O crime quase perfeito

The almost perfect crime.

Leny Sampaio Bizin – jornalista, escritora. Sócia emérita do IHGG Campinas.

13 de Maio de 1888, está abolida a escravidão no Brasil. Na fazenda São José, em Campinas, os negros podem seguir novos rumos. Alguns partem levando apenas a liberdade como bagagem, outros preferem permanecer. Mesmo que as condições de sobrevivência na fazenda fossem cruéis, ainda eram conhecidas e já experimentadas ante ao futuro incerto que se desenhava.

No grupo daqueles que ficaram estavam Rita Maria e Francisco. Alegravam-se, juntos, nos raros momentos em que o trabalho cessava e os capoeiras podiam se dedicar à sua dança. Deve ter sido assim, entre um gingado e outro ou nos intervalos do estampido dos açoites que os olhares deles se cruzaram pela primeira vez. Não importa quando ou em qual circunstância, daí surgiu um sentimento, talvez não muito definido, sabe-se lá se foi amor à primeira vista ou coisa assim, mas foi forte o suficiente para uni-los.

Contudo, depois de dois anos o casal resolveu partir. Destinaram-se à fazenda Dois Córregos onde permaneceram por mais dois anos. Nesse ínterim conheceram Dimas Belisário. Sujeito de poucas palavras, não inspirava muita confiança, mas também não se desconfiava dele logo de início. O casal deve tê-lo conhecido nas imediações da fazenda, em meio à mesmice dos incontáveis dias de trabalho árduo, trabalho que deve ter-lhes aproximado com uma não tão boa prosa, afinal, havia muito a reclamar da aspereza, da insalubridade e dos baixos salários.

O tempo foi passando e Dimas começou a se interessar pela mulher de Chicão, como Francisco era conhecido na fazenda. Amava-a? É uma questão intrigante. Rude como era o sujeito, até se duvidava que amasse alguém profundamente. De qualquer forma, Dimas nutria por Rita um sentimento que o movia para além do mero desejo da carne. Talvez visse nela a possibilidade de se livrar da solidão. Estava interessado em uma mulher casada e, pior, casada com um conhecido seu. Isto o deixava confuso. Falaria com ela? Deixaria as coisas como estavam? Optou pela última, pelo menos até pensar melhor no assunto. Passaram-se meses e a vida seguiu seu curso.

Certo dia, Rita e Francisco anunciaram a busca por novos ares. A partida não tinha nada que ver com Dimas, afinal, nenhuma desconfiança pairara sobre seus sentimentos tão bem escondidos. A decisão repentina era sim o resultado de um descontentamento, já que Francisco e Rita sonhavam com uma vida menos dramática. Enquanto escravizados experimentaram vida difícil. Agora que eram livres parecia que não muita coisa se modificara. O trabalho continuava duro e as condições de vida deploráveis. Muitos companheiros foram para a cidade tentar a vida. Quem sabe estivessem bem? Poderiam eles também viver com mais comodidade? Um emprego melhor? O jeito era partirem para a cidade e lá construirem uma vida menos amarga.

Na cidade as coisas não ocorreram como o previsto. Separaram-se logo ao chegar. Não se sabe ao certo a razão. Na verdade, o casal não aparentava qualquer desentendimento, mas há que se considerar que a aparência não é um bom critério de julgamento, embora para a maioria das pessoas seja o único. De qualquer forma, agora cada um foi para um lado: Rita foi trabalhar na casa de João Rodrigues da Silva, que a acolheu como engomadeira. Chicão, por sua vez, foi trabalhar na estrada de ferro, como portador.

A notícia voou e a largas batidas de asas, fazendo jus à fama das pequenas localidades. Logo caiu nos ouvidos de Dimas a boa nova. Era a sua chance de resgatar a vontade que lhe ficara suspensa por algum tempo. Pensou, não muito. Talvez já tivesse as idéias claras quanto a isso e, agora que o único impedimento terminara decidiu procurar Rita. Mas, seria impossível trazê-la para si sem uma casa que fosse de sua propriedade. Usou das economias de anos e comprou uma casinha na cidade. Se mesmo assim Rita não o quisesse ele tentaria com outra pessoa, não importava quem, o objetivo era se livrar da solidão.

