IHGG Campinas.

Em dezembro de 1883, Campinas se preparou com esmero para as festas de inauguração de sua Matriz da Conceição, na época, Matriz Nova. A comunidade campineira, harmoniosamente, trabalhou com intensidade desde 1807 para, finalmente em 1883, decorridos 76 anos, festejar o acontecimento tão auspicioso para a terra de Carlos Gomes.

O comércio da cidade aproveitou-se do evento para aumentar suas vendas e, a título de curiosidade, reproduzimos o anúncio publicitário de conceituado estabelecimento da época, inserido na Gazeta de Campinas:

Para as festas da Matriz – Novas Joias – Emílio Décourt, tendo recebido em consignação da conhecida casa de Luiz Rezende & Cia do Rio de Janeiro, uma infinidade de objetos de fantasia de prata, última novidade em broches e colares para senhoras, medalhas, correntes para homens. Rua do Rosário 35 (atual Avenida Francisco Glicério) largo da Matriz nova (sic).

A enorme expectativa de visitantes obrigou a estrada de Ferro Mogiana e a Companhia Paulista a aumentarem os trens para Campinas, dado o grande interesse de pessoas de cidades da província de São Paulo e de outras do Brasil de presenciarem o evento. A comissão encarregada de preparar as festas, em sinal de alegria pela conclusão do suntuoso templo que demorou mais de meio século, convidava os moradores da cidade a iluminar suas residências e ornamentá-las durante os dias 7 a 9 de dezembro de 1883.

O largo da Catedral onde se situava e suas circunvizinhanças apresentavam bela decoração, enfeitadas com palmeiras, festões de flores e folhagens, bandeiras e flâmulas, arcos de flores iluminados a gás. Nos quatro cantos havia elegantes coretos, onde as bandas de música da Sociedade Luís de Camões, de Azarias de Mello e de Luiz de Túlio, com seus acordes maravilhosos, encantaram a multidão.

Na construção da Catedral, longa e dramática, sobressaíram-se três nomes: o do engenheiro Cristóvão Bonini, o do arquiteto Francisco de Paula Ramos de Azevedo e do inspirado artista entalhador Victoriano dos Anjos. Cristóvão Bonini, chamado em um dos momentos mais críticos da construção, conseguiu o que os seus antecessores não puderam fazer, isto é, o levantamento do frontispício do templo, o erguimento da sua majestosa torre e, principalmente, solidificá-lo, evitando assim a ameaça de desmoronamento.

Depois do trabalho de Cristóvão Bonini, assumiu o célebre arquiteto Francisco de PauIa Ramos de Azevedo a responsabilidade pela condução das obras da Matriz da Conceição. Durante seis anos trabalhando arduamente, dia e noite, cumpriu ele e sua equipe a missão. Ramos de Azevedo era enérgico e sabia aliar o fino conhecimento da arte arquitetônica à persistência para concluir o suntuoso templo. Conseguiu o objetivo ultrapassando grandes dificuldades, como costuma ser o acabamento de uma obra de grande porte. Coube-lhe a glória de entregar a Campinas, totalmente pronta, a imponente e brilhante Matriz Nova, obra iniciada em 1807 e tão rodeada de azares e obstáculos pelo correr de 76 anos.

Victoriano dos Anjos foi o mestre entalhador da Matriz Nova de Conceição. A crônica de fundo da escritora Júlia Lopes de Almeida a respeito do mestre na ocasião da inauguração da Matriz Nova enaltece o artista:

Subi até ao invisível, cortai as vossas asas pequenas e a grande extensão azul e ide morrer turibulando com os vossos cantos a memória do velhinho, hoje quase esquecido, do pobre entalhador. (sic).

A respeito desse artista, a Revista do Centro de Ciências, Letras e Artes, no 41, página 17, publica a seguinte matéria, de autoria de Benedicto Octávio:

Ora, o artista escolhido e chamado em 1853 foi Victoriano dos Anjos, natural da Bahia, homem já de idade avançada, que veio para Campinas e, estabelecendo um atelier no lugar onde é hoje o escritório do Curat, à Rua 13 de Maio, deu começo aos esplêndidos trabalhos de entalhe que lhe deviam imortalizar o nome. Em 1861, o ilustre artista baiano despedia-se das obras, após concluída a magnífica ornamentação. Mal-remunerado ou tendo perdido o fruto de seu labor (não se sabe), o certo é que a vida de Victoriano dos Anjos foi desde então um suplício. Muito velho e doente, viveu com um filho, Victoriano dos Anjos Jr., chamado “Vitu”, estabelecido com armazém de gêneros da terra à Rua Bom Jesus no 31 e depois 34, à esquina da Rua Deserta (agora respectivamente Av. Dr. Campos Salles e Rua Álvares Machado).

Quantas vezes, exclama o Dr. Francisco Quirino dos Santos, vendo passar este ancião recurvado e trémulo, não me vem a lembrança. Narra por sua vez o Sr. Miguel Alves Feitosa (Gazeta de Campinas, de 10 de janeiro de 1886), um episódio dessa vida de misérias: “Em 1869, um indivíduo transitando por uma das ruas desta cidade, a horas não sabidas, parou de repente, tomado de estranha curiosidade e espanto.” Aproximou-se de alguma coisa e inclinou-se. Sobre o chão da rua estava estendido um corpo. Era o corpo de um ser humano que vivia, mas corpo velho, alquebrado pelo peso de 80 anos e prostrado pelo cansaço e pela fome. O indivíduo tomou aquele corpo com ternura e religioso respeito. Quem era o braço amigo e caridoso que o acaso conduzira ao pé da desgraça? Francisco de Paula Marques. Quem era o infeliz velho que a miséria prostrara no pé das ruas? Victoriano dos Anjos. Ele viveu dois anos após esse fato e morreu a 30 de julho de 1871, viúvo (…). É sabido que a arte, como a religião, precisa de mártires. (sic).

Uma grande reforma, em 1923, deu novas ornamentações à fachada (como os medalhões com as datas comemorativas da diocese, as guirlandas e as estátuas dos quatro evangelistas e dos quatro anjos do apocalipse); as telhas coloniais foram substituídas por francesas e outras alterações gerais deram mais beleza ao templo.

Os anos de 1980 foram de reconhecimento do valor histórico e cultural do templo religioso. Considerado o maior edifício construído em taipa de pilão, foi então tombado pelo Conselho de Defesa do Patrimônio Histórico, Arqueológico, Artístico e Turístico (CONDEPHAAT) e pelo Conselho de Defesa do Patrimônio Cultural de Campinas (CONDEPACC).

Referência bibliográfica:

LEITE, Ricardo. Catedral Metropolitana de Campinas: um templo e sua história. Campinas: Editora Komedi, 2004.
LIMA, Jorge Alves. Crônicas de Campinas: séculos XIX e XX. Campinas: Editora Komedi, 2011.

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