Dimas foi falar com Rita, que demonstrou surpresa ao vê-lo. Na verdade, ele não sabia muito bem como explicar seus sentimentos. Sua rudeza não lhe permitia utilizar de palavras belas. Começou falando da sua casinha, afinal, isso demonstraria que ele estava disposto a lhe oferecer o mínimo conforto… e terminou pedindo para ficarem juntos. Rita escutou um pouco confusa, mas lhe acenou afirmativamente. Os dois passaram a viver maritalmente.

Todavia, igualmente como acontecera antes, a notícia voou e foi pousar, desta vez, nos ouvidos de Chicão. A atitude de Rita e Dimas feriu profundamente seu orgulho. Ele passou a acreditar que trazendo Rita de volta ao seu convívio poderia se redimir e minimizar os impactos da situação.  Resolveu ir à casa de Dimas para exigir-lhe sua mulher.

Lá chegando, sem qualquer cumprimento, Francisco pôs-se a reivindicar a volta da esposa, pois, afinal de contas, ainda era seu marido e a lei justificava a sua razão. Dimas escutou sem qualquer manifestação. Ao término do monólogo, quando a raiva de Francisco já se dissipara, retrucou com uma única frase: se tua mulher quiser partir com você, ela fica livre para ir, é ela quem deve escolher. Francisco, sem saber muito o que dizer, certamente porque esperava uma reação bem diversa desta, disse que procuraria por Rita, como de fato o fez.

Mas a mulher se recusou a atender o antigo marido. Assim Rita procedeu até que certa vez, cansada de tanta insistência, resolveu ouvir a proposta dele para, logo em seguida recusá-la. Mesmo depois da negativa de Rita, Francisco continuou procurando-a. Quando menos se esperava, ele aparecia no trabalho, cercava-a no caminho ou esperava-a próximo de onde ela morava com Dimas, sempre pedindo para que ela voltasse a viver com ele. Suas tentativas mostraram-se todas fracassadas. Rita estava decidida, mas não conseguia por fim à perseguição e se queixava disso com Dimas.

Ambos saturaram-se das interferências de Chicão. Queriam mesmo é que ele sumisse, mas sumir sozinho seria difícil, na verdade, decidiram que sumiriam com ele. Arquitetaram um plano tão minucioso quanto arriscado. Nada poderia falhar, tudo deveria acontecer como combinado, todos os detalhes se encaixariam para produzirem o resultado esperado.

Em uma dessas insistentes investidas de Chicão, Rita convidou-o para a sua casa, alegando que assim poderiam conversar melhor. Chicão a visitaria no dia em que Dimas, segundo Rita, não estaria em casa. Naquele dia ele chegou e logo meteram-se em prosa, a mesma de sempre. Mas, desta vez, Rita adotou um outro rumo. Disse-lhe que voltaria, que, na verdade, há muito considerava essa hipótese, mas que tinha medo de abandonar Dimas, afinal, ele era um homem não muito cordial e sabe-se lá o que ele faria diante de um acesso de raiva.

Rita seduziu seu antigo marido, convidando-o para com ela dormir naquela noite, como de fato o fizeram. Após Chicão pegar no sono, Rita procedeu ao combinado: chamou Dimas que apareceu munido de um machado. A luz projetava-se sobre o quarto de tal modo que só era possível ver o lado da cama onde Francisco dormia profundamente. Ele sugava o ar com uma força desmedida e permitia que, por debaixo dos cabelos despenteados, se pudesse ver uma feição aflita, como se, de algum modo, já pudesse prever o futuro que lhe aguardava.

Dimas foi se aproximando cuidadosamente de Chicão. Ficou a três passos dele e, flexionando o braço com o machado na direção do corpo fez um pequeno teste, como que calculando se a distância era realmente apropriada para o golpe. Logo em seguida fez um gesto à Rita, que se afastou no intuito de não ser ferida pela arma. Dimas ergueu definitivamente o machado e, mirando o corpo de Chicão, imprimindo a maior força possível, logo fez o machado descer tão raivosamente que o corpo foi jogado ao chão. Talvez já estivesse morto, mas Dimas desferiu outro golpe. Ainda não satisfeito, o assassino sacou de um punhal da cintura cravou-o no peito de Chicão, que a esta altura não se duvidava mais estar morto. Aí estava o pretendido por Rita e Dimas. No chão agora jazia um corpo completamente inerte.

A operação deveria ser concluída. Dimas e Rita muniram-se de um lençol e, como um macabro ritual fúnebre, envolveram o corpo de Chicão. O embrulho estava pronto. Os dois suspenderam o corpo e o conduziram entre os arbustos do milharal. Chegaram ao lugar distante e lá passaram a abrir, com pá e enxada, uma cova. Arremessaram o corpo e depois cobriram-no, finalizando o enterro.

Voltaram para casa onde tudo começara, cuidando para que nenhum rastro fosse deixado pelo caminho. Lá puseram-se a limpar os vestígios do crime através do recolhimento das roupas e da raspagem da parte do chão onde o sangue respingou e pousou. Após terem colhidos todos os restos do crime mortal, uniram-nos em uma velha bacia e nela tacaram fogo. Estava terminada a operação. O crime tinha sido perfeito: nenhum vestígio, nenhuma prova que pudesse incriminá-los. Agora restava que a vida seguisse o seu curso, dentro da tranqüilidade, e logo tudo aquilo seria esquecido.

Naquela noite os dois não dormiram. Passaram as horas refletindo sobre o que fizeram. Era difícil conviver com a ideia de que agora eram verdadeiros assassinos, mas com ela deveriam se acostumar.

Logo cedo, Rita levantou-se da cama e foi buscar água no poço no intuito de fazer o café da manhã. Lá encontrou-se com seu vizinho Vicente. Este perguntou-lhe sobre Chicão e Rita, como havia combinado com Dimas na noite anterior, lhe respondeu que o negro fora cedo para apresentar-se rumo à Guerra de Itararé. O vizinho, satisfeito com a resposta, logo saiu e divulgou a notícia.

Os anos passaram e não houve sequer uma suspeita do delito. Às vezes, quando era estritamente necessário, Rita e Dimas faziam um teatro no intuito de proceder à farsa. Foi assim quando os soldados enviados para a Guerra de Itararé retornaram e Rita disse a todos que o antigo marido resolvera partir para o Rio Grande do Sul, para lá lutar em outro conflito. As lembranças de Chicão se perderam no escuro véu dos anos.

Não restava mais dúvida: era o crime perfeito. Tal era a maestria com que fora praticado que até dez ou onze depois ainda não havia qualquer pista dele. Mas o cenário modificou-se em uma tarde de Maio. Naquele dia Rita saiu para trabalhar na usina, como de costume. Estava a desenvolver suas funções quando um de seus braços foi atingido pela maquinaria. Gravemente ferida, ela foi levada até o hospital onde, sem outra alternativa, o membro foi amputado. Aí começava a esfriar o casamento com Dimas. Ela não podia mais desempenhar grande parte das funções domésticas e dependia de Dimas, que não tinha boa vontade para ajudá-la.

O fim do casamento estava decretado e, com ele, o fim da cumplicidade. Rita, no intento de vingar-se pela opressão do marido que não a ajudava e, pelo contrário, a deixava ainda mais triste com seus comentários, e acreditando que aquilo que agora vivia era um castigo divino, resolveu contar tudo para a polícia. Assim procedeu, evidenciando todos os detalhes possíveis. Dimas e Rita foram presos e condenados, o primeiro a 21 anos de prisão e a segunda a 12 anos. O corpo de Francisco jamais foi encontrado, mas, paradoxalmente, o esquecimento de sua figura deu lugar à sua memória, agora ele era conhecido como Chicão, o cadáver.

Referências bibliográfica e documental:

ABRAHÃO, Fernando Antonio. Crimes e criminosos da Campinas cafeeira: 1880 – 1930. Campinas: Ed. Pontes, 2018.
HOMICÍDIO: CMU, TJC, CJ, 0234. Ano 1906. Vítima: Francisco Xavier. Indiciados: Dimas Belizário e Rita Maria das Dores. Centro de Memória – Unicamp, CMU.

